(navigation image)
Home American Libraries | Canadian Libraries | Universal Library | Community Texts | Project Gutenberg | Children's Library | Biodiversity Heritage Library | Additional Collections
Search: Advanced Search
Anonymous User (login or join us)
Upload
See other formats

Full text of "Questões de litteratura e arte portugueza"

Google 



This is a digital copy of a book that was prcscrvod for gcncrations on library shclvcs bcforc it was carcfully scannod by Google as part of a projcct 

to make the world's books discoverablc online. 

It has survived long enough for the copyright to expire and the book to enter the public domain. A public domain book is one that was never subject 

to copyright or whose legal copyright term has expired. Whether a book is in the public domain may vary country to country. Public domain books 

are our gateways to the past, representing a wealth of history, cultuie and knowledge that's often difficult to discover. 

Marks, notations and other maiginalia present in the original volume will appear in this file - a reminder of this book's long journcy from the 

publisher to a library and finally to you. 

Usage guidelines 

Google is proud to partner with libraries to digitize public domain materiais and make them widely accessible. Public domain books belong to the 
public and we are merely their custodians. Nevertheless, this work is expensive, so in order to keep providing this resource, we have taken steps to 
prcvcnt abuse by commcrcial parties, including placing technical restrictions on automatcd qucrying. 
We also ask that you: 

+ Make non-commercial use of the files We designed Google Book Search for use by individuais, and we request that you use these files for 
personal, non-commercial purposes. 

+ Refrainfivm automated querying Do nol send aulomated queries of any sort to Google's system: If you are conducting research on machinc 
translation, optical character recognition or other áreas where access to a laige amount of text is helpful, please contact us. We encouragc the 
use of public domain materiais for these purposes and may be able to help. 

+ A/íJí/iííJí/i íJíírí&Hííon The Google "watermark" you see on each file is essential for informingpcoplcabout this projcct andhclping them find 
additional materiais through Google Book Search. Please do not remove it. 

+ Keep it legal Whatever your use, remember that you are lesponsible for ensuring that what you are doing is legal. Do not assume that just 
because we believe a book is in the public domain for users in the United States, that the work is also in the public domain for users in other 
countries. Whether a book is still in copyright varies from country to country, and we can'l offer guidance on whether any specific use of 
any specific book is allowed. Please do not assume that a book's appearance in Google Book Search mcans it can bc used in any manner 
anywhere in the world. Copyright infringement liabili^ can be quite seveie. 

About Google Book Search 

Googlc's mission is to organize the world's information and to make it univcrsally accessible and uscful. Google Book Search hclps rcadcrs 
discover the world's books while hclping authors and publishers reach new audiences. You can search through the full icxi of this book on the web 

at |http : //books . google . com/| 



Google 



Esta é uma cópia digital de um livro que foi preservado por gerações em prateleiras de bibliotecas até ser cuidadosamente digitalizado 

pelo Google, como parte de um projeto que visa disponibilizar livros do mundo todo na Internet. 

O livro sobreviveu tempo suficiente para que os direitos autorais expirassem e ele se tornasse então parte do domínio público. Um livro 

de domínio público é aquele que nunca esteve sujeito a direitos autorais ou cujos direitos autorais expiraram. A condição de domínio 

público de um livro pode variar de país para país. Os livros de domínio público são as nossas portas de acesso ao passado e representam 

uma grande riqueza histórica, cultural e de conhecimentos, normalmente difíceis de serem descobertos. 

As marcas, observações e outras notas nas margens do volume original aparecerão neste arquivo um reflexo da longa jornada pela qual 

o livro passou: do editor à biblioteca, e finalmente até você. 



Diretrizes de uso 

O Google se orgulha de realizar parcerias com bibliotecas para digitalizar materiais de domínio púbUco e torná-los amplamente acessíveis. 
Os livros de domínio público pertencem ao público, e nós meramente os preservamos. No entanto, esse trabalho é dispendioso; sendo 
assim, para continuar a oferecer este recurso, formulamos algumas etapas visando evitar o abuso por partes comerciais, incluindo o 
estabelecimento de restrições técnicas nas consultas automatizadas. 
Pedimos que você: 

• Faça somente uso não comercial dos arquivos. 

A Pesquisa de Livros do Google foi projetada p;ira o uso individuíil, e nós solicitamos que você use estes arquivos para fins 
pessoais e não comerciais. 

• Evite consultas automatizadas. 

Não envie consultas automatizadas de qualquer espécie ao sistema do Google. Se você estiver realizando pesquisas sobre tradução 
automática, reconhecimento ótico de caracteres ou outras áreas para as quEus o acesso a uma grande quantidade de texto for útil, 
entre em contato conosco. Incentivamos o uso de materiais de domínio público para esses fins e talvez possamos ajudar. 

• Mantenha a atribuição. 

A "marca dágua" que você vê em cada um dos arquivos 6 essencial para informar aa pessoas sobre este projoto c ajudá-las a 
encontrar outros materiais através da Pesquisa de Livros do Google. Não a remova. 

• Mantenha os padrões legais. 

Independentemente do que você usar, tenha em mente que é responsável por garantir que o que está fazendo esteja dentro da lei. 
Não presuma que, só porque acreditamos que um livro é de domínio público para os usuários dos Estados Unidos, a obra será de 
domínio público para usuários de outros países. A condição dos direitos autorais de um livro varia de país para pais, e nós não 
podemos oferecer orientação sobre a permissão ou não de determinado uso de um livro em específico. Lembramos que o fato de 
o livro aparecer na Pesquisa de Livros do Google não significa que ele pode ser usado de qualquer maneira em qualquer lugar do 
mundo. As consequências pela violação de direitos autorais podem ser graves. 

Sobre a Pesquisa de Livros do Google 

A missão do Google é organizar as informações de todo o mundo c torná-las úteis e acessíveis. A Pesquisa de Livros do Google ajuda 
os leitores a descobrir livros do mundo todo ao m esmo tempo em que ajuda os autores e editores a alcançar novos públicos. Você pode 
pesquisar o texto integral deste livro na web, em |http : //books . google . com/| 



:i 



1 



\ 



THEePHILO/ BRAGA 



QUESTÕES 



DE 



r 



LITTERATURA E ARTE 



PORTUGUEZA 






I 



LISBOA 

LMPRENSA DE J. G. DE SOUSA NEVES* 
as, Mua 4« Atalaia, SS 

1881 



/ 



/ 



.„«^ 



**3«1*"' 




( 




MHM« 



Skw 




MéàMÍ^S^ ^ 



QUESTÕES 



DE 



LITTERATURA E ARTE 



PORTUGUEZA 




1 



liLr^ 



\ 



I 



QUESTÕES 



DE 



LITTERATURA E ARTE 



PORTUGUEZA 



PEQUENOS ESGRIPTOS 



aUESTÕES 



DE 



LITTERATURA E ARTE 



PORTUGUEZA 



POR 



THEOPHILO BRAGA 



LISBOA 
EDITOR — A. J. P. LOPES 

Boa dw Donradorei, 69, 3.", direito 



Imprensa de J. 0. de Sousa Neves, roa da Atalaia, 65 






 iodole doeste livro defíne-se pelo titulo despretencioso 
e geral de pWquenos Escriftos. Durante a elaboração de 
um vasto plano, no estudo dos problemas históricos, no acaso 
das investigações, na ratificação de conclusões prematuras, 
n'esta reorganisação da disciplina do espirito pela modifi- 
cação da actividade de todos os dias, agrupam-se insensi- 
velmente notas passageiras mas extensas, pontos de vista 
indicados em breves ensaios, apontamentos provisórios, que 
são como os cavacos e aparas do material em que se tra- 
balha. D'esta imagem significativa tirou Max Múller o ti- 
tulo sob que colligiu as suas esplendidas monographías. Oc- 
cupando-nos ha já bastantes annos da fundação da Historia 
da Litteratura portugueza, e sendo nós mesmos o aprendiz 
que essa obra tem desenvolvido, fomos accumulando artigos 
e estudos críticos, relacionados com o nosso trabalho de pre- 
dilecção, e motivados pelo estimulo activo, constante e pre- 
cipitado da publicidade das revistas. São essas aparas, es- 
sas varreduras da gaveta que aqui reunimos, ligadas pelo 



M736284 



nexo cbronologico, aproveitadas porém com o intuito de 
corrigir os dados de uma obra que reflecte todas as vaci- 
lações do espirito que procurava com tenacidade a segu- 
rança do methodo positivo. Será isto o movei que porven- 
tura torne proficua a sua leitura, subordinando ás questões 
da litteratura e arte portugueza numerosas contribuições 
especiaes desbaratadas em uma actividade dispersiva. Pode- 
se dizer, que juntamos aqui um livro formado de folhas espa- 
lhadas por quasi todas as revistas litterarias do paiz, pelo 
motivo de uma cooperação complacente, mas "que, n'esta 
dispersão, nos apoiámos sempre na ideia exclusiva que va- 
mos realisando na historia litteraria de Portugal . 



QUESTÕES 



DE 



LITTERATURA E ARTE 



PORTUGUEZA 



A NAGIONAUDADE E A UnSRATDRA 



A litteratura portugaeza é um phenomeno social moder- 
no, resultante do nosso individualismo nacional; e para ser 
bem comprehendida precisa que se expliquem as suas ma- 
nifestações artisticas, e as transformações que demarcam 
as suas épocas históricas pela relação intima com as condi- 
ções de autonomia que destacaram Portugal como um es- 
tado livre d'entre outros estados peninsulares submettidos 
á unificação politica da Hespanha. Â litteratura d'esta pe- 
quena nação reflecte em si todas as modificações históricas 
porque passou este povo á medida que afBrmou o seu des- 
tino na marcha da civilisação humana; é também um do- 
cumento ethnico por onde se di£ferencía a originalidade do 
caracter portuguez, que motivou a nossa vida independente; 
é, finalmente, o proteáto 'eloquente por onde se conhece o 
effeito immediato de instituições abusivas que nos levaram 
a uma inevitável decadência. 

À nacionalidade portugueza fórma-se no século xn, como 
vima consequência da agitação separatista dos diversos es- 
tados peninsulares; a comparação chronologica é eloquente 
como revelação d'este facto sociológico. Em 1134 dá-se a 



y 



8 QUB8TÕE8 DB LITTBRATURA 

1 1 1 I II .11. - ■ ■ > ■ . ^ ■- ., ■ I , ■ 

reconstituição da autonomia da Navarra; em 1126 o Ara- 
gão readquire a sua independência de Castella; em 1 170 
Gastella readquire outra vez a sua autonomia; em 1197 es- 
tabelecesse a independência de LeSo. O Condado de Portu- 
gal creado em 1109, quando os estados livres eram violen- 
tamente annexados . uns aos outros por conquista, por ca- 
samentos, e desmembrados por meio de testamentos dos 
monarchas e revoltas cantonaes, aproveitou-se d'essa cor- 
rente separatista, que preponderava no século xii, para tor- 
nar-se independente de LeSo. Em 1128 a classe senhorial 
portugueza revolta-se contra a regência de D. Thereza, viuva 
do Conde D. Henrique, rompe na batalha de Guimarães 
com a dependência á monarchia leoneza, e fortalece o joven 
D. Affonso Henriques como o apoio de uma independência 
ainda puramente cantonaU 

Emquanto os outros estados se annexam, se unificam nos 
dois centros de Aragão e de Castella, que por seu turno 
se fundem em 1469 a 1504 na unidade politica hespanhola, 
Portugal permanece sempre independente, através de todos 
os cataclysmos históricos da Península, como o modelo dos 
antigos estados livres hispânicos. A razão d'este facto constí- 
tue a historia politica de Portugal, porque a creação ou o 
conhecimento das condições da sua independência foi tam- 
bém o motor principal da sua civilisação. Para garantir a 
própria independência, Portugal precisava ampliar o seu 
território para o sul; a victoria de Ourique em 1139 im- 
põe em 1 143 o reconhecimento da independência do novo 
estado; o engrandecimento do território prosegue até D. 
'Affonso m que termina a conquista do Algarve, emanci- 
pando Portugal do feudo de Castella; e em D. João i, as 
expedições no norte da ^frica, e as expedições marítimas 
iniciadas pelo infante D. Henrique^ e levadas a cabo por 
D. João II e D. Manuel, dão á nacionalidade portugueza o 
seu máximo desenvolvimento, tomando este primitivo ap« 
penso da Hespanha uma das primeiras potencias do mundo. 
Foi n'esta situação que Portugal deslocou a base das civi- 
lisações antigas, formadas nos litoraes do Mediterrâneo, 
dando o seu novo ponto de apoio no Atlântico, por onde a 
humanidade prosegniu á circumducção do globo e á posse 
completa do planeta. 

Basta um rápido esboço da <i^voIação histórica de' Portu- 



B ABTE PORTDGUBZA. 



gal para sentir-se o máximo interesse pela manifestaçSo do 
sea génio nacionalna liiteratura. Formada no século xn a 
nacionalidade, a litteratara trouxe também o caracter d'essa 
época fecunda do desenvolvimento das litteraturas români- 
cas; a língua escripta exerce-se nas canções subjectivas do 
lyrísmo trobadoresco» e o predomínio da educação latinista 
monacbal desvia a actividade litteraria das fontes tradicio- 
naes e populares para a redacção de lendas agiologicas e 
para a imitação dos raros modelos clássicos conhecidos. Es- 
tas duas correntes, a tradicional e a erudita, apparecem em 
conflicto permanente em todas as litteraturas da edade me- 
dia; nas grandes nações, como a França, a vitalidade da 
raça reage contra a imposição dos modelos latinos, manti- 
dos pela cultura ecciesíastica, vindo não obstante isso a pre- 
valecer na época da Renascença o gosto e imitação das 
obras clássicas da antiguidade sobre os elementos tradicio- 
naes, que só muito tarde puderam ser rehabilitados e toma- 
dos como tbemas de creação original na época recente do 
Romantismo. Quando este conflicto se dava nas grandes lit- 
teraturas, era impossível que a litteratura d'esie pequeno 
povo, em contacto com toda a civilisação europêa, de que 
elle era também um factor, pudesse conservar-se original, 
tirando do seu próprio fundo tradicional os elementos ex- 
clusivos das suas creações individuaes. 

Ê preciso aqui considerar o facto importante da exigui- 
dade do território da nação portugueza, influindo directa- 
mente no pequeno numero da sua população; as manifes- 
tações dos talentos são sempre menores entre o menor nu- 
mero do que entre um grande povo, e è por isso que a 
falta de uma originalidade immediata do povo portuguez, 
Dão importa comsígo a conclusão da inferioridade da nossa 
raça. Não era possível mais com menos elementos; do sé- 
culo XII a XIV, imitámos a poesia provençal, porque era essa 
a corrente litteraria da Europa, coip quem estávamos em 
completo contacto pela participação das Cruzadas, pela im- 
plantação das ordens religiosas, mas também nenhum povo 
actuou tanto sobre os trovadores litterarios como o nosso, 
cujas serranilhas penetraram de um modo pasmoso nos 
Cancioneiros aristocráticos. Â nossa situação social sem lu- 
çtas dos barões feudaes contra o poder real, não nos fez 
coUaborar nas grandes epopéas das Gestas frankas, mas foi 



10 QUESTÕES DE LITTBRÀTUIiA 

em Portugal que se começou essa nova elaboração Uttera- 
ria das Novellas de cavalleria em prosa, a que a França só 
chegou DO fim do século xiv, quando o espiriio critico da 
historia se desenvolvia, determinando a decadência espon- 
tânea das formas poéticas das Gestas. As outras correntes 
de imitação na litteratura portugueza, como a poesia pala- 
ciana de Gastella, no século xv, o lyrismo neo-platonico da 
Itália no século xvi, o pseudo-classicismo francez no século 
xviu, emSm a renovação romântica do século xix, appare- 
cem mais ou menos em todas as grandes litteraturas novo- 
latinas, como um symptoma da unidade da civilísaçSo occi- 
dental, e em rigor, podemos concluir, que através d' essas 
imitações o génio nacional portuguez, com menos condições 
de resistência, conserva ainda assim vestígios evidentes da 
sua individualidade, da autonomia de sentimento expressa 
pelas suas tradições. 

 litteratura portugueza começa vcom a nacionalidade, 
porque além das condições económicas da indep*endenciai 
existiam os factores moraes da linguagem e da tradição. A 
língua era a que sé fallava na Galliza, centro primordial da 
cívilisação peninsular, como se pode comprehender pelas 
condições ethnicas e históricas d'esse rudimento interrom- 
pido de uma grande nacionalidade. Pela sua situação geo- 
graphica, a Galliza pertencia ainda a esse triangulo da Aqui- 
tanía, onde os anthropologistas' collocam a persistência dos 
iberos, e que explica perfeitamente o apparecimenlo do ly- 
rismo provençal no sul da França, na Itália meridional e ao 
norte da península hispânica. O Marquez de Santillana, fal- 
lando do apparecimento da poesia dos trovadores na Penín- 
sula, diz que esta arte se renovou primeiro na Galliza e em 
Portugal; e, por outro lado, a grande somma de elementos 
tradicionaes nas canções dos nossos trovadores, é a prova 
irrecusável de que essa prioridade do lyrismo gallecio por- 
tuguez proveiu de uma condição ethnica persistente, o que 
se confirma com as intinias analogias entre as bailadas 
provençaes, as pastofèllas italianas e as serranilhas galle- 
zíanas. A Galliza desde 863 que existia separada como um 
Condado independente; livre da conquista árabe pela sua 
posição geographica, custou-lhe a ser annexada por efifeito 
da reconquista christã a Leão em 885, e por isso trabalhou 
para o restabelecimento da sua independência, conseguida 



B ARTE P0RTU6UEZA 11 



ao fim de vinte e cinco annos, perdida nos accidentes da 
unificação forçada dos estados peninsulares, que abafou a 
revoUa separatista de 981. 

A Gallizá era om centro da civilisação peninsular, e ali 
os reis eram educados, como vemos com Âffonso o Sábio; 
por este motivo a poesia provençal galleziana propagou-se 
a Gaslella, e foi na lingua gallega, aue Âffonso o Sábio es- 
creveu os seus livros de Cantigas. A medida que a GalIiza 
foi perdendo o espirito de liberdade, assim a lingua foi sendo 
abandonada a ponto de ser deixada ao simples hso popu- 
lar, sendo por isso bastante raros os seus monumentos es- 
criptos. 

Vejamos agora a sua relação com Portugal, sem o que 
não se pôde comprehender o primeiro desenvolvimento da 
nossa lilteratura. A creação do Condado de Portugal, sepa- 
rando-o dà Galliza pelas fronteiras naturaes do rio Minho, 
fez com que esse Condado ficasse confinado n'essa linha de 
demarcação, quando as suas fronteiras outr'ora se esten- 
diam até ao Mondego. 

A divisão arbitraria de«D. Âffonso vi, foi porventura um 
pensamento machiavellico para enfraquecer as condições au- 
tónomas e de resistência da Galliza; é certo que a Galliza 
nunca mais pôde recuperar a sua primitiva independência, 
e o facto de se achar encorporada a Castella desde t073, 
fez com que ao determinar-se a independência do Condado 
de Portugal este novo estado se estendesse para o sul por 
meio de conquistas, que nao perturbavam o domínio de 
Castella, de preferencia a colligar-se com a Galliza, de que 
dependera anteriormente como fracção do seu território. 

Na evolução histórica de Portugal, alguns monarchas, 
como Fernando i, tiveram a intuição politica de integrar o 
nosso território com a unificação da Galliza, que tiraria Por- 
tugal da situação subalterna de appendice de Hespanha; 
mas a corrente da conquista^ que nos impellia para o sul, 
depois de realisada a conquista do Algarve em D. Âffonso 
ni, fez-nos conhecer a necessidade da força marítima, que 
por seu turno nos arrastou ás conquistas no norte da Áfri- 
ca, á passagem do Cabo Bojador em 1434, á tentativa da 
passagem do Cabo das Tormentas em 1486, e á descoberta 
definitiva do caminho marítimo da índia em 1498. 

Esta série de acontecimentos logico3, que exerceu a nossa 



12 QUB8T0B8 DB LITTBRilTnRA 

actividade nacional n'esse período a que Peschel chama o 
Século das descobertas, afastou-nos da ideia da unificação da 
Galiíza, e já no século xvi, esta ideia estava t3o apagada 
nos espíritos, que Sá de Miranda e Camões, apesar de oriun- 
dos de solares nobiliários da Galliza, empregam o nome de 
gallego com sentido pejorativo. 

Ao constiluir-se a nacionalidade portugueza, a nossa vida 
intellectual e moral desenvolveu-se sobre a civilisação exis- 
tente na Galliza; a lingiia e poesia desenvoiveram-se simul- 
taneamente, com caracter de individualismo nacional, ao 
passo que a Galliza, confinada no seu território e sem con- 
dições de resistência, decaiu por falta de vida local, e ficou 
reduzida a uma província explorada pelo centralismo mo- 
narchico. Nas suas tentativas de resistência, os fidalgos gal- 
legos refugiavam-se em Portugal, e não é sem importância 
este facto, se recordarmos que d'essas famílias provieram 
os dois génios que deram á litteratura portugueza do sé- 
culo XVI o seu máximo explendor, Francisco de Sá de Mi« 
randa, que transformou a poesia palaciana pela communi- 
cação com os monumentos poéticos da Itália, e Luiz de Ga- 
mões, que partindo d'essa iniciação artística de Sá de Mi- 
randa achou a expressão da alma portugueza no seu lyrismo, 
e a forma da epopêa nacional dos Lusíadas ligada ao facto 
mais decisivo da civilisação pprtugueza. 

A influencia da tradição lyrica galleziana foi profunda; 
apesar da primeira communicação do gosto trobadoresco 
por meio dos trovadores vindos da Itália meridional, como 
Marcabrus e Gavaudan; apesar da emigração dos fidalgos 
portuguezes para França nas luctas da nobreza e do clero 
contra D. Sancho n, taes como os Yalladares, os Porto Gar- 
reros, os Reymondos, os Estevãos, os Aboins, trovadores 
que se desenvolveram na corte de S. Luiz, e acompanha- 
ram Afionso Hl no seu regresso para Portugal; apesar do 
desenvolvimento erudito da poética limosina, ou propria- 
mente provençal no tempo de D. Diniz, dirigido pelo seu 
mestre Aymeric d^Ebrard, de Cahors, não obstante estas 
correntes exteriores, mas fortes, de imitação, a maior acti- 
vidade litteraria que se determina nos nossos Gancioneiros 
é exclusivamente galleziana. 

Os nossos Gancioneiros provençaes estão hoje totalmente 
conhecidos; existem perto de duas mil canções escriptas 



B ARTE PORTCGDEZA 13 



entre o século xiii e xiv, suppondo, que a vasta compilação 
mandada fazer pelo Conde de Barcellos, e deixada em tes- 
tamento a AjSÍODSo XI se comporia dos fragmentos publica- 
dos do Cancioneiro da Ajuda, Cancioneiro da Yaticana e 
Cancioneiro de Colocci-Brancuti. 

Para apreciar o valor d'eslas canções basta dizer, que o 
elemento ou espirito popular que apparece em um grande 
numero d'ellas è superior ao que tanto se estima em todos 
os outros Cancioneiros das litteraturas românicas. As ser- 
ranilbas gallezianas são de uma belleza inimitável, e o que 
assombra, apresentam as mesmas formas que as pastorei- 
las italianas e as bailadas provençaes mais próximas das 
fontes populares. 

O problema lillerario que se contém n'estes paradigmas 
foi presentido pelo romanista Paulo Meyer; pelo estudo 
das serranilbas gallezianas se deduz o desenvolvimento de 
todo o lyrismo portuguez, quer na época do bucolismo de 
Bernardim Ribeiro e Christovam Falcão, quer mesmo no 
período de imitação italiana. 

Esta tradição fundamental das formas lyricas nacionaes 
subsiste nas endexas de Sá de Miranda, nas mimosíssimas 
redondilbas de Camões, e mesmo a superioridade lyrica de 
D. Francisco Manuel de Mello e de Francisco Rodrigues 
Lobo, não pôde ser explicada na época do culteranismo 
seiscentista, senão como uma consequência do conhecimento ' 
da tradição galleziana que se descobre nas formas d'estes 
dois poetas. O grande' génio de Gil Vicente presentiu o 
valor litterario d'esta tradição poética, e intercalla nos seus 
Autos numerosas serranilbas, extraordinariamente beijas, e 
que Frederico Diez com um grande tino critico aproximou 
das formas gallezianas conservadas nos Cancioneiros. 

Ainda no século xviii Thonaaz António Gonzaga, nas suas 
Lyras da Marília de Dirceo excedeu todos os poetas lyricos^ 
das arcádias pela intuição artística com que soube aprovei- 
tar-se da forma tradicional da Modinha, conservada na coló- 
nia do Brazil, resto evidente das antigas serranilbas galle- 
cio porluguezas da época dos Cancioneiros. 

O Romantismo consistindo na aproximação das litteratu- . 
ras das suas fomes tradicionaes, disciplinou-se na critica, 
restabelecendo pela erudição os monumentos onde se acham 
os impulsos iuiciaes da nossa actividade. 



14 QUBSTÕBS DE LITTBR ATURA 

- ■ ■■ ■ r ■ ' ' 

Em 1380 a vida nacional portugueza manifesta-se na 
forma de soberania popular na constituição do poder su- 
premo, pela eleição do Mestre de Aviz. Â consciência d'esse 
acto, que motivara a revolução de Lisboa, completa-se nas 
cortes de Coimbra em 1381, e o vigor com que a nação 
soube garantir a sua independência na batalha de Âljubar-. 
rota é o mesmo que se observa nos cantos populares, que, 
tomando o Condestavel como seu heroe, iam assim creando 
o (ypo épico do Cid portuguez. No século xv a litteratura 
portugueza desvairada pela erudição latinista e pelos hábi- 
tos palacianos traduz e imita; mas a par do individualismo 
nacional achamos uma alta comprehensão da historia, que 
por si sustenta a corrente superior da litteratura. Se os 
poetas se separam, em virtude dos seus hábitos palacianos, 
da convivência do povo e abandonam os elementos vitaes 
das. suas tradições, ficando assim na generalidade medío- 
cres, pelo contrario os Chronistas dão á historia a vida, o 
movimento, a ingenuidade da alma popular, de tal modo 
que a lingua portugueza em menos de um século experi- 
menta uma transformação tão profunda, que D. João ii e 
D. Manuel se vêem forçados a mandarem converter em lin- 
guagem moderna os documentos jurídicos, como os Foraes- 
O século XV apresenta-nos três grandes chronistas, Fernão 
Lopes, que precorre o território portuguez para colligir as 
estoreas, ou tradições nacionaes de Portugal, á maneira de 
. Heródoto, introduzindo nas narrativas as paixões, os diálo- 
gos espontâneos, as cantigas, os pasquins, as lendas locaes 
como um Froissart. Depois d'este succede-Ihe no oflQcio Go- 
mes Eannes de Azurara, menos ingénuo, menos medfeval, 
por causa do prurido da erudição humanista doeste crepús- 
culo da Renascença, líias egualmente sincero, e comprehen- 
dendo a necessidade de visitgr os logares para recompor 
por elles os homens, precorreu as nossas primeiras con- 
quistas de Africa, introduzindo assim o critério eíbnologico 
na historia. Egualmente venerando é Ruy de Pina, cuja im- 
portância moral D. João ii reconheceu e respeitou, e é n'este 
chronista que se encontra a explicação dos caracteres, dos 
motivos occultos da vontade, sendo por isso a sua obra 
truncada pelos despeitos que lhe succederam. 

No grande século da litteratura portugueza, que coincide 
com o período do explendor da nacionalidade, depois da 



B ARTB P0RTU6UBZA 15 



descoberta do caminho marítimo da índia, a poesia e a his- 
toria não s3o incompatíveis» pelo contrario, coadjuvam-se 
no seu desenvolvimento. João de Barros, exerci ta^e escre- 
vendo a novella do Clarimundo para assentar a mão com 
que havia de traçar as Décadas; Diogo do Couto, o grande 
amigo de Gamões e continuador de Barros era um poeta 
da escola italiana, e nas suas Décadas comprova um grande 
numero de descripções com trechos d'os Lusíadas; Damião 
de Góes, espiríto encyclopedico da Renascença, e na seve- 
ridade critica um verdadeiro continuador de Ruy de Pina, 
era também poeta, ao passo que se sacrificava pela verda- 
de, sendo núseravelmente trucidado pelo fanatismo atiçado 
contra elle pelos despeitos dos Braganças. O obscuro sol- 
dado Fernão Lopes de Castanheda, que escreveu a Historia 
do Descobrimento da índia, mergulhado na miseríá, narra 
na sua linguagem simples e despretenciosa, mas reclama 
para o seu assumpto o brilho deslumbrante da poesia, in- 
citando os génios do seu tempo com esse tbema nacional 
da epopêa moderna. Os poetas deixaram os serões do paço, 
onde se enthronisara o fanatismo, que determinou bem cedo 
i decadência de Portugal, e tiveram então contacto com a 
vida popular, souberam inspirar-se por um instincto supe- 
rior dos elementos tradicionaes. Esses elementos existiam 
obliterados pelo grande desprezo dos eruditos palacianos e 
litterarjos; eram os Ron^ances peninsulares, communs á 
Hespanha e Portugal, provenientes do fundo etbnico d'onde 
emergiram os dois povos. Os poetas quinhentistas mais dis- 
tinctos foram aquelles qqe comprehenderam o valor d'essa 
tradiçio; em Sá de Miranda, em Camões, em Gil Vicente, 
em Jorge Ferreira de Vasconcellos, em Bernardim Ribeiro 
e Cbristovam Falcão, no Chiado e em António Prestes, em 
todos elles se encontram preciosas referencias aos roman- 
ces populares, por onde se infere o gráo de aproximação 
da sua obra litteraria d'esse veio tradicional que a maior 
parte dos escríptores eruditos desconhecera. Em 1498 rea- 
lisara-se a descoberta do caminho do Oriente por Vasco da 
Gama, e em 1500 Pedro Alvares Cabral descohre o Brazil; 
a sociedade portugueza recebe uma transformação profun- 
da, resultante da riqueza publica que dá logar ao desenvol- 
vimento de uma classe média, de uma burguezia, elemento 
essencial para o desenvolvimento progressivo de uma na- 



16 QUBSTOBS DB rJTTBRATURA 

ç3o, e que faltara em Roma, sendo essa uma das causas da 
sua decadência. Começa a existir em Portugal vida bar- 
gueza, e como consequência na litteratura surge immedia- 
tameute o phenomeno interessante da fundação do theatro 
nacional por Gil Vicente. Com um extraordinário tino de 
artista, e com a espontaneidade natural de um génio supe- 
rior, Gil Vicente desenvolve -a forma dramática dos seus 
Autos dos elementos tradicionaes conservados nos costumes 
do povo, taes como os colloquios ^é Natal, os Víibancicos 
dos presépios, as Chacotas dos Reis Magos, os Actos figu- 
rados da paixão, e das Vigílias dos santos locaes, entre- 
meando os seus diálogos com os cantares guaiados e de 
serranilha, usados pelo povo, com as dansas de terreiro 
como a mourisca, a retorta, a carraquisca e outros bailes, 
que davam a essas composições uma graça comparável, na 
forma litteraria, ás zarzuelas'e vaudevilles contemporâneos. 
Põde-se dizer que o tbeatro nasceu em Portugal de um 
modo orgânico, e que se a nação não fosse atropbiada no 
seu desenvolvimento pelo polypo terrível do clericalismo, a 
litteratura dramática teria sido extraordinariamente origi- 
nal e fecunda n'este pequeno povo, uma das mais eloquen- 
tes expressões da sua liberdade. N'este século de potencia 
marítima, a nação portugueza attingiu a plena constituição 
do seu organismo autónomo; viu creadsi a arte na ourive- 
saria por Gil Vicente, na arcbitectura por João de Castilbo; 
viu fixada- a sua linguagem pelos grammaticos Fernão de 
Oliveira e Barros; viu transformada a poesia por Sá de Mi- 
randa, e traçada a epopéa da nacionalidade por Camões; 
emfim, determinada a sua jurisprudência pelos reinfcolas, 
e perpetuada a sua acção histórica nos grandes cbronistas» 
Barros, Góes e Couto. 

A vida portugueza erâ um grande combate e uma arro- 
jada aventura; a nacionalidade expandia-se pelo mundo, e 
ao passo que os grandes exploradores como Mendes Pinto, 
e Francisco Alvares excediam tudo quanto se contava das 
maravilhas de Marco Polo e de Mandeville, e os nossos via- 
jantes escreviam as suas próprias expedições, sendo a lit- 
teratura portugueza ainda boje a mais opulenta em livros 
de viagens, os talentos litterarios distinguiam-se nos cen- 
tros cultos da Europa pela sua superioridade intellectual. 
É assim que os Gouvêas forinam em França uma dynastia 



B AKTE P0RTD6UEZA 17 

de sábios humanistas, como Âchilies Estaco e Vicente Lu- 
sitano em Roma, e Ayres Barbosa em Hespanba, ou Damião 
de Góes nos Paizes Baixos e na Âlíemanha. Ê pasmosa a 
efiQorescencia da época dos quinhentistas em todas as ma- 
nifestações do espirito; os soldados e marinheiros, os que 
arrostam com as mortandades das batalhas e dos naufrá- 
gios, são poetas como Camões, como Heitor da Silveira, ou 
historiadores como Castanheda e Diogo do Couto; raro é o^ 
homem que brande n'essa época a espada sem que saiba 
impôr-se pela penna. O' verso dos Lusíadas, com que Ca- 
mões se retrata — N^uma mão sempre a espada e na outra 
a penna— Q a physionomia gerai d'esse século em que to- 
das as forças vivas da nação adquirem a sua synergia. De 
repente, como escrevia Camões no seu eterno poema, em 
1572, Portugal caiu n'uma austera, apagada e vil tristeza; 
e em 1580 a nacionalidade achava-se sem a força morai de 
resistência, entregava-se aos exércitos de Philippe ii, rece- 
bia-os com arcos triumphaes, e pelas cortes de Thomar re- 
conhecia-se província de Hespanhat Como uma tão assom- 
brosa degenerescência? Este phenomeno extraordmarioacba- 
se notado nas relações dos embaixadores venezianos. Não 
procuraremos agora expender em toda a sua extensão a 
theoria da decadência portugueza, mas os factos são tão 
evidentes, que basta indical-os para se comprehender o seu 
alcance; em 1536 entra o tribunal da Inquisiçãaem Por- 
tugal, extinguindo a fonte de todas as liberdades, a liber- 
dade de consciência. N'esse mesmo anno morre Gil Vicente, 
o espirito que mais protestara contra o obscurantismo cle- 
rical. D. Manuel, servindo inconscientemente o interesse da 
Hespanha, expulsa de Portugal os judeus, a classe mercan- 
til, que foi enriquecer a Hollanda com os seus capitães e 
actividade, a Hollanda, que se tornou o nosso terrível com- 
petidor colonial, roubando-nos ou perturbando-nos no Bra- 
zil e na índia. Em 1550 os jesuítas apoderam-se do ensino 
publico portuguez, governam a Universidade de Coimbra, 
os Collegios das Artes, tomam as crianças logo aos primei- 
ros rudimentos, viciam as intelligencias, e em menos de 
trinta annos, evidentemente no periodo normal de uma ge* 
ração, a mediocridade, a imbecilidade, a indignidade consti- 
tuem a maioria de uma nação gloriosa que se entregou sem 

consciência ao seu inimigo secular. ^ 

t 



l 



VELHO LYRISHO PORTUfiOEZ 
I 

Serranilheis e Cantos de ledino 

Sentimos um vivo prazer diante dos documentos que 
mostram que o povo portuguez não foi extranho á corrente 
da lítteratura da edade media da Europa, que também teve 
communicação com as suas tradições, apesar de ser a ul- 
tima das nacionalidades que se formou sobre as ruinas do 
império romano; mas quando esses documentos são trazi- 
dos á luz por um estrangeiro, que os interpreta com res- 
peito e amor e os restitue á sua integridade, ' então reco- 
nhecemos que acima do orgulho nacional ha uma cousa 
mais aUa, mais humana, que não prefere raças, nem co< 
nhece fronteiras — a sciencia. O sr. Er.nesto Monaci è um 
romanista educado pelos seguros methodos philologicos; 
interessam-lhe todos os documentos das litteraturas novo- 
latinas; a circumstancia de poder frequentar a Bibliotbeca 
do Vaticano deu-lhe azo para estudar o Códice manuscripto 
n.^ 4803,'que consta de mil duzentas e cinco canções portu- 
guezas e gallegas todas anteriores á segunda metade do sé- 
culo xiY. Â historia d'este códice, sua correlação com o origi- 
nal primitivo, seu apparecimento na Bibliotbeca do Vaticano 
no século xvi, a nova importância que recebeu modernamente 



1 Canti antichi portogheHy tratti dal Códice VatícaDO 4808, con traduzione 
e DOte a cora di Ebrbso Monaci. ImOla 1878. — Cantos de Ledino, tratti dal 
grande Ganzoniere portoghese delia Bibliotbeca Vaticana, per Ernesto Monaci- 
Halle, 1875. 



QLESTÕES DB LITTERATURA K ARTE P0RTU6UEZA 19 

desde que o sea conhecimeDto chegou aos pbílologos alie» 
mães, já as deixamos esboçadas no livro dos Trovadores 
galecio-portuguezes. 

É incalculável a importância que este mannscripto tem 
para o período provençal da litteratura portugueza; mas 
sob o ponto de vista linguistico é ainda maior, para o es- 
tudo do gallego como dialecto do portuguez, e para o por- 
tuguez como constituindo a sua disciplina grammatical. Já 
nâo falíamos nos recursos imprevistos para a historia po- 
litica e para a ethnología. E por que nâo publicámos nòs 
esta obra monumental» quando o governo vota sommas 
fabulosas para viagens reaes, e subsidia cavalheiros de in- 
dustria para irem assistir a evoluções militares? Pesa so- 
bre DÓS o triste labéo, de que os primeiros excerptos 
publicados do Códice da Yalicana foram todos devidos á sol- 
licitude estrangeira; Lord Stuart é que deu publicidade aos 
Fragmentos do Cancioneiro da Ajuda; o brazileiro Caetano 
Lopes de Moura ajudado pelo livreiro francez Âillaud é que 
imprimiu o Cancioneiro de D. Diniz; o brazileiro Yarnha* 
gem» è que reproduziu nas Trovas e Cantares a pequena edi- 
ção de Stuart; e ultimamente é um italiano, o sr. Ernesto 
Monaci, que começou por contribuir para a nossa hislor ia lit- 
teraria com o subsidio de doze canções do Códice da Vaticana. 
No emtanto a Academia real das Scíencias dorme o somno 
do parasitismo ofiQcial, ruminando em silencio a dotação do 
thezouro publico sem contribuir com trabalhos obrigatórios 
para um Diccionario da Língua, para um corpo de Doeumen- 
tos para a Historia politica, para a Historia lítteraria doesta 
terra^ e para a Grammatica histórica. No meio da sua inércia 
pretextou que a Bibliolheca do Vaticano estava inierdicta a 
todas as explorações, ejulgou-sea salvo de qualquer accusa- 
ção. Hoje sabemos que essa assombrosa Bibliotheca nunca 
esteve vedada. 

Infelizmente os trabalhos de Caetano Lopes de Moura e 
de Varnagem n'este campo phílologíco são destituídos de 
critério; somos-Jbe gratos por que foram os «nicos subsí- 
dios, mas não estavam aptos para o trabalho que em- 
prehenderam. Diante dos Canti antichi portoghesi do sr. 
Monaci, vemos que não sabiam o processo da restituição 
de um texto. Moura copiou o Cancioneiro de D, Diniz, que 
consta de cento e vinte nove canções, e imprimiu-as sem o 



30 QUSSTÕE8 DB LITTEBATDRA. 

mínimo signal de separação, de modo que sò pela rima e 
forma estrophica é que ellas podem ser destacadas. Âs con- 
sequências d'esta falta de comprebensSo vêem-se pelos ex«- 
cerptos de Baret. (Troubadours, p. 206). Quanto ao texto 
tratou-o com uma ignorância que se revela nas minimas 
particularidades. 

Em Yarnbagem o caso è, em parte, mais grave; nas Tro-^ 
vos e Cantares, não comprebendeu o respeito que se deve 
ter pela autbentica integridade e fidelidade de documentos 
doesta ordem, baralhou a seu grado as canções para as 
dispor de modo que* Ibe comprovassem uma novella biogra- 
phica; no Cancioneirinho de trovas antigas, o erudito é sa- 
crificado ao cant, que o não deixa publicar as canções mais 
. importantes por Ibe parecerem obscenas. Como se a scien- 
cia perdesse da sua altura em estudar a obstectricía ou a 
sypbilograpbia, ou a ovologia I Mas ba uma cousa mais triste 
do que o cant, do que o improper, do que o shocking, é a 
pretenção a sábio. Pelo conhecimento que boje temos do 
Códice de Roma por meio de uma edição integral, ve-^ 
mos que muitas das canções transcriptas do antigo portu- 
guez do século XIV por um copista italiano do século xvi 
6 mercenário, estão de tal forma deturpadas na metrifica- 
çãOy na rima, na forma estropbica» nas palavras, no sentido, 
que só um esforço de apaixonado por estes problemas é 
que as pode ás vezes trazer á sua correcção primitiva. Foi 
isto o que fez com que Yarnbagem só publicasse cincoenta 
canções do Ms. da Vaticana, por que foram as que eúe 
pôde entender» mas que nos deu como sendo as que Ibe^ 
pareciam mais bellas. Dá-nos só uma Canção de D. AíTonso 
Sancbes, bastardo de el-rei D. Diniz, tendo aí quatorze; 
este trovador interessava-nos mais do que muitos jograes 
gallegos que reproduz, e porque o deixou no olvido? Por- 
que as suas Canções são de entre todas as que se acbam 
actualmente mais deturpadas. 

Na Canção viii, (ed. Monaci) assignada por Jobam ZorrO;. 
encontra-se esta estropbe: 



Ho el-rey arma o na^yo 
£o namorado yrey 
Para le?ar a virgo.,. 
Amores, com?o8co m'yrey (p. 16). 



B ARTE PORTUGUESA 21 



Sobre esta forma de nominativo, e por isso importante, 
escreve Monaci : c Virgo per vírgen non ha altri esempí neila 
lingua portoghese. (A. Coelho.)» (p. 31). Em uma das mi- 
mosas serrapilhas que Gil Vicente intercala nos seus Autos» 
encontramos esta forma ainda no uso popular: 

Por las riberas dei rio 
Limones coge la tirgo; 

Qttiero me ir allá 

Por mirar el ruísefior 

Como caotaba. 

Limones cogia la virgo 
Para dar ai so amigo; 
Qttiero-me ir allá, etc. 

Para dar ai sa amigo 
£n Qo sombrero de sirgo; 
Quieromo ir allá, etc. 

((^oif 1. 1, p. 81.) 

A canção xi, de D. João de Aboiin, revela-nos um facto» 
importante; este fidalgo pertence a uma das famílias no- 
bres que nas luctas de D. Sancho ii e D. Affonso ni, se re- 
fugiaram com este príncipe em França, na corte de S. Luiz; 
na canção lemos: 

Cafalgata n*oatro dia 

Per hum caminho francês. . . (p. 22.) 

Na Canção xii, de Per'Amígo de Sevilha» accentúa-se 
a influencia franceza do norte, na alIusSo á fidelidade do 
ome-lige: 

E por aqoesto yos tenho rogar 

Que ea seja ▼oss*ome esta vogada, (p. 26.) 

No opúsculo do sr. Ernesto Monaci transparece a inten- 
ção de fazer sentir a parte original do grande Cancioneiro 
portaguez, reproduzindo aquellas canções que, não só pelo 
metro, como pelo espirito de ingenuidade popular, nos le- 
vam a crer, que sob essa forma semi-culta, se pode des- 
cobrir uma poesia verdadeiramente tradicional, uma base 
orgânica para o desenvolvimento litterario do lyrismo. As 
Canções i a ix; csono di quel genere popolarBf nel quale 



S2 QUESTÕES DE LITTBRATUEA 

Federígo Diez ricoDobbe i verí caratteri delia poesia por- 
togbese primitiva.» (p. yii). A segura intuição histórica de 
Diez já o levara a aproximar esses Cantares de amigo de 
algumas das cançonetas introduzidas por Gil Vicente. O 
sr. Monaci reconhece a influencia popular na lyríca proven- 
çalesca portugueza, e fortalece-se com o livro Trovadores 
galecio^porWguezes: cl trova tori dei ciclo dionisiaco la co- 
Dobbero dalla bocca dei popolo, dal popolo la recolsero, 
ritoccandola coi magisteri delFarte, e fors'anche seppero fi- 
namente imitaria, como opina Teófilo Braga.» (p. x.) Ac- 
ceitamos a responsabilidade d*esta opinião, obrigando-nos 
a pôr em evidencia o que ha de popular, e por consequên- 
cia de nacional, debaixo d'essas canções artísticas e sub- 
jectivas das nossas collecções do século xiv. 

Em primeiro logar a zona onde primeiro despontou o 
gosto pelas canções provençaes foi ao norte da Península, 
no território que comprehende desde a Galliza até ao Mon- 
dego. O Marquez de Santillana accentúa positivamente este 
facto ; no fim do século xiv, a eschola de Villasandino mos- 
tra-nos que o génio lyrico da Galliza luctava brilhantemente 
contra a poesia italiana, que se implantara em Castella por 
via de Sevilha. Ha uma causa orgânica para este predomí- 
nio do lyrismo na Galliza; sob o ponto de vista èthnogra- 
phico, foi na região da Galliza que se estabeleceram os 
Suevos; este ramo das raças germânicas pelo facto de ter 
sido o mais catholico de todos, perdeu mais cedo as suas 
cantilenas épicas; demais, sempre absorvida e disputada, 
a Galliza não chegou a ter vida independente, e por isso 
não chegou a elaborar tradições históricas. Sem interesse 
pelas luctas das nacionalidades, e sem se recordar sob a 
pressão cathoiica das antigas cantilenas condenmadas, entre- 
gue a uma vida pastoral e agrícola, a Galliza acceitou por 
via da Aquitania o primeiro influxo lyrico da Provença. Os 
hábitos da sua vida própria, por si conservavam os cantares 
actuaes, derivados das situações simples de quem trabalha 
nos campos, baila nos dias sanctificados, e se diverte com 
romarias. Era a Arcádia temperada pela monotonia catho- 
iica. É este o espirito das canções que conhecemos através 
das imitações aristocráticas. A este género poético, chamava 
o Marquez de Santillana no principio do século xv. Serra- 
niUas e Dizeres galkgos e portugmzes: A situação da Galliza 



B ABTB PORTDGUEZA 23' 



repetiu-se em todo o norte de Portugal, onde ainda boje 
se nota a falta de romances épicos, que abundam na Beira 
Baixa, Algarve, Madeira e Açores. Vejamos o caracter d'essas 
SerranUÍm; todas ellas são acompanhadas de um refrem 
ou retornello, que indica serem forçosamente cantadas: o 
canto era a parte principal d^ellas, por isso que a letra é 
a repetição da mesma ideia, variando apenas o arranjo da 
phrase ou da rima. O gosto musical das povoações do Mi- 
nbo e da Galliza é proverbial; na Galliza ainda se conserva 
o antigo akUála, de que nos falia Silio Itálico ; e do Minbo 
escrevia nos principies do século xvii o Marquez de Mon- 
tebello: cCk)m grande destreza se exercita a musica^ que è 
tão natural em seus moradores esta arte, que succede mui- 
tas yezGS aos forasteiros que passam pelas ruas, especial- 
mente nas tardes de verão, parar e suspenderem-se, ou- 
vindo os tonos que cantam em coros, com fugas e repetições, 
as raparigas, que para exercitar o trabalho de que vivem 
lhes è permittido . . . Ao que ignora a musica, enganam, 
fazendo cuidar que a sabem, e ao que è destro em ella 
desenganam, que de todas as artes é a natureza a melhor 
mestra.Y (kp. Introducção á Hist. da Litt. portug., p. 83.) 
Trazemos para aqui este importante facto para mostrar, 
Dão só que a musica era a parte principal das Serranilhas, 
ao contrario do que succede nos romances narrativos, mas 
qae foi pela musica que essas composições entraram nas 
collecções litterarias do século xiv. O sr. Monaci produz nos 
seus Canti antichi portoghesi um facto importantíssimo que 
fundamenta este modo de vêr; é a canção m de Ayres Nu- 
nes (Canc. ãsi Vaticana, fl. 72), calcada sobre a canção de 
João Zorro (Ibid., fl. 120), sem comtudo se poder concluir 
qual foi o plagiário, mas antes acreditando que nenhum foi 
plagiário e que ambos se serviram de uma letra conhecida 
para fazerem um son. Copiamos as duas peças, para fixar 
este facto fundamental: 

.De Jo2o Sorro 

Bttikmos agora, por Deoe, ai telidas 

Só aquestas aveUumrat [relidas; 

E qwm for velida, como odf , velidas. 

Se amigo amar^ 
So aquettas avelaneiras' granadas 

Yená baiUrI 



24 QUESTÕE» DE LITTEBATDRA 



BaUemoi aj^ora, por Dêos, ai loadas, 
Só aquettat a? elaoeiras granadas; 
E qttem for loada, como fós, loadas. 

Se amigo amar, 
So aquestas afolaoêlras granadas 

Yerrá bailar »i 



De Ajraa linnea 

Baylemos nós já todas, toda», ay amigas, 
So aqoettas afolaneiras floridas; 
E quem for folida como nós felidas. 

Se amigo amar, 
So aquestas ayelaneyras floridas 

Yerrá baylar. 

Baylemos nós já todas, todas, ay yrmanas, 

So aqaeste ramo d'estas a? elanas; 

E qaem for loaçana como nós looçanas, 

Se amigo amar, 
So aqueste ramo d'e8tas avelanas 

Yerrá baylar. 

Por Deos, ay amigas, mentr'al non faiemos 

So aqaeste ramo florido baylemos; 

E qgem bem parecer como nós pareçamos 

Se amigo amar, 
So aqoeste ramo sol, qne nós baylemos 

Yerrá baylar. ^ 

Este paradigma eDcerra a e^^plicaçJio do modo como a 
Serranilha popular entrava nos Cancioneiros; a aristocracia 
cultivava a musica e ensoava; servia-se da velha letra das 
tonadilhas vulgares para fixar a sua composifão melódica. 
Por outro lado, vemos no tempo de eUrei D. Diniz a in- 
fluencia jogralesca predominar de tal forma sobre o gosto, 
que os trovadores palacianos se defendiam dizendo que não 
cantavam como esses que vinham sempre na estação das 
flores : 

Mais os qae troban no iempo da frol 
£ non en oatro 



1 Varnhagem, CanctotieirífiAo, n.^ ix, p. 31. (Gane. da Yat, n.° 761.) 

2 Canti antichi, p. 6-6. (Gane. da Yat.^ n.« 462.) 



B ARTE PORTUGinEZA 25 



Qoe os que troban gvand^o /for lOfon 
Bãy o DO ante 

Ca ot qoe troban, e qoe «'alegrar 
Yao, en o ttinpo qoe ten a color 
A frol eamigue^ tanto qoe se for 
Aqoel tempo, logo efln trobar raioo 
Non ban, etc. ^ 

Estes Tersos escríptos em endecasyllabos (á maneira de 
proençal) condemoam a forte influencia das Serranilhas^ 
em arte menor, caracterisando-as pelo facto a que ellas 
mais alludem, que é a estação florida. Eis alguns exem- 
plos : 

^Ai floreiy oy floret do verde pino, 
— Vede la for dei pino, 
— So aqaestas avelaneyrai flariãat 
— Sob o ramo verde parido (pastim). 

O trovador serviase da letra vulgar, e sobre ella com- 
punha, como vemos por esta authoridade de Julião BoU 
seyro : 

Mais como x'é mui trobador 
Fez umas li rias no son 
Qae mi sacam o coraçoo. > 

Além disso, os nomes dos trovadores que assignara as 
mais ingénuas Serranilhas s3o plebeus, nâo se encontram 
nas genealogias, o que nos prova que tinham realmente 
uma communicaçSo directa com Oi povo, e que eram ao 
mesmo tempo indispensáveis para as festas palacianas. Nas 
próprias Canções artísticas achamos fragmentos intercala- 
dos de genuínas cançQes populares, não continuadas por 
serem bem conhecidas. Em uma Canção de Ayres Nunes, 
vem esta Sen^anilha, que elle ouviu cantar a uma pastora : 

Sob o ramo verde florido 
Vodas fazem ao meu amigo. 
Choram olhos de amor! 



fCanctofiemnAo, p« 18.) 



t Canc, d» D. Dinit, p. 70. 
* CanciomirinhOf p. 97. 



26' QUESTÕES DB UTTERATDRA 

 influencia do gosto popular communicado ás canções 
eruditas, conhece-se que era forte, pela continua persistên- 
cia d'essas Serranilhas, que penetraram na lítteratura até 
ao século xvii em que o génio popular portuguez se extin- 
guiu. Nas Obras de Gil Vicente, como primeiro notou Fre- 
derico Diez, (Uber die erste portugiesische Kumtund Hofpoe^ 
sie, p. 100) encontramos o typo das Serranilhas, intercala- 
das nos seus Autos sempre a pretexto da musica. Profun- 
damente observador, elle aproveita as duas correntes popu- 
lares, a dos romances, que cita com frequência e que per- 
tencem á Beira Baixa, e as cantigas lyricas a que elle chama 
cantar guaiado, (Obr., t. i, p. 143) da neuma Guay, que 
nas SerraniUias è o Ây com que se começa. Na Canção i 
do opúsculo de Monaci vem o estribilho: 

Ày Deos, e ha ól 

E no CancUmeirinho: 

Ay, estorninho do avelanal. • . 
Ay, madre, bem tos digo. . . 

Nas cantigas populares portuguezas ainda boje o Ay, for- 
ma do antigo Guay, serve para começar. Gil Vicente, em 
uma rubrica de um cantar que põe na bõcca de um perso- 
nagem, diz: ^arremedando os da Serrai. (Obras, t. ii, p. 444.) 
Aproximemos uma velha Serranilha do Cancioneiro com 
qualquer das de Gil Vicente, e ver-se-ha a persistência de 
um mesmo typo populaf através de dois séculos : 

De Pêro Aleebe 

— Dígades, filha, mba filha ? elida, 
Porque tardaste na fontana fria? 
«Os amores ei. 

— ^Dígades, filha, mha filha looçana, 
Porque tardastes na fria fontana? 
«Os amores ei. 

•Tardei, mha madre, na fontana fria, 
Cervos do monte a aogaa Toltiam, etc. 

(Caneioneirinko, p. cxiv.) 



B ARTB FORTUGDCZA 37 



De CU TlMBte 

— D'oiide Tiodes, filha, branca e colorida? 
cDe la feoho, madre, de ribas de om rio; 
Achei meus amores n*om rosal florido. 

^Florido, eoha filha, braoca e colorida? 
«De la feoho madre, de ribas de om alto; 
Achei meus amores D'am rosal granado. 

— Granado, eoha filha, branca e colorida. 

(Obras, iii, Í70.) 



E também: 

Bel rozal vengo, mi madre, 
Yengo dei roxale. 

A ribeira d*aqael fado 
Yiera estar rosal granado, 
Yengo dei rosale. 

A ribeira d*aqael rio 
Yiera estar rosal florido, 
Yengo dei rosale. 

Yiera estar rosal florido, 
Gogi rosas coo suspiro. 
Yengo dei rosale. 

(Ib., u, p. 181-182.) 

Eis uma SerraniJha de Pero Gonçalves de Porto Carrero, 
(Monaci, p. ii.) cujo typo estrophico é exacto e conforme 
com a supracitada de Gil Vicente : 



Porlo Carrero 

anel de meo amigo 
Perdi-o sol- o terde pino; 
E choro eo, bella. 

O anel de mea amado 
Perdi- o sol -o verde ramo; 
£ chor'eo beUa etc. 



S8 qubst6es de ltttbratdba 



GII Tlcente 

Já oio qoer minba senhora 
.Qoe Ibe fale em apartado. 
Oh que mal lao alongado. 

Ilinha senhora me disse 
Qae mtf quer falar am dia. 

Agora por meo pecado 
I)i«8e-me qae não podia. 
Oh qae mal tilo alongado. 

Minha senhora me disse 
Qae me queria falar... 

Agora por meos peccados 
Não me quer fer nem olhar. 
Oh qae mal tão alongado 

Agora por mea peccado 
Bisse-me que não podia. 

Ir-me-bei só pelo mundo 
Onde me lefar a dita. 
Oh que mal tão alongado. 

(T. II, 411.) 

O mesmo espirito da Serranilha de Pedro Garcia Bur- 
gualez (Cancioneirinho, n.® xxvii) se encontra em uma outra 
análoga conservada por Gil Vicente : 



Pedro Careta Borfl^nalea 

Ay qiadre, bem vos digo, 
Mentic-me o meu amigo ; 
Sanhuda and'eu! 

Do que m'hoave jurado; 
Pois mentiu«me por seu grado. 
Sanhoda aod*eu, etc. 

Cll Tleente 

Que sanbosa está la níflla, 
Ay Dios, quíea le hablaria? 



E ARTE PORTUOUEZA 29 



Ed la sierra anda la oifia 
Sa ganado a repastar, 
Hermosa como las flores, 
Safiosa como la mar. 

Safiosa como la mar 

Ay Dios quien le hablaria? 

(T. I, p. 48). 

No século XVI, quando os nossos poetas obedeciam á du- 
pla influencia da eschola hespanhola e italiana, ainda fo- 
ram á poesia popular buscar Motes velhos, glosando-os em 
diversas voltas, ou contrafazendo-os ao gosto do vulgo. Sá 
de Miranda traz uma cantiga que era ^cantada pelas ruas 
etn dialogo: 

N'aqoella alta serra — me qaero ir morar, 
Qaem me bem quízer— lá me irâ basear. 

Camões traz além de muitos outros este Mote velho, que 
também Francisco Rodrigues Lobo glosou, e que ainda no 
século XVII se reproduzia em folhas volantes : 

Na fonte está Leonor 
Lavando a talha e chorando, 
Às amigas perguntando: 
^ Vistes lá o mea amor? 

No século XVII também se deu ás Coplas da Menina fer- 
mosa uma forma litteraria contrafeita ; mas a feição popu- 
lar prevaleceu na tradição, e ainda hoje se repete na Linda 
Pastorinha. O gosto do povo portuguez pela antiga Serra- 
nilha, em arte menor, facilmente fez acceítar no século xvui 
a Modinha, género insipido de um lyrismo convencional, 
próprio para servir de pretexto a uma musica aflautada e 
sem expressão, decahindo em um ridículo sentimentalismo. 

Depois de termos analysado o opúsculo dos Canti antichi 
portoghesi, e sobretudo o problema da origem popular de 
certas canções, copiamos aqui estas preciosas palavras do 
sr. Monaci: «Ma di ciò (a questão do elemento popular) si 
potra meglio discutere quando sía compita la pubblicazione 
deW inter o Canzioniere Vaticano, cA^ ora sto preparando...» 

(p. X.) 

Efectivamente o illustre philologo publicou em 1875 o 



80 QUESTÕES DH LITTBRATURA 

texto diplomático do grande Cancioneiro da Vaticana^ do 

Jaal fizemos uma restituição crítica integral em 1877; além 
a extraordinária importância d*este primeiro monumento 
da iitteratura portugueza, o trabalho de Monaci influiu na 
descoberta do primitivo Cancioneiro possuído por Golocci» 
publicado pelo mesmo eminente romanista por occasiSo do 
Centenário de Camões. 

Emquanto o íllustre professor da Universidade de Roma, 
Ernesto Monaci, trabalhava na sua ediç3o do grande Can^ 
cioneiro portuguez da Bibliotheca do Vaticano, publicou em 
separado um pequeno extracto de dezeseis Canções, com 
que caracterisa a verdade do género lyrico tradicional co- 
nhecido na antiga poesia portugueza com o nome de Can- 
tos de ledino. A própria disposição material d'esse género 
no grande Cancioneiro, fixa mais as características que o 
distinguem: cll grande Canzoniere delia Vaticana ne coo- 
tiene molti, e vi stanno come canti ciclici aggruppati in tante 
piccole serie, una delle quali, per es., si ríferisce alia ro^ 
maria de S. Salvador (fl. 134), altrà di S. Leuter (fl. 135), 
e cosi di S. Mamede (fl. 138), di S. Cecilia (ivi e 139), di 
Vigo, (fl. 140) ecc, luoghi questi, dove il popolo portoghese 
un tempo correva alie sue feste nazionali e religioso.» Por 
estes grupos de Canções, vê-se que realmente para os tro- 
vadores e segreis dos séculos xiii e xiv, os cantos das ro- 
marias constituíam um género na sua poética; o titulo doeste 
género sò apparece empregado por Cbristovam Falcão no 
principio do século xvi, chamando-lhe Canto de ledino; 
muitas designações populares da poesia nacional, como 
Arama, em Portugal, ou Areyto em Hespanha, não chega- 
ram a ser admittidas pelos escriptores, e isto mostra-nos 
como só casualmente Cbristovam Falcão alludiu aos Cantos 
de ledino, por que o editor da folha volante do século xvi, 
substituiu o verso: 

Cantoa canto de ledino 

por este outro, em que mostrava que já se não conhecia 
esse género: 

Cantar canto- de si dino (St. 42.) 

Lendo bem a strophe do Chrisfal, em que se descreve a 
serrana queixosa: 



B ARTB PORTGGUBZA 31 



Tendo parecer dífino, 

para qoe melhor lhe q aadre, 

cantou canto de ledtM: 

« Fo me yvã 2a, mi madre, 
a SMta Mmia iel fino.» 

podemos dar-lhe hoje uma explicação mais completa, por 
causa da leitura dos dois Gauciooeiros trazidos á luz pela 
admirável dedicação de Monaci. Em primeiro logar, é a 
serrana que canta; nos cantos gallegos, como se observa 
no Cancioneiro da Vaticana, e já o notara também Sar- 
miento, são as mulheres que celebram os seus namora- 
dos, ao contrario do que se costuma nas imitações proven- 
çaes. Nas Memorias para la Historia de la Poesia espafíola 
escreva o padre Sarmiento, natural da Galiza: aAdemas de 
esto, hé observado que en Galicia ias mugeres no solo son 
poetisas, sino tambien musicas naturales.— En la mayor 
parte de las coplas gallegas hablan las mugeres com los 
hombres; y es porque ellas son las que componen las co- 
plas sin artificio alguno; y ellas mismas inventan los tonos, 
ó ayres á que Ias han de cantar, sin tener idea dei arte 
musico.» (op. cit,, p. 238.) Confirma o costume do Minho. 

Por esta característica observada por Sarmiento, e com- 
provada pelas dezeseis Canções do opúsculo de Monaci, 
se concluo, que no século xviii era ainda popular este cos- 
tume, e que os jograes do século xiv o derivaram do povo 
para os Cancioneiros. Por tanto cessa uma das hypotheses 
de Paulo Meyer,— se por ventura esse género dos Cancio- 
neiros se popularisara artificialmente. 

Eis o problema como o apresentava Meyer na Romania 
(i, 119 a 123): «N3o devera ser considerados, propriamente 
fatiando, cantos populares. Suppondo mespio que existis- 
sem na Galliza e em Portugal, é pouco provável que se des- 
sem ao trabalho de escrevel-os. Alèm disso as composições 
no ms. da Vaticana e por consequência no seu original per- 
dido (hoje achado e publicado,) são acompanhadas do nome 
de seus auctores, o que não aconteceria se fossem colhidas 
da bocca do povo. Que ellas viessem a tornar-se popula- 
res é o que se pôde olhar como muiiissimo provável; isto 
aconteceu a certas obras dos trovadores e dos troveiros ; 
não sabemos nós que Giraut de Borneil gostava de ouvir 



32 QUESTÕES DB LITTBBATURA 

as suas canções cantadas á cooapita pelas raparigas que 
iam á fonte?! Quando Meyer propoz assim esta questão, 
eram ainda desconhecidas as duas mil canções portugue- 
zas ; boje depara-se n'ellas a solução catbegorica. No Can- 
cioneiro da Vaticana, falla-se com clareza na poesia popu- 
lar imitada pelos trovadores : é em uma sirvente de Jubam 
de Guylbade contra o jogral Lourenço, apodando-o: cdo 
trobador que trobou (Tovinçal.ii (Canc. n.^ H06.) Em outra 
sirvente, diz o trovador Bodrigo Eannes, fallando nos im- 
provisos dos villãos : 

Lourenço Eaones, terras ba ea andey 
Boo ti vUam tan mal deparíir, 
e fejo-te trobarei coosir 
e loar te; mafs bàa coasa sey 
de tod'omeo que enteododo for, 
iiofi aterá «n teu cantar tabor 
nen ch*o colheram em cata d^el rey, 

(Canç. D.« 1032.) 

Por esta esta estropbe se vê que o jogral Lourenço can- 
tava peor do que os vfUãos departiam, e que os cantares^ 
eram coiligidos na corte do rei, o que explica a introduc-^ 
ção do elemento popular nos Cancioneiros aristocráticos. 
Na Canção 1024, Joham Soares Coelho pretende separar o 
gosto aristocrático do popular, dizendo sob a auctorídade 
do rei: 

E o villão que trobar touber 
que trobe e cbaroe senhor ra molber, 
6 ayerà cada buu o seu direito. 

Em uma canção de Martin Soares, (n.^'965) falla-se dos 
«jograes dos atambores» e das canções ao gosto dos aldeãos 
e dos concelhos : 

Benquisto sodes dos alfayatea 
dos peliteyros e dos moedores, 
d'o fosso bando son os tropeyros 
e os jograes dos atambores, 
porque Ihis cabe nas trombas o son; 
para atambores ar dizem que non 
acham do mnDd'oulros sons melhores. 

A imitação directa das bayiatas populares encontra-se em 
uma sirvente de Joham de Gaya. (canç. n.^ 1062) queter- 



E ABTE POBTU0UEZA 33 



mina com aTubricaf dEsta cantiga foi seguida por hua bay- 
lada que diz: 

Vós a?edel os olbos verdes, 
matar-m*edes con etles. . .» 

Conclue-se portanto doestes fados : 1 .° que existiam can- 
tares lyricos entre o povo ; a.^ que os jograes e os trova- 
dores imitavam esses cantares» umas vezes intencional- 
mente, outras vezes por imperícia nos segredos da gaya 
sciencia ; 3.^ que alguns cantos, apesar da sua forma popu- 
lar eram repetidos e colligidos na corte; 4.° que alguns jo- 
graes exploravam a popularidade dos aldeãos e dos conce- 
lhos compondo no gosto dos tropeyros e dos jogra^ tam- 
borileiros. São estes vestígios que nos guiam na recompo- 
sição do elemento tradicional do lyrismo portuguez, e na 
determinação das suas formas primitivas, as quaes tanto 
contribuem para o esclarecimento da unidade da poesia ly • 
rica do occidente da Europa. 

As Canções escolhidas por Monaci nos Cantos de ledino 
pertencem ao jogral João Servando, mas a imitação popu- 
lar e a caracteristica do género consistem em serem com- 
postas sob o sentido de uma raparíga que insta com sua 
mãe para que a deixe ir a uma romaria onde se encontrará 
com o seu namorado. Por isto se vê como a corrente poé- 
tica veiu do povo para os Cancioneiros. O nome de gallego, 
ainda hoje se usa nas povoações do Alemtejo como desi- 
gnando os portuguezes actuaes desde o Tejo até ao Minho ; 
isto que a tradição inconsciente conserva é de uma elo- 
quente verdade na poesia popular; Christovam Falcão, retra- 
tando a serrana queixosa, fal-a cantar um canto no gosto 
gallego, passando-sé a scena pastoral ao pé da Serra da 
Estrella. Caracterisemos, pelos vestígios que elle nos deixa, 
a natureza do canto de Ledino: «Tendo parecer dirmo,— 
para que melhor lhe quadre, etc.» quer dizer, para que o 
canto melhor condissesse com o semblante divino da ser- 
rana, cantou ella um canto também de estylo divino ; tal é 
o sentido dos dous versos de Falcão, e portanto o Canto 
de ledino tinha cóm certeza um caracter religioso que ainda 
no século xvii estava no gosto popular, como vemos pela 
scena do Fidalgo aprendiz, de D. Francisco Manoel de Mello: 

Sabeys algam ao divino? 



34 qdestGbs de litteratura 

Este caracter religioso acha-se reagente flas diversas 
Canções dos grupos do Gancioneiro da Yatícana a S., Sal- 
vador, S. Leuter, S. Mamede, Santa Cecília, etc. Uma vez 
fixado este caracter, elle nos explicará o sentido da sua 
designação; a palavra ledino tem uma grande aproximação 
com ladino, corrupção de latino, com que se designava a 
lingua vulgar; nos documentos portuguezes encontra-se 
ladinha christenga^ e também no Leal Conselheiro, ladino 
no sentido de vulgar; ainda boje dá-se em Portugal o no- 
me de ladino, pejorativamente^ ao que tem um^ esper- 
teza maliciosa; apesar da extensão das accepções da pala- 
vra, ladino só se poderia applicar ao canto, no sentido de 
vulgar 10U leigo, contrapondo-se ao canto de origem reli- 
giosa. É justamente pela impossibilidade de exprimir esta 
feição religiosa que damos a ladino uma outra origem; mui- 
tos cantos populares tiveram uma origem ou uma adapta- 
ção ecclesiastica, como na tradição portugueza succede com 
a Lóa, com as Prosas e Salvas; o Canto de ledino é a Ic- 
íania da egreja primitiva, que também comprebendia não 
só os pedidos (rogos) aos Santos, mas também todos e 
quaesquer pedidos em geral, e os cantares que se entoa- 
vam nas procissões ou romarias, e estações ou vigílias, Os 
rogos da Letania, são parte obrigada no canto de iedino: 

A SaD Servaod* o ora van Iodas orar, 
madre felída, por deus, fin-yolro rogtutrj 
qoe me leixedes a la hír... (Caeç. n ** 789] 

O uso da Letania pertencia ao paganismo, e, não po- 
dendo ser extincto pela egreja, foi admiltido na liturgia; 
como vemos por Du Gange, citando o Concilio iv toledano, 
acerca das Letanias particulares, e o costume gaulez <íde 
more gallico Letenearum...y> Em outros documentos cita- 
dos por Du Cange, a Letania exprime uma grande varie- 
dade de procissões, em que o povo costumava cantar. Pho- 
neticamente a palavra ledino deriva-s^ de Letania, e a sua 
funcção é de substantivo, como se vê pela phrase Canto de 
ledino; se se derivasse do adjectivo ladino; seria a phrase 
Canto ladino. 

A forma poética doeste género, por isso que teve um uso 
religioso, ainda se encontra na poesia popular latina da 
edade media, na qual se emprega na estrophe doiS ou três 



B ARTE P0RTU6UBZA 35 



versos rimando conjánctamente, e um estribilho; eis um 
cauto do século xi, da vígilia do Natal: 

CoDgaadeat torba fideliam! 
oatas 68t rex, Sal? ator odidíqib, 
ta BetUm, 

Laodem coeli Dootíat angelos 

et io terris pacem homÍDiboB, 

in Betlem. 

LoqoebaDtor pastores ioficem: 
transeamus ad dotqid homioem 
in Betlem. Etc. ^ 

Um canto dos Peregrinos do século xi nos dá uma ideia 
do typo primitivo dos cantos de ledino: 

Audi 008, rex Cbríste; 

aodi 008, domíoe, 

et Yiaoi Qostram dirige ! 

Deas. miserere, 
Deus, m.serere 
et viam nostram dirige t ^ 

Nas Poesias populares íatinas anteriores ao século xii, Dii 
Méril traz muitas canções com estribilhos taes como se con- 
servou o uso nos cantos de ledino, que de religiosos se tor- 
naram eróticos. Do primeiro género de retorneilo, vemos: 

Mba madre velida! e oom me goardedes 
d'ir a Sao Servando; ci se o fazedes, 
marrerey d' amor et I 

E oom me gaardedes, se vós bem ajades, 
d^ír a Sao Sorvando; ca se me gaardades 
morrerey d'amoret. 

Os Cantos de ledino podem-se caracterisar pelo uso da 
palavra ledo, na strophe, assim como a palavra Dona, ca- 
racterisa o género de Donayre. No Cancioneiro da Vaticana 
São frequentíssimas as canções em que se emprega esta pa- 



1 Dq Merj], Poesiat jtopulairef latines du Mayen Age, p. 17. 

2 An Aif Tl KA 



Op., cit.p. 56. 



% 

I 



36 qubstOes db í^itteratura 

lavra com um sentido especial; nos retornellos : «mays mea 
coração muy ledo seráA (canç. 871.)* e também 

Hido l*ay oiea amigo 
led* a sao Salvador: 
80 fo»c 'ay birey leda; 
e poys eu vobco fôr 

moy leda birey amigOi 

e VÓ8 leda commigo (d.» 861.] 

• O pensamento da publicação dos Cantos de ledino, dos 
quaes se tiraram pouquissimos exemplares, foi simplesmente 
para commemorar o. dia das núpcias do professor Stengel; 
mas a um sentimento t|o delicado associa-se este outro 
sentimento mais profundo de contribuir para a restauração 
de uma antiga forma poética tradicional que estava ignorada. 
Todas as palavras de louvor que dirigimos a Ernesto Mo- 
naci pelo seu amor pela litteratura portugueza, ficarão 
sempre abaixo dos seus serviços. 

Desde longos annos que competia á Academia real das 
Sciencias de Lisboa o restituir á nação portugueza um dos 
priocipaes monumentos da sua língua e litteratura, o gran- 
de Cancioneiro portuguez, que desde o século xvi se guar- 
dava inédito na Bibliotheca do Vaticano. Pelo lado do go- 
verno, nenhum ministro teve a menor comprebensão de que 
era uma vergonha para esta nacionalidade o deixar aos sá- 
bios estrangeiros o revelar por excerptos e estudos críticos 
esse grande thesouro da nossa poesia palaciana dos séculos 
XIII e XIV ; nenhum embaixador, em Roma, depois do Vis- 
conde da Carreira, se lembrou de usar da sua influencia e 
meios pecuniários para obter uma copia d'esse incompará- 
vel monumento do fim da edade media e tão importante 
para o estudo das línguas românicas. 

O Cancioneiro teria de ficar inédito e em breve estaria 
puiverisado por causa da tinta corrosiva com que está escrip- 
to, sé um íntelligente e joven philologo, £mesto Monaci, 
e um activo editor allemão Max Niemeyer não emprehen- 
dessem restituii-o a todos os que estudam, fazendo por sa- 
crificios de iniciativa individual o que competia por stricta 
obrigação moral á nossa Academia e ao governo portuguez. 

E já que nenhum premio existe no cofre das graças go- 
vernamentàes para um homem que dotou a nação portu- 



B ARTE PORTUOUBKA 37 



£ueza com o primeiro dos seus monumentos iítterarios, aqui 
resumimos algons traços biographicos de Ernesto Monaci» 
para que mais de perto conheçamos o homem a quem se- 
rão sempre reconhecidos todos os que estudarem a lingua 
6 litteratura portugueza. 

Nasceu Ernesto Monaci em Roma, em 4844; seu pae é 
um velho magistrado distincto, e deu a este filho uma edu- 
cação litteraria, destinando-o á carreira da advocacia. Sem 
bens de fortuna, Monaci comprehendeu muito cedo, que peio 
trabalho serio e decidido é que tinha a encktar o grande 
combate da vida; em i866, acabava a sua formatura jurí* 
dica, começando logo os seus primeiros ensaios pela advo- 
cacia criminal. Assim como a Itália ainda hoje conserva a 
antiga tradição jurídica das escolas romanas, ainda hoje 
tanibem o jurisconsulto tem mais do que em nenhum outro 
paiz essa cultura litteraria que tanto distinguia os juriscon- 
sultos romanos. Monaci era seduzido constantemente pela 
litteratura, e todos os seus momentos vagos eram sacrifi- 
cados com gosto a investigações nas riquíssimas bibliothe- 
cas de Roma. 

Dava-se um combate na sua alma, entre o dever e as 
predilecções do seu talento. O estudo de Dante desperta- 
ya-lhe o amor da litteratura e da vida da edade media na 
ítaiia, e a admiração dos monumentos artísticos ia locali- 
sar-lhe a sua paixão no estudo da poesia provençal. No meio 
d'este conflicto entre o seu dever, a que o ligavam mil obri- 
gações de família, e amor pela litteratura, liberal e impro- 
ductiva, Monaci não se atrevia a romper directamente e se- 
guir o caminho para onde a educação o arrastava. Um suc- 
cesso publico da historia da Itália, assim como foi influir na 
marcha no seu paiz, influiu também na sua vida; em 20 de 
setembro de i870, Roma ficou a capital da Itália, e uma 
nova legislação e uma outra administração inauguradas. Foi 
então que Monaci abandonou a jurisprudência, que repen- 
tinamente ficara sepultada na historia; este passo decisivo 
encontrou mil censuras em volta dos seus amigos práticos, 
qae lhe objectavam os bons interesses que fazia na advo- 
cacia, e os encargos da nova familia que formara. N'esta con- 
janctura foi-lhe offerecida a direcção de um jornal de juris- 
prudência romana // giornal dd Foro, onde se manteve du- 
rante quatro mezes, do anuo de 1872; investigando sempre 



38 QUBSTÕES DE LITTBRATOIIA 

nas bibliotbecas, ai contrabiu relações com Steogel e Man- 
zoni, e combinaram a creação de um jornal de philología 
românica a Rivista de Filologia romanza. Monati tinba já 
prompto para o prelo o poema inédito provençal Gli amei 
calmdor; no meio das suas investigações pbilologicas é que 
Ibe caiu na mSo o Cancioneiro portuguez da Bibliotheca do 
Vaticano n.® 4803; foi um dia memorável na sua vida, em 
11 de março de 1872. A resolução de dar publicidade a 
este códice importantíssimo foi uma longa illiada de dece- 
pções; Monaci continuava a ser o objecto das recriminações 
de uma parentela que não comprehendia o valor doesta 
paixão peia sciencia;. Monaci adoeceu do peito, seu irmão 
failecia quasi subitamente; seu filho caia também doente, 
tudo conspirava para o desalentar. Apesar de tudo, Monaci 
superou todas as dífficuldades com um trabalho heróico, e 
sem esperança. Com o intelligente e joven editor allemão 
Max-Niemeyer, fundou uma publicação monumental intitu- 
lada Communicazione dalle Bibliotheche di Roma e da aitre bi- 
bliotheche per lo studio delia lingue e delle letterature rmnanze. 
Foi o primeiro livro d'este corpo o Cancioneiro portuguez, 
cuja importância e segurança de trabalho fazemos sentir 
n'este pequeno estudo. Pouco antes doeste livro ser publi- 
cado, era Monaci chamado na manhã de 27 de dezembro de 
1875. a casa do Ministro Bonghi, para lhe participar que ha- 
via sido creada na Universidade de Roma ,uma cadeira de 
litteraturas românicas, e que lhe seria conferida; a honra 
doesta nomeação é maior ainda quando se vé que Monaci 
foi indigitado para o magistério pelos illustres philologos. A 
Bartoli, e d'Ancona, e pelo marquez Ferrajoli. Eis coroada 
a vocação que abre o seu caminho sem se acovardar com 
os obstáculos; a sciencia italiana soube conquistar para si 
mais um generoso obreiro. Monaci consagra toda a acti- 
vidade ao desempenho da sua cadeira, á realisação da em- 
preza das Communicazione, continuadas com o surprehen- 
dente achado do primitivo Cancioneiro provençal portu- 
guez que se extraviara da livraria de Colocci; no século xvu 
Monaci é auctor de alguns outros trabalhos de importância, 
taes como sobre as origens do theatro italiano, os Apunti 
dei Discíplinati delV Umbria, os Canti antichi poiHoghm, e 
II mistério provenzaie di S. Agnese, e a Leggenda araldica, 
Foi por causa da publicação do Cancioneiro portuguez da 



B ARTE PORTUaUBKA . 39 



Vaticana, qae eoDtrabiiúos relações e segura amísade com 
Monaci; julgamos isto uma felicidade na nossa vida. Mooaci 
é um rapaz ainda; o seu retrato accusa em tudo o lume da 
intelligenda^ a paixão do bello e da verdade; as suas car- 
tas singelas exprimem a candura de quem vive na sciencia. 
Tem aberto o caminbo diante de si^ e a sua pátria tem a 
esperar d'elle trabalhos ricos e a receber verdadeira gloria. 



II 

Fontes poéticas gallegas 

Entre os differentes dialectos românicos da península ne- 
nhum recebeu mais prematuramente a forma escripta do 
que o gallego, pelo qual se introduziu a poesia provençal 
nas cortes de Portugal e de Hespanha ^ ; por círcumstancias 
politicas nenhum perdeu tão cedo a vida litteraría, ficando 
apenas fallado por um povo desde muito tempo annuliado 
pela absorpção castelhana. Ao formarem-se as primeiras lit- 
teraturas da península, o* gallego foi a linguagem em que 
se poetava na corte de Gastelia, como se vè pelas Cantigas 
de Affonso o Sábio, e na corte de Portugal, como está 
bem patente nas duas mil canções do Cancioneiro da Va- 
ticana, do Cancioneiro Colocci-BrancuH e da collecção da 
Ajuda; por esse dialecto hoje desprezado, admittido apenas 
para uso das relações intimas das necessidades infantis, é 
que se podem explicar certas formas litterarias, como as 
Serranilhas, e certos phenomenos linguisticos do portuguez 
e castelhano como o che por te e por pi Effecti vãmente, a 
Galliza deve ser considerada como um fragmento de Por- 
tugal, que ficou fora da integração da nacionalidade. Ape- 
sar de todos os esforços da desmembração politica, a Gal- 
liza não deixou de influir nas formas da sociedade e da lit- 
teratura portugueza: nas luctas de D. Aflonso ii, refugia- 
ram-se na Galliza bastantes trovadores portuguezes, como 
João Soares de Paiva, e nas luctas de D. Fernando, refu- 
giaram-se em Portugal um grande numero de famiUas no- 



^ Marqoei de SaotUlana^ Carta ao Condettavel de Portugal. 



40 QUESTÕES DB LITTBRATURA 

bres da Gailíza, como os Camões» os Mirandas, os Cami- 
nhas, d^onde provieram os grandes e os maiores escripto* 
res da esplendida época dos Quinhentistas. 

Nas épocas em que a iitteratura portugueza Gxata as 
formas da lingua, ainda bastantes vestígios do gallego trans- 
parecem inconscientemente na linguagem dos escriptores, 
quando se aproximam da dicção popular. No Cancioneiro de 
Resende, em um Vylancete do Conde de Vimioso, se acha 
o galleguismo: 

qocreod* esqaeier^TOs (Q. 86, col. 6.) 

Nas comedias de Jorge Ferreira, cheias de locuções po- 
pulares, abundam estes factos: cpagamse de bem cHe que- 
ro;» (Eufros., 259) ffallou o boi e dixo bee;» (ib., 279) 
na comedia Aulegraphia: «Sempre fostes d'esses dichos.i» 
(fl. 37, V.) CO som de bem che farei e nunca lhe fazem.» 
(fl. 20); cminha madrinha é azougue, e joga o dou-cA/?-lo 
vivo com quantos aqui ancoram.» (fl. 59, v.) cAndaes vós a 
bons dichos de philosophos » (fl. 76, v.). 

Em Sá de Miranda, nas Éclogas, sobretudo quando imita 
a Unguagem popular, poUulam os galleguismos: 

Onde quer que c^ demo jaz (Ed. 1401, p. 220.) 
NSo eei quem che por famoío (Id., 291.) 
Aotre nó» che era outro tal. (Id., 223.) 
Disse então. E assi cfts fae? (Id. 232, passim.) 

Dos Autos de Gil Vicente tiraremos os bastantes para se 
reconhecer este fundo da lingua: 

^ Cha, eha, cha, raWaram ellas (06., t. i, p. 131.) 

Que a oioguem tanto mal quige (Id., p. 135.) 
Se xe m*eo isso soubera (Ib., p. 136.) 
Que te dixe, mana emflm? (Ib., p. 112.) 
Que bomem ba bi-de pucha (Ib., p. 172.) 
Isto bi xiquer irá (Ib., p. 247.) 
A Deos douche alma diíer. (Ib., p. 261.) 
Assi xe m*o faço eu. (iii, 162.) 

Até em Camões ainda persistem as formas gallegas, como 
na cantiga : 

Hei me de embarcar o'om barco ; 

e nos Lusíadas y na expletiva a, t3o peculiar do dialecto em 
que 9 grande épico chegou a escrever dois sonetos. 



B ARTB PORTÍJGUSÍA. 41 



Bem cedo as relações etbnicas de Portugal com a GaN 
liza foram desconhecidas, e este facto é orna consequência 
do desprezo que os escriptores tiveram pela tradição nacio- 
nal. O nome de gailego tornou-se desprezível em Portugal, 
e os grandes poetas oriundos de famílias gallegas usaram-n'o 
n'esse sentido. Assim diz Sá de Miranda em uma Serrani- 
Iha: 

Sola me dexaste 
En aqael yermo 
Yíllano, maio, gailego, [Ob.j 1801, p. 101.) 

E O próprio Gamões, nos Lusíadas, deixou essa phrase 
injusta: c Oh sórdido gailego...» ao passo que o povo por- 
tuguez derivou da sua indole pacifica o velho ampbiguri: 

Dazeotos gallegos 

dAo fazem um homem . . . 

António Prestes (Autos, p. 400) ainda escreve: lAmor 
villano y gailego.^ 

As povoações do Alemtejo chamam gallegos a todos os 
moradores do Ribatejo, pela transmissão inconsciente de 
uma tradição perdida. Isto bastará para explicar o assom- 
bro que deve causar aos conterrâneos o verem a poesia mo- 
derna gallega occupando um logar primário ao lado da poe- 
sia portugueza, como uma das suas formas archaícás; se- 
guimos o rigoroso critério scientiãco» deixando as preoccu- 
pações vulgares. 

Pelo estudo da poesia gallega, è que se podem compre- 
heoder as formas do lyrismo portuguez; e a desmembração 
d'esse território, que ethnicamente nos pertence e tem per- 
manecido para nós extranho durante tantos séculos, é que 
prova a falta absoluta de plano na nossa vida politica. A 
verdadeira origem da tradição lyrica da Galliza está ligada, 
â sua constituição ethnica; esse lyrismo provém da escola 
da Aquitania, onde a raça pertencia, segundo Strabão, mais 
ao typo ibérico do que ao gaulez. Segundo as modernas 
descobertas da Anthropologia e da Linguistica sabe-se que 
o Ibero, ou o basco actual, é de raça turaniana. Quando Si- 
lio Itálico, escrevendo no século i, faz no po^ma histórico 
da Segunda Guerra púnica a lista dos diversos povos da Pe- 
nínsula que acompanharam Anibal na expedição contra a 
Itália, diz da Galliza : 



42 QUKSTOXS DB UTTBaATURA 

~ iiiiii ■■■■II III iii^iiMi - |-r-i»-i ^ — 

FibrarvBi et peDD<B, difioaramqae sigacMi, 
Flammaiiiin, misit di? «8 Gallaocia pubem 
Barbara nonc patriis lUúlantem carmina liognif, 
Naoc pedis alleroo percQSsa ferbere terra 
AJ Boneram retoaai gaudeatem plaadere ectrai, 
Haec reqaies, laduaqae ? irii, ea sacra ? oluptas. 

(Lib. Ill, T. 845.) 

Esta descripçSo coincide com muitos característicos da 
raça turaoiana. Âcciarando as ioterpretaçOes de Sarmiento, 
poremos em relevo este sentido novo. Nas Memorias para 
la Historia de la Poesia y poetas espafides, diz este critico 
patrício de Feijó: cPrimeramente llama a estopais de Gal- 
lícia rico (dives) acaso por los varíos y preciosos metales 
que de alli salian para los romanos, y aun boy se beneii- 
cian.» De facto sabe se boje que a industria metalúrgica é 
de origem turaniana, e que os vestígios d'esta raça se en- 
contram sempre junto dos grandes jazigos minereos. Diz 
mais Sarmienlo: «supone que tenian idioma próprio y aun 
idiomas diferentes (propris linguiis). Esto contra los que 
imaginan un solo idioma nacional en toda Espana eu tiempo 
de los carthaginez.es.» A fusão das tribus turanianas com 
os celtas lygíos (tal como se deu na Irlanda) formando os 
celt-iberos, fazia-se notar aos romanos pelos seus differen- 
tes dialectos. Continua Sarmiento: csupone los gallegos de- 
votos y religiosos, pues los supone con sacriQcios y demas 
diestros y sagaces en consultar á sus dioses, y ai e&tispi- 
cio de sus victimas, ya en el auspicio de las aves, ya final- 
mente en la observância, aunque vana, de los movimien- 
tos, color, volumen, voracidad y direcion de las llamas de 
sus holocaustos.» Âs formas magicas da religião accadica, 
o culto do fogo, e os nomes de divindades naturalistas que 
se acham nas Inscripções colligídas por Hubner, dão a prova 
demonstrada d'essa raça turaniana, que desceu do norte da 
Europa. Finalmente Sarmiento: cdice que usaban en sus 
diversiones, juegos y Sestas sagradas de hymnos, canto, 
musica y bailes: ulutantem. . . carmna. . . alterno verbere 
pedis. . . ad numerum resonas cetras ^.^ 

No Cancioneiro da Vaticana são frequentíssimas as pas- 



lOp. cil., p, 71, D.» 36. 



B ARTB PORTUGUESA 43 



sageDs, em que se referem aos agouros das aves» e á su- 
perstição de accender candèas. Na canção 1067, diz Ay- 
res Peres Vey torom : 

Poys qoe Dom Gomes Çorri qaerria 
con boas aves ante prender mal, * 

ca ben con outras, doo Ihy dô Deoi ai, ' 

et%' estes tortos per que s^el fa. 

£ na caução 1S04, de Pedr' Amigo, lè-se acerca da su- 
perstição do fogo : 

Pedia oj'ham ric'ome 
de qae eiv ey queixume 
eandéas a hon seu ome, 
e dea-lh'e ome lume; 
e poys que foy o lome 
ficado no esteo . . • 

Estes factos restabelecem o meio ethnico em que se des- 
envolveu a poesia lyrica peninsular, especialmente a portu- 
gue^sa. 

Esta grande abundância de cantos e hymnos sagrados, 
tal como se descobriram nos livros accádicos, levam-nos a 
fixar que sob a forma céltica^ acobertada com o nome de 
Galliza, existe uma camada social turaníana, da antiga dif- 
fusâo que occupava a Aquitania e a Sicilia. 

Antes de Paulo Meyer já Liebrecht, nas Addições á His- 
toria da poesia romântica, apresentou exemplos de analo- 
gias palpáveis entre as composições lyricas das litteraturas 
românicas, sem que se possam attribuir a plagiato ou imi- 
tação*. Esta unidade lyrica occidental, completa-se com os 
" mesmos resultados observados em quanto ás formas épicas 
do romance como notaram Nigra, Fernando Wolf e R. 
Koehler; os modernos elhnologistas comprovam este fundo 
commum da civilísação meridional pelo estudo comparativo 
das superstições, dos provérbios^ dos jogos infantis e adi- 
vinhas populares. Para a comprehensão das formas lyricas 
è a Galliza um dos centros tradicionaes mais importantes; 
Morguia, cita a auctoridade de Mainzer que considera os 
cantares gallegos prolongados em alalála parecidos com os 



) No Jahrbuch fur Romanische und EngUsche LUeratur, vol. u, fase. 2. 



44 OOBSTCeS DB LITTBRATUnA 

« 

cantos italianos de Gapua e Terracína '. É portanto legitima 
a investigação dos elementos tradicionaes em uma época 
ante histórica» sobretudo lembrando-nos que alguns ramos 
germânicos permaneceram na Âquitania.É justamente n'es- 
tes pontos que subsistem as formas lyricas análogas ás gal- 
legas, e portanto nenhum conhecimento seguro se pôde 
ter do génio d'este povo sem tirar a luz da sua origem tu- 
raniana, tão persistente na indole e formas da sua civilisa- 
ção. Os instrumentos músicos a que cantavam eram, como 
diz Silio Ilalico, ritu moris Iberi. . . barbara cetra, o que 
confirma, que no primeiro século christão ainda era sensí- 
vel esse caracter turaniano. A acção exercida pelo elemento 
céltico, romano, e mais tarde suévico sobre a raça ibérica 
pelo menos até ao Mondego, é complexissímaro celta des- 
envolveu a tendência poética amorosa, fazendo esquecer 
pelas prescripções druidícas os cantos religiosos; o romano 
influiu na creação precoce de um dialecto e na industria 
agrícola; a estabilidade do suevo, tornado pacifico pelas 
suas grandes derrotas, manteve essa passividade que o gal- 
lego conserva na constituição das modernas nacionalidades 
da Península. 

De todas estas camadas ethnicas se conservam vestígios 
poéticos, e com assombro o dizemos, até na tradição actual; 
são de origem turaniana os cantos de AkUála; são célticos 
os Cantares, gtiayados; são romanos os cantos de Ledíno; 
são suevicas ou germânicas as Chacones. Paliaremos d'a- 
quelles cantos tradicionaes que explicam o lyrismo mo- 
derno. 

O Alalála é a neuma patriótica dos cantos gallegos, que 
os romanos julgavam, ser o ulular; é ella que ballucina o 
que está ausente da sua pátria, e que o cura da saudade 
nostálgica, chamada em Hespanha morrinha gallega. Um 
provérbio vasconço diz: Beíhico leloa, isto é, to eterno fe/o,» 
ou— antigo e persistente como este estribilho nacional, que 
Silio Itálico tomou como característico. Na poesia euskaríana 
conserva-se este vesligio cantabríco, que pela sua aproxi- 
mação dos costumes irlandezes, ^ vê que é o estribilho de 
uma canção fúnebre ou areyto : 



^ HUtoríad» GáUcia, 1. 1, p. S59. 



B ABTB POHTUGUEZA 45 



Lalo, il leio 
leio, il leio 
leloa larac (çaray?) 
il leloa. 

Outras canções vasconçaç conservam o mesmo estribilho, 
tantas yezes considerado como um individuo: 

Eta UlcH bay leio . . . 

Eloy klori bay lelo^ leloa çaray Moa ^ 

Na poesia popular portugueza ainda se encontra em Coim- 
bra e Açores o estribilho: 

Lari lole. 
Gomo Tae AÍroea, 
Com a mão na transa, 
Mio lhe caia a rosa K 

Tudo isto se liga a um veio perdido da poesia primitiva 
da grande raça turaniana, como se conBrma por um canto 
tunebre da Irlanda sempre acompanhado como o estribilho 
ullaloo ^. A demonstração torna-se mais rigorosa desde que 
este mesmo estribilho apparece entre raças isoladas^ de 
origem turanica. 

Diz o Abbade Bertrand: «Os Chulalanos nas suas festas 
cantavam, dansando em volta de Teocalli (casa de Deus) um 
canto que começava pelas palavras ttUànian, húlulaez, que 
não pertence a nenhuma língua actual do México. . .» cO 
grito de alegria dos Kaulchadales, alkalalai, lembra tam- 
bém a mesma fórmula pelas ultimas syllabas.. .» Os saxões 
caminhavam para a guerra ao grito de alelá, grito que é 
ainda o haleli das caçadas. Em uma canção portugueza do 
Cancioneiro da Vaticana, se repete Edoy (Etoy) te/ía, fe/t, 
kli. Como se explica a persistência doeste refrem primitivo, 
ao passo que se foi perdendo o género poético? Sabe-se que 
o Árabe trouxe para a península um grande numero de 
superstições turanianas» e assim fez reviver formas quasi 



* Apod Payt bosque, por Fr. Micbel, p. S30, S81, 283. 

2 CaMioneiro popular, p. 60. Coimbra, 1867. 

' cOs irlaodezes, cajá mnsica é nataralmente maia triste, eram mais dis-- 
postos a adoptar a expressão da ddr; assim o coronach oo ululaith, a lamen- 
tação era o mais commam dos seas caatos fúnebres.» Hiftoire des Druidet 
d^aprés H. Smitb, p. 78. 



46 qdbstObs db littbb atura 

extinctas da civilisaçSo qne implantava; a Serranilha é de 
designação árabe, como os Fados, (Huda) e um dos sete atri- 
butos que os dervicbes repetiam frequentes vezes ao dia 
era: La ikthi ilVAllah (n3o ba deus senão Âllab), que pa- 
rece quasi o estribilho gallego moderno: Alalála, lala la. 
No grande Cancioneiro portuguez da Bibiiotheca do Va- 
ticano, ainda se encontra um vestigio das antigas cantigas 
de ÂMála; pertence essa composição a Pedro Anes Solaz, 
e é do mais alto valor archeologico: 

Eo, velida, dormia, 

le-lia, d^oQlra! 
E meu amigo tenia, 

edoy le-Ií-a d'outra. 
Nen dormia e cuyda? a 

lelia d'oatral 
E mea amigo chegava 

edoy lelia d'oiitra! 
O meu amigo vénia 

lelia d'oDlral 
E d'amor também di^ia 

edoy lelia d'outra. 
meu amigo chegava 

lelia d'oulra 
£ d*amor também cantava 

edoy lelia d'outra! 
Mnylo degejey, eu amigo, 

lelia d' outra, 
Que vos tevesee commigo 

edoy lelia d'outra! 
Leli, )eli, por deus lely 

lelia d*outral 
Bem sey quem non diz leli 

edoy lelia d'oulra. / 

Bem sey eu quem diz lelya 

lelia d'outraI 
Demo xe quem uon diz lelia 

edoy lelia d'ouira t 



1 Canc. da Vaticanaj o.<^ 415. — A influencia basca na poesia tradicioo&l e 
palaciana, parece delermíoar-se por uma acção mais motierna, como se vô por 
esta canção de Ruy Paes de Ribela: (Antologia portuguezat n.® 23.) 

A donzella de Biscaya 
ainda a má preito saia 
de noite ao luar? etc. 

SSo biscainhas as tradições heráldicas coUigidai pelo Conde D. Pedro r o 
Nobiliário acerca da Dama pé de cabra. 



B ARTE FORTUOUSZA 47 



As varias formas poéticas, que se encoDlram na Epropa, 
o liedle do dialecto suisso, o Ued allemão, o liod irlaDdez, 
leod anglo-saxao, o leudus da baixa latinidade, o leoi irlan- 
dez, o tai bretão, correspondeodo ao género do leio basco 
e Alalála galleziano, e Mia portugaez, accusam uma ori- 
gem commum, que se pôde explicar pela tradição lyrica da 
raça turaniana na Europa. O sentido da palavra lai, que fi- 
cou nas lilteraturas como característico de um género iy- 
rico, è especialmente musical. 

O Árabe exerceu no apparecimento da poesia provençal 
no occidente da Europa um estímulo de revivescência de 
elementos tradicionaes primitivos, por isso que a própria 
poesia árabe nascera da imitação dos cantos accádicos como 
o provam os modernos semitologos, entre elles Lenormanl. 
Âs leilas árabes conservaram-se na peninsula até ao tempo 
de Philippe ii, que em i566, prohibiu o escrever e fallar 
o árabe, bem como os instrumentos mouriscos e as leilas 
como contrários á religião. Este facto esclarece-nos o es- 
tribilho tradicional da canção que fica tfanscripta, estribi- 
lho que^ quanto mais nos transportamos ao passado mais 
se torna um distinctivo nacional ; è assim que os gallegos 
cantam : 

• o caDiai* do galleg aião 
É cantar qoe nanca acaba. 
Que empeça con Cailalila 
Y acaba con i*ailttlála ^ 

Em um Auto de António Prestes, em que entram bastan- 
tes elementos populares, vem citado este estribilho : 

U, lé, lé, Maria Leiloa, 
Le, léy lé, para que sois boa. 

(Aatos, p. !íl.] 

Uma outra neuma característica da Peninsula, mas já pe- 
culiar da raça céltica é o Guay, que chegou a constituir um 
género dos cantares guayadosy de que ainda falia Gil Vi- 
cente. Os romances peninsulares assim como começavam 
«flrfo, helo, por do vi ene» também tem outro principio, 
como nGuay Valência, Guay Valência.» É aquelle grito cel- 



Âpad Morgnia, EUt, de Galkio, 1. 1, p. 259. 






48 qubstObs db litteratura 

tico Woe! Woel que aioda boje se conserva na Escossia como 
uma vebemente expressão natural. A gaita dé folies da Es- 
cossia é similhante á gaita galle^a, em tempo admittída do 
exercito bespanhol como meio salutar na nostalgia dos re- 
crutas da Galiíza. Como o gaêls das montanbas da Escossia, 
que, longe da pátria, na America do norte ou nas florestas 
do Canadá, falia o inglez, mas sonba e sente no dialecto 
gaêlico, é assim o galiego entregue aos trabalhos braçaes 
longe da sua pátria, ou nas guarnições militares; as canti- 
gas do Alalálay a Muifíera trazem-lbe á lembrança o ár das 
suas montanhas : Ayrinos de mina terra^ que elles aspiram 
n*esse hausto de saudade, Guay! 

Vejamos como por seu turno a influencia do génio cél- 
tico faz prevalecer esse profundo caracter de unidade tra- 
dicional do lyrismo moderno. Na civilisação da Península, 
a Galliza occupa uma posição excepcional como a Provença 
para com a França; a sua longa tranquillidade fel a ado-. 
ptar o gosto lyrico da Escola da Aquitania; e assim como 
a poesia provençal foi o desenvolvimento litterario de can- 
tos tradicíonaes do meio dia da França (celto-romana) como 
ainda se descobre por uma rubrica de uma canção do conde 
Poítíers, na Galliza sugere as formas novas e o estylo ly- 
rico popular aos trovadores portuguezes e castelhanos. Não 
basta somente Strabão considerar os Aquitanios mais pare- 
cidos com os Iberos (da fusão celtibera) do que com os gau- 
lezes (reconhecidos como raça scythica *), ha um fundo com- 
mum de poesia lyrica pertencente á Itália, á Provença, á 
Galliza, e a Portugal, que comprova a existência de um 
mesmo elemento ethnico n'estes paizes. Onde povos célti- 
cos se cruzaram com iberos, ou tribus turaníanas, persi- 
stiu a primitiva tradição lyrica. A publicação moderna de al- 
gumas Pastorellas provençaes levou a presentir pela com- 
paração essa unidade. Os restos de Dizeres e Serranilhas, 
que Gil Vicente intercala nos seus autos, são vestígios de 
canções gallegas do século xiv, tal como se lêem no Can- 
cioneiro portuguez da Vaticana '. 



1 Lemière, 2." Éíude sur les Celtet et le* Gauloit. í,^ fase. 

2 Víd. essa comparação no Manual de Historia da Litteratura portuguetOf 
p. 47. 



j 



B AHTB PORTUGUBZA 49 



Uma pastorella de Guido Cavalcanti traz estes versos 
quasi idênticos a uma das serranilhas de Gil vicente : 

£ domandai si aTMse compagnia? 
Ed ella me rispose dolcemente 
Cbe sola, sola per lo bosco gia ^ 

E em Gil Vicente: 

Cheguei -me per*ella con gram cortezia, 
Disse-lhe: — Seobora, quereis companhia? 
Disse-me: Escudeiro, segoi vossa fia '* 

Em um poeta do Cancioneiro geral, achamos um vilan- 
cete immensamente parecido com uma canção bearneza e 
com outra do sul da França; eis o viiancete de Francisco 
de Sousa : 

Abaix'eíta serra 
Terei minha terral 

Oh montes erguidos, 
Deixae-fos cair, 
Deixae-vos snmir 
£ ser destroydos! 
Poys males sentidos 
Me dam tanta gnerra 
Por f er minha terra K 

Na canção bearneza de Gastão Pbebus, existem esles 
mesmos elementos tradicionaes : 

Aqaères moontines 
Qai ta haUtes soon, 
M^empècheo de béde 
Mas amooB ouo soon. 
Si sobi las béde 
Ga Ks rancoontrá, 
Passéri Tayguete 
Ghéos pou dem'oega < 

Em um canto provençal moderno de Jasmim, ao referir- 



^ Apud Nanaci, Manual delia lettiratura italiana, i, p. 278. 

2 Obras, t. iii, «i8. 

3 Canc. geral, t. iii, 662. 

4 Poitiei hearnaiset, caoson xxxix p. 1S2. E(f. Pao, 185S. 



50 QUBSTÕBS DB LITTBBATURA 

se aos refrens que resõam pelos ares, intercala este ves- 
tígio tradicioDal das antigas pastoreilas: 

Aqnellos mniittyooi 
Qoe tam haatos sqd, 
M^enipacboD de beyre 
Mas amos qq suo; 
Baycha bus, mQDtaynoi, 
PlaDOs, haofabús, 
Perqae posqoí beyra 
Ud sqd mas amúj i. « 

A persistência da tradição lyrica da Galliza» é qae a tor- 
nou o centro de irradiação iitteraria nas cortes peninsula- 
res, onde o seu dialecto era empregado na linguagem poé- 
tica, como o provençal no norte da França. A conquista 
romana veiu muito cedo influir na constituição do dialecto 
gallego, sem alterar a tradição poética; influiu bastante na 
forma da industria agrícola. Diz Sarmiento: cGalicia mi pá- 
tria, CS la Provinda que mas vocês latinas conserva, y en 
especial en quanto toca á agricultura. Digolo, porque lei 
por curiosidad de verbo ad verbum, á Caton, Varron, Co- 
lumella y Palladio^» A Galliza foi o primeiro território da 
Península que soflreu e ficou submeltido á invasão dos bár- 
baros do norte; os Suevos, que-se apoderaram d'ella eram 
um dos ramos mais civílisados das raças germânicas, e 
chegaram a estender o seu domínio até ao Tejo. A sua der- 
rota, por Theodorico, na batalha de Urbius, restringiu os 
ao território gallaico, e a sua adopção do catholicismo fez 
com que o Suevo perdesse os seus mylhos odinicos, e por 
tanto não pôde elaborar os cantos épicos, que teriam sido 
um estimulo de resistência e de cohesSo nacional; Por causa 
do catholicismo entraram em conflicto com os Vândalos, 
que seguiam as doutrinas de Ario, e pelo catholicismo veiu 
a prevalecer a erudição morta das escholas latinas, dando 
ao novo dialecto uma forma bastante artificial. Uma vez 
privado das antigas ambições de conquista e da actividade 
das armas, o Suevo ficou sedentário, e pelas condições do 
território em que estava limitado, entregou-se ao trabalho 



1 Ap. Rev. des Deux Monde$, 1816, t. iy, p. 102. 

2 Memofias para kt Historia de la Poesia, etc. p. 114. 



\ 



B ARTE PORTUGUBZA S)l 



da âgricullura ; o lyrismo desenvolveu-se sob as emoções 
da Tida rural, mas a emphyteuse romana, e os direitos de 
mão-morta tomaram a lavoura um trabalho de servos e a 
Galliza um paiz de desgraçados. A influencia da lingua dos 
suevos sobre o gallego actual, Tazendo com que tivesse uma 
poesia, muito mais cedo do que as outras línguas da Penín* 
suia, é assim caracterisada por Helfrich e Declermont: 
cComparando a vocalisação do dialecto suabio actual á do 
porluguez, julga-se ter achado a solução do problema. Fo- 
ram os Suevos, que, primeiro do que todas as outras tri* 
bus germânicas se estabeleceram ha Galliza, e admittindo 
que a lingua allemã recebesse na bocca dos Suevos, desde 
a sua primeira appariçâo histórica, uma vocalisação distincta 
da do gothico, nâò custará a attribuir a intonação nasal» 
particular ao dialecto suabio, e que se encontra de uma 
maneira surprehendente no portuguez,.á influencia da lia* 
gaa dos Suevos sobre o novo-latino que acabava de se for- 
mar unicamente na Galliza ^» E Sarmiento, tão investiga- 
gador das antiguidades da Galliza, affirma: «Quando Por- 
tugal estaba em posesion de los Moros, se hablava ya eu 
Galicia el idioma vulgar, aunque dudo que se escribiesse, 
como ni aun hoy se escribe. Pêro esto no impide que se 
cantasse, e que en el se hiciesen varias coplas, que des* 
pues se pasaran ai papel...» (Op. cit., p. 200). D'esles can- 
tos populares existem preciosos espécimens no Cancioneiro 
da Vaticana, mas sobretudo existe a canção épica com ^que 
o génio do Suevo reagiu contra a invasão árabe da pehíD- 
sula ; tal é a tradição de Peito Burdello, gallega na forína» 
conservada em Portugal: 



No figneiral*figoe!redo 
A no figueira] eotrei; 
Seis nenat encontrara 
Seis wnas encontrei. . . > 



D'outras formas épicas consèrva-se apenas a designação 
de Chaconej também commum a Portugal, Hespanha, França 
6 Itália, como vestígio do elemento germânico (wisigothico» 



1 Aperçu d$ VHisioire des Langues neo-UUinet en Espagne, p. 36. 
* Vid. Antologia portuguezaj n.^ 1. 



52 QUB8T0K8 DE LITTSRATURÁ^ 



franko e lombardo). O mais antigo romance bespanhol hoje 
conhecido, tem a forma gallega, e foi por nós restituído 
sobre o apograpbo da Vaticana ^ 

Na Galliza existiu a tradição épica, como se prova por 
esses dois documentos citados, porém as causas que em- 
baraçaram a constituição da sua nacionalidade obliteraram 
também esses rudimentos épicos. O historiador gallego D. 
Manoel Murguia caracterisa este estado da tradição: lAqui, 
en este pais, en donde abundan las leyendas . . . puede de- 
cirse que carecemos dei verdadero romance^ como si qui- 
siere decir de esta manera, que nuestro pueblo que algo 
de profundo é insuperable le separa dei resto de Ia nacioQ. 
— ... cosi podemos asegurar que no se conoce en GaMcia el 
romance . . . Parece que hácia la parte de Astúrias, en Ri- 
vàdeo y Vega dei Castrapol se conservan algunos, escriptos 
en una de esas variedades dei gallego, natural á nuestros 
pueblos fronterizos; . . . Nos otros podemos decir, que ape- 
sar dei grande empeno que en ello hemos puesto, nos ba 
sido imposible adquirir en gallego un romance de regula- 
res dimensiones» '. 

Uma das causas porque a lingua gallega se tornou o dia- 
lecto particular da poesia lyrica tanto de Portugal como de 
Castella, além da communicação primeira com os travado- 
res da Âquitania, está no estado dç desenvolvimento poli- 
tico d'estes dois paizes. Castella, não tinha ainda dominado 
as differentes províncias de Hespanha, nem garantido con- 
tra ellas a sua própria independência; a unidade soberana. 
das Hespanhas era disputada pelo Aragão e por Leão. Só 
no meiado do século xv, sob Fernando e Isabel é que essa 
unidade politica se fez; e é a datar doesse tempo que a lín- 
gua castelhana toma desenvolvimento, reduzindo as outras 
linguas a dialectos restrictos e particulares; era no princi- 
pio do século XV qutf o marquez de Santillana fallava do 
uso gallego na poesia castelhana não só referíndo>se ás 
poesias de Affonso o Sábio, educado na Galliza, mas a essa 
especie^de renascença do génio poético da Galliza em Vil- 
iasandino, em Macias é Juan Rodrigues dei Padron, seus 



1 La Academia, d.» 17, p. S6S. Madrid, 1877. 
^ Hitt. de Galicia, 1. 1, p. 256. 



B ARTB PORTUGUEZA 53 



contemporâneos. A influencia da língua gallega cessa no 
momento em que o castelhano, por effeito da unidade poli- 
tica, 96 constitue em disciplina grammatical e em língua 
ofQcial. N'este mesmo período do século xv já a língua por- 
tugueza estava mais contraída do que a castelhana, já dis- 
tinguia a sua época archaica, porque desde a constituição 
da nacionalidade portugueza ou melhor, desde que recebeu 
forma escripta, não teve nunca a luctar com as aberrações 
dialectaes, e por jsso o seu desenvolvimento em vez de dis- 
pender-se em unificação deu-se no sentido do neologismo 
e da disciplina. 

Mas o uso da língua gallega em Portugal, sobretudo na 
poesia, proveiu, em parte, do elemento aristocrático, e em 
parte pela immobilidade d'esse dialecto, que era uma como 
espécie de apoio no meio das perturbações que as colónias 
francezas e inglezas, e as povoações mosarabes e mudjares 
conquistadas podiam produzir na nova sociedade. A sepa- 
ração do portuguez do gallego consistiu na immobilidade 
do mesmo dialecto em um ponto, e' do seu progresso suc- 
cessivo e litterario em outro. 

Os limites da Galliza, na época da constituição da nacio- 
nalidade portugueza, demonstram materialmente a relação 
em que estávamos para recebermos e imitarmos essa poesia 
popular e esse novo dialecto. Diz Herculano: iNo século xi 
a extrema fronteira da Galliza ao occidente, parece ter-se 
dilatado ao sul do Douro, nas proximidades da sua foz, pela 
orla do mar até além do Vouga ; mas seguindo ao nascente 
o curso d'aquelle rio, os sarracenos estavam de posse dos 
castellos de Lamego, Tarouca, S. Martinho de Mouros, etc.'» 
No antigo Cancioneiro da Ajuda, encontra-se a cada verso 
o xey por te: 

Fazer oa quanto â;'el quer fazer. 

(Gane. n.® 55.) 
Mais ^ois Tejo qae x'e\ quer asai 
Poil-o el (az xe me mal fazer. (N.<* 158.) 

Estas formas explicam-nos a tendência da liogua portu- 
gueza em converter a combinação pi em eh, como em pias. 



1 Hereolano, Hist. de Pori., m, p. 189. (1849). 



54 QUBSTOSS DB LITTBRATU!IA 

• — ; 

eAus, plantar, cAantar, pbnto, cAanto» piano, cA3o, platos, 
eftato, que na correnle erudita se conservam na sua pureza 
latina, como plantar, pranto, plano, prato. O Cancioneiro 
da Yaticana conserva entre os trovadores portuguezes maí- 
tos poetas gallegos taes como Affonso Gomes, jograr de 
Sarria, Fernam Gonçalves de Senabria, João Ayras, burquez 
de Santiago, Jo3o Romeu, de Lugo, Jo3o Soares de Paiva, 
que foi morrer á Galliza por amores de uma infanta, João 
Vasques, de Talavera, Martim de Pedrozelos, João Nunes 
Camanesy Vasco Fernandes de Praga e outros muitos. À 
Galiiza, nas luctas da corte portugueza no tempo de D. Af- 
fonso II, D. Affonso m e D. Fernando i, foi uma espécie de 
paiz neutro para onde se accolbiam os fidalgos portuguezes; 
os fidalgos recebiam em Portugal o melhor accolbimento e 
não receiaram seguir o partido de D. Fernando, tendo por 
isso de se refugiarem na sua corte depois de vencidos. 
Aquelles poetas quinhentistas portuguezes, Sá de Miranda 
e Camões, que ligaram ao nome de gaUego um sentido de 
desprezo, eram oriundos d'esta emigração politica do fim 
do século xiv; e foram elles que acharam a feição nacíooal 
da nossa poesia e nos libertaram da subserviência litterarta 
de Castella em que estávamos, como se vè pelo Cancio- 
neiro geral, de Resende. 

Era preciso que a tradição poética popular da Galliza 
fosse profunda para que, ainda depois de Afionso o Sábio, 
quando já a Galliza não tinha vida politica, produzisse poe* 

. tas lyricos de tal forma inspirados, como Villasandino, Ma- 
Macias, Juan Rodrigues dei Padron, Jerena e Arcediago do 
TorO) para que no fim do século xiv luctassem contra a in- 
fluencia do novo lyrismo da Itália, que entrava por Sevilha. 
Nas litteraturas a fecundidade e originalidade individual cor- 
respondem sempre á existência de um vigoroso elemento 
de tradição popular; esta grande lei da critica moderna 
Terifica-se na Galliza. No meado do século xv escrevia o 
Marquez de Santillana ao Condes tavel de Portugal: <E de- 
pois acharam esta Arte, que Maior se chama, e Arte Com- 
mum, creio, nos reinos de Galliza e Portugal, onde não ha 
que duvidar, que o exercício d'estas sciencias mais do que 
em nenhumas outras regiões e províncias de Hespanha se 
costuma; em tanto gráo, que não ha muito tempo, quaes- 

. quer Dizidores ou Trovadores d'estas partes, ou fossem Cas- 



B ARTE P0RTU6UEZA 55 



telhanos, Andaluzes ou da Extremadura, todas as suas obras 
componham em língua gallega ou portugueza. E ainda é 
certo que recebemos os nomes de arte, como: maestria 
mayor, e menor, encadenados, lexapren e mansobre ^» 

D'este trecho, se infere: 1/ Existência da Arte commum, 
usada pelos Dizidores, que compunham em maestria menor > 
essas obras que o Marquez no § xv chama «cantigas, Ser- 
ranas e Dizeres portuguezes, e gallegos.» 2.® Que a par 
doesta fonte popular coexistência a Arte Mayor, usada pelos 
Trovadores, que escreviam em metro limosinoou ende- 
cassyllabo, (eschola da Aquitania) sendo as suas composi- 
ções mais artiQciaes, como os encadenados, lexapren e 
mansobre. 3.® Que o dialecto gallego era usado na poesia 
lyrica tanto em Portugal, como em Castella, na Extrema- 
dura e Andaluzia. No século passado teve o erudito Sar- 
miento uma polemica com Don Thomaz Sanchez, tomando 
BO sentido mais absoluto as palavras do Marquez de San- 
tillana : « Yo como interessado en esta conclusion, por ser 
gallego, quisiera tener presentes lo^ fundamentos que tuvo 
el Marquez de Santillana; pêro en ningun Autor de los que 
he visto, se halla palabra que pueda servir de alguna \wi^,^ 
No tempo de Sarmiento já eram estudadas as poesias de 
Affonso o Sábio escriptas em dialecto gallego, conforme o 
reconheciam Diego Ortiz de Zuniga e Papebroquio, e hoje 
todos os pbilologos. Sarmiento, depois de reconhecer tam- 
bém a lingua ém que escreveram Macias e Padron, conclue: 
«De este modo se entiende y se confirma lo que escribiõ 
el Marquez de Santillana sobre el idioma de los antiguos 
Trobadores castellanos, andaluces y estremenhos. • (p. 200.) 
Quando o Marquez de Santillana assignalava esta influencia 
da Galliza, escrevia ^não ha muito tempo^\ este limite da 
influência gallega assigna-se em Hespanha com a introduc- 
ç3o da imitação italiana em Castella por Micer Imperial, e 
com relação a nós os portuguezes com a imitação de João 
de Mena começada pelo infante D. Pedro. O ultimo vestí- 
gio d'esta unidade poética dá Península foi assignado por 
Sarmiento na comparação dos Adágios gallegos: «Los Ada- 



1 Caria ao Condestawly % iw, 
> Mm, p. 196. 



56 QUK8T0B8 Dt UTTERATDRA. 

• 

gios gallegos son los mismos que los de los Portugaeses y 
Gastellanos mas antiguos ; y los Catalanes, qae son seme- 
jantes á los Francezes...» (Ibíd., 173.) No século xr ainda 
em Portugal Camões escreveu dois sonetos em linguagem 
galiega, cuja intenção se n3o pode conhecer; no século xni 
o Marquez de Montebello caracterisa o gosto das mulheres 
de Braga pelo canto em coros» tal como no século xyui ob- 
serva Sarmíento na Gallíza: ^ouvindo as trovas que can- 
tam em coros com fugas e repetições oã raparigas que, para 
excitar o trabalho de que vivem, Ibès é permittido...» (Yida 
de Manoel Machado de Azevedo.) Sarmiento escrevendo em 
1741, observa também a influencia da mulher na poesia 
popular da Gallíza: • Adernas doesto he observado que en 
Galicia las mujeres no solo son poetisas, sino tambien mu- 
sicas naturales.» (P. 237.) Esta característica explica-se 
etbnicamente: cios paizes que estão entre los dos rios Duero 
y Mino, pertencian á Galicia y no á Lusitânia. Ptolomeo ex- 
presamente pone dos classes de gallegos : unos Bracharen- 
ses, cuya capital era Bfaga ; y otros Lucenses, cuya cabeza 
era Lugo. Pêro despues que Portugal se erigió en reyno 
á parte, agrego muchos paizes de Galicia. De esto ha re- 
sultado que mucbas cosas, que en realidad son gallegas han 
passado por portuguezas; etc.» (Ib., p. 201.) Isto se pode 
applicar á antiga tradição do Peito Burdéb ou do tributo 
das donzellas, .versificada na Galliza, e boje só conhecida 
em Portugal ^ 

Caracterisando a poesia popular da Galliza, continua Sar- 
miento: «Generalmente hablando, assi en Castilla como en 
Portugal y en otras províncias, los hombres son los que com- 
ponem las coplas é inventan los tonos ó ayres ; y ahi se 
vé que en este género de coplas populares, hablan los hom- 
bres con las mujeres ó para amarias ó para satyrisarlas. 
En Galicia es el contrario. En la mayor parte de las coplas 
gallegas hablan las mujeres con los hombres; y es porque 
ellas son Ias que componen las coplas sin artificio alguoo; 
y elas mismas inventan los tonos ó ayres a que las han de 
cantar, sin tene;r ideia dei arte musico.» (Ib. p. 238.) Este 
característico é mui bem observado, com a differença po- 



1 Epopéat mosaraòêt, p. 173 a S07. 



B ARTE P0RTU6UBZA 57 



rém, DO que diz respeito a Porlugal, se deve exceptuar o 
Minho, o qual, uao só pelo que vimos do treciío do Mar- 
quez de Montebello, como pelo estado actual de tradição 
alli, são as mulheres que exclusivamente cantam e impro- 
visam, e os homens em geral conservam-se mudos, pelo seu 
estado de estupidez. Um moderno escriptor que viveu no 
Minho, dá-DOS a seguinte noticia do estado da poesia po- 
pular: cPassei á orla das cortinbas onde mourejavam as 
moças da aldeia, e ouvi-as cantar ladainhas e vet^sos de San 
Gregório. Quedaram de cantar e romperam n'um murmúrio 
monótono: resavam a coroa. i» O phenomeno da Galliza e do 
Minho, em que as mulheres são as que conservam a poesia, 
é o resultado da sua ultima decadência ; os padres prohi- 
bem as cantigas amorosas e impõem a Ladainha ou o Ben- 
dito. As Romarias, são um meio em que o fanatismo* das 
classes populares se concilia com as suas tradições lyricias ; 
a Galliza e o Minho têm as Romarias como as suas festas 
mais queridas, como o pretexto dos seus cantos e dansas. 
Muitas das antigas Serranilhas do Cancioneiro da Vaticana 
alludem aos logares das romarias: 

Ir a San Salvador, . . 

A Ia egreja de Vigo. . • 

Ir a Santa CecUia. . . 

Ora Tou a San Servando. . . 

Ide a San Mamede, ▼er-me-hedes. . . etc. 

Estes versos formavam um género ainda conhecido em 
Portugal no principio do século xvi pela designação de Can- 
tos de íedino. A descripçao que Sarmiento faz doeste costu- 
me da Galliza corresponde também ainda hoje ao nosso Mi- 
nho: «Aun hoy executan ID mismo aquelles nacionales quan- 
do van á algun santuário ó Romeria. Siempre van en tropa 
hombres y mujeres. Estas cantando coplas ai asunto y to- 
. cando un pandero; uno de los hombres tanendo flauta; y 
otro õ otros dançando continuamente delante basta cansar- 
se, y entran otros despues. Es verdad que non lleban ar- 
mas para batirlas ai compas, pelo lleban en su logar un 
género de instrumento crustico que en el pois Haman fer- 
renas (em portug. ferrinhos)j eu Castella sonajas*.» Pela 



^ Mem. cít. p. 35. 



58 QUB8T6B8 db littbratcra 

poesia popular da Gallíza se explicam as formas dos Can- 
tares de Amigo dos nossos Cancioneiros aristocráticos, as 
Serranílbas, cujos Tefrens ainda prevalecem boje no lyris- 
mo brazileiro, os cantos gudyados e de ledino, ainda lem- 
brados em Portugal no século xvi, os característicos dos 
cantos do Minho entoados por mulberes e ao mesmo tempo 
a falta de tradições épicas. 

Baret, no seu livro Les Troubadours, (p. 208) appresenta 
Uma bailada popular da Galiza colhida da tradição pelo mar- 
quez de Pidal, e que compara com os Cantares de elrei 
D. Diniz. Transcrevemol-a como caracterísando a persistên- 
cia do typo popular: 



«Donde \t deiai ai toa buoD amigo? 
Donde lo deiat ai to buen amado? 

Ayl Xaana, corpo garrido, 

Âyl Xiíana corpo galaao. 

— Morto le dexo a la orilba dei rio, 
Déxoie morto a la orilba dei fado. 

Ayl Xuana, corpo garrido, 

Ay! Xoana, corpo galaao. 

•Cuaato me das, Toher be-te Io ?ifo? 
Coanto me das, voUer bete lo sano? 

Ay! Xuana, corpo garrido, 

Ayl Xuaoa, corpo galano. 

— Doy te Ias armas y doy te el rocino, 
Doy-te las armas y doy-le el caballo. 

Ayl Xuaoa, corpo garrido, 

Ayl Xuana, corpo galano. 

Uma cançSo de João Soares Coelho, (Canc. da Vat., n.^ 
291) conserva o mesmo typo estrophico, posto que as ri- 
mas sejam emparelhadas, sem que alternem com o retor- 
nello : 

Foi eu, madre, la?ar meos cabellos 
ft la fonte, e paguey m'ea d*ellos 
e de mi, 
looçaoa, e. 



>• • • 



Fui eo, madre, la?ar mas garceraa 
a la fonte, e paguey-m'ea d*ellas, 
- e de mi 
loQçana, e, 



I. • • 



B ARTE PORTDGUEZA 59 



A la (oníe pagaey-in^ea d*elles; 
A lá acb«y, madr\ o senbor d'eUes 
e de mi 
loQcana, e... 

Ante que in*eti d'ali parti(>9e, 
fui pagada do que m'el diste, 
e de mi 
loQcana, e... 

Os trovadores e jograes qae figuram no Cancioneiro da 
Vaticana, conslituiram um género poético d'esla caracterís- 
tica tão especial dos cantos populares gallegos; a par de 
muitas canções de uma metrificação artificial e de um sen- 
timento requintado, apparecem os mais suaves idylios em 
um parallelismo quasi biblico, com rètornellos repetidos, 
em que são as mulheres que faliam dos seus namorados, 
despedindo-se, esperando-os, arrilfando-se com elles, pondo 
praso para romarias. Chamou-se a este género Cantares de 
Amigo, e o que assombra é a persistência doesta forma, que 
se elevou do povo até á imitação aristocrática, obtendo a 
predilecção de el-rei D. Diniz, e como tornou a desappare- 
cer dos Cancioneiros ficando atè hoje nos costumes popu- 
lares. Algumas d^essas cantigas de amigo eram tão proyer- 
biaes que os segreis as intercallavam no meio das suas com- 
posições, como fazia Ayres Nunes, repetindo: 

Sol-o ramo verde, frolido 
Vodas fazem ao mea amigo;' 
e choram olhos He amor. 

(Canc. da Vaf., d.« i54.) 

Uma canção de João de Gaya, termina com esta rubrica 
preciosa: lEsta cantiga foy seguida de uma baylada, etc.» 

Em outro logar o mesmo jogral satyrisando o alfaiate do 
bispo Dom Domingos Jardo, apresenta a rubrica: «Diz uma 
cantiga de vilano: 

ó pee d*bQma torre 
bayla corpo e giolo, 

▼edel-o cós, ay caTalleiro.» 

(Canc, B.» 1048.) 

Estes vestígios accentuam a corrente popular que entrou 



60 qobstObs db uttbratura 



DOS Cancioneiros, e nos dSo a origem dás mais bellaB com- 
posições ou formas tradicionaes que abí se conservam. 

Portugaly Galliza e Brazil t3o separados pelas vicissitudes 
políticas, conservam ainda inteira a sua unidade etbnica na 
tradição litteraria. É o que pretendemos fazer sentir n^este 
trabalbo. 

Pelo estudo da sua tradição é que as nacionalidades re- 
vivem; é pelo conbecimento do. seu desgraçado passado que 
Portugal saberá traçar um novo destino. Na moderna na- 
cionalidade brazileira o elemento portuguez da província de 
Minas está destinado a manter a integridade de um povo 
fácil a ser desnaturado por um excessivo cosmopolitismo. 
No século passado começou na Galliza um movimento na- 
cional da tradição, pelos eruditos Feijó, auctor do Theatro 
critico, Sarmiento, o que até então melhor estudou .as ori- 
gens litterarias de Hespanba, e Sobreyra, que deixou os 
manuscriptos Ideia de un Diccionario de la lingua gallega. 
No emtanto as agitações napoleónicas embaraçaram esse 
progresso local, e a Galliza anaullada pela centralisaçãb cas- 
telhana perdeu a sua lingua. Esta queda reflecte-se no an- 
nexim popular : 

Sei qae porque estás na Corofia 
Xa DOQ qoeres falar ea galego ^ 

O afastamento da Galliza de Portugal provêm do esque- 
cimento da tradição nacional e da falta de plano político em 
todos os que nos têm governado. Em Portugal o espirito 
moderno penetra, mas ainda é considerado como revolu- 
cionário. Na Galliza o estudo da tradição recomeçou já; ba 
uma grammatica composta por D. Xam Ânton SacoÂrce^ 
e um diccionario por D. Juan Cuveiro Pinhol ; tem já uma 
historia, por D. Manoel Murguia, e a poesia è cultivada por 
vultos sympathicos como Elvira Luna d*o Castillo, D. Rosália 
Castro de Murguia^ D. R^mon Rua Figuénsa, Yalentin L. 



1 Periódico— La Galicia, vol. it, p. 107. 

2 Esta grammatica reseote-se da grafe opÍDÍSo do sea aactor, qae desco- 
nhece que o gallego é am dialecto do porlogoei, e por isso o seu estodo com- 
parativo ficoa em grande parte improficao. Víd. Rímania, n.<» 3; e Bilnographia 
critica de historia e litteratura, p. 55. 



E ARTE FORTUGUKZA * 61 



Carvajal, Alberto Gamifio, D. José Benito Amado, e Turnes, 
que fazem reviver esse dialecto outr'ora peculiar das cortes 
peninsulares. E por isso que cada paiz tem o seu lyrismo 
bem caracterisado, em Portugal a poesia é o único agente 
da ideia avançada que trabalha para a transformação futu- 
ra ; no Brazil predomina ainda a feição colonial, conservando 
as formas perdidas desde o século xvi na poesia portugueza; 
na Galliza, a poesia tem a ingenuidade e o fervor de uma 
renascença. 

III 

A Modinha» elemento tradicional brazileiro 

A poesia lyrica do Brazil encerra um grande facto etimo- 
lógico; d'elle derivaremos a sua comprehensão e o porquê 
da sua originalidade. Esse lyrismo é superior em vehemen- 
cia sentimental e em novidade de formas ao lyrismo por- 
tuguez; e comtudo dá-se n'essas formas tão características 
um phenomeno de regressão, pelo qual tomam vigor typos 
estropbicos conservados pelos antigos colonos portuguezes, 
mas totalmente esquecidos na mãe-patria, que só agora 
por um processo de erudição se vão encontrar nos seus 
velhos Cancioneiros palacianos. O ardor, a passividade, a 
morbidez que toma a linguagem das emoções, o desalento 
ou a acedia da vida, mesmo a facilidade com que tornam 
natural a imitação de Byron e de Musset, resultam de um 
temperamento contrahido pelo cruzamento dos primeiros 
colonos portuguezes com as raças ante-historicas do Bra- 
ziM. Quando o Brazil começou a ser povoado, e as suas 
feitorias se convertiam em cidades, ainda em Portugal ap- 
parecia casualmente nos versos de Christovam Falcão, Gil 
Vicente, Sá de Miranda e Camões algum vago fragmento 
de Serranilha galleziana, género lyrico de origem popular, 
que pela sua belleza chegara a penetrar nos Cancioneiros 



1 «Gomo na America do norte o Anglo- saxonio, fundindo se como o pelle 
Tormelha, produzia o Yank, representante de uma noya cívilisaçao, assim o la- 
tino, fundindo se com o tupi, produziu essa raça enérgica que constilue a qoasi 
totalidade da populaçSo de S. Paulo e Bio Grande, e a maioria do novo im- 
pério.» Dr. Couto de Magalhães, O Seltagem, p. sx. 



63 QUBSTOBS BB LITTERATORA 

arístocralicos. Foi e»ie lypo lyrico, decahido d» metró- 
pole pela imitação castelbana do século xv, e pela imitação 
italiana no século xvi, que reappareceu nos costumes C(»lo- 
niaes, adquirindo importância litteraria, a ponto de vir a 
apoderar-se de novo, sob a forma brasileira da Modinha, 
do gosto da corte e da sociedade portugueza do século 
xviii. Essas estrophes cadenciadas com retornellos de en- 
louquecer e com ionadilhas de uma melodia sensual, que 
hallucinavam o próprio Beckfordi eram cantadas essencial* 
mepte por mulatos K Aqui está o problema etbnico, cuja 



1 Na visita pastoral de 1761, o bispo do Grio Pará, Frei Joio de & Jo^é 
Quetrof allode & paixfto das MoUnhai^ qoe acbou coofQQdidas com os castos 
religiosos: «ouirimos missa, a qual foi cantada pelas suas índias e mamelocas 
a quatro fozes bem ajustadas, e do fim varias cantatas devotas e de edificação 
f obre o qoe Ibe fizemos uma pequena pratica em louvor do caoio honesto e ao 
mesmo tempo invectiva contra o latcivo das Sarabandat e Modas do tempo.» 
Mem.^ p. 5Í10 

Os cantor épicos ou romances conservaram o nome de Xáearaty ato com 
sentido de dialogo, como as Xacarandinas bespanbolas e portuguezaa do so- 
culo XVII, mas por se conservarem nas relaçOes. domesticas nas Chácaras ou 
fazendas do interior. 

Os cantos ly ricos conservam ainda o nome de Lunduns, deígnaçSo qoe eo 
encontra em Sá de Miranda, e em Nícoláo Tolentioo: 

Em bandolim marchetado 
Os ligeiros dedos promptot. 
Louro peralta adamado 
• Foi depois tocar por pontos 

O doce Lunium chorado, (Obras, p. 950) 

O título d'e8te canto lyrico ainda se conserva nas Ilhas dos Açores dado es • 
pecialmente aos bailhos de terreiro, bem como o Batuque^ ainda conservado 
entre os Curorueiros de Guyabá. As Sarabandas, estão hoje totalmente esqoe- 
cidas em Portugal, dignificando esta palavra toda a admoestação áspera. O es- 
tudo dos cantos populares brazileiros não poderá ser bem feito sem o processo 
comparativo com os cantos do Archipelago açoriano. No estudo de Ferreira da 
Costa, qoe procede a eãiçSo das Poesias de Natividade Saldanha, allude este 
escriptor com favor excessivo aos nossos trabalhos sobre a poesia popular por- 
tugueza, e remata incitando ao mesmo trabalho os litteratos brazileiros: «Serio 
muito para desejar, que nas diversas províncias se recolhessem at cantigas jfo- 
pulares aliás tão abundantes entre nós, a fim de se não perderem completamente 
no futuro. G aquelles que se lançarem a este campo com moitas difficuldades 
terão de luctar, mas prestarão um relevante serviço ao paiz. Muilos jul^iirão 
taes estudos uma verdadeira inutilidade, sem o menor valor; entretanto mere- 
cem elles todos os cuidados como elementos para a formação da li itera tora po 
polar. Praza a Deus, que muitos se lancem n'e88a rica ce/^ra, e tragam ao pu- 
Í)lico as suas colheitas, t (Ap. Poesias de J. da Natividade Saldanha, p. lxv, 
oot. S8.) 



B ARTB PORTflGUEZA G3 



importância não escapa aos modernos anlhropologisias. Diz 
Quairefages: tPostoque os cruzamentos modernos n3o re* 
montem além de três séculos, tém. já produzido resultados 
que põem fora de duvida, que, raças, notáveis sob todos 
os aspectos/ podem provir da mestiçagem. Os Paulistas^ do 
Brazil são um exemplo frísante. A* provinda de S. Paulo 
foi poYoada por portuguezes e açorianos ' vindos do velho 
mundo, os quaes se ai liaram aos Guayanazes, tribu caça- 
dora 6 poética, aos Carijós, raça bellicosa e cultivada. Does- 
tas uniões regularmente contrabidas, resultou uma raça, 
cujos homens têm-se sempre distinguido pelas suas pro- 
porções, força physica, coragem indomável, resistência ás 
mais duras fadigas. Quanto ás mulheres, a sua belleza fez 
nascer um provérbio* brazileiro que attesta a sua superio- 
ridade. Se eila se accentuou outr'ora por expedições aven- 
tureiras para a exploração do ouro ou da escravatura, foi 
ella também quem primeiro fez a plantação da canna do as- 
sucar e a creação de gados.» Âpoiandose sobre as obser- 
vações de Ferdinand Denis, Quatrefages transcreve estas 
palavras: cHoje em dia o mais auspicioso desenvolvimento 
moral, como o renascimento inlellectual notabilissimo, pa- 
recem pertencer a S. Paulo'.» Na poesia popular brazi- 
leira ainda se encontra a coexistência das duas raças no 
mixto das canções em lingua portugueza e tupi, tal como 
na edade media da Europa encontramos a forma do iescort; 
eis uma amostra da tradição do Pará e do Amazonas : 

Te mandei am passarinho 

Paiuá mira pupé, 
Pintadioho de amarello 

Yporanga ne iavé, 
* Yamoft dar a despedida 

ifandtí iaraH^ 
Como dec o passarinho, 

Msndá farard; 
Bateu aza, foi -se embora 

âíandá tarará^ 
Deixou a peona no ninho 



^ Ainda fioje as {estas do Espirito Santo sio como nas ilhas dos Açores. 
A lenda do Curupira tem analogias com o Encautado, da ilha de S. Miguel. 

2 Quatrefages, VEtpèee humaine, p. «09-SiO. Paris, 1877. 

3 Ap. Dr. Couto de MagalhAeá, O Selvagtm no Brazil, P. i, p. 144-5. Rio 
de Janeiro, 1876. 



64 QUESTÕES DE LITTBRATURA 

Sobre este pheDomeno, escreve Couto de Magalhães: «o 
nosso poYO, servindo-se aliás do portuguez, modificou a soa 
poesia tradicional pela dos indios.» E mais adiante: cen- 
contram-se versos compostos simultaneamente nas duas lin- 
guas ; é o caso das províncias do Amazonas, Pará, Mara- 
nhão. Nas outras, especialmente nas de S. Paulo, Minas, 
Paraná, Rio Grande, ha uma verdadeira lilteratura popular^ 
um sem numero de canções no género das ultimas.» 

 tradição das raças ante-historicas conserva ainda fa- 
bulas mythicas, como a da origem da noite, a do Jabuti, 
e muitas d'ellas entraram como contos populares na vida 
domestica de S. Paulo, Goyaz e Matto-Grosso, taes como 
a historia de Saci Sereréy Boitatá e Curupira. É este ele- 
mento tradicional vigoroso que faz despontar na litteratura 
brazileira essa esplendida efQorescencia das creações épicas 
no século xviir, como o Uraguay, o Caramurú, e ainda no 
século XIX os Tymbiras, e Confederação dos Tamoyos, Mas 
deixemos de parte esta ordem de creações que depende do 
sentimento da nacionalidade nas civilisações modernas. O 
ardor das paixões do mestiço, a sua dissolução servida por 
uma voluptuosidáde artistica, como a poesia ou a musica, 
tornam estas duas formas aphrodisiacos inebriantes e com- 
municativos, que dão em terra prematuramente com os ta- 
lentos mais auspiciosos, como Alvares de Azevedo, Casi- 
miro de Abreu, Castro Alves e Varella. A vida domestica 
resente-se d'este fervor, e os costumes públicos manifes- 
tam por outro lado recorrências de usos peculiares do tupi 
(os bagachas). O cruzamento primitivo fez redobrar a in- 
tensidade sentimental; quem se lembra da velha phrase de 
Lopo de Vega: «Ew, senhora, tenho olhos de criança e alma 
de portuguezif só a pôde comprehender agora diante da exal- 
tação do brazileiro. Nós somos hoje menos alguma cousa. 

A persistência do typo tradicional da SerraniUia galleziana 
na colónia do Brazil liga-se e explica-se pela descoberta de 
um prande facto desconhecido até hoje na historia da hu- 
manidade — a civilisação da raça turaniana^. O problema 
desdobra-se em duas questões, que se ligam e se explicam. 



1 Os mais severos pbilologos rejeitam 6sta designação quando applicada 
para exprimir o grupo das línguas ooralo-altaicas; porém como facto etbnico, 



B ARTE PORTUGUEZA 65 



Nas formas lyricas da Europa da edade media, apparecem 
cantos commuDS á Itália e Síciiia, á França meridional, 
Aquitania, Galliza e Portugal. Esta unidade do lyrísmo no- 
To-latino levou a suppõr uma origem commum para todas 
as litteraturas meridionaes. Por outro lado a persistência 
d'esse typo lyrico no Brazil, explicar-se-ha não só pelo iso- 
lamento e espirito archaico colonial, mas peias grandes analo- 
gias com 03 cantos lyricos dos tupinambás, e sobretudo pela 
descoberta da ethnologia moderna da origem turaniana das 
raças ante-bistoricas da América. Tratemos separadamente 
de cada uma doestas questões de litteratura comparada. 

Os modernos trabalboç anthropologicos coadjuvam im- 
mensamente a solução dos problemas ethnicos; é impossí- 
vel separal-os. Pela antbropologia se sabe que a raça ante- 
bistorica da Europa resistiu e manteve-se no triangulo da 
Aquitania contra as invasões áricas ; é doeste triangulo que 
irradia a poesia lyríca provençal para a Hespanba, Italía e 
Sicilia. Paulo Broca caracterisa o basco francez pela bra- 
cbycephalia, e o basco hesp.anhol pela dolichocepbalia, sem 
comtudo poder explicar esta differenciação profunda pela 
acção de um meio quasi commum; esta differenciação ap- 
prQximada, emquanto á bracbycephalia do typo emk^ que 
desceu do norte da Europa, e emquanto á dolichocepbalia 
do berber da Africa, levâ'm-nos á conclusão, que esses dois 
typos do ramo ibérico vieram da alta Ásia, um tendo ca- 
minhado pelo norte da Europa, outro através da Africa, 
onde produziu o typo mauresco, que por seu turno facili- 
tou a influencia dos Árabes na peninsula e em todo o oc- 
cidente europeu. Com as i^ças ante históricas da América 
repete-se a mesma differenciação; segundo Prichard, fun- 
dado sobre. as investigações de Morton, a dolichocepbalia 
caracterisa ás raças da America septemtrional, e a bracby- 
cephalia persiste nas raças mais meridionaes, nas nações 
situadas a leste dos Andes. Prichard. caracterisando estas 
raças pela cõr amarellada e frequente obliquidade dos olhos, 
qualidades das brasilio-guaranianas, aproxima-as das raças 



compreheodendo sob o Dome de turamanos os povos de cór amarella e yerme- 
Iba, com aDalogias oas mesmas formas de ciTíliâação, é orna descoberta indíB- 
putaTel, qoe derrama ama luz immensa sobre a bistoría do Egypto, da Ghaldéa 
t da Ásia pre-fedica, nas soas relaçGes com a America. 

5 



66 qubstObs db littbbatiira 

nómadas da alta-Asia, o que conflrma por dados ethnicos 
einquanto ás crenças e concepções dos americanos com os 
asiáticos do norte; também Spix e Martins acham evidentes 
símilhangas entre os Caribes e os Chinezes, como aconte* 
ceu também com d'Assier e Augusto Saint-Hílaire. Os ma- 
rinheiros do Bearn percebem ao desembarcar no Rio de Ja- 
neiro a linguagem braziieira. Emfim os Aurwt bearnezes 
tem o mesmo typo e quasi a mesma designação dos Arey- 
tos, dos tupis e caribes. Esse phenomeno pasmoso da fra- 
gmentação das raças da America do sul, em contraposição 
com a sua fácil sociabilidade e com a conservação de my- 
thos astrolatricos, revela-nos uma civilisação interrompida 
violentamente por invasões anteriores a toda a noção his- 
tórica. O seu gosto poético facilitou a mestiçagem com os 
colonos portuguezes do século xvi, e portanto a revivescên- 
cia de formas lyricas cujo typo tradicional pôde ser deter- 
minado desde que se descobriram os monumentos do ly- 
rismo accádico. Pela sua novidade a these parece aventuro- 
sa, e o descrédito que a philologia lança sobre os turani- 
santes linguistas nada tem que vér com os factos de ethno- 
logia, mais vastos e susceptíveis de abrangerem os mais 
complexos elementos. 

A brachycephalia do basco francez e a dolichocephalia do 
basco hespanhol, que separam estes dois ramos do mesmo 
tronco da raça branca da alta Ásia, por causa dos diffe- 
rentes caminhos da sua migração para a Europa, corre- 
spondem também a u\na differença ethnica que se observa 
nos povos do occidente da Europa, mas não tem sido ex- 
plicada. Os críticos e historiadores litterarios notam a ca- 
rência de tradições épicas na Provença, e sobretudo na Itá- 
lia, como o confessa Gregorovius ; o mesmo se dá com a 
Galliza, como também o observa Murguia, e onde prepon- 
dera especialmente o gosto pelas canções lyricas ; no ter- 
ritório de Portugal é a região norte, do Minho, onde os ro- 
mances são diminutos e pouco conhecidos. Pelo contrario, 
os cantos épicos tradicionaes são de uma pasmosa eíQoreâ- 
cencia na Hespanha, em Portugal na província da Beira, e 
nas colónias da Madeira e Açores povoadas com habitantes 
do Algarve. Ha portanto uma diflferença nas tradições épi- 
cas e lyricas nos povos do occidente, explicável pelo fundo 
etbnico que os constituirá; o basco francez (Ausci, Eusk) 



B ARTI PORTUeUBZA ' 67 



possiiia o geDÍo lyríco, e o basco hespanhol (iber) o geoio 
^pico, como já notara StrabSo referindo-se aos seas poe- 
mas narrativos, e o que se comprova com a abandancía dos 
Romanceiros peninsulares, que são em rigor os elementos 
dispersos de uma epopèa em rudimento. Mas esta caracte- 
ristlea, apparentemenle pbantasiosa, toma se admissível 
com as raças do mesmo tronco que se destacaram da alta 
Ásia e occuparam as duas Américas; o typo brachycepkalo 
prepondera na raça brasilio-guaraniana da America meridio- 
nal, e» cousa notável, os críticos que estudam ao presente a 
poesia tradicional do Brazil, Koseritz, Romero e outros, no- 
tam a carência extraordinária de cantos épicos ou narrati- 
vos, preponderando o elemento lyrico sobretudo devido á 
predilecção das mulheres. Na America septemtrional, o typo 
anthropologico é dolichocephalo, e os escriptores da época 
da conquista bespanhola descrevem todos a abundância dos 
cantos épicos entre os Mexicanos, em que se celebravam 
os guerreiros nacionaes por uma instituição análoga á dos 
troveiros, em composições cyclicas chamadas Yaravis; foi 
também fácil aos missionários hespanhoes o fazerem ado- 
ptar pelos vencidos os romances castelhanos como meio de 
propaganda religiosa. Estas aproximações não são meras 
coincidências, porque a civilisação da Europa tem raízes 
mais, fundas do que se imagina. 

Um problema importante tem sido proposto pelos philo- 
logos românicos sobre as analogias intimas entre as fõrjnas 
lyricas da poesia moderna das litteraturas novo-latinas, a 
começar da Provença. Dando conta na Romania, da publi- 
cação dos Canti antichi portoghesi, diz M. Paul Meyer: «Je 
remarque que plusieurs des piéces editées par M. Monaci 
(n.®* IV, ix) sont fort analogues, pour le fond comme par ia 
forme, à nos anciennes ballettes (voir celles que j'ai publiés 
dans mes Rapporis, fl. 236-9) ou aux baladas provençales. 
Je n'en concíue pas que les poésies portugaises qui ont celte 
forme soieiít imitèes du français ou du provençal, mais 
gu^eUes sont conçues d'après un type tradicional qui a du 
étre comntun à diverses poptilations romanes sans qu'ott 
puisse determiner chez la quelle il a èté crée*.» N'estas 



1 Romania, t. i, p. ^65. 

Nas pasltirelUs, pul)licadad por Paul Meyer no sea relatório sobre Docu^ 



68 QUB8T0B8 DB LITTBIUTtJRA 



palavras se indica o problema da unidade do lyrismo mo- 
derno ; nenhum philologo conseguiu ainda explicar a ori- 
gem d'esta identidade de formas. O meio para o resoWer 



nenti manfuerit» ie Vandiune UiUratMn dê la Frwa^ «eham-se predosu tot- 
logiai com Et ideias em q«e se baseam as serraoilhas portoguezas; cilaremos 
algunas aproximações: 

L'aiitre joor }e cbe?acboie 
Sor moD palefroit amblaot. 
Et trotai eo mi mai toie 
Pastorelle aigoiaos goardaat 
Et cbaipial faizaot 
Partit á mogaet; 
Je li dil: Margoet 

BargoroDetie 
Três doaee campaignete, 
Doneis moi Tosire cbaipelet, 
Doneis m^i Tostre cbaípelet, etc. 

(Past. I.) 

L'aiitre^oiir par «n matia, 

Sons aoe espíoeite 
Travai iiij paístoriaos 

CbascQDs ot motete 
Pípe, flaiot et fretei. 
La mase ao graot eballamel 

Ait li uns fors traite; 
Por comencier loo ri?el 

CootreOst Ia gaite. 
Et ao cbantaot c^escríait: 

Si jolis si mignoos 

Com je sois o^íert oods jai. 
(Past. II, etc.) 

Em orna caoçSo de Dom JoSo de Aboim (Gane. da Yat d." S78) eocoDtrt- 
mos analogias com estas doas pastorellas: 

GsTalgava n'oQtro dia 

per boo caminho francês, 

e bonba pastor siia 

cantando com ontras trez 

pastores; e non ?os pez 

e direy*?os todavia 

o qoe a pastor dizia 

a as outras em castigo: 

«Nunca molher crôa per amigo, 

e poys s'o meu foy, e oon|falloo migo. 

Uma eançSo de Lourenço jogral vem baseada no mesmo typo ((^nc. n.* 867): 



B ARTB P0RTU6UBZA 69 



€Stá DO critério etbnico e comparativo; em primeiro logar 
a zona d'QDde irradiou o lyrismo que se. propagou para a 



Três moças caDlavam d*ainor, 
mQÍ fremosinhas pastores, 
moi coytadas dos amores, 
e dÍ88*eod'uDha, mha senhor: 

cDísed*amígas comigo 

cantar do moa amigo. 

Todas trez cantavam muy ben 
com^é mocas namoradas, 
' e dos amores coitadas; 
e di8s'a per qoem perc'o sen: 
Diied'amigas etc. 

Ás Paslorellas z, e xii, de Meyer, merecem ser aproximadas de ama do jo 
gral Ayres Nanes: 

L'aotrier nn loodi matin, 
M'an aloie ambanianl; 
J'antrai en .j. biau jartfln 
Trovai nonette seant. 

Gette chansonette 

Dizoit la nonette: 
LoDgue demorée faites, 

Franz moines loialz! 
Se plui sui nonette 
Aias ke soit li vespres 
Je morrai des jolis mal. etc. 

L'aatre jour me departoie 
De Nivers sospris d'amors; 
En .j. bruelet leis ma voie 
Travai dame an ao destoar; 
Eaz ot vairs, la crine bloie. 
Freche avoit la colour 
Et chantoit e> menoit joie 
' Toul ao despit de soo signor 

Doocement me tient amors. etc. 

Eis a serranilha de Ayras Nunes (Gane. da Vat.., d.» 151): , 

Oy ojVo^oa pastor cantar, 
d'a cavalgava per boa ribeyra; 
e a pastor estava senlheyra, 
e ascondi-me pola ascaytar; 
E dizia muy ben este cantar: 
' «Sol*o ramo verde, frolido 

vodas fazem ao meu amigo; 

e choram olhos d'amor. eto. 



70 QUB8TGB8 DB LITTBiATDRA 

■ ■ - _ ■ - ■ , ■ 

Provença, Itália, Sicília, Galliza e Portugal, foi na Aqoitaniar 
é também pelo critério ethnico que se conhece que n'esta 
zona existiu uma raça iberical absorvida pelos immigrantes 
indo-europeus, raça cujas tendências e até formas lyricas 
peculiares se confirmam pelos bymnos accádicos moderna- 
mente traduzidos pelos assyriologos. As recentes descober- 
tas da civílisaç3o turaniana, que antecedeu as grandes ci- 
vilisações bistoricas, a persistência das superstições accá- 
dicas dos cultos mágicos na Europa da edade media, tor- 
nam este facto da unidade do lyrismo como uma simples 
evolução. 

O estudo comparativo das litteraturas tem levado a apro- 
ximar certas formas tradicionaes muito antes de se conhe- 
cer se entre ellas existiria alguma connexio histórica ; as 
analogias intimas tém por vezes conduzido a procurar es- 
sas relações, que se vão verificando do modo mais surpre- 
hendente. No lyrismo popular da Europa, a começar desde 
a época provençal, existem formas espontâneas, taes como 
as Pastorellas, que se repetem em todos os povos meridío- 
naes, sem que estas differentes nacionalidades, tão separa- 
das pelo regimen monarchico, se imitassem mutuamente; 
este género de cantos penetrou na lilteratura da egreja da 
edade media, sob a forma de Prosas, e nos Cancioneiros 
aristocráticos sob a forma de Serranilhas e Dizeres. Â dif- 
fusão commum d'este género de origem popular era attri- 
buida á situação geographica especial da Aquitania, cujas 
escholas trovadorescas podiam influir simultaneamente em 
França, na Itália e em Portugal e Hespanha; o estudo 
ethnico da Aquitania leva a descobrir que esse território 
foi primitivamente occupado pela raça ainda agora repre- 
sentada pelo Basco actual, isto è, pela raça turaniana. N'este 
mesmo typo de cantos lyricos entram as pastoraes sicilia- 
nas ; e a Serranilha portugueza foi encontrar nas colónias 
do Brazil analogias com os cantos dos tupis, modernamente 
filiados no mesmo tronco turaniano. Eis determinada uma 
origem ethnica commum para explicar as analogias de uma 
vasta tradição lyrica popular. Pelas modernas leituras dos 
documentos cuneiformes, tèm-se conhecido o eminente gé- 
nio lyrico da raça turaniana conservado na inspiração per- 
petuada nos hymqos accádicos. Sobre este ponto são de 
grande auctorídade as palavras de F. Lenormant, explicando 



B ARTB PORTUGUBZA 71 



alguns d'esses hymDOs: <Âo mesmo tempo elles nos reve- 
lam no.poTO de Accad um verdadeiro impulso de inspira- 
ção poética, que exerceu uma acção decisiva sobre os co- 
meços da poesia semitica e contribuiu para formar-lhe o 
seu génio. Ha ali um lyrismo que attinge por vezes uma 
grande elevação, e que desde já deve revindicar o seu le- 
gar na historia litteraria do Oriente antigo. Além disso, a 
crítica deve também a ttender aos fragmentos de um lyrismo 
mais familiar, poptãar e gnomico, que parece ter tido entre 
o povo de Accad um grandíssimo desenvolvimento, e do 
qual os bierogrammatas de Assurbanipal formaram collec- 
ções. São provérbios rythmados, provenientes de antigas can- 
ções. Já se publicou a copia de um tijolo que contém um 
grande numero d'elles, e.M. Uppert já notou a importân- 
cia doesta coílecção traduzindo alguns dos seus provérbios... 
De mais, M. George Smith annunciou ter descoberto nas 
suas excavações recentes na Assyria uma outra coílecção 
egual, que entregou ao Museu Britannico. Ha d'este lado 
uma mina a explorar^ e que promette ser fecunda. 

«Alguns provérbios não consistem em mais do que uma 
simples phrase, extrahida evidentemente de um canto mais 
desenvolvido, e que a felicidade da expressão tornara sem 
duvida proverbial, como esta sobre o calcadouro da co- 
lheita : 

— Diante dog bois, qae caminham a passos apressados sobre as espigas 
ella calcou vi?amente. 

aMuitas vezes cada um d'elles forma um todo completo 
no seu laconismo, uma pequena canção de alguns versos, 
—se é que se permitte esta expressão quando ainda é des- 
conhecido o rythmo e o metro — que lembra as velhas can- 
ções populares cliinezas do ChiKing. Em geral o pensa- 
mento é de uma lhaneza delicada, ás vezes maliciosa e um 
pouco melancholica, cem uma feição de philosophia pratica. 
Tal é este pequeno trecho, que exprime a inutilidade dos 
esforços excessivos: 

— Ea fiz ir bem para o alto mens j 
a meus pés nSo deixando repouso, 
6, sem nunca ter descanço, 
o meo deétino afastou se sempre. . 



72 qubstOis db uttbratura, 

cOutros, finalmente, entre estes curtos trechos nos con- 
duzem ao meio da vida dos campos e dos seus usos; são 
numerosos na collecção publicada, e altestam claramente a 
sua origem popular. Eis aqui por exemplo uma Canção com 
dois retornellos, que se devia cantar em alguma festa cam^ 
pestre á qual se attríbuia uma influencia de bom augúrio 
sobre a safra das messes: 

o trigo qae se alovaota direito 
chegará ao cabo do seu bom tamanho : 

o tegredo 

oói conhecemol-o. 

trigo da aboodancia 

chegará ao cabo do bom crescimento ; 

o segredo 

DÓS conhecemol-o ^.» 

É este rigorosamente o typo das Pastorellas provençaes, 
italianas, gallezianas, portuguezas e bespanholas, dois ver- 
sos assonantados com um estribilho sempre repetido. Veja- 
mos um paradigma portuguez: 

V Vayamos, irmana, Vajamos dormir 

nas ribas do lago, bu eo andar tí 
a las a?e8 mea amigo. 

Vayamos, irmana, vayamos folgar 
nas ribas do lago, hu eu vi andar 
a Us aves mea amigo t etc. ^ 

O mesmo se repete nos cantos populares litúrgicos da 
edade media, derivados de uma corrente desconhecida da 
tradição popular. Lenormant achou grandes analogias entre 
a forma d^essas Pastorellas accadicas e as cantigas chinezas 
da collecção do Chi-King; de facto o turaniano é uma raça 
mixta da branca e amarella, e a concepção chineza natura- 
lista do Thian é a mesma dos espíritos elementares da Chal* 
dêa, o espirito do céo ZiAnna, dos turanianos. Por ultimo 
o typo dps Provérbios de Salomão é também flxado por 
Lenormant nos velhos hymnos accadicos. Todos estes fac- 



1 Lenormant, U$ Premiares CivilUationSj ii, p. 198 — 801. 
8 Canc. do Vaticano, n.° 902. 



B ABTB P0RTU6UBZA 



73 



tos estão em harmonia com as recentes descobertas da bis* 
toria, que tanto as civilisaçôes semiticas como aryanas se 
fundaram sobre os progressos já realisados pela mais po- 
derosa das raças ante-historicas, a taraniana. 

Este facto determinado pelos modernos semitologos ex- 
plica-nos qual o modo da influencia da poesia árabe no oc- ' 
cidente da Europa, contribuindo para a simultânea expan- 
são do lyrismo provençal, sem que se desse uma imitação 
directa como pretendia Von Schack. Âs analogias fundadas 
sobre a identidade de uma base tradicional, alargam-se com 
o simples processo comparativo; Couto de Magalhães no 
seu livro O Selvagem, diz fallando dos cantos populares do 
Brasil ; «Lendo eu uma analyse de cantos árabes, tive oc- 
casião de notar a estranha conformidade que havia entre aquel- 
ks e a poesia do nosso povo, etc.» É esta conformidade es- 
tranha, que impressiona os espirites desprevenidos, o que 
revela a importância do problema da unidade do lyrismo 
Occidental e a necessidade de tentar a sua explicação. Á 
poesia árabe popular ligava-se indissoluvelmente á dansa 
e ao canto, que eram considerados despreziveis pelas clas- 
ses superiores; esta dependência observa-se como caracte- 
rística na poesia popular do Brasil, sendo a musica extra- 
ordinariamente arcbaica. Diz Couto de Magalhães, no seu 
livro O Selvagem: «O nosso povo servindo-se aliás do por- 
tuguez, modificou a sua poesia tradicional pela dos indios. 
Aquelles que tem ouvido no interior das nossas provindas 
essas dansas cantadas que, com o nome de Cataretè, Curu- 
ru, dansa de minuanos e outras, vieram dos tupis encor- 
porar*se tão intimamente nos hábitos nacionaès, notarão 
que de ordinário parece não haver nexo algum entre os 
diversos membros de uma quadra.* E accrescenta: «A mú- 
sica, essa quasi que não soffreu alteração.. O paulista, o 
mineiro, o rio-grandense de hoje cantam nas toadas em que 
cantavam os selvagens de ha quinhentos annos atraz, e em 
que ainda cantam os que vagam pelas campinas do inte- 
rior.» (Oç. cit., pag. 142.) Uma tão extraordinária conser- 
vação legitima os processos da critica comparativa. 

Sob este critério novo, as raças da America apparecem 
conoio um grande ramo turaniano, cujas linguas são aggluti- 
nativas, cujas crenças são um fetichismo atrazado: «São 
mui dados a feitiços, e o feiticeiro que ha em cada aldeia 



74 qcbstObs db littbratura 



h o seu oráculo ^» D'As$ier recorda um facto importante: 
c lembram o typo mougolico, a pooto de um d'elles... 
criado de Auguslo Saint Hílaire, vendo um dia uns cbine- 
zes n'uma rua do Rio de Janeiro, a>rreu para elles cha- 
mando-lhes tios'. » Em Cuyabá e no Paraguay existem ater- 
ros artificiaes em que se levantam edificações, como costu- 
mavam fazer os turanianos de Babylonia e da Assyria; a 
sua chronologia baseava- se sobre o anno lunar ^ como do 
primitivo systema cbronologico dos turanianos do Egypto; 
e entravam nas batalha3, ululando, tal como descreve Silio 
Itálico, dastribus ibéricas ^ Finalmente, as analogias das 
linguas americanas com o sansckrito, explicam-se por um 
grande fundo de vocábulos turanianos das raças vencidas 
(sudras, kadraveas) sobre que se constituiu a civilisação 
aryana. Assim os factos são trazidos ás suas causas naturaes. 
Uma pequena serranilha tradicional do Brasil apparece- 
nos com leves modiíicações em uma cançoneta peruana 
colligida por Paulo Marcroy, e em um tonilho conservado 
por Gil Vicente no Auto pastoril da Serra da Estrella. Apro- 
ximamos as suas três formas: 

Papagaio looro, 
Do bico dourado. 
Leva me esta carta 
Ai meu louro! 
Ao meu namorado. 

Elle Dão é frade, » 

Nem homem casado; 
£ moço solteiro, 

Ai meu looro! 
Lindo como um cravo. ^ 

Eis a canção peruana, conforme a colligiu o viajante 
francez : 

Pajaríilo Terde, 
Fecho colorado, 
Esso te succede 
Por enamorado. 



1 Revista trimensal, t. xxxti, p. 11. 

2 le'Bré8U contemporain, p. 71. 

3 Jean de Leri, BUtoria natfígationis in Braziliamj p. 79. 

4 Idem, ib, p. 178. 

5 Ap. BeHtta BraziUira, 1. 1?, p. 21. 



J 



B ARTE PÒRTD6UBZA 75 

E em Gil Vicente (Obras, t. ii, 53) : 

Yçlaba la pega, e ?ae-se; 
Quem me la tomassel 

Andava la pega 
No mea cerrado, 
Olhos morenos 
Bico dooradol 

Qaem me Ia tomasse. 

Esta forma poética apresenta a mesma circnmstancia 
peculiar das serranilhas gallegas, é conservada pela tra- 
dição feminil; sobre este ponto consignamos a opinião do 
collector critico Sylvio Romero, nos seus estudos sobre 
poesia popular do Brasil: «Quasi todos os versos doesta 
espécie colligimos da boca de ariscas e faceiras mulatas *.» 
E em outro logar : «No Brasil as correntes lyricassão muilo 
mais ricas e abundantes do que as formas épicas^.» Este 
facto merece ser aproximado da observação de Manuel 
Murguia, que diz: «Casi podemos asegurar que no se co- 
noce en Galicia el romance... ^» 

No livro recente r Origine turanienne des Américains Tu- 
pis- Caribes, já se procura verificar esta grande Ihese ethno- 
logica, que liga as raças das duas Américas á raça mes- 
tiça que prestou os primeiros elementos ás civilisaçôes do 
Egypto e da Chaidéa. Alguns dos caracteres do tupi coin- 
cidem com o génio turaniano, como o gosto da poesia e da 
musica; no manuscripto do Roteiro do Brazil, da Bibliotheca 
de Paris, o tamoyo é descripto como grande musico e bai- 
lador; e os tupinambás eram os rbapsodos, improvisando 
Areytos segundo esse génio épico que na Chaidéa inventou 
o poema de Isdubar, no México o Popol- Vuh, e na Finlân- 
dia o Kalevala. Os seus cantos lyricos, entoados ao som da 
maraca e do tamboril constavam de refrens rimando com 
o ultimo verso da estropbe, e podendo ser considerados 
como voltas sobre motes improvisados; esta característi- 
ca, ajudando a facilidade da improvisação, os diálogos aju- 
dando a monotonia da melopéa, tudo leva a presentir em 



1 Revista BraxUeira^ t. ?i, p. 111. 

2 Ibidem, t i, p. 511. 

^ BitU da Galicia, i. i, p. 856. 



76 Q0I8TÕB9 DB MTTERATURA 

gérmen o mesmo typo.poetiéo que na Europa dea a Bd- 
Ioda, a Pastorella e a Serranilha; d'aqui a espontaneidade 
da confusão da poesia dos dois povos, e o motivo da per- 
sistência da Serranilha portugueza na Modinha brazileira 
e no seu lyrismo moderno. 

Os cantos fúnebres conservam a mesma designação tanto 
entre os Tupis como no Béarn; lá são os Areytos, e aqui 
os Aurfísta. Os cantos fúnebres são communs a todos os 
povos meridionaes em que existe elemento turauiano; taes 
s5o os Lamènti ou Triboli em Nápoles, os Attitidos na Sar- 
denha, os Voceri, na Córsega, na Bretanha, os Aurost no 
Béarn, e as Endexas e Clamores em Portugal e Hespanba. 
Gonzalo Fernandes de Oviedo, na General y Natural Histo- 
ria de índias, emprega a designação de Areyto, como o ro- 
mance narrativo hespanbol: ' cni los niiios é viejos dejarán 
de cantar semejantes areytos. . .t 

E o auctor do l\yvo' Origine turanienne des Américains, 
também a emprega no sentido épico: «La litterature des 
Tupis, comme celle des Caribes, ne se trouvait que dans 
les AreytoSy ou traditions des hauts faits de leurs devan- 
ciers, qu'ils chantaient en dansant, au son d'instruments.>^ 
Na Europa, como vimos, persistiu a designação no Aurust, 
do Béarn, e, segundo a phrase de Oviedo, parece ter sido 
empregada em Hespanha, como a Aravia o foi em Porla- 
gai^. As lamentações dos mortos nas Vascongadas chamam- 
se Arirrajo, forma próxima do Areyto e do Aurmt ^. 

Do canto fúnebre dos bearnezes, os Aurtista, falia o col- 
lector das Poésies beamaises, (p. vii, ed. Pau, Í852): «nos 
funeraesy quando a família do defunto, para celebrar sua 
memoria, não pôde senão achar lagrimas, duas mulheres, 
poetisas de profissão, semelhantes ás Voceratrices da Cor- 



1 Op. cit,, P. I. lÍT. 15, cap. I. 
* VOrigine, p. «2. 

3 A desigDaçilo peruana de Yaravi é appficada a caotos épicos tradicionaes, 
e na raça polyoesíca o caotor dos poemas heróicos das tribus chama- se Arepos. 
(Qaatrefages, VEspèce humaine^ p. 144). No século passado tiobamos um canto 
chamado Arre-pia. Tudo nos leva a crer que a designaçSo popular de Atavia* 
é um Testigío turaniaoo nada iocompativel com qualquer influencia árabe, por 

" isso que o árabe também propagou na Europa as superstições toranianas como 
pro ?a Lenormant, no livro Lu Magie Chez Ut Ckaldéent. 

4 Francisque Michel, Pays Basque^ p. 273. 



B ARTE PORTUGUEZA 77 



sega, improvisam coplas cantadas sobre um tom lamentá- 
vel: uma lembra as boas acções do defunto, e a outra as 
más, imagens d'estes dois génios do bem e do mal que 
parecem conduzir o homem na vida; este uso que se en- 
contra entre outros povos, mas que em nenhum apresenta 
uai caracter tão eminentemente religioso e moral, tem o 
nome de Aurusta ^ » Em uma edição anterior d'este livro, 
coni o titulo de Chansons et Airs populaires du Béarn, col- 
ligidas por Frederic Rivares, se define precisamente esse 
género: cOs funeraes apresentam uma particularidfide no- 
tável. Logo que o doente exhala o ultimo suspiro, o seu corpo 
è estendido no chão, no meio da casa, e rodeado de uma 
multidão de mulheres que oram e velam lançando a espa- 
ços gritos lamentosos e medonhos gemidos. Â mulher do 
defunto e os parentes mais próximos estão á frente das 
carpideiras e improvisam cantos em que são celebradas as 
suas virtudes. Este signal de dõr e affeíção acompanham 
o morto até á ultima morada, e a occasião em que a terra 
vae cobrir os caros despojos é indicada por uma explosão 
de gritos e de lamentações. 

« Portanto o Aurast (é assim que se chama este canto) 
contém. outras vezes mais do que louvores; é antes um 
julgamento do que uma oração fúnebre, e mais do que 
uma vez os parentes e o clero foram escandalisados por 
improvisos mais próprios para denegrir o morto e mesmo 
os vivos do que a excitar as magoas da sua perda^.» 

Um canto lyrico do bearnez Navarrot Lous adioiís de la 
ballé d' Aspe, refere-se a este costume do seu paiz : 

Qoé dic, praObeit, ramae qoé ft'em desligue 
DáQme abadessa a biénét m'aurousta ^1 

Traduzido em portuguez, corresponde litteralmente : 

Qoe digo, pobres, a alma que se me desliga, 
Dona abadessa vinde-me aurustar (carpir). 

Na época de D. João i ainda era costume em Portugal 
bradar sobre finado, e existia o costume das carpideiras, 
como entre os turanianos da Caria. 



1 E. Vigoaoconr, Poés, bearn., 2.* ed. 

* Op. Cit., ^^ YX. 

^ Poésiet bearnaiseSf p. 211. 



78 QUBSTOBS UE UTTBRATDRA 

Na moderaa nacionalidade brazíieira, a lingua também. 
se vae alterando, constituindo um verdadeiro dialecto do 
porluguez ; cada um dos elementos da mestiçagem conlri* 
bue com as suas alterações especiaes^ O elemento colo- 
nial modifica a aaentuação phoneiica, de um modo mais 
exagerado do que nas ilhas dos Açores; o som do s, como 
o eh gallego, torna-se sibilante e mavioso sobretudo nos 
pluraes; as construcções grammaticaes distinguem o se coo- 
dicional do reflexivo si, e os pronomes precedem os verbos, 
como : Me disse, em vez de disse-me. No vocabulário, o por- 
tuguez conserva os seus provincianismos actuaes, e os ar- 
chaismos do tempo da colonisaç3o. Da parte do elemento 
antebístorico, uma certa indolência na pronuncia exerce a 
grande lei da queda das consoantes mediaes e vogaes mu- 
das ; assim seràior é siô; Sênhora, sinhá; os finaes das pa- 
lavras vão-se contrâbíodo, perdendo os seus sufBxos carac- 
terísticos, como pió em vez de peor, casa em vez de ca- 
sar. Na parte do vocabulário é que se nota mais profunda- 
mente a acção do elemento ante-historibo, pela profusão 
innnmera de palavras de língua tupi introduzidas na lingua^ 
geni familiar de todo o império^. Algumas d'essas palavras 
já vao penetrando na língua portugueza continental pelo re« 
gresso dos colonos ricos ^, assim como nas guerras de Flan- 
dres os soldados portuguezes trouxeram esses vocábulos 
que se chamaram frandunagem. A lucta instincliva para 
manter a pureza da lingua portugueza está ligada ao facto 



1 «Os i|Brteoejo8 dizem : EUet estão falia foliando, para indicar qoe elles es- 
Uo fallando maito. Numerosas formas da liogaa tupi passaram para o porta - 
guez do povo ; e como é o povo quem do decurso de séculos elabora as línguas, 
essa se bade transformar ao influxo ^principalmente d'e8sa cansa, de modo que 
dia virá em que a língua do Brazil será tSo diversa do portuguet, quanto este ó 
do latim > Dr. Couto de Magaibies, O Selvagem; I. Curso de lingisa tupi, p. 79. 

2 «0 cruzamento doestas raças ao passo que. misturou os sangues, cruzo» 
também (se me é licito servir d'e8ta expressão) a lingua portugueza, sobretudo 
a linguagem popular. É assim qae, na linguagem do povo das províncias do 
Pará, Goyaz è especialmente de Malto Grosso, ba não só quantidade ({e voca* 
bulos tupis e guaranis accomodados á lingua portugueza, e o*ella transforma- 
dos, como ba pbrases, figuras, idiotismos, e construcçõss peculiares ao tupi. 
Este facto mostra que o cruzamento physico de duas raças deixa vestígios mo- 
raes, não menos importantes do que os do sangue.» Dr. Couto de Hagalliães, 
O Selvagem^ p. 76. 

3 Temos Caipira, etc. 



B ARTB PORTUGUBZA 79 



politico da preponderância do sangue pprtugoez na constí- 
taiçSo da nova nacionalidade ; assim na província onde o 
portuguez é mais arcbaico, em Minas Geraes, o elemento 
portuguez é puro e eontinúa a ser catbolico como no sé- 
culo XVI, e conservador timorato. Nas províncias onde pre- 
valece o cruzamento das raças selvagens, existe o espírito 
revolucionário, como em S. Paulo, e o ódio ao portuguez 
puro como em Pernambuco. Aqui estão as condições ne- 
cessárias para um permanente estimulo contra a acção ener- 
vante do meio clima tologíco, um movei de energia scíenti- 
ãca b industrial ; a capital do Bio de Janeiro pelo seu inex- 
tricável cosmopolitismo está destinada a realisar o accordo 
vde todos estes elementos para a obra da autonomia nacio- 
nal, cujo sentimento, transparecendo já na litteratura, re- 
vela que (T destino d'ella é identiQcar todas as divergências 
D'este mesmo sentimento. 

O moderno 'lyrismo brazíleiro representa nas suas for- 
mas materiaes ou estrophicas a velha tradição das Serra- 
nilhcís portuguezas tão bem assimiladas pelo turaniauo da 
America; a ardência explosiva da paixão amorosa, a lubri- 
cidade das imagens, a seducção voluptuosa do pensamento, 
accusam o sangue do mestiço, devorado pelo seu desejo, 
como em Álvares de Azevedo ou Casimiro de Abreu. A 
creação definitiva da litteratura brazileira consiste em tor- 
nar estes factos conscientes. • 

As colónias pelo seu isolamento conservam sempre a tra- 
dição mais completa e pura ; vè^se isso na Europa com as 
tradições célticas que revivem na Bretanha insular, em- 
quanto se obliteram na Armorica continental. A tradição dos 
romanceiros portuguezes subsiste na sua quasi integridade 
nos archipelagos da Madeira e dos Açores. O mesmo acon- 
teceu com o lyrismo portuguez, cujas formas tão vivas nas 
canções iotercalladas por GiL Vicente nos seus Autos, re- 
lembradas por Sá de Miranda, Christovara Falcão e Camões, 
esquecem-se no século xvu mas sobrevivem com maior in- 
tensidade nas colónias portuguezas do Brazil sob a fornia 
musical da Modinha. Foi a esta persistência tradicional que 
o Brazil deveu o desenvolvimento da poesia lyrica no sé- 
culo XV1U ; a Modiffha enthusiasmou a sociedade portugueza 
e os viajantes estrangeiros, como Beckford, Strafford eKin- 
sey, que diz tfellas, ainda no primeiro quartel d'esle ée- 



80 



QUKSl^BS DB LITTBRATURA 



culo: «bem acompanhadas pela voz á guitarra, chegam a 
arrancar lagrimas dos ouvintes, apesar de acostumados á 
sua frequente repetição. » Debalde reagiu Fílinto contra es- 
ses versinhos anãos; debalde apodou Bocage o mulato Joa- 
quim Manuel, que se Ihea propriava da popularidade, e re- 
pelliu o mulato Caldas Barbosa ; debalde Tolentino satyrisou 
os bandolins marchetados a que se cantavam as Modinhas; 
essa forma perdida do velho lyrísmo identiScava-se com o 
nosso gosto nacional. Os poetas do Brazíl, como Thomaz An- 
tónio Gonzaga na Marília de Dirceo, souberam derivar d*essa 
forma tradicional a concepção litteraria, e foi por esta intelli- 
gencia ou instincto que o moderno lyrismo brazileiro coa- 
seguiu exceder a quasi totalidade dos poetas portuguezes 
modernos. 



P0RTU6A1 E Dl CANTO POPDUR DA DINAMARCA 



Uma das cídco filhas de D. Sancho i, Berengaria, appa- 
rece casada por 1214 com Waldemar ii» rei da Dinamarca» 
que viuvara de sua primeira mulher Margarida de Bohemia. 
Como se fez este casamento com uma princeza desconhe- 
cida de um pequeno reino do extremo occidente não se 
sabe; mas na historia da Dinaitiatca e sobretudo nos cantos 
populares o nome de Berengaria anda envolvido em impu- 
tações criminosas. 

O ihrono de Waldemar ii, que deveria pertencer ao filho 
do primeiro consorcio, foi occupado successivamente pelos 
três filhos de Berengaria: Érico, Abel e Christovam. 

A morte.prematura do príncipe herdeiro Waldemar, cujo 
casamento com uma infanta portugueza D. Leonor, sobri- 
nha de Berengaria, fora arranjado por sua madrasta, com 
certeza contribuiu para propagar a tradição conservada nos 
cantos populares. 

Paliando d'esta irmã de D. Aflfonsp ii, Herculano escre- 
ve: «Os degraus do throno dinamarquez ficaram então pa- 
tentes aos filhos de Berengaria, appellidada a orgulhosa nas 
canções populares.» * 

Apoiando-se sobre a auctqridade de Dahimann, na sua 
Historia da Dinamarca» é provável que Herculano aí encon- 
trasse essa referencia aos cantos populares dinamarquezes ; 
fortalecendo aquella afiirmaliva, vamos transcrever um canto 
popular conhecido na Dinamarca com o titulo de Canção de 
Dagmar, no qual Berengaria é chamada a pérfida mulher. 



1 Hitt de Portugal, n, 298. 

6 



82 qdsstOss db littbratura 

Este caDto popular diDamarquez foi colligido pelo dr. Ro- 
seDberg e pelo professor FrederihseD, e pela primeira vez 
publicado em fraucez por Victor Fouruel. Eis a Canção de 
Dagmar: 

A raÍDba Dagmar está doente em Ribe, esperam-no sem- 
pre (o rei) em Ringsted. Todas as damas da DiDamarca fo- 
ram chamadas para de junto do seu leito. 

A rainha Dagmar dorme em Ringsted. 

cMandai buscar quatro damas, buscae cinco, buscae as 
mais instruídas; procurae sobretudo a irm3 do cavalieiro 
Carlos de Rid.» 

A rainha Dagmar dorme em Ringsted. 

A joven Christina chega, seu loucado brilhava com oiiro 
vermelho. Ella não viu o brilhantismo da coroa, porque es- 
tava banhada em lagrimas. 

A joven Christiúa chega, encantadora e cheia de graça; 
a rainha Dagmar recebe-a e abraça-a carinhosamente. 

cSabes tu lér? sabes tu escrever? saberás alliviar o mea 
sofTrimento? Tu usarás sempre de escarlate e montarás 
sempre os meus corseis. 

— Eu lerei, eu escreverei, n3o duvideis, e lerei com boa 
vontade; mas vossa dôr é certamente mais forte e mais 
dura que o aço.» 

A joven Christina com as Horas na m5o, lia como melhor 
podia ; mas não vos digo se não a pura verdade, ella estava 
banhada em lagrimas. 

A rainha soffria bastante, as suas dores iam crescendo 
cada vez mais . . . «Nunca mais poderei melhorar. xMandae 
chamar o meu senhor. 

«A vontade de Deus será feita, a morte virá buscar-me. 
Mandae depressa a Skanderberg, que ahi se encontrará o 
meu senhor.» 

O pequeno pagem da rainha não se demorou um instante, 
despendufou a sella e p6I-a sobre o corcel branco. 

O pequeno pagem da rainha montou a cavallo. 

Corria certamente mais veloz do que v6a o falcão ligeiro. 

O rei estava no mirante e olhava para o horispnte: tVejo 
ao longe o meu pequeno pagem ; elle corre com bastante 
anciedade. 

a Eu vejo além o meu pagem, que chega cheio de tris- 



B ARTE POJITUGUBZA 83 



teza. Oh! meu Deus, pae dos céus, como se achará agora 
Dagmar? 

— A rainha Dagmar me manda aqui, ella queria fallar- 
vos. Eila deseja ardentemente vèr-vos; está acabrunhada de 
dores ...» 

O rei saiu de Skanderberg, acompanhado de cento e um 
<!avaIleiPOS. Quando chegou á ponle de Grindsted, só lhe 
restavam apenas vinte. O rei atravessou a lande de Ras- 
dhal, acompanhado de quinze cavalleiros. Quando chegou a 
pas$ar a ponte do Ribe já o nobre senhor ia sósinho. 

Grandes dores havia no palácio da rainha, todas as da* 
mas estavam a chorar. A rainha morreu nos braços de 
Ghrístina no momento em que o rei se apeiava do cavallo. 

O senhor entrou com um olhar espavorido. 

A joven Chnstinà levantou-se á sua chegada. 

<0h, meu lord e rei, não vos afflijaesl enchugae o pranto: 
boje Dagmar vos deu um fílhó, arrancado das suas entra- 
nhas. 

— Eu vos peço a todas, damas e donzellas, eu peço a cada 
uma de vós, que oreis por alma de Dagmar, para que lhe 
seja permittido de me fallar. 

Eu vos supplico, dlitt\^s e donzellas, vós todas que estaes 
aqui presentes, oh! rogae por mim, que Deus me conceda 
fatlar-lhe ainda uma vez. 

Puzeram-se todas de joelhos em terra, todas quantas es* 
tavam presentes. Suas orações e* os prantos do rei foram 
attendidos. A rainha voltou á vida. 

A rainha Dagmar ergueu-se do féretro, com os olhos ver- 
melhos de sangue: 

«Misericórdia, meu nobre senhor! para que me causar 
esta pena! 

«Nâo fiz outro mal se não enlaçar os meus manguitos de 
seda ao domingo. 

«Se os não houvesse enfeitado tomando prazer em aceiar« 
me ao domingo, eu não arderia no purgatório, e não teria 
tantas dores. 

«A primeira supplica que vos faço conceder-m'a-heis vo- 
luntariamente: Oh! chamae os proscriptos todos, equebrae 
as algemas dos prisioneiros! 

cA segunda supplica que vos façoj é só para vosso bem: 
Não caseis com Berengaria, porque é um fructo bem amargo. 



84 , QUESTÕBS DB LITTBRA7DRA B ARTB PORTDGUBZA 

: ^ ■■ 

cA terceira supplica que tos faço, è o meu supremo 
desejo: que o nosso querido filho seja eleito rei de Dina- 
marca. 

cObI fazei-o rei de Diuamarca, quando deixardes esta 
Tida. Berengaria vos dará um segundo filho, que procurará 
destruilro. 

cDesposae antes a joTen Christina, ella è uma nobre me- 
nina ; mas se isso não puder ser, não esqueçaes a minha 
ultima supplica. 

—Eu TOS concedo Toluntariamente esse pedido. Vosso fi- 
Ibo usará a coroa, mas eu nunca desposarei Cbristina, Dem 
outra dama qualquer. 

«Nunca desposareis Cbristina, nem outra dama qualquer, 
mas vós ireis a Portugal buscar a pérfida mulher. 

«Meu nobre senhor, oh I dizei se desejaes fallar-me por 
mais tempo, porque os anjos me esperam no alto dos céos. 

«É tempo que tos deixe, eu d3o posso demorar-me mais 
tempo aqui; os sinos do paraizo me chamam; já me parece 
tarde para me ir juntar com as outras almas. 
A rainha Dagmar dorme em Ringsted.» 

Tal é o canto dinamarquez traduzido por Victor Fournel 
6 publicado no seu opúsculo Le Danemark en 1867^. , 

Por este canto se Tê que Waldemar ii, quando ainda es- 
taTa casado com Margarida da Bohemia já conhecia a prince- 
za portugueza Berengaria ; portanto põde-se inferir a bypo- 
these apresentada por Herculano : «Seria Waldemar o prin- 
cipe que as antigas memorias dizem ter Tindo á frente dos 
dinamarquezes na cruzada de 1189, e datariam d'aquella 
época as suas relações com a corte de Portugal ?» ' 

Pela canção de Dagmar, se Tê o receio que a rainha de- 
functa tem de Waldemar Tir a Portugal buscar a perfiia 
mulher: Tê-se o receio de que seu fllho seja destruído pe- 
los filhos de Berengaria, que ella chama fructq bem amargo. 

As relações históricas da corte portugueza com a Dina- 
marca influíram também na elaboração da epopêa germâ- 
nica de Kudrun \ 



1 Pag. iíO e SS. 

« BisL de Port, ti, 179. 

^ Tid. Caiic da Fò^., p. xl. 



I 



innUENGU BRETl NA LITTERATDRA PORTCGUEtA 

I 

Os Lays bretãos 

Tanto na Litteratura castelhana como na portugneza pôde 
determinar-se com clareza uma corrente poética das tradi- 
ções bretãs, nas formas lyrica e novellistica, da qual se inspi^ 
raram os trovadores dos dois paizes. O gosto bretão appa- 
rece-nos citado em uma canção de Guerau de Cabrera, como 
um distínctivo trobadoresco : 

noo sabes fioir, 

ai mien albir, 

á tempradura de Breton l. 

Também em uma canção do trovador portuguez Gonçalo 
Eannes de Vinhal, ha uma importante referencia aos can- 
tares bretãos: 

Maestro, todolo? os vossos cantarei 
já qoe filham sempre d*oma. razom, 
e ootrosi ar filham a mi son, 
6 nom segoades ootros milhares; 
senon aquettes de Camoal^a, 
mays este segnídes beo sem falha, 
e nom ?i trobador per tantos logarts. ' 

Em uma canção' de Fernão Rodrigues Redondo, (Canc. da 
Vaticana, n.° H47) fallando com chasco de D. Pedro, cu- 
nhado do rei deÂragão, allude-se á forma poética bretã: 

1 Âp. Pelayo Briz, Libre de los Poetas, p. S3. 

2 Canc. portuguez da Vaticana^ d.<> 1007. 



86^ QUB8TÕBS DE LXTTERATURA 

Moy ledo feen<l*ba caDtara «eoi lays 
a ia lídice pouco Ibi daroa • . . 

Em uma canção de Pêro da PoDte (ib., n.^ 1170) appa- 
rece citado o lay bretão como uma forma poética imperfeita 
e quasi exclusiva dos máos trovadores, como Sueyro Ean- 
nes contra quem elle chasquéa: 

E por eslo non sey no irando tal 
borne qae lh'a el devesi'a diíer, 
de non por Ibi dar mDi ben sea aver, 
ca Soer' Eanes oanca Ibi fal 
raioo.des qu*el deipagado Tay • 

em que Ihi troba tan mal e tan tay, 
porque o outro eempre Ibi quer mal. 

No lai de VEpine, de Marie de France, conbece-se o ca- 
racter brelSo da forma poética do lai: 

Le {ai> efcootent d'Aielis 
Que uns Yrois doucemeot note 
Hont le sonne eus sa rote. 

Era ao som da rota on chrota britana^ que o iriandez 
(y róis) cantava o lai de.Aelis. Segundo o nome do instru- 
mento a que se cantava o lai, também se lhe chamava ro- 
tuenges. A rota era o confundida com a cithara ou luth, 
(LeUf lou, luz) e é admissível que o nome de lai proviesse 
da designação do instrumento musico. No Roman de Brut, 
falla-se do caracter musical dos lais : 

n aToit apris à cbanter 
Et Ittit e ooles à barper. 

E no fbmance de Raoul de Cambrai, os melhores harpis* 
tas eram os irlandezes e bretãos: 

Grand fo la joíe, se saicbíés de ?erité 
Barptnt Breíons et vielleat joogler. 

No Roman de Brut, falla-se dos differentes estylos dos lais, 
segundo os instrumentos músicos: 

Lais de vieleSf lait dê notet. 
Lais de harpe et de freíiax . . . 

No poema de GiUes de Chin, vem: 



B ARTB PORTUGUBZA 87 



Cíl Tíetoar Tielêot lãit 
Cançofietez et esUmpies. 

A infliieDcia bretS deve attrtbuir-se á corrente dos cruza- 
dos, que ajudaram á reconquista christã da península; á 
vinda de Ricardo Coração de Leão, sua influencia na Na- 
varra, e depois ás luctas de Pedro i com Henrique de Trasta- 
mara, em que tomaram parte as tropas ingiezas do Príncipe 
Negro e os aventureiros do caudilho bret3o Bertrand du 
Guesclin. Estes factos coincidem com a transformação que 
se deu na corrente das ficções europêas, em que as Gestas 
carolínas começaram a ceder o logar no gosto publico ás 
tradições bretãs, mais conformes com o espirito catholico, 
e portanto com a consolidação do poder monarchico. Em 
Portugal encontramos accentuado o descrédito das Gestas 
francezas n'essa parodia picaresca de D. Âffonso Lopes de 
Baião no seu D. Velpelho, e o gosto crescente peias novel- 
las bretãs de Tristão e Iseulty e FUyres e Branóaflor, que se 
exerceu na elaboração do Amadis de Gaula. 

No lyrismo a influencia bretã foi passageira/ porque os 
Lays, que como vemos em Cabrera e em Rodrígo Yanes, 
eram essencialmente musícaes, tomaram-se narrativos eno* 
vellescos. No Poema de Alfonso Onceno, citam-se os instru- 
mentos usuaes no século xiv, na peninsula, e entre elles 
vem: 

Otros estormentos mill 
GoD la farpa i$ don Trittan» 

(est. 109.) 

Um trovador da corte de D. Diniz allude a um costume 
bretão, até certo ponto inexplicável em Portugal, a não con- 
síderal-o como uma imitação affectada de quem se preoc- 
cupava com a novidade; acbam-se no Cancioneiro da Ajuda 
estes versos de um fragmento de canção : 

E f60, filha de doo Pay 
Mooii, e ben tos lemelhá 
d'aTer eu por ? ós guarcaya ^. 

A palavra guarvam será por ventura o kyvarus ou o 
«munera nuptiarum^» que as donzellas recemcasadas pa- 



1 Ap. Trotas e Cantarei, p. 305. 

2 Leget WalUce, p. 779 e 861. 



J 



88 qobstObs db littiratu^ 

gavam ao primeiro trovador da corte? £ este pelo menos 
o sentido mais explicito da canfSo; porque o trovador di- 
zendo que nunca nouve da dama vaUa de uma Corrêa^ es- 
pera comtudo vendo-a casar com outro receber d'ella, como 
trovador, o cmunera nuptiarum» o kyva^us ou guarvaya. 

A influencia passageira do Lyrismo bretão exerceu-se di- 
rectamente em Portugal e Castella; entre nós prevaleceu a 
forma narrativa dos poemas de aventuras, que facilmente 
degenerou na ampliação novellesca e no syncretismo histó- 
rico, como se vé no Nobiliário do Conde D. Pedro. Temos 
representada a imitação bretã no grande Cancioneiro da Va- 
ticana em varias referencias aos Lays, e no Cancioneiro de 
Colocd acham-se colligidos cinco lays imporlanlissimos 
para a comprehensão doesta forma litteraria. Em Hespanba 
os lays também foram imitados e ainda persistiram na poé- 
tica castelhana do século xvi transformados sob o nome de 
Virelays; e, em certa forma podemos attribuir a essa cor- 
rente brelã, fortiflcada pelos aventureiros de Du Guesclin, 
o esplendor da poesia da corte de D. João ii e Henrique iv, 
e a renascença do Lyrismo gallego em Padron e Villasan- 
dino ; o typo de Maneias é uma reproducção tardia do na- 
morado Tristão. 

No Cancioneiro de Colocci-Branculi acha-se um começo 
de rubrica, com o primeiro verso de um Lay, que apparece 
adiante com uma rubrica mais completa ; comtudo essa ru- 
brica fragmentaria é importante porque indica o fado de 
traducção palavra por palavra : «iEsta cantiga he a primeira 
que achamos, que foy feda e fezeron a quatro donzellas en 
el tempo de Rey Artur a Maroet d' Irlanda per la....e tor- 
nada en lenguage palavra per palavra e diz asy: Ó JMaroet 
mal grado.» 

Segue depois sob o numero 2. 

Eis o primeiro lai, da collecção do Cancioneiro de Co- 
locci, com a sua rubrica: 

1. mEste lais fez Elis o Baço, que foy Duc de Sansonha, 
quando^ passou ha Gram Bretanha, que ora chama Ingla- 
terra. E passou lá no tempo do Rey Artur a se combater 
com Tristã, porque lhe matara o padre enhua batalha. E au' 
dando hun dia em sa busca foy pela Joyosa guarda hu era 
a Baynha Yseu de Cornoalha; e vyu-a tam fremosa, que adur 
lhe poderia homem no mundo achar par e namorou-se entom 



B ARTB PORTUOUSZÁ 89 



d'ela, e fez por ela este laix. Este lais posemos aqm porque 
era o mkhor que foi feito : 

Amor, det qoe in*a fót cheguey, 

Bem me poeso de yò* loar, 

Ca may poac'amor, a meu cuydar, 

Valya, roais pois emeodey 

Tam moyi^em mim que com^ao tea 

Era de pobre coraçoo, 

Assy qoe oenhú bem eotom « 

NoD coydaTa qoe era men. 

« 

E sol nom me preçava ém rem, 
Ante me tiioha tam eo ?il, 
Qoe 880 de my falavan mill 
Manca deiían nenhú bem;' 
£ dos qoe m'eo a.TÓs chegoey 
Amor de tod*ai foy quitar, 
So nom de ?os serTÍr pnnbar, 
Logu'ea des y en prez eatrey. 

Quem bante Deos ora grea 
£ per Torey e per ai non, 
A»8y qoe de ?oi boos' soo 
Mais lo om eo prez ca o sen 
Amor, pois. en ai non ey, 
Nen averey nulha sazon 
Se non vós, e meu coracon 
Non será senoo da que ^ey 

Moy fremosa e de gran prez, 
£ qoe polo meu gran mal yy 
£ de quen sempre atendy 
Mal, ca bem nuoca m'clla fez ; 
£ poren voz rrog\i'eu, amor, 
Qoe me façades d'ela aver 
Algun ben, pois yó1-o poder 
Avedes, e mentr*eo já for 

Vyro, caydo Tol-o servir 
E ar direy, se Deus quiser, 
Ben de tós pois que me vefr 
Per vós de qoe m^hade vir. 
£ se m'esto noo fazedes, 
Quo sey qoe será toso ben, 
Gonfonda-vos poren quen tem 
£o seu poder o que queredes 

Ameo, Amen, Amen 

Amen, Amen, Amen, 

Amen, Amen, Amen. 



90 QUBsrrõBs ds littbbatdra 



% Esta Cantiga fezerom quatro dmzdlas a Biaroet d* Ir- 
landa en tempo de Rey Artur, porquê Maaroet fUhava todar 
las Donzelas que achata em guarda dos Cavalleiros se as 
podia conquerer d^elles, e envyava^as pêra Irlanda pêra m- 
vem sempre em servydom da terra. E esto fazia el per que 
fora morto seu padre por razon dliúa donzela que kmva 
en guarda: 

O Maroot aja mal grado, 
Porque Dou aqui cantando, 
Andamas tam segurado 
A ta D grau sabor andando. 

Mal grad'aja, que cantamoal 

E que tan em pai daoçanoi. 

Mal grad*aja, pois cantando 
Nós aqui danças (azemos, 
A tan gram sabor andando 
Que pouco lb'o gradecemos. 

Mal grad*aja, pois cantamos 

£ que tan en paz dançamos. 

E fenba Ibe maa guarda oca 
Porque nós tan segu-adas 
Andamos faiendo dança, 
Cantando nossas bayladas. 

Mal grad*aja, que cantamos, 

E que tan en paz dançamos. 

3. Don Tristan o namorado fez esta Cantiga: 



Moy gram terop'a, par Deus, que eu nom tj 
Quem de beldade vence toda rem, 
E see xe m'ela queixaste porén, 
Gram dereyfé, ca cu bo merecy. 
E bem me pode cbamar desleal 
De querer eu nem por ben, nem por mal 
VÍTer com*ora ssem ela tItí. 

E pois que me de ? íver atrevi 
ssen a yeer, en qoè fiz moy mal sen, 
dereyto faz se me -mal talam tem, ' 
por tal sandice que Teu comety ; 
e con tal coit'e tan descommonal 
se me Deus, ou sa mesura non vai, 
defensem outra non tenb'eu per mi. 



B ARTB PORTUOUEZA 91 



Ca d*8qael dia ei^ qae B*eii parti 
da mha seQor, e meu lone e meu bem, 
porque o fiz a morrer me coovém, 
poys vivi tanto 8em toruar aly 
bo ella é; sue porem eaoha tal 
filboo de mi e me asa mercee fal, 
ay, eu cativo fr'ar qie nacy, 

I. DoD Amor, eo caiit'e cboro, 

e todo me ven d*aly 
da porque eu cant*e cboro 
E que por meu mal dia vy. 

E pêro Ma eu oro 
muy gram dereyto fary 
ca aiy bu eu don oro 
lempre Ibe peç'e pedi 

Ela, e pois eu demoro 
en seu amor, por Deus, de mi 
aja mercée, ca s«e eu demoro 
^ en tal coy*a perder m'ey by. 

O. Don Tristam. — Este layx fezeron donzelas a dom Amo- 
rooth quando estava na Inssoa da quando a Ray- 

nka Genevr' achou con a filha do Rey e Ihy defendeo 

qtíe non parecese anVela: 

I edas selamos oy mays, 
e daucemos, poys dos cbegoo 
e o Deus coooeco juntou, 
cantemos- lb'aqueste lays, 

ca este escudo 6 do melbor 
homem que fez nostro senhor. 

Con este escudo gram prazer 
ajamos, e cantemoa bem 
e daneemos a nosso sen, 
poys io avemos en jioder; 

ca este escudo é do melbor 

homem que fei nostro senhor. 

Oy DOS devemos alegrar 
d*este escudo que Deus aqui 
trooz'e sacamol o asy 
poynhemos moyto en no boorrar; 

ca este escudo é do melhor 

homem que fer nostro senhor. 



92 qusstObs m LirrsRATimA 



Estes lais em Dada differem das formas poéticas proven- 
çaes ; distlDgue-os porém o thema lendário» que yeiu a des- 
envolverse em noyeilas de cavalleria, e as árias ao gosto 
ou iustrumento bretão, que n9o chegaram até nós. O desen- 
volvimento dos poemas arthuríanos na corte de D. Diniz, 
constituindo um género litterario; leva-nos á inferência de 
que o lai como forma lyríca se caracterisava pelo lado mu- 
sical. As melodias e os instrumentos músicos bretães ap- 
parecem na corte dos Merovingianos, como se vé pela ci- 
tação de Venâncio Fortunato, a rhotá britana, percorrendo 
a Europa desde o século vi até ao século xii os cantores 
vagabundos, como nota Villamarqné. No poema de Guãlaume 
au Court-nezy acha-se um vestígio do fervor da moda pala- 
ciana dos lays, citando-se entre os graàdes prazeres da vida, 
a par do bom vinho e da caça, o ouvir os cantos bretãos, 
que eram especialmente agradáveis ás mulheres, como disse 
Denys Pyramus: ^Lais soulent as dames plaire.» A moda 
dos jogos e cantos bretãos ainda se conservou em Portu* 
gal na corte de D. Pedro i, como se observa pelas descri* 
pções da Cbronica de Bertrand Du Guesclin, de Cuvelier. 



II 

As Novellas de aventuras 

Nas Leis de Partidas, de Affonso o Sábio, prohibe-se que 
os cavalleiros ouçam cantares que não sejam de Gesta e 
qiie não fallem de feitos de armas ;'uma tal perscripção ex- 
plica-se pela lucla que se estabeleceu com a recente intro- 
ducção dos poetaas bretãos, que celebravam exclusivamente 
o amor, excluindo as Gestas carolinas, que exaltavam as 
proezas de guerra. A egreja resistiu lambem contra a pro- 
pagação d'estes poemas de aventuras que constiluiram o cy- 
clo poético da Tavola Redonda, cujos beroes se substituiram 
aos Doze Pares, prevalecendo El-rei Arthur sobre o typo 
histórico de Carlos Magno. É na corte de D. Diniz qúe se 
espalham em Portugal as tradições bretãs da Tavola Re- 
donda, coincidindo este facto com uma parodia burlesca das 
Gestas francezas por D.AíTonso Lopes de Baião. Póde-se 
dizer que essas tradições bretãs entraram primeiramente 



B AATE PORTUGCBZA 93 



na forma de conto ou kU narrativo, tal como se propaga- 
ram na Europa os Lais de Mane de France; desenvolve- 
ram-se pela leitura predilecta das novellas de Tristão e 
Iseult e de Flores e Brancaflor, citadas nas canções de el- 
rei D. Diniz (Cauç. n.® 115) e pelo jogral Jo3o de Guílhade 
(Ganç. n.® 358); estas mesmas tradições colhidas na sua 
fonte lítteraria do Roman de Brut, de Robert Wace, transfor- 
mãram-se em paginas históricas nos preâmbulos do Conde 
D. Pedro ao seu Nobiliário onde descreve os combates de 
Ârtbur, a ilha de Avalon e Merlim. 

O fervor pelas tradições, bretãs na corte de D. Diniz ex- 
plica-se pela situação da nacionalidade; em Portugal estavam^ 
desde Affonso ni terminadas as guerras de conquista, as 
potoações do reino organisavam-sa em concelhos, o direito 
romano regulava as prepotências dos barões submettendo os 
á vontade real, e por isso as Gestas feudaes não tinham 
uma relação vital com a sociedade portugueza. Passava-se 
o contrario em Hespanha, onde a guerra de reconquista só 
acabou no fim do século xv, e onde o poder real só muito 
tarde pôde implantar a unidade monarchica sobre a resis- 
tência dos estados peninsulares pela sua autonomia; com- 
prehende-se portanto que Affonso o Sábio probibisse os Can- 
tares que não fossem de Gestas ou não faltassem em feitos 
armas. A situação portugueza, em que a paz se tornou um 
priucipal agente de progresso, coadjuvou a transformação 
d'essas tradições bretãs em uma nova forma litteraria, que 
se propagou a todas as litteraturas românicas,— a Novella 
de Cavalleria. Se faltassem as provas directas, quasi que se 
poderia deduzir á priori que a Novéila cavalheiresca do Ama- 
dis de Gaula fora escrípta na corte de D. Diniz; nenhuma 
corte peninsular tinha então, como a portugueza, a estabi- 
lidade para a cultura artística, para a galantaria das damas, 
para os passatempos litterarios, e foi esta situação moral 
que estimulou essa extraordinária efilorescencia poética con- 
tida nos Cancioneiros da Vaticana e de Colocci, e na inven- 
ção singular do Amadis de Gaula, formado sobre um lai oa 
chacone narrativa, pela assimilação dos mais apetecidos epi- 
sódios de todos os poemas amorosos da Tavola Redonda. 
As tradições bretãs conservadas até ao século xu no iso- 
lamento insular, e como estimulo de resistência da raça cél- 
tica vencida contra a raça invasora dos Saxões, revivesce- 



94 QUISTOBí Dl LITTBIIATURA 



ram e diffundiram-se Da Europa pelo saccesso hislorico de 
tríumpho dos NormaDdos sobre os Saxões odiados. Parece 
que a aotiga raça esmagada se rejuTeoesceu oa sua tradi- 
ção, e que a Bretauha coDtiDental, combalida tambeai nas 
suas creoças pelo dogmatismo caihotii-o se alliava pelo eo* 
thosiasmo ao fervor das ieudas insulares. A redacção lictera- 
ria de Robert Wace suppriu a transmissão oral, e na vida 
sedentária das cortes o Roman de Brnt era lido com uma 
predilecção crescente, que ia* faltando ás Gestas caroliuas; 
a importância social da mulher, exaltada pelo lyrismo pro- 
vençal, coadjuvava o interesse pelos poemas de aventuras 
da Tavola Redonda, que vinham servir de tbema á redac- 
ção syncretica das cbronicas. e ás haliucinações religiosas 
pelo cyclo da cavalleria celeste da Demanda do Santo GreaL 
Na corte de D. Diniz preponderou a hallucinação religioifa 
fomentada pela rainha D. Isabel, instrumento do seu con- 
fessor Frei Estevara, que se serviu d'ella contra o marido 
e nas dissenções com o príncipe D. Affonso, e que por via 
d'ella propagou a crença na conceição de Maria, a ftísla ^to 
Espirito Santo, e a trasladação dos Martyres de Marrocos 
para Coimbra, usados como meios de agitação revoluciona- 
ria pelo confessor franciscano. A credulidade facilitava a 
propagação das tradições da Tavola Redonda e da Cavalle- 
ria celeste, como a da ilha encantada de Barontus, que um 
século depois se toma o estimulo dos nossos navegadores 
que buscam pelo athlanlico as Ilhas Forlunatas, e vão á 
procura do Reino chrislão do Preste João das índias. 

Na canção 930 do Cancionpiro porluguez da Vaticana, ci- 
ta-se a lenda da morte de Merlin pela iada Viviana : 

Com^ftveo a Merlin de morrer 
per sea gram saber, que el foy mostrar 
a Jat moiber, que o soab^enganar; 
per essa guiéa »e foy coofonder 
Martím Vaíques, perqnanfeu lh'oy, 
qae o tem motto huã molher assi, 
a que mostrou, por sen «ai, saber. 



E é que Ib'é muyto grave de teer 
por aquelo que lh'el foy mostrar, 
em estar com quem sabe que o pod'ensarrar, 



E ARTB P0RTU6UEZA 93 



ea tal logar ba coofen d'alender 
a tal morte de qual morieu Merlim, 
ho dará vozes faiando ssa fim, 
ca DOD pod^el tal luoita eácaecer. 

Esta canção pertence a Estevam da Guarda, fldalgo fa* 
vorito de D. Affonso iii, que ainda figura na corte de D. Di- 
niz, quando o Conde D. Fedro introduzia no Nobiliário às 
tradições bretãs do Romatt de Briit como narrativas histó- 
ricas. 

Na canção H40 acha-se nma rererencia a outra tradição 
popular bretã, que nos e^^plica a superstição citada no No- 
biliário do cootiro de Byscaia, e se liga ao cavallo magico 
Bayard, solto na floresta das Árdennas : 

Disse bom ínfanf<$ ante ?a companha, 
que lue daria besta na frooteira 
e Don será já murtella, nem vpyra, 
nem branca, nem vermelha, nem castanha; 
pois amarella, nem parda noro for, 
a pram será a tefta ladradw 
que lh*adu8am do reyno da Bretanha? 

As Viagens do monge bretão San Brendan^ acham-se ci- 
tadas por Gomes Eannes de Azurara, na Chranica da Con- 
quista de Guiné, como aproveitadas pelos nossos primeiros 
navegadores. Emfim, a predilecção pelas novellas bretãs 
pode-se conhecer pelos nomear civis da aristocracia porlur 
gueza do século xiv, que eram TristSo, Yseult, Genebra, 
Lisuart, Lancelot, ou Lançarote, Percival, Viviana, etc; 
e nas relações sociaes, muitas vezes os personagens da Ta- 
vola Redonda eram imitados pelos nossos cavalleiros, como 
se lê na Chronica do Condestavel que imitava a virgindade 
de Galaaz. 

Fernão Lopes, na Chronica de D. João 2,- cita essa pre- 
ciosa anedocla passada entre o monarcha e os seus caval- 
leiros, no cerco de Coria: «Gram mingoa nos fizeram hoje 
este dia os boos. cavalleiros da Tavola Redonda, ca certa- 
mente elles foram, nós tomáramos este logar. Estas^pala- 
vras nom pode ouvir com paciência Mem Rodrigues de Vas- 
concellos, que logo nom respondesse, e disse: Senhor, nom 
fizeram aqui mingoa os Cavalleiros da Tavola Redonda . . . 
«ias fez-nos a nós- aqui gram mingoa o bom rey Arthur, 



96 QUESTÕES DE UTrERATURA 

flor de lis, senhor d'elles, que conhecia os boos servido- 
res,» etc.^ Citamos esta tradição para mostrar a predUec- 
çSo das Novellas da Tavola Redonaa em Portugal; esta tra- 
dição existiu em França, no século xiii, mas applicada ás 
ficções do cyclo carlingiano. Diz Francisque Michel: coau- 
ctor de um Diccionario theologico, composto, segundo to- 
das as apparencias, no século xiu, conta que um jogral tendo 
perguntado ao rei Pbilippe em que pensava, este lhe res- 
pondera:— Pergunto a mim mesmo, porque já não ha boje 
cavalleiros tio bons como Roland e 011 vier ;—e que o moço 
jogral replicou:— £ que boje já não ha Carlos.» ' Apredí* 
lecção da corte de D. João i adquiriu mais intensidade com 
o casamento do monarcba com a filha do Duque de Lencas- 
tre, e o próprio rei mandava traduzir a grande novella de 
Robert de Boron da Demanda do Santo Greal, que, para 
vergonha dos nossos governos se conserva inédita na Bi- 
bliotheca dé Yienna. A Bibliolheca de ei-rei D. Duarte, opu- 
lentíssima das obras mais estimadas da edade media, guar- 
dava as principaes composições do cyclo da Tavola Redonda, 
como o Tristão, o Galaaz; os poetas do Cancioneiro de Re- 
sende conheciam a novella de Joseph ab Arimathia, e D. 
João II nos seus divertimentos palacianos apparecia «inven- 
cionado CavaUeiro do Cysne,^ 

Em um romance popular da Ilha da Madeira encontramos 
a acção dos amores da rainha Ginebra e de Lançarote, com 
o titulo de D. Eurives. Este titulo está por 3i indicando a 
origem da tradição; o nome de Ginebra na sua forma bretã 
; é Givennivar, que se pronuncia Uenivar, o qual na corru- 

pção da forma popular é o nome de Eurives. Nas Rimas 
escrevia Camões (t.' lu, p. 43^ ed. Jur.) : 



Gíoebra qiie foi rainha 
Se perdea por Lançarote. 



Os nomes dos heroes da Tavola Redonda eram adopta- 
dos pela principal aristocracia da Ilha da Madeira no século 
XV : «O quarto e ultimo filho do capitão Tristão se chamou 
Lançarote Teixeira: foi um dos melhores ginetarios da liba; 



1 Chr, P., II, cap. 76. 

< La Ckanton de Roland, (ed. 1869.) p. xiii. 



E ARTE PORTUGDEZA 97 



porqae alèm de por sua inclinação ser mui bom cavalleiro, 
tinha mui grande mão para domar cavallos, e era dado 
muilo a isso, em tanto que em seu tempo se ajunctavam na 
Yilla de Macbico sessenta cavalleiros de esporas douradas 
muito bem postos e encavalgados por industria d'este Lan- 
çarote Teixeira, que, quando vinha hum dia de S. João ou 
de Corpo de Deos, eram tantos os cavallfeiros para jogos 
de canas e escaramuças, que mais parecia exercito de guer- 
ra, que folgar de festa: e alem de todos serem mui destros 
n'esta arte, elle todavia tanto se divisava entre elles, que 
se pôde com rasão dizer que foi luz e ornamento de Ma- 
chico.» (Saudades da Terra, p. M5). 

Lançarote Teixeira comprehendia a responsabilidade do 
seu nome, e imitava esse ideal das novellas da Tavola Re- 
donda; è por isso que nos não admira ver o romance de 
Gwennivar (D. Eurives) unicamente conservado na tradição 
popular da Ilha da Madeira, quando falta em todos os' ou- 
tros centros da tradição. 

As lendas bretãs, que nos provocaram na lítteratura por- 
tugneza a creação das Novellas de cavalleria pelo Amadis 
de Gaula, deram á nacionalidade o estimulo para sob o jugo 
castelhano idealisarmos em D. Sebastião um salvador da 
nacionalidade portugueza, também, como o rei Arthur, guar- 
dado em uma ilha encantada ^ 



^ A tradição de om rei qae Dão morre e fica encantado oo encoberto, ap- 
parece na índia referida ao soltSo Badur, morjo em Diu pelof portugjiezes em 
1537. Dis d'elle Diogo do Cooto na Deci^da v, livr. i, cap. 11 : «tem os Gaze- 
rates pêra si ainda boje, que n&o podia morrer, e quo está vivo, e que anda 
em 6gura de peru oaquelle rio, e que ainda por tempos hade tornar a reinar, 
qoal ootro Arthur em Inglaterra em fignra de corvo.» Diogo de Cooto escre- 
^eo esta Década no fim do secolo^xvi, e a nao referencia á lenda popular de 
D. Sebastião^ revela-noe que ella ainda se não propagara aproveitando os ele- 
meotos tradicionaes e mytbicos que existiam entr^ o povo (Vid. também De- 
caia TU, iív. I, cap. 8.] 

7 



SOBRE A 0RI6EH PORTDGDIZi DO AHADIS DE GADLi 

I 

Publicado na FUvista di Filologia Romanza. vol. I, fase. Hl, 

• Roma, 1873 

É facto assente, que a forma em que a novella de Ama- 
dis de GaiUa se vulgarisou na Europa foi em hespanhol, sob 
o nome de um certo Garci Ordones de Montalbo, que a si 
mesmo se chama «Regidor de la nobie villa de Medina dei 
Campo.» A época em que começou o trabalho da versão 
pôde 8xar-se em 1492, porque allude á tomada de Gra- 
nada por Fernando o Calbolico> quando diz no prologo: 
«pues si en el tiempo de estos oradores, que mas eu la 
fama que de intereses ocupaban sus juicios y fatigaban sus 
e*spiritus, acaesciera aqueUa conquista que el nuestro muy 
esforzado y católico rey Don Fernando hizo dei reino de 
Granada, cuántas flores, cuántas rosas en ella por ellos 
fueron sembradas, asi en iò tocante afl esfuerzo de los ca- 
balleros....» Além de se saber, que antes de 1492 era já 
citado por muitíssimos escriptores hespanhoes e portugue- 
zes uma redacção do Amadis de Gaula, o próprio Garci Or- 
dones de Montalbo escreve no prologo e repete no liuilo 
do primeiro livro do Amadis : cel cual fué corregido y emen- 
dado.... é corregióle de los antiguos originales que estaban 
corruptos e compuestos en antiguo estilo, por falta de los dif- 
ferentes escriptores; quitando muchas palabras supérfluas é 
poniendo otras de mas polido y elegante estilor, tocantes á 
Ia caballeria é actos de ella.» A parte sublinhada d'est^trans- 
cripção autbenticanos a existência de um texto do Amadis, 
o qual já em i492 eslava anli(]uado nas palavras, na con- 



9 

QUESTÕES DB UTTBRATUBA E ARTE PORTUGUESA' 99 

/ 

strucç3o e no estylo» do qual hayia mais do que um orígi* 
nal, tudo muito deturpado pelos erros dos copistas ; Mon* 
tallKV ahi declara a parte que lhe pertence na redacção bes* 
panhola do Amadís, que vem a ser a aíTectação, o artificio, 
a rbetorica, o sentimentalismo, o absurdo na aventura/ a 
moral pedantesca, emfim, a influencia culta do ultimo quar- 
tel do século XV, quando Nebrixa dooÉiava os estudos 
clássicos da Península. 

Procuremos restituir esse original antiquado do Amadis 
pelas noticias dispersas dos escriptores que o citaram antes 
de 149á. Esse texto conotava, pelo menos de dois originaes, 
a saber: os primeiros três livro», que apparecem citados 
em 1405 e 1406 pelos poetas do Cancioneiro de Baena» e 
o quarto livro, por ventura, continuação feita depois d'es- 
tas datas, que só veiu a ser conhecida na forma que Ibe 
deu Montalbo. Diz este escriptor no seu prologo: «É yo 
esto considerando, y deseando que de mi alguna sombra 
de memoria qnedase, no me atreviendo á poner mi flaco 
iogenio en aquello que los mas cuerdos sábios se ocuparan» 
quisele juntar con estos postrimeros que las cosas mas li- 
vianas y de menor sustancia escribieron, por ser á él, se- 
gun su flaqueza, mas conformes, corrigiendo estos três li- 
bras de AmadiSf que por falta de los maios escriptores õ 
componedores muy corruptos ó viciosos se leian, y trasla- 
dando y emendando el libro cuarto.... que hasta aqui no es 
memoria de ninguno ser visto etc. » O facto de alludir a di- 
versos auctores (componedores) vem justificar as tradições 
de Vasco de Lobeira, que pareciam contradizer-se com as 
de um tal Pedro Lobeira, de quem diz Jorge Cardoso, que 
a pedido do infante D. Pedro trabalhara no Amadis; ora 
sabeodo-se que o quarto livro só foi conhecido no figo do 
século XV, e sabendo-se as vicissitudes por que passou a 
familía do infante, desde .Alfarrobeira até ao principio do 
reinado de D. João u, explica-se o modo do seu desappa- 
recimento, e como foi parar a Hespanha, onde morreu tris- 
temente o Condestavel de Portugal, seu filho. Demais a al- 
liaoça da corte portugueza com a castelhana em 1491, as- 
sim como explica a connexão poética dos versejadores pa- 
lacianos dos Cancioneiros, também levaria Montalbo, que 
tinha caracter ofBcial como Regedor de Medina dei Campo» 
a renovar um assumpto portuguez com o qual podia lison- 



100 QUB8TÒES DB LITTBR ATURA 

gear as duas cortes. No cap. xix do liv. i do Amadis já se 
allude ao quarto livro: cE á tiempo fué, que esta palabra 
que alli dijo aprovechó mucbo á Ia due&a, asi como eo el 
cuarto libro desta historia vos será contado.» (Ed. Ribada- 
neyra, p. 51.) É impossível que Montaibo, ao aproveitar- 
se de um original antigo, logo no principio do trabalho das 
emendas e da vei^âo, já estivesse decidido a escrever um 
quarto livro, e o que mais é o declarasse positivamente. 
No livro I, cap. 42 do Amadis, vem o celebre episodio dos 
amores de Briolanja, qu^ o traductor Montalbo cpndemna, 
como alheio ao plano da novella : «Todo lo que mas desto 
en este libro primero se dice de los amores de Amadis è 
, desta hermosa reyna (Briolanja), fuè acrecentado, como ya 
se os dijo ; è por eso, como supérfluo é vano se dejará de 
recontar, pues que no hace ai caso; antes esto no verdadero 
contradiria é dafíaria lo que con mas razon esta grande his- 
toria adelante os contará.9 (Ibid., 103.) Gomo é que Mon- 
talbo poderia condemnar este episodio de Briolanja, e cor- 
talo, e ao mesmo tempo prometter desenvolvel-o no quarto 
livro, como se vè: «Esto Ueva mas razon de ser creido, 
porque esta fremosa reyna (Briolanja) casada fué con Ga- 
laor, como el cuarto libro lo cuenta » ? Como è que o rbe- 
torico Montalbo podia reprovar este episodio, e tornar a al- 
ludir a elle no tim do livro segundo, na scena em que 
Oriana e Briolanja, conversam acerca de Amadis, e em que 
esta lhe conta como teve d'elle dois filhos? D'aqui se vè 
que Montalbo nao pôde apagar completamente sob a sua 
versão, o caracter do texto primitivo que' transparece atra- 
vés doestas contradicções. Montalbo, preoccupado com a dif- 
fusSo de uma rhetorica palavrosa, não comprehendeu o nexo 
entre a mesma situação do primeiro e segundo Imo; em 
grandes passagens copiou mechanicamente esem intelligen- 
x;ia do que fazia, por isso que deixou intercalada no texto 
uma rubrica ou declaração acerca do interesse que o in- 
fante D. Aífonso de Portugal tomou pelos amores de Brio- 
lanja. Esta rubrica encerra um poderoso argumento histó- 
rico para a origem portugueza do Amadis: ^aunque el se- 
fíor Infante don Alfonso de Portugal, kabiendo piedad doesta 
fremosa doncella (Briolanja) de otra guisa lo mandase poner. 
En esto hizo lo que su mercê fué, mas no aquello que en ef- 
fecto de sus amores se escribia.T^ O infante Dom Affonso de 



E ARTB PORTUGUBZA 101 



Portugal que pediu a emenda do episodio de Briolanja, quem 
poderá sér, senão o^ filho herdeiro de elrei D. Diniz, que 
teve muito cedo casa apartada (1297) e que dizia segundo 
a Chronica de Nunes de Leão: 

Para amores e refezes 

Niogaem melhor qoe os portogoeies. — ? 

O filho de D. António Ferreira, na edição dos Poemas lu- 
sitanos, affirma que esse infante era effectivamente o filho 
de ei-rei D. Diniz; basta notar que no reinado de D. Af- 
iboso IV se extinguiu a poesia trobadoresca portugueza; que 
elle mostrou quanto imitava a cavalleria das novellas, no 
modo como procedeu na batalha do Salado. D. Pascual de 
Gayangos, querendo destituir de importância a allusão ao 
infante don Alfonso de Portugal, diz que já em Hespanba 
era conhecido o Amadis em 1359: «Por otra parte, el in- 
fante don Alfonso de Portugal, protector de Lobeira, y que, 
segun mas adelante veremos, le hizo introducir en el texto 
dei Âmadis una modificacion importante, no naciõ hasta 
1370, y no es de presumir diese á su protegido la orden 
que se alega, hasta el afio de 1382, lo mas pronto, puesto 
que habremos ya de suponer en él juicio y edad bastantes 
para haber leido y saber apreciar los sentimientos allí ex- 
presados^» 'O facto produzido por D. Pascual de Gayangos 
é gratuito, não existe na historia portugueza nenhum in- 
fante D. Aífonso nascido em 1370; logo a allusão da no- 
vella refere-se, como diz Du Puymaigre, que copia Gayan- 
gos, mas aqui o corrige: ca um príncipe que foi rei sob o 
nome de Affonso iv, e que nasceu em Coimbra em 1 i90. 
Este infante devia contar vinte annos en 1310, e estava en 
edade de poder interessar-se pela Briolanja^.» O infante 
D. Affonso só veiu a reinar en 1325; por tanto, desde 1297 
houve tempo. bastante para ser elaborado o Amadis de Gau- 
la, da mesma forma que fez João de Barros com a novella 
do Clarimundo, escripta aos cadernos para o príncipe que 
depois foi rei com o nome de D. João iii. D'aqui se vê que 
podia em 1367 o Chanceller Ayala citar o Amadis no seu 



^ Liòrof de Caballeriatt p. xxni. 

^ Yieux AuUurs castUlant, tom. ii, p. 183. 



1Ô2 qubstObs db littbratura 

Rimado de Palaão, mesmo como reminiscência da moci- 
dade (1355), sem comtudo dar-se esse anacbronismo ima- 
ginário tão descuradamente alaranjado por D. Pascoal de 
Gayangos. O caracter varonil e forte do infante D. Afibnso 
de Portugal, que andou sempre em lucta com seu pae el- 
rei D. Diniz, revela-se na emenda que mandou fazer no epi- 
sodio de JBriolanja; onde Amadis recusava a offerta do seu 
corpo, eicusando-se com as muitas lagrimas choradas por 
Oriana, manda que lhe faça dois filhos de um só ventre! 
Esta harmonia, vale mais do que a historia. 

Para combater a tradição do infante D. Afibnso, tão po- 
sitivamente declarada por Miguel Leite Ferreira no século 
XVI, D. Pascual de Gayangos produz uma outra tradição 
bespanhola ; diz elle, que na Bibliolbeca nacional de Madjrid 
existe um manuscripto, intitulado Idemorias de los Zapaias, 
DO qual se lé, que Don Luiz Zapata, pagem da rainha D. 
Isabel, filha do rei D. Manuel e mulher de Carlos v, reco- 
lhera em Portugal a tradição, que: «era fama en aquel 
reyno, que el Infante Don Fernando, hijo de Don Alfonso, 
habia compuesto el libro de Amadis. » E acrescenta Gayan- 
gos : «Fuè D. Luiz embajador nuestro en Lisboa, por los 
anos de 1550, y se lo oyó decir á la Infanta Dona Catalina 
biznieta dei mismo Don Alfonso.^» Mesmo na tradição mais 
absurda ha um fundo de verdade ; Don Luiz Zapata con- 
fundia a tradição da novella de Tirant el Blanch «dirigida 
por Mossen Joanot Marlorell, cavalier, ai serenissimo Prin- 
cep don Fernando de Portugal,:» com a novella do Amadis. 
Mo fim do Tirant se lê esta declaração: «Lo qual fou tra- 
duit de Angles en lengua Portugueza, e apres en volgar len- 
gua valenciana,» o que fez allribuir ao princepe D. Fernan- 
do, irmão de D. Affonso v, a traducção portugueza, que 
por ventura nunca existiu. O príncipe D. Fernando era 
phantastico, vaporoso e poeta, o que justifica esse syncre- 
tismo d^ tradição novellesca. 

Vejamos agora as citações áo Amadis de Gaula, feitas 
pelos trovadores castelhanos, d'onde se conclue que até 
1406 não eram conhecidos mais do que três livros da no- 
vella. Gayangos, sobre notas de Pidal, tira d^essas referen- 



^ Ub, de CaballeriaSf p, xxii. 



B ARTB PORTUGUBZA Í03 



cias argumentos contra a redacçSo portugaeza, fixando-as 
todas no meiado do secolo xiv: infelizmente para elle, es- 
ses argumentos nao tem lógica nem verdade. A primeira 
citação do Ama^ é do trovador Fray Miguel, que figura 
no Cancioneiro de Baena: 

• Âmadis aprés, 

Trittan i Galas, Lançarote dei Lago 
é oiros aqoestos, decitme qual drago 
trago todos estos, ó dellos qoe es. 

[Canc, de BaetMj t. i, p. 46.) 

Gayangos diz vagamente, acerca' de Fray Miguel: ttam- 
l)ien conservan poesias con Ia misma fecha de 1379....» 
Mas para que recuar ao século xiv cora tanto empenho, se 
a rubrica d'esla poesia fixa a sua data em 1406: «Este de- 
2ir fizo fray Miguel de la orden de Sant Jerónimo,- capellan 
dei onrrado obispo de Segóvia Don Juan de Tordesyllas, 
guando fynó el dicho seflor rey Don Enrryque en Toledo. ...» 
Em uma poesia de Affonso Álvares de Villassandíno acha- 
mos uma rubrica, que nos determina com todo o rigor a 
data do Decir de Fray Miguel: «quando el dicho senor rey 
Don Enrryque fino en la cibdat de Toledo, el domingo de 
navidat dei afio de mill é quatroçientos é ^y^íe....*» Como o 
anno novo se contava da noile de natal em diante, se con- 
cluo, que orei morreu ainda em 1406. A intenção de Gayan- 
gos era provar qoe se conhecia em Hespanha um Amadís 
muito antes de ter existido o infante D. Affonso dePorlu- 
gal. Anullado este, vejamos os seus outros argumentos. O 
trovador Micer Francisco Imperial cila, a par de Tristão e 
de Lançarote os amores 

.... de Âmadii é los de Oriana 
é ... los de Blancaflor é Flores. 

{Canc. de Baena^ t. i, p. 201.) 

Sobre a data d'esta referencia, escreve Gayangos, sempre 
com o seu intuito, dizendo que o trovador Imperial: «flo- 
reció casi por el mismo tiempo (1379), todos los cuales alu- 
dieron frecuentemente en sus versos ai libro de Âmadis.^ 



t Canc. de lía^nOf t. i, p. 38. Ed. de Leipzig. 



104 QUESTOBS DB LITTBRATUBA 



Que importa que florescesse em 4379 se a rubrica ioicial 
doesta poesia declara que fui escripta em 1405? Eila: «Esle 
decir fiso é ordeno miçer Francisco Imperial... ai nasci- 
miento de nostro senor el rey Don Juan, quando nasció eu 
la cibdat de Toro, ano de M.CCCCV^ ele.» Por occasião 
d'este nascimento, a rainha D. Calberina mandou fazer um 
torneio en Yalbadolid, e n'elle se encontraram alguns ca- 
valleiros portuguezes, como se vô por este Dizer de Fer- 
rant Manoel de Lando: 

De dentro de Portvgal 

Tíno on Doble cavallero w 

Ferrando Portocarrero... 

Este facto indica-nos como a tradição do Amadis passou 
da cõrle de D. Fernando para a de Castella. Ayala, que taiti- 
bem cita o Amadis, esteve egualmente em Portugal prisio- 
neiro na batalha de Aljubarrota. Don Pascual de Gayangos 
tira mais outro argumento de umas coplas de Pêro Ferrus : 

Amadii, el may feroioto 
]a8 lIoYÍas y las ^enliscas 
DDoca Ias falto ariscas 
por leal ser é famoso : 
sut ^oezat fallaredei 
en ires libros, e diredes 
que le Dios dé santo poso. 

{Canc, de Baena, t. i, p. 811.) 

Sobre isto exclama Gayangos: cEs Pêro Ferrus uno de los 
mas antiguos trovadores mencionados en el citado Gancio- 
nero; no solo escribió en 1379 un decir á la muerte de 
don Enrique ii, sino que Alfonso Alvarez Yillassandino, que 
suponemos nacido em 1340, babla de èl como de poeta 
que le habia precedido de muchos anos.» Que vale esta ar- 
gumentação, se o Decir de Pêro Ferrus, allude ás faça- 
nhas de Enrique ii, já fallecido depois de 1406, e no qual 
^refere também as suas victorias em Portugal, sobre el rei 
D. Fernando: 

No dexó por lafajal 
de llegar fasta Lixbooa, 
é oorró la su corona 
tree ?eces en Portofçal. 

(Ibid., 323.) 



E ARTE P0RTU6UBZA 105 



Achamos o Amadis citado em Fernão Peres de Gusmão, 
e Fernando de la Torre, em Yillassaodino e'em Juao dei Eo- 
cioa, mas a data das suas composições é indubitavelmente do 
século XV. Emquanto o Amadis andou na forma manuscrip- 
ta, eslava sujeito ás variantes da linguagem, e sobretudo 
dos costumes e das allusões históricas. Azurara, citando 
Vasco de Lobeíra, reconhecido auctor do Amadis, afiirma 
que vivera em tempo de eUrei D. Fernando. Esta asserção 
não se oppõe a ter Vasco de Lobeira vivido na corte de D. 
Affonso IV, e ter escripto sob a sua protecção quando in- 
fante, pelo contrario explica-nos uma allusão contida na No- 
vella, a qual só quadra á grande emigração dos fidalgos 
gallegos para Portugal, no reinado de D. Fernando, (como 
se descreve no liv. i, cap. 32.) Na Chronica do Conde D. 
Pedro de Menezes, de Azurara, escrigta em 1454, encon- 
tramos: «Estas cousas diz o Commeiitador,^ que primeira- 
mente esta Istoria ajuntou e escreveo, váo assy çscriptas 
pela mais chã maneira.... jaa seja que muitos andores co- 
biçosos de alargar suas obras, forneciam seus livros recon- 
tando tempos, que os Príncipes passavam em convites, e 
assy de festas e jogos, e tempos alegres, de que se nem 
seguia outra cousa se nom a deleitaçam d'elles mesmos, 
assi como som os primeiros feitos de Ingra terra, que se cha- 
mava Gram Bretanha, e assi o Liiiro d*Amadis, como que 
que somente este fosse feito a prazer de um homem, que se' 
chamava Va^co de Lobeira, em tempo d' El Rei Dom Feman- 
dOf sendo todalas cousas do dito Liuro fingidas do Autor, 
etc.f (cap. 63.) Esta Chronica esteve inédita desde 1454 
até 1792; portanto a tradição de Vasco de Lobeira vulga- 
risou-se por outras fontes. Antes da versão de Monialbo 
feita em 1492, já o Amadis era conhecido em Portugal, por 
isso que achamos citada Otiana mais de que uma vez no 
certame poético de Cuidar e Suspirar de 1483, que vem 
DO Cancioneiro de Resende^ Attendendo ao tempo em que 
Azurara se referia ao Amadis, conclue-se que sò podia pos^- 
suir esse livro um príncipe opulento; de mais Azurara era 
bibliothecario de el-rei D. Affonso v, e por certo essa no- 
vella ali existiu, como se pôde induzir pelo facto de andar 



1 Ed. de StQttgart. t i, p. 7 e 14.. 



106 QUESTÕES DE LITTERATDRA 

« -. , 

Yínculada na casa dos duques de Aveiro» que vinham de 
stírpe regia. Um dos ramos do Amadis, intitulado Lisuarte 
de Greda, foi dedicado ao duque D. Jorge, bastardo de 
D. João II, e pae do duque de Aveiro em cuja Livraria o 
poeta António Ferreira o encontrou. No Manuscripto das 
Antiguidades e cousas notáveis de Antre Douro e Minho, do 
Dr. João de Barros, que se guarda na Bibltotbeca publica 
de Lisboa, falase também do Lívrò de Amadis, referindo- 
se á cidade de Porto: c£ d^aqui foi^ncuural Vasco de Lo- 
beira que fez os primeiros quatro livros dé Amadis, obra 
certo mui subtil e graciosa e aprovada de todos os galantes; 
mas como estas cousas se secam em nossas mãos, os Castelha- 
nos lhe mudaram a linguagem, e attrihuiram a obra a si,"» 
Este manuscripto foi composto em 4549, e o facto de estar 
inédito, prova-nos que também nada influiria sobre a tra- 
dição de Vasco de Lobeira. 

O dr. António Ferreira começou a colligir os seus Poe- 
mas Lusitanos em 1557, como elle declara no seu primeiro 
soneto. No soneto 34 do livro ii, trata da anecdota dos amo- 
res de Briolanja, fingindo linguagem antiga : 

Bom Vasco de Lobeira, e de gram tea 
De prfio que vos avedes ò«m catUado 
O feito de Amaiit, o namorado, 
Sem qoedar eode por cootar hi reo.... 

A importância d'este documento e do soneto 35 conhe 
ce se pela seguinte nota de seu filho, quando publicou os 
Poemas Lusitanos em 1598: ^Osdous sonetos que vão afl» 
24 fez meu pae na linguagem que se costumava n'este reyno 
em tempo d'el Rey D. Diniz, que he a mesma em que foi com- 
posta a historia de Amadis de Gania por Va^co de Lobeira, 
natural da cidade de Parto, cujo original anda na Casa de 
Aveiro. Divulgaram-se em nome do Iffante D. Affonso, filho 
primogénito d'el Rey D. Diniz, por quam mal este princepe 
recebera (como se vê da mesma historia) ser a fermosa Brio- 
lanja em seus amores maltt^atada.^ A importância doeste do- 
cumento A incalculável; 'O pae do quinhentista Ferreira era 
vedor da Fazenda do duque D. Jorge, pae do duque de 
Aveiro; poKanto Ferreira era amigo do duque, também 
distincto poeta, do qual restam algumas composições. Con- 
ira este argumento D. Pascual de Gayangos sò teve um 



E ARTE P0RTU6UBZA 107 



meio de refutação, — o negar a existeDcia da nota de Mi- 
guel Leite Ferreira na edição de 1S98. É incrivei que ura 
litterato, como Gayan^s, podesse commetter tal cousa, 
quando em mais de outo exemplares da edição de 1598 te- 
mos encontrado a dita nota, e recolhido o testemunho dos 
sentidos de outras pessoas. Eis as palavras de Gayangos : 
cLa nota attribuida ai hijo de Ferreira, con que se pretende 
probar Ia existência dei manuscrito original en el palácio 
de los Duques de Aveiro, y la que se asegura puso igual- 
mente ai Soneto relativo ai incidente de Briolanja tw se haU 
lan en la edicion de 1698, única antigua que se coaoce de 
los Poemas Lusitanos. Anadidas posteriormente en la reim- 
pression de los Poemas, hecha en 1772, son obra de Edi- 
tor moderno y no dei hijo de Ferreira. El testimonio queda, 
pues, reducido á la simple asercion de Don Nicolás Antó- 
nio, quien sin duda vió algun ejemplar con una nota mar- 
ginal y manuscrita de lector ocioso y autor desconocido, 
pueslo que, á ser dei hijo de Ferreira, este la hubiese m- 
tercalado en el texto impreso.» Por este documento se vê 
que Don Pascual de Gayangos não percebeu o prologo 
feito.por Pedro José de Fonseca em 1772, onde transcreve 
no seu estudo biográfico a nota do filho de Ferreira, mas 
também que não soube traduzir o latim de Nicolau António, 
que confessa ler visto essa nota: «Hujus autographum (o 
exemplar da Casa de Aveiro) lusitanum extare penes Dy- 
nastas Aveirenses notatiim inveni in quadam .nótula, quw 
post Antonii Ferreirce Lusitani poetce opera edita est.i^ D. 
Pascual de Gayangos imaginou que quadam nótula signifi- 
cava unia* sigla manuscripta de leitor ocioso 1 Nicolau Antó- 
nio referia-se á edição de 1598; morrendo este bibliogra- 
plio cm 1684, como podia illudir-se com a pretendida fal- 
sificação do editor de 1772? A sciencia não admitte esta má 
fé; o sr. D. Pasqual de Gayangos fez negações de uma obra 
que nunca viu. 

Resta-nos saber quando se perdeu o original do Amadis 
de Gaula, que andava na Casa de Aveiro, e que ahi se con- 
servou pelo menos até 1 898. Na Conta dada pelo conde de 
Ericeira á Academia de Historia portugueza em 31 de maio 
de 1726, descrevendo a rica livraria do conde de Vimeiro, 
que a este tempo estava entregue a um creado velho, cita 
soí o numero 19°, um catalogo d'esta livraria, entre cujos 



108' QUBSTOBS de LITTERATUnA 

livros vem apontado o imadi» de Gatda em Portuguez, como 
existente ali em 18 de março 1686, mas já no tempo do 
conde de Ericeira roubado. Na sua Conta diz o conde : cser- 
vindo esta memoria para que se vejam os que faltam com 
tão justo sentimento de curiosos, e para que a boa fé os 
restitua a este Archivio Litterario.» Concluindo a nossa ar- 
gumentação, achamos um facto litterarío que nos explica o 
modo como o Amadis, sendo composto em portuguez, se 
perdeu a forma original e só é conhecido por meio da ver- 
são hespanhola : é a Confessio Amantis ^ de Gower, que exis- 
tia na Bibliotheca manuscripta de el-rei D. Duarte, tra- 
duzida do inglez por um Roberto Payno, cónego em Lis- 
boa; a traducção hespanhola que hoje se guarda na Biblio- 
theca do Escurial, foi feita sobre a portugueza, de cuja exis- 
tência se sabe por que o segundo traductor o confessa. Nao 
está este facto mostrando a nossa costumada incúria por 
iodos os monumentos portuguezes? Dá se aqui como nas 
questões de propriedade; é preciso distinguir entre o do- 
mínio e a posse. A forma lilteraria que existe é a hespa- 
nhola de 1510; este é o facto material da posse. Porém a 
concepção original saiu do sentimento e do gosto da sçcie- 
dade portiigueza do século xiv, está em harmonia com o 
génio das expedições cavalheirescas,. justifica-se com titules 
authenticos, dlsixando provado á evidencia o facto moral da 
propriedade d'essa novella como portugueza. 



II 

Sobre o livro do dr. Ludwig Braunfeis 
cKritischer Versuch uber den Roman Amadis von Gallieiw, 

Leipzic, 1876 

• 

A questão da origem da novella do Amadis de Gaula, 
depois de accumulados os argumentos que a litteratura hes- 
panhola e a portugueza apresentam paca justificarem a posse 
da primeira redacção anterior á de Montalbo, na qual tudo 
ficou dito, por parte de D. Pascual de Gayangos, e por nós 
em um livro especial,— tornou-se uma questão- estéril ser- 



1 N'e8te poema cita-»e a gesta Dovellesca de Avutdas et Ydoine. 



B ARTE PORTUQUBZA 109 



Tíndo apenas de pretexto para uma erudição apparatosa 
mas sem resultados positivos. Callando ou interpretando 
mal os nossos argumentos, fica provado que oAmadis é de 
origem hespanhola; omiltindo os que produz D. Pascual de 
Gayangos, fica indisputável a prioridade portugueza. N'esle 
ponto a obrigação do critico è conhecer todas as peças do 
processo, comparar os argumentos inilludiveis de parte a 
parte, e concluir pela maior plausibilidade. Depois da nossa 
publicação Sobre^ a origem portugueza do Amadis de Gaula 
(Rivista de Filologia Romanza,' fase. iii, 4873) imprimimos 
ii'esse mesmo anno no Porto um volume intitulado Historia 
das NoveUas portuguezas de Cavíií/ería —Formação do Ama- 
dis de Gaula, no qual tratámos este problema com a maior 
largueza, explicando o processo de transformação litteraria 
das Gestas de aventuras em verso para as Novellas em 
prosa, e portanto como sobre uma gesta de Amadas et 
Ydoine se forma o Amadis de Gaula. O primeiro trabalho 
era apenas um resumo do cap. n da segunda parte doesse 
livro. Â questão ficou tratada com a maior latitude possi- 
vel, mas infelizmente só temos visto citado pela critica eu- 
ropêa * em varias Revistas o nosso primeiro opúsculo. 

Ora em 1876 o sr. Dr. Ludwig Braunfels publicou em 
Leipzic um opúsculo intitulado Kritischer Versuch uber den 
Roman Amadis ixm GalUen (Ensaio critico sobre o Romance 
de Amadis de Gaula), no qual decide cathegoricamente, que 
o Amadis de Gaula è de origem hespanhola, fallando des- 
denhosamente de Portugal, com esta phrase pouco scienti- 
fica: tque hoje em Portugal não é patriótico ceder a prio- 
ridade do Amadis aos Hespanhoes» accentuando mais, cque 
isso seria julgado uma traição á gloria pátria.» Para con- 
cluir isto o Dr. Braunfels não apresenta mais factos do que 
os reunidos por Gayangos, (muitos d'elles inexactos como o 
provámos já) e apenas conhece o nosso pequeno opúsculo 
Sobre a origem portugueza do Amadis, mas que ataca sem 
o ter sabido traduzir, 6 portanto com argumentos fictícios, 
á maneira do heroe de Cervantes. 

Em primeiro logar, e com vergonha o declaro, ninguém 



1 Du Paymaigre, oa Revue iet Quettions hutoriquet^ t o livro d» Dr. Braoiw 
íeis referem-se esp^in^çt^nle a este opúsculo publicado em Roma. 



110 QUESTÕES DB LITTBBATDRA 



em Portugal se preoccupa boje com a prioridade do Atoa" 
dis de Gaula; apenas eu, dos meus trabalhos de historia liite- 
raria faço essa reivindicação, mas nSo por patriotismo, por- 
que em outros resultados das miobas investigações me te- 
nho manifestado acima do preconceito nacional, e tenho sido 
censurado pela crítica portugueza de falta de patriotismo. 
As conclusões que tirei dos elementos do problema foram 
sempre subordinadas á severidade do methodo scientifico. 
Ninguém entre nós julga traição d gloria pátria dar aos hes- 
panhoes o que lhes pertence de direito; se reivindicamos o 
Palmeirim de Inglaterra^ se reivindicamos o Amadis de Gaula, 
é porque as provas se accumulam de forma que seria mau 
senso e desleixo o n3o tirar a luz que elias encerram. Se 
o Dr. Braunfels apresentasse argumentos novos a favor da 
prioridade da redacção hespanhola, e esses arguaientos, 
para cumulo de felicidade, fossem irrefragaveis, tanto me- 
lhor para a sciencia. Acabaria uma questão, que de certo 
ponto em diante só serve para repetir o que está dito, com 
mais ou menos boa fé, e com muito apparato de erudição 
fácil. Mas infelizmente o Dr. Braunfels nada diz de novo; 
não seremos nós que o 'declararemos, porque somos sus- 
peitos, mas romanistas allemães o confessam. Em uma carta 
de Munich, logo depois da publicação do livro, escrevem- 
nos: «O auctor falia com pouco respeito pelos outros, com 
muito de si mesmo.» Os críticos hespanhoes, a quem a vio 
dicação de Braunfels tanto lisongeia, a ponto de desejarem 
a traducção do livro, conhecem que elle não traz mais ar- 
gumentos do que os sabidos, completando o que fez Gat/an- 
gos com a refutação do nosso opúsculo. 

Portanto deixemos na Introducçâo de Gayangos o que 
pertence a este erudito, cujos argumentos já analysamos 
em trabalho especial, e vejamos os novos factos de Braun- 
fels. A pag. 55 do sen livro, afiBrma que eu errei, acredi- 
tando que o poeta António Ferreira foi empregado do du- 
que de Aveiro, e por conseguinte que seu filho era amigo 
do duque; e accusa-me de não provar que o Dr. Antouio 
Ferreira foi bibliothecario do duqqe.de ^Aveiro! Chama-se 
isto inventar moinhos de vento para os destruir com va- 
lentia. Nós apenas escrevêramos: «o pae do quinhentista 
Ferreira era Vedor da Fazenda do duque D. Jorge, pae do 
duque de Aveiro; por Janto Ferreira era amigo do duque. 



B ARTB PORTTGUEZA 111 



também dislincto poeta do qnal restam algumas composi- 
ções» ^ Por outras palavras, Mnrtim Ferreira, pae do poeta 
quinhentista, (que celebrou Vasco de Lobeira conao auctor 
do Amadis de Gattla, e celebrou o engraçado episodio de 
Briolanja), e avô de Miguel Leite Ferreira, (auctor da nota 
em que se declara que o original de Amadis estava na Casn 
de Aveiro), era Escrivão da Fazenda de D. Jorge Duque de 
Coimbra, cujo titulo foi mudado para Duque de Aveiro. Foi 
preciso que Braunfels não soubesse lêr o portuguez para 
assipd entender uma passagem tão cathegorica. Não era pre- 
ciso ser Bibliotbecario do Duque, para que o poeta conhe- 
cesse a sua livraria; bastava o herdeiro do Duque ser poeta 
e viverem em uma grande intimidade litteraria, como se 
prova a cada pagina dos Poemas Lusitanos, para o Dr. An- 
tónio Ferreira poder conhecer de visu o original da Novella 
de Amadis. As relações com a Casa de Aveiro eram bas-. 
lante intimas, para que Martim Ferreira, o Dr. António Fer- 
reira e Miguel Leite Ferreira podessem fallar do que exis- 
tia n'aquella casa principesca. O poema de Santa Comba 
dos Valks é dedicado a D. Jorge, Marquez de Torres No- 
vas e a seu irmão D. Pedro Diniz, filho do velho Duque', 
e Ferreira foi um grande amigo do filho do Duque de Avei- 
ro, D. João de Lencastre, como se pôde vêr na Ode iii, na . 
Écloga XII, na Carta v e ix. Viviam em perfeita communbão 
litteraria, e isto nos explica o modo como seu filho Miguel 
Leite Ferreira foi sempre estimado na Casa de Aveiro. É 
por tanto sem fundamento a objecção do Dr. Braunfels, que 
considerando como não provado que Ferreira fosse Biblio- 
thecario do Duque, julga invahdadas assim as provas con- 
tidas nos Sonetos xxxiv e xxxv e a nota a elles na edição 
de 1598, que authenticam a existência do manuscripto por- 
tuguez do Amadis na Casa de Aveiro. O sr. Braunfels não 
estava habilitado para tratar esta parte do problema, e o 
seu argumento depõe contra o seu critério, que suppõe que 
a verdade se encerra em argucias. 

Um dos textos mais positivos que attribuem a redacção 
portugueza do Amadis a Vasco de Lobeira, acha-se na Chro- 



^ Sobre a origem portugueia, etc, p. 10, 
^ Poemas Lutitanot, 1. 1, p. 221. 



112 QUB8T6E8 DE LITTBRATURA 



nica do Conde D. Pedro de í^iezes por Âzyrara, (cap. 63) 
e escripta em 1454. O Dr. Brannfeis esforça-se em prodí- 
gios de subtilezas para provar que a parte d'este capitulo 
cm que Azurara se refere ao Amadis è interpolada e apo- 
crypha, quando o único manuscripto que a Academia pu- 
blicou nunca teve copias apographas. N^este ponto faz rir 
a incompetência do critico hespanhol que aprecia este ar- 
gumento de Braunfeis: fEI principal esfuerzo y trabajo dei 
Dr. Braunfeis tira a demostrar que todo el passaje ó pár- 
rafo en que dicha noticia va incluída fue nota marginai en 
algun Códice de Zurrara, interpolada luego, õ adrede, ó 
por descuido, en el texto de la obra. 

«Las pruebas que da el Braunfeis de que dicho párrafo 
es interpolado y apocrypho tieneu mucha fuerza. Zurara ha- 
bla siempre de si en primera persona: dicesiempreena/w»- 
•tei, eu escreviy eu me quizera escuzar. Guando habla de un 
autor en tercera persona se refiere claramiente a otro que 
no a el. Asi dice per ejemplo: tConta o autor que escre* 
veu os feitos que se passaran en este cerco, que.. . » donde 
se crê con evidencia que se refiere á un escrito que ha con- 
sultado y que aduce por testimonio. Hablando de si siem- 
pre habla em primera persona, ya en singular, ya en plu- 
ral: «como melhor podemos aprender. . . nem usamos em 
esta obra de contar os annos . . . proseguia em minha isto- 
ria com algumas cousas de menos sustancia . . . bem é que 
tremetamos entre os feitos do mar, alguma cousa de ter- 
ra.» En suma, el Dr. Braunfeis, con paciência e prolíjidad 
verdaderamente alamanas, trae varias citas de diversas par- 
tes de la Chronica donde Zurara habla siempre de si con 
los pronombres eu õ nós. Solo en el párrafo donde se pone 
la noticia de que Vasco de Lobera compuso el Amadis, se 
dice hablando de Zurara: «diz o Comendador que primei- 
ramente esta historia ajuntou e escrevet).» La interpolacion 
por esto solo parece demostrada. El diz o Comendador tieoe 
toda la traza de estar escrito por otro que por el Comen- 
dador mismo ...» * Tal é a summa* dos argumentos com 
que Braunfeis desconhecendo a historia externa do manu- 
scripto de Azurara declara apocrypho e interpollado o capi- 



1 La Academia, t. ii, p. 81: J. Valera. 



B ARTB PORTCGUBZA 1 13 



tnlo importantissimo para a questão do Amadis. Braunfels 
ignora que Azarara escrevendo a Chromca do Conde D. Pe- 
dro de Menezes se servia de memorias particulares, a que 
elie chama Gommentarios, segundo a erudição do seculp 
xv. Por tanto o cap. 63 é assim: «Estas cousas, diz o Com- 
mentador que primeiramente esta historia ajuntou e escre- 
veo, yam assy escriptas pela mais cham maneira que elle 
pôde, ainda que muitas leixou, de que se outros feitos me- 
nores, que aquestes poderam fornecer*; isto quer dizer, 
que Azurara servindo-se de Gommentarios particulares para 
a Chronica do Conde D. Pedro de Menezes, quando trata 
das qualidades domesticas do Conde pouco encontrou, por- 
que esses Gommentarios estavam escriptos de uma maneira 
chã contendo apenas feitos gloriosos, e não se occupando 
com minúcias para alargarem a obra, como a descripçâo 
dos festejos e outros hábitos principescos. Isto provanos, 
ao contrario do que pretende o Dr. Braunfels, que Azurara 
apresenta como modelo de chronicas prolixas o Amadis de 
Gaula, cujo género litterario bem conhecia e imitara, se è 
que lhe pertence a Novella de Dom Duardos. Que esforços 
de subtileza, que se desfazem diante de uma comprebensão 
natural! 

A authenlicidade do texto de Azurara, leva-nos a preci- 
sar o togar em que elle encontrou a novella do Amadis de 
Gaula; escrevendo na Biblíotheca de D. Affonso v, que era 
formada sobre o fundo da bibliolbeca de el-rei D. Duarte,' 
o Visconde de Santarém considera todos os livros citados 
nas obras de Azurara como pertencendo a essa bibliotheca 
real. Sabe-se o gosto que el-rei D. Duarte, e que seus fi- 
lhos tinham pelas noveílas; e conservando-se o Amadis na 
Casa do Duque D. Jorge, neto de D. Affonso v, é mais do 
que natural a sua proveniência da livraria doeste monarcha, 
attendendo áobretudo á circumslancia da sua redacção pri- 
mitiva sob a direcção do infante D. Affonso. Sendo isto ape- 
nas uma bypothese demonstrável, oppõe lhe o sr. Braunfels 
uma affirmação gratuita (p. 159): «Não houve um manu- 
scriptò do Amadis paviuguez na Bibliotheca de el-rei D. Af- 
fonso V.» Por negação contesta-se tudo, mas a negação pre- 
cisa também de prova. 

Tendo sido pela primeira vez publicada a Chronica de 
Azurara em 1792, as referencias do Cancioneiro geral, do 

8 



V 



i 1 4 quistObs db littbratura 

Dr. JoSo de Barros, de Ferreira e sea filho» de Faria e Soasa 
e Soasa de Macedo, do Conde da Ericeira» de Barbosa Ma- 
chado, Deohuma se derivou da referida Cbronica; quer di- 
zer, mesmo que a passagem da Chronica do Cande D. Pe- 
dro de Menezes fosse prejudicada peia critica, nem assim 
se invalidava a tradiçSo conservada por todos estes outros 
escriptores. 

Na Nota clxix de Pídal do Cancioneiro de Baena, (ed. de 
Leipzic) se diz que Pêro Ferrus escrevera uma poesia á 
morte de Henrique iii; tal foi a causa do nosso erro, qoe 
Braunfeis explica como produzido intencionalmente para fun* 
damentar a prioridade portugueza do Atnadis de Gatda. (p. 
154). 

Bastava lér com attençSo a estrophe: 

La mi vyda M por coenU 
poço mas qae el comedio, 
cioco annos (menoe) de ciocoenta 
e quatro mexei e médio . ,» 

(Canc. dê BaeM^ t. u, p. 320). 

Isto evidentemente se refere á morte de Henrique ii, de 
Trastamara, (1333-1379); foi este monarcba que venceu 
D. Fernando de Portugal como dissemos no nosso opúsculo 
€6 no qual se refere também as suúã victorias em Portugal 
sobre eUrei D. Fernando^» (p. 8). Por aqui poderia o sr. Dr. 
Braunfeis com boa fé restabelecer o nosso equivoco lendo 
Henrique u em vez de ni. Por tanto, embora se considere 
o poema em que Pedro Ferrus allude ao Amadis, escripto 
em 1379, por citar Henrique ii, que «mato a su enemigo 
esse poemeto é dedicado a Pêro Lopes de Ayala, auctor do 
Rimado de Palácio que morreu em 1407. Em nada altera 
o recuar a citação de Pedro Ferrus, collocando-a entre 1379 
e 1407, porque sendo o Amadis escripto na corte de D. 
Diniz, como o declara o filho de Ferreira, (1279) e emen- 
dado na menoridade de Affonso iv, ainda infante, (1320) é 
justamente no reinado de D. Fernande, que lactou com Hen- 
rique II, que o Amadis se vulgarisa como se deprebende 
da passagem de Azurara. De nenhuma das refereucias his- 
tóricas dos trovadores do Cancioneiro de Baena se pôde ti- 
rar argumento contra estas datas mencionadas acima. Por- 



B ARTE PORTUGUESA lt5 



tanto, o argumento do Dr. Braunfeis é uma finura sem rch 
saltado. 

D. Aureliano Fernardes Guerra descobriu em um sepul- 
€hro da egreja da Uníversrdade de Sevilha, onde está re- 
preseotado um cavalleiro estendido com os pès encostados 
a um cao, um signal da popularidade do Amadis etn Hes- 
panba. O cavalleiro representa D. Lorenzo Soares de Fi-' 
gueroa, Mestre de Santiago, que serviu nas armas sob Hen- 
rique ni, D. João 1 e D. João ii, e fallecera em 1409; o cão 
a que o cavalleiro tem os pés encostados tem duplanoente 
inscripto na colleira o nome de Amadis, symbolo da fideli- 
dade cavalheiresca, que explica o intuito artistico porque o 
cão está aos pés do guerreiro ^ As citações dos trovadores 
hespanboes que alludem ao Amadis sendo todas desde 1 406 
a 14Ò9, o facto da inscripção monumental vem ajudar-nos 
a precisar a época em que em Hespanha foi mais vulgar 
entre a aristocracia o conhecimento d*este personagem no- 
vellesco. 

As citações dos trovadores hespanhoes referem-se indu- 
bitavelmente a uma Gesta novellesca, d'onde saiu a primeira 
redacção portugueza em prosa. Em uma Canção de Gueraa 
de Cabrera, do século xii, enumerando -se as epopêas co- 
nhecidas' na Península, não se falia no Amadis ', signal de 
que ainda não havia oenetrado em Hespanha. No fabliau de 
Gautier dtAupais ^ cita-se este typo de fidelidade; e pela 
corrente ingleza, das relações com Ricardo Coração de Leão 
com a Navarra, é que cremos ter entrado na Península a 
Gesta, como se prova pela pronuncia de Amadace em Ama- 
dis, Se o nome de Amadis na inscripção sepulchral de Se- 
vilha de 1 409 é um signal da sua popularidade, o nome de 
Oriana usado na aristocracia portugueza antes da redacção 
do Nobiliário do Conde D. Pedro, filho de D. Diniz, prova 
como uma viva realidade histórica a influencia da tradição 
do Amadis em Portugal no fim do século xui. Em um docu- 
mento transcripto por José Soares ^a Silva, nas Memorias 
de D. João /, (l. iv, p. 8) vem o nome de D. Idana de Cas« 



1 Âpud J. Valera, Ia Academia, t. ii, p. 18. 

2 Uhro de los Poetof, p. S3 a 30. - 

' Ediç. de Legrand, de 1779, p. S17 do toI. in. 



1 16 qubstOu di utteratcba 

m ■ I - ■ ■ * — ■ 

tro, que é a forma mais próxima do nome da heroina Ydoyne. 
D. AIODSO de CartbegeDa, que tinha reiaçOes litterarias com 
el-rei D. Duarte, aliude a Oriana» n'estes versos do Cancio- 
nero gen., (fl. 63; ed. de Sevilha de 1555): 

Qoe a Uq crnel lia dada 
la beUexa d'OHaM . . • 

• 

E diante d'esta inconsistência de argumentos diz o crí- 
tico hespanbol J. Valera: cEl ultimo campeou de la causa 
portugueza es Theofllo Braga,. contra quien combate vale- 
rosamente nuestro abejésado aliemãn» ^. . 

Impugnando que o Amadis de Gaula se guardasse na 
livraria de D. ÂfTonso v, Braunfeis diz que sem entrarem 
em livrarias de príncipes viram o Amadis Pêro Ferrus, Vil- 
lassandino, Baena, Imperíal, e outros, mas n3o se recorda 
do esforço que fez para provar que Ayala ouvira fallar do 
Amadis, sem que do Rimada de Palácio se podesse dedu- 
zir que o lera. O que se ouvia era a Gesta novellèsca, tra- 
dicional em toda a Europa, como temos provado, e é esse 
o espírito das referencias dos trovadores citados; essas do> 
vellas podiam ter três cantilenas, que se conservaram na 
distribuição da redacção portugueza. Montalbo n^Qpóde ser 
defendido da efflorescencia rhetorica, porque era esse o vi- 
cio da segunda metade do século xv, e é esse o caracter 
da redacção castelhana, que se pôde veriGcar. 

Braunfeis combate a minha opinião de que o quarto livro 
de Amadis não é de Montalbo; servindo-nos das* próprias 
palavras de Montalbo, que confessa ter corrigido os três li- 
vros, diz lambem ter trasladado e emendado* o livro quarto; 
este livro quarto è já citado no livro primeiro, e condem- 
nando o traductor a interpollação dos amores de Briolanja, 
repete a no quarto livro, (signal evidente de que seguia uma 
forma estabelecida) '. 

Braunfeis diz que não achou no fim do livro ii de Ama- 
dis a situação em que se repete a allusão á emenda dos 
amores de Briolanja, qiie referimos n'este período: tComo 



1 La Aead''mia, t. ii, p. 50. 

2 Vid. e8te poDto tratado exlensameDte no cap. ii do meu liTro Formação 
do Amadis de Gaula, 



B ARTE PORTUGUBZA 1 17 



é que o rbetorico Montalbo podia reprovar este episodio e 
tornar a ailudir a elle no fim do livro segundo, na scena 
em qne Oríana e Briolanja conversam acerca de Âmadis, e 
em qae esta lhe conta como teve d'elle dois filhos?» (p. 5). 
BrauDfelis tomou á lettra estas palavras e quiz por força eo* 
coDtral-as no logar citado. De facto lá não se encontram, 
mas sim o sentido: cAsi estuvieran ambas de comuno crin 
macho placer hablando en las cosas que mas le agradaban, 
e contando Briolanja entre otras cosas por mas principal lo 
que Amadis por eUa federa^ é como le amaba de coraçon,* 
O que Briolanja contou era de natureza que exigia inviolá- 
vel segredo: cMas quiero que vejais lo que en esto me 
acontescio, é guardai en puridad, como tal senora guar- 
dalo debe; que yo lo acometi esto que agora dejistes, é. 
probé de lo haber pêra mi en casamiento, de que siempre 
me occurre vergtienza cuando á la memoria me torna ...» 
<Ed. Rybadaneira, p. !51). Que segredo era este, e que mo- 
tivo de vergonha tinha. Briolanja ao reconhecer que Amadis 
pela sua immensa fidelidade a Oriana a não quiz desposar, 
se não o facto de haver o cavalleiro accedido aos desejos 
d'ella de que resultaram dois filhos? Nenhuma outra cousa 
se pôde entender aqui, e por isso a refutação daBraunfels 
é capeio^, porque se cinge materialmente á lettra e não á 
intelligencia do texto. O illustre critico desconheceu por seu 
mal o nosso livro sobre a Formação do Amadis de Gaula, o que 
fez com que o seu Ensaio nascesse atrazado. A sciencia at- 
lemã é severa e imparcial, e por isso o Ensaio critico sobre 
o Amadis em vez de vir terminar a pugna entre as duas 
lilteraturas, veiíi' desvairar os estudiosos, tornando mais mal 
comprehendidos os dados do problema. 



III 

• A Ganç3o do Amadis de Gaula 

A publicação do vasto Cancioneiro provençal portuguez,. 
que pertenceu ao humanista italiano da Renascença Angelo 
Colocci, pelos eruditos philologos Monaci e Molteni, e con- 
sagrada também á commemoração do terceiro Centenário 
de Camões, veiu enriquecer com mais quatrocentas e qua* 



1 16 QUBftTOBS DB LITTERATORA 

« 

renta e duas CaBções a já espantosa coliecçSonyrica eoo- 
tida no Cancioneiro da Bibliotbeca do Vaticano. Entre essas 
Canções apparecem bastantes composições de gosto popu- 
lar, em que a litteratura portuguez^ é com certesá uma 
das mais ricas da Europa; mas sobretudo na presente pu- 
blicação apparece um documento decisivo para demonstrar 
a origem portugueza do Ámadis de Gatda, e dar realidade 
a um certo numero de tradições acerca da formação doesta 
novella cavalheiresca. Sob o numero 230 e 232, acbam*se 
dois Tragmentos de uma Canção assignada por João Lobeira, 
trovador da corte de O. Diniz, onde fora escripta a novella, 
oomo consignou em algumas linhas Miguel Leite Ferreira 
no fim do século xvi. Essa Canção tém a extraordinária 
particularidade de conservar o retornello seguinte : 

LeoDorela tio rofeta 
-t- Bella sobre toda fror, 

Sin rosela non me mela 
£q ta( coita tosso amor. 

Este estrebilho ou tornei, como se lhe chamava na Poética 
trobadoresca portitgueza, conserva-se também nos versos 
da canção intercalada no texto castelhano' do Amadis de 
Gaula^ segundo a paraphrase de Montalbo; por isto se vè 
a proveniência do texto mais antigo a que allude o próprio 
« Montalbo, e como a sigla da emenda por ordem do príncipe 

D. Affonso de Portugal, no episodio dos amores de Brio- 
lanja, è uma realidade confirmada pela existência da Can- 
ção de João Lobeira no texto castelhano. 

Tenros para nós que a primeira redacção dos três livros 
do Amadis de Gaula pertence a João Lobeira; e que a re- 
dacção do quarto livro pertence a Vasco de Lobeira, filho 
ou parente do trovador dionisiâco. Justificamos o nosso 
ponto de vista com as palavras do chronista Gomes Eones 
de Azurara, na Chronica do Conde D. Pedro, que diz ter es- 
cripto Vasco de Lobeira em tempo de el-rei D. Fernando. 
A erudição de Azurara não permittia um engano tão capi- 
tal, revocando um escriptor da época de D. Diniz para o 
tempo de D. Fernando; houve portanto depois da primi- 
tiva redacção do Amadis de Gaula uma outra por Vasco de 
Lobeira, que é como diante do facto tcazido á sciencia pelo 
Cancioneiro de Colocci se pôde entendé^ a phrase de Azu- 



B ABTB P0RTD6UBZA ' 119 



rarà. Eis a Cançio de João Lobeira reduzida pelo processo 
critico ao seu typo estrophico: 

* \ 

Senhor, «eiU ni torineDU 
Vou*aiiior em gaisa tal, 
Qae tormenta qae ea senta 
Oatra nom m*é ben nen mal, 
Maya la tossa m'é mortal. 

Leonereta fio roselta 

Bella sobre toda fror, 

Sin roseta non me metta 

Ea tal coita vosso amor. 

Das que tojo noo desejo 
Outra senbory se vós noir*, 
E desejo tan sobejo ^ 
Mataria fano leom. 
Senhor do men coraçon. 

Leonoreta sin roseta 

Bella sobre toda fror, 

Sin roseta nom me meta 

£n tal coita vosso amor. 

Hha ventura en loacnra 
Me melea de vos amar, 
È loQcora que me dura 
Qae me non posío en qoitar, 
Ay fremeeura sem par. 

Leonereta sin roseta 

Bella sobre toda fror, 

Sin roseta nom me mela 

£o tal coita vosso amor. 

Resta-DOS comparar agora as formas da Canção interca- 
lada na prosa da novella do Amadis de Gaula, e vêr como 
O traductor hespanbol conservou inconscientemente os ves- 
tígios de uma forma portugueza primitiva*. Pelo texto da 
copia de Colocci vê-se que a canção de João Lobeira está 
fragmentada e interpolada, estando sob o n.° 230 uma es- 
trophe, e sob o n.® 232 duas estrophes; o traductor hes- 
panbol não comprebendeu a forma stropbica, nem o lexa- 



1 o erndilo Honaci intenta, este mesmo processo em am arti]go na revista 
Bastegne settimanaíe. Em carta de 13 d'agosto danos noticia da importância 
doeste facto : Vi troverai in esso (Cancioneiro Colocci Brancuti) nn documen- 
to molto interessante per la questione deli Amadigú E la poesia dei Lobeira 
lonoreta sin roseta^ che si ritrova in ana forma molto pia corretta ed aoten 



120 ' QDBBTOBS DB MTTBRATnRA 

pren da rima, e encontrou mais estancias, qae faltam no 
Cancioneiro. Yô-se qae a necessidade da traducção (lív. ii, 
cap. 1 1) o obrigou a aHerar o typo poético, mas a conserva- 
ção da c Cancion que por vaestro amor Amadis fizo siendo 
vuestro cabcUleroi^ é a prova irréfragavel de um texto ela- 
borado na corte de^ D. Diniz, onde florescia João Lobeira. 
Isto confirma a descrípçSo do antigo manuscripto portuguez 
visto no fim do século xvi na Casa de Aveiro por Miguel 
Leite Ferreira. 

No livro I, cap 40, onde se conserva a declaração da 
emenda do episodio de Briolanja mandada fazer pelo prín- 
cipe D. Affonso de Portugal, este facto fixa a época da ela- 
boração da novella, na menoridade de ÂfTonso iv. 

Na novella de Amadis de Gaula, (livro ii, cap. 11) a can- 
ção começa pelo estribilho : 

Leonereta sin roMta 
Blanca sobre toda flor, 
Si D roseta no me meta 
£d tal cuita foestro amor. 






Sin ventara yo en locara 
■ ^ Me meti de ?08 amar« 

Ks locnra qoo me dura 
^§r Sin me poder apartar; 

Oh bermosora sen par 
I ^ Que me dá pena y dolzor, 

^^ ^ Sin roseta no me meta 

^- Eo tal coita vosso amor. 






De las qae yo veo no deseo 
Otra si 00 a vos servir; 
Bien veo qne es devaneo 
Do 00 me puedo partir;. 
Paes qae no paedo faair 
De ser vaestro servidor, 
No me meta sin roseta 
Eo tal coita vaestro amor. 



tic^ che 000 nella edizione dei Romanzo di Âmadigí/e qaindi offre on beH'ar- 
gomento in favore delia opinione sostenota da te.» 

Na canção o.<^ 4%8 do Cancioneiro Colocci Brancoti, eocootra-se a mesma 
fcrma do tornei da Leonoreta, o qae leva a inferir da sua valgarisação: 

Lop'Ànaya non se vaya, 
Ca, senbor, se s'ora vay, 
£ Ibe frorecer a faya 
A algaem jogará lay. 



B ARTB PORTUOUBZA 121 

AttnqQe' mi qoeja parece 
Referirae á toi, tefior, 
Qoe mi vida desfallece, 
Otra ei la Teocedór 
Oira es la matador 
Blaaca eòbre toda flor; 

Sia roíola ao me meta 

Sb tal coita Toestro amor. 

De me bacer toda gaerra 
Àqaesta tieoe el poder, 
Qoe mnerto yifa so tierra 
Âqoetta poede bacer 
Sin yo gelo merecer, 
Blaoca sobre toda flor 

Sio roseta ao me meta 

fio tal cuita Toestro aiçor. ^ 



1 TranscreTemos aqol^ forma detorpada da CaoçSo do texto castelhano 
para se confrontar coiqJli*Q08sa restitaiçfio critica, o concluir-se qae Hontalbo 
copioQ materialmente^ im antigo códice, qne nfto comprehendeo, nem soube 
mesmo respeitar a dl0posiç&o da rima cujos vestigios cooser?a : 






J^ Leonoreta sin roseta 

'i*fy, IHàfiea sobre, toda flor, 

^V : * ' '^p >t>si^a 00 me- meta 

,'mAà\ coita foesiro amor. 

Sin fentora yo en locora 
Me meti; 

£n vos amar es locara 
Qae me dora, 
Sio me pOtfer apartar; * 
Oh herm^Bura sio par, * . 
Que me da pena é diilzoi. . 
Sio roseta no me meta- 
' Ei| tií! etUt^TAeslro amor. 

De iodas las que yo too 
No deseo 

Servir otra sino á tos; 
Bien veo qoe mi deseo 
Ks de?aneo, 
Do no me poedo partir, 
Pues que no puedo partir 
De ser yaestro ser?idor 
No me meta sin roseta 
£n tal coita voestro amor. 



122 qobstObs db littbratura b artb portugubza 

Por este arranjo de altemancia de alguns versos, vè-se 
que a traducçSo de Montalbo se reduz ao typo estrophico 
de Jo3o Lobeíra, mas nSo é possível recompor o encadeado 
da rima, que o trovador portuguez conserva na sua redac- 
ção. No texto conservado por MontaltK) appareceni mais 
duas estrophes que faltam na Uc3o do Códice de Gollocci, 
mas também carece da estropbe n.® 230 do monumeolo 
dos trovadores porluguezes. 

Doestas omissões mutuas entre o Cancioneiro e a No- 
vella, vè-se que a CançSo do Amadis andou na tradição 
oral, talvez em forma de descante, sendo apesar das de- 
turpações o texto da Novella, como mais extenso, o mais 
próximo da redacção litteraria, e o do Cancioneiro prove- 
niente da melica trobadoreçcà. ^;, 

Em ambos os textos ba porém versos escriptos asegoir 
como em prosa, e mal cortados nos seus bemisfycUos, o 
que attendendo ao vigor da cuUqrajpetica tanto do sé- 
culo XIV como XV, só se pôde ^^^jffi^ oiodo como 
se escreveu sob a pauta musical. P^r^^mgra o applauso 
doesta Cbacone d* Amadis, é que fez çòm-^fofella fosse in- 
troduzida na primitiva redacção pojrtuf 
facto é para nós decisivo 
elaboração novellesc» 




/ 



.^ '■ 






4^ 




V 



Âanqoe mi qaejv^ifrHe 
Referirce á vir, sefiofa, 
Olra 68 la vencedora, 
Otra és la matadora 
Que mi vida de$fallece; 
Aq nesta tiene el poder 
De me bacer toda guerra; 
Aqoesta paede hacer 
Sin yo gelo mercer. 
Que muerto viva so tierra. 



PRIMÓRDIOS DA HISTORIA DE PORTUGAL 



Dos prelos da Imprensa Portugueza, do Porto, saía uma 
nitida reimpressão da celebre Chronica dos Vicentes * man- 
dada imprimir em i538, por D. João iii; esta obra é uma 
das mais altas raridades da bibliographia portugueza, co- 
nbecendo-sà apenas dois exemplares, o que ba tempo alraz 
fel furtado da Bibliolheca de Évora, e recuperado pelos es- 
forços do digno funcionário Augusto Filippe Simões, e o 
que pertenceu á livraria do fallecido Joaquim Pereira da 
Costa, que se vendeu pela quantia de sessenta mil réis. an- 
tes do leilão em que essa preciosa collecção foi tristemente 
desbaratada. A reproducçâo doeste monumento litterario se- 
gue linha a linha, e com a mesma orthographia, o texto da 
edição de 1538, e bem merece o nome de fac-simile. A Im- 
prensa Portugueza, pela escolha dos seus typos elzeviria- 
nos, e pelx) emprego do magnifico papel de linho* das nos- 
sas fabricas, é a única que até hoje tem conseguido imitar 
o gosto da Renascença com uma perfeita intelligencia da 
arte. É também doesta Imprensa que tem saido uma collec- 
ção de reproduGçoes dos clássicos portuguezes mais raros, 
como a Gramrnatica de Fernão dOliveira, ps Autos de An- 
tónio Prestes, a écloga do Crisfal de Christovam Falcão, e 
a edição popular dos Lusíadas, pondo sempre em serviço 
do espirito novo o seu auxilio material. 
Como dissemos, a Chronica dos Vkentes foi mandada im- 



1 Chtonka da fundaçam do moesteyro de S. Vicente dos cónegos regrantes da 
kordem do aurelio doctor Scto Âugusiinho; ea cidade de Lisboa. Porlo, Iinprenea 
Portugueza, 1873. Broch. fn-l.«, ^ 48 p. 



124 qubstObs db littbratdra 

primir por el*rei D. JoSo iii, na occasíSo em qae procedea 
á rerorma do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra; essa 
Chronica gnardava-se com o mais rigoroso aferro na livra- 
ria do Mosteiro de S. Vicente, como diz Frei António da 
Purificação, rererindose ao seu original latino: «também me 
admira o notável cuidado que se tem no Convento de S. 
Vicente sobre a guarda d'aquella escriptura latina da sua 
fundação e do Ordinário de S. Rufo, não consentindo que 
pessoa alguma as tome na mão para asler ... Porque as es- 
condem não só a nós, mas até aos outros historiadores e Chro' 
nistas do Beino.* (Chronica dos Eremitas de Santo Agosti- 
nho, t. I, fl. 993). O motivo doeste ciúme era as luctas que 
havia entre esta ordem e os augustininnos áeerca de mu- 
tuas jurisdicções. 

A impressão mandada fazer em 1538 por D. João ni não 
seria só para restabelecer o espirito da tradiçSo na reforma 
de Santa Cruz de Coimbra, mas para fornecer aos cbronis- 
tas do reino os materiaes para historiarem os primeiros sue- 
cessos da monarchia. De facto, é esta a grande importân- 
cia da Chronica dos Vicentes. O. Rodrigo da Cunha, na His- 
toria da Egreja de Lisboa, cila esses dois escondidos ma- 
nuscriptos do archivo de S. Vicente, dizendo que «achou D. 
Aleixo de Menezes, em uma Memoria lançada ás folhas 84 
de um livro, que se guardava na Livraria do mesmo Mos- 
teiro de S. Vicente, no Almario 4, chamado Ordinário da 
congregaçam de S. flw/b.» (ob. cit., p. 215.) E quanto á ou- 
tra escriptura latina: «Escrevemoí-o assi pela auctoridade 
do Relatório, que d'esta fundação anda escripto e estam- 
pado entre as escripturas lançadas no fim da 3.* Parte da 
Monarchia, escripta pelo P. Chronista fr. António Brandão.» 
Este Relatório é o chamado Indiculum fundationis Monas- 
terii sancti Vicentii, hoje Iranscripto nos Portugalios Monu- 
menta histórica (Scriptores, p. 91). A Chronica dos Vicen^ 
tes, é uma traducção livre do Indiculum; já no século xvn 
assi o julgava D. Rodrigo da Cunha: «AfDrma assi o mesmo 
autor que em linguagem antiga portugueza converteu o Re- 
latório que allegamos, ,e se imprimiu em Coimbra, por man- 
dado dei Rei D. João 3, anno de 1538, de que temo|um 
volume. Diz o seguinte: Estando el Rei em este pensamento, 
chegou a Lisboa um Abade . . . » E depois de um curlo ex- 
tracto, D. Rodrigo da Cunha, deduz do próprio texto da 



B ARTE PORTUGUKSA^ 125 



Chronica dos Vicêntes quem foram os seus auctores: «e os 
auclores que de propósito trataram a fundaçam do Mosteiro 
de S. Vicente, Olha, alIemSo, e Fernão Pires, natural de 
Usboai ambos d'aquelle mesmo tempo, e de que tomou tudo 
o aactor do Relatório em Portuguez com grandes abonos 
de sua verdade e vida incul|iavel, pouca rasão teria quem 
quizesse dar credito a memorias vagas, escritas como ao 
acaso e provar penna, sem nome do seu auctor, sem anno, 
em que escreveram, lançadas em livros de outros argumen- 
tos, qual foi a que viu e leu o Arcebispo O. Aleixo de Me- 
nezes, no Cerimonial de S. Rufo, por mais guardada que 
estivesse no almarío 4 da Livraria de S. Vicente, d^e que 
os Padres d^aqueile mosteiro nenhuma relação nos soube- 
ram dar n'esta occasiâo (1642). Mas ou ella se perdesse ou 
na verdade se conserve ainda, n3o faria mais fé apparecen- 
do, do que fazem putras, que se acham com as mesmas cir- 
cumstancias, e de que auctores melhores considerados en- 
tam se aproveitam quando as vêem conformar com as que 
por si sam de calidade do Relatório e Chronica que allega- 
mos que mui fortemente a contradizem.» (D. Rodrigo da 
Cunha, t6., Part. ii, cap. 75, n.® 9^ Frei António da Puri- 
ficação refuta a asserção de D. Rodrigo da Cunha, aproxi- 
mando a iotelligencia da Chronica da sua forma original la- 
tina do Indiculum: «Porque diz serem seus authores Fer- 
não Pire& e Otha, constando o contrario da mesma escri- 
ptura onde se vê que o auctor d*ella confessando, que o 
que diz, he o que ouviu contar a diversas pessoas já mor- 
tas, que sabiam de experiência, accrescenta que ainda does- 
tas eram vivas duas, Fernão Peres e Otha, e que ambos 
uniformemente davam por verdade o que elle escreve. IJi 
duo, diz elle, Dei miseratione adhiic supeistites quasi uno 
confUentur ore quae hic ponimus. Não foram logo Fernão 
Pires e Otha authores desta escriplura, mas outrem que 
com elles allega para abonação do que diz.» (Chr. dos Ere- 
mitas de S. Agcsíinho, P. i; fl. 1.02.) O logar da CBronica, 
refutado pôr Frei António da Purificação é o seguinte: «Era 
na dita cidade um homem bona, que havia nome Fernão Pe- 
vez, e era cavalleiro de bom entendimento e teúdo com 
Deos; e tinha sempre na dita cidade logo julgavil por El- 
Rei e regedor dos cidadãos maiores, e dos menores, man- 
tenedor de difeito e justiça. E em este tempo era na dita 



126 qusstObs db littbratura 



cidade outro homem bom religioso e de- sancta vida, e da 
geraçam dos theutonicos, os quaes foram na filhada da dita 
cidade, e este havia nome Otha. E accordava-se mai bem 
da filhada da dita cidade, e do fundamento do dito iilosteiro 
de S. Vicente em como fora edificado. E estes dois homens 
pelo seu sancto accordo, de que viram no $eu tempo e oa- 
trosim do que ouviram a seus antecessores, de como fora 
o começo da filhada da dita cidade e fundamento do dito 
Mosteiro, o por a vida que haviam da virtude de Deos, e 
desy seu accordo, e por seu verdadeiro entender escreve- 
ram esta historia que adiante ê escripta, tomada de latim 
em Ungoagem como já de su90 dito he. ..w Por esta traduc- 
ção se entende da Chronica, na espécie de prologo que 
transcrevemos, que Fernão Peres e Otha redigiram o Indi- 
culum na sua forma latina, e por tanto que o traductor é 
que é anonymo; pela iotelligencia do Indiculum, conclue 
Frei António da Purificação, que Otha. e Fernão Peres são 
apenas contemporâneos da tomada de Lisboa, que ainda vi- 
viam ao tempo em que a relação latina era escripta, e que para 
ella contribuíram com as suas memorias e tradições oculares. 
É este o sentido mais verdadeiro; e fortalece-se pela epo- 
cha em que o Indiculum foi eècripto, já no reinado de D. 
Affonso u; sobre este ponto transcrevemos da Historia de 
Portugal, de A. Herculano: «Tem-se offerecido algumas du- 
vidas sobre a sua authenticidade. O que se pode ter por 
certo é que ou não foi escriplo nos primeiros annos do rei- 
nado de D. Sancho i, como ahi se indica, ou que è uma co- 
pia tirada posteriormente ... A letra porém do manuscrí- 
pto de S. Vicente é similhante em grandeza, em forma, em 
tudo á de um volume de Chancellaria de D. Affonso n (Maço 
12 de Foraes antigos, n.®3) e ainda aos volumes das Inqui- 
rições do mesmo Affonso ii.» (Hist. de Port,, t. i, p. 506.) 
Portanto era mais crivei que Fernão Peres e Otha, depois 
de 1211, só podessem testemunhar do successo de 1148, 
e não escrever-lhe a Chronica. A traducção do Indiculum, 
também anonyma, pertence ao meado do seculõ xv; a edi- 
ção de 1338 se diz impressa «em a própria língua antigua 
em que foi achada.i> Frei António da Purificação refere-se 
em outro logar da sua Chronica á authenticidade do Mi- 
culum: «A mais antiga memoria que ha doestes Religiosos, 
e por isso mais digna de fé, he uma escriptura em tingua 



B ARTE P0RTU6UBZA 127 



lalioa e que se conserva oo Real Convento de S. Vicenie 
de Lisboa, na qiial se trata por extenso de como sendo fun- 
dado pelo santo rei D. AObnso Henriques, no tempo em 
que tinha posto de cerco aqnella cidade, e tendo noticia 
d*elles, entregou o governo do Mosteiro' a Frei Gualter.» 
(Md,, fl. 85 seg.) 

Frei Nicolau de Santa Maria, na Chronica dos Cónegos 
Regrantes, (p. U3, liv. viii, cap. 3, n.® 7) glossando D. Ro- 
drigo da Cunha, diz a propósito da traducçSo: «que é his- 
toria digna do todo o credito, por ser composta por Fernão 
Perez, fidalgo de grande saber e entendimento e primeiro 
Regedor da Justiça de Lisboa, e que se achou com el-rei D. 
Âffooso Henrique na entrada e tomada da dita cidade.» Bar- 
bosa Machado, na Bibliotheca- Lusitana, repete isto mesmo, 
chamando Perez Regedor da Justiça de Lisboa; este cargo 
acha-se no prologo do tráductor da Chronica dos Vkêntes, 
mas sob outras designações menos precisas. Do archivo de 
S. Vicente saiu a copia para a edição mandada fazer por D. 
João iii; e por ventura tiraranvse por esta oceasião potras 
copias, porque existe uma outra na Torre do Tombo/a qual 
foi reproduzida nos PortngalicB Monumenta, (Scriptores, p. 
407) no anno^e 1861. Confrontadas as duas lições, ha uma 
grandissima differença, apesar de ambas, tanto a impressa 
como o Ms. da Torre do Tombo, pertencerem ao século xvi; 
infelizmente o sr. A. Herculano não conheceu a edição de 
1538 e por consequência não pôde aproveitar essas notá- 
veis variantes, restabelecer os sentidos duvidosos notados 
por um, sic, e servir-se do prologo novo dos editores de 
Coimbra.. 

O valor da Chronica dos Vicentes é inapreciável para o 
que estuda a historia dos primeiros annos da nacionalidade 
portugueza; tudo que se tem escripto saiu na maior parte 
d'ali, desde Galvão até hoje. Ali encontramos as primeiras 
tradições poéticas, ligadas á memoria dos francezes que 
vieram ajudar á conquista de Lisboa, como a sentidíssima 
IsDda do Cavalleiro Henrique e da fidelidade do seu pagem; 
finalmente o linguista tem ali um documento vivo, que lhe 
explica . os processos como o idioma portuguez era levado 
pelos eruditos á disciplina grammatical, confrontando as 
formas da traducção com o Indiculum, vendo como as for- 
mas e construcções eruditas se implantaram fatalmente. 



A ESCHOLA HESPANHOLA IM P0RTD6AL 



I 



Fragmentp de uma traducção das Poesias 
do Arcipreste de Hita 

Na opuleotissima Bibliotheca de el-rei D. Duarte, cujo ca- 
talogo apparecea ^ela primeira vez nas Provas da Historia 
genealógica (t. i, p 54) com o titulo: Memoria dos Livros de 
mo de El-rei D. Duarte, a qual está no livro antigo da li- 
vraria da Cartuxa de Évora, d^onde o fez copiar o Conde 
da Ericeira D. Francisco Xavier de Menezes j e reproduzido 
depois na edição do Leal Conselheiro, existia a collecção das 
Poesias do celebre Juan Roiz mais conhecido pelo nome de 
Arcipreste de Hita. No Catalogo meociooado apenas vem 
a indicação succinta: O Arcypreste de Fysa. Pode conside- 
rar-se que a obra se perdeu; na Bibliotheca publica do 
Porto existem uma folha em quarto de pergaminho com 
dezoito coplas escriptas a duas columnás, e mais»oma tira 
de pergaminho cortada de uma folha jcom quatro strophes 
incompletas no fím dos versos em consequência do corte; 
estes fragmentos andam juntos ab manuscripto do lèer 
gestorum Barlaam et Josaphat, sob o n.®- 785. Viemos a 
descobrir que esses fragmentos eram restos de uma traduc- 
ção portugueza. das Poesias do Arcipreste de Hita, e pelo 
confronto, conseguimos restituir as estrophes amputadas. 
Publicando es^as preciosas relíquias poéticas do século xv^ 
authenticamos ^ssim a origem da Eschola hespanhola na lit- 
teratura portugueza. Eis o primeiro fragmento, em que a 



I 

B ARTE P0RTU6UEZA 129 



parte grifada è restituída pelo confronto do- texto original 
do Arcipreste de Hita : 

• 

ODdt to cMares que mente 
ali díi nayor verdade^ 
e en as cobras piniaioi 
jai Doy graode falsidade; 
ora oatra booC dixa 
?ófl per ponto a jtêlgade 
e as obras en lin^ ponto 
loa?ade e denuwírada. 

De todoloa wírumentot 
em li? ro som patente 
bem 00 mal qnal poniaree 
assi dirá ceriamente; 
.e qual dizer to quizeres 
to faie ponto e tetn-te, 
se pergontares souberes 
sempre me as em mente» 

Gomo disse Aristóteles 
coosa é moy verdadeira^ 
o mundo por duas cousas 
trabalha: e a primeira 
por haver seo mantimento, 
e a ontra coosa era 
por afer junlamento 
com molher piazenieira» 

Se o eo disiesse pOr mim 
moyto seria de culpar, 
mas disse- o o grande phUosopho 
eo non no pof«o negar, 
do qoe difse o ssaòio 
Dom defemos duvidar, * 
que por autos se prova 
o sahio em seu ftiar. * 

Estas estrophes pertencem ao principio das obras do Ar- 
cipreste de Hita, como se vê pelo numero de ordem de 89 
a 62 ; transcrevemos em seguida o original, para que se 
avalie o processo litterario das traducçôes do século xv: 

St. 59. Do coidares qoe miente, dise major Terda', 
Eo las coplas pintadas yase la falsedat, 
Dícha boena ó mala por pootos la josgat, 
Las coplas con los poolos load, ó denostat. 



130 questObs dk uttbratdra 



60. Dt todos ÍDitruaiMtot yo libro 80 parinle, 

BiiD ó mal qntl pootares, tal te dirá ciertanante, 

Qaal ta desir qaisieres, y fas pnoto y teate, 

Si no pnatar sopiorei, ^empro mo anis o& mioate. 

61. CoBO díM Arifttoteloi, com oi Tordadora, 
El inoado por do» cosas trabaja: la primora 
Por aTor maDtoooDcia; la otra cota ora 
Por afor jaotamioato coo fombra plasoatora. 

62. Si lo dixisso de mio, seria do colpar: 
Díselo graad filosofo, dod so yo do rebtar;- 
De lo qoe dise el sábio non dobemos dobdar, 
Qao por obra se proeba el sabie é sa fablar. 

A folha do pergaminho que tem as dezoito coplas por- 
tugaezas a duas columnas, não corresponde ao texto cas- 
telhano, o que é um facto importante para a historia da 
compilaçSo das obras do Arcipreste de Hita; por isso co- 
piaremos a versão portuguesa subordinada ás interrupções 
do original : 

Col. 1.* Quando ela assy bremafa 
todos compeçam de fugir, 
o qoaado chegoa o dia 
qae ela hoave de parir, 
pariu om rato peqaeao, 
bem foy escambo do ryr; 
snas Tozes e espanto 
* em jogo foram sayr. 

Bem oQtrosy acontece 
a mnytos e a too amo, 
se Tée dar muito estrago 
fugindo cUb falso engano; 
cegam muytos com o tento, 
Tam-se a irerder com tal ramo, 
' Tay dis-lhe que me non queyra 

cá nem no quero nem amo. 

O home que moyto fala 
faz moyto menos ás TOzes^ 
o p9e em muyto espanto 
o pouco stulto de mezes; 
o as cousas moyto caras 
outra ora sam rrèfeces,^ 
o as astrosas de til preço 
som para atel-as roTczes* 



E ARTR PORTUGUBZA 131 



Como por peqoeoa cousa 
a?orrecinieoto e saoha» 
arredoDSse logo de my, \ 
e fez-me de jogo maoha; 
assy o dii enganado, 
o qne coyda qne me engana, 
doesto eo fiz orna tro^a: 
Ây qae tristeza tamanha. 

SL 90. Qoando ella bramaba, pensara de foir. 
Et desque TÍno el dia qne ovo de parir, 
Pariò 00 mnr topo, eecarnio fue de reir, 
Soe bramorai é espantos eo borla faeroa salir 

91. Et bien ansi acaesció á muchas e á to amo, 

* Primeramente mocho trigo dao, poça paja, tamo, 
Ciegao machos con el fiento, vanse perder com mal ramo: 
Vete, dírqoe me oon quiera, gae norquiera niramo. 

92. Ome qae mocho fabla, fase menos á TOses, 

Fone moy grant espanto, chica cosa es dos nueses; 
Las cosas mocho caras alguoa hora soo rafeses, 
Las Tiles ó las rafeses soo caras á las veses. 

^ 93» Gomo por chica cosa abo^rrecia en grand safia, * 
Arredróse de mi, fisome el juego máfia, 
Aqoel es engafiado quieo coita qaè eogafia, 
Desto fiso trova de tristeza tan máfia. 

No lexto portuguez falta a estrophe 94, começando logo 
na seguDda columna pela estrophe 95 até 100, omissão que 
não pode ser altribuida senão ao estado em que então se. 
achavam os manuscriptos das Poesias do Arcipreste de Ili* 
ta, como se observa pelos Manuscriptos de Gayoso, de Sa- 
tamanca e fragmento de Toledo : 

Gol. S.* Âssí o diz salaroon, 
e #z grande verdade, 
qne as cousas d'este mundo 
sem dulda som vaidadei 
e som todas passadeiras, 
fogem-se com a hydade, 
salvaote o amoc de deos, 
todo o ai he neicedade. 

Despoys qoe vy a dona 
de mi partida, e modada, 
dixe : qoerer d'a non me querem 
faiia ponto o a nada; 



• 



132 qdsstCes de litteratcba 



responder d' a me no cbamaniy 
be Taydade provada; 
partÍQ-me de sea preito 
poji de mi be arredada. 

Sabe deofl <;|be oem em esta 
aa qnaQtae dooai noaca tj, 
eo sempre qoige mandtl-as, 
OBtrosy sempre as servi; 
a se servir dod as podi 
certo DQDca as deservy, 
de dona bem mesurada 
sempre d'ela bem screvy. 

Maito seria ea torpe 
a maio viUaDO pagès, 
se eo de la molber nobre 
rasoasse coosa refei; 
on en a molber lotfçana 
f ramosa, nobre e cortez 
todo bem d*aqoesto mundo 
todo prazer eo ela és. 

Se deos quando formou 
ao o bomen entendera 
que era tam mala coosa 
a molber, nom Ibe la dera^ 
ao bomem por companbeyra. 
nem dele a nom fezera, 
e se pêra bem no fera 
tanto nobre no s'avera« 

Col. 3/ Se o bomem aa molber 
nom Ibe quisesse bem, 
nO teria tantos presos, 
no amor quantos Ibe tem; 
nem por saneies nem por saneias 
que seja nO sabe quem, 
mais ame que su companha 
em este siso se mantém. 



Seguem-se no manuscripto três strophes e meia da coluni- 
na terceira, faltando por tanto a Iraducçâo das strophes 101 
a 112 do Arcipreste de Hita, signal de que o traduclor não 
as encontrou no seu códice. Eis o original da versão das 
estrophes acima transcriplas da columna 2.^• 



St. 95. Como dise Salomon, é dise Ia verdat. 

Que Ias cosas dei mundo todas son vaoidat, 
Todas son pasaderás, vaose coo la edat, 
Salvo amor de Dios^ todas son liviandat. 



B ARTE PORTUGCSZA 133 



9,6. Et yo ^«sqae vi la daefla partida et modada. 
Diie: querer do non me quiereo, faria ooa nada: 
Responder do non me llaman, es ?anidad probada; 
Partime de 8o pleyto, pães de mi es redrada. 

$7. Sabe Dios, qae aqae»ta doeSa, é quantas yo fí, 

Siempre qoise guardarias, et siegopre las serTÍ, ^ 

Si servir non las pode, nanca las deservi, 
De doena mesarada^siempre bien escrebi. 

98. Hacbo seria villano é torpe pajés. 

Si de la mojer noble díxiese cosa refés, 
Ga en mogor losana, fermct^a é cortês, 
Todo bien dei mondo é todo plazer és. 

V 

99. Si Dios quando formo el ome, entendíera 
Que era mala cosa la moger, non la díera 

Al ome por companera, nin dei non la fesiera, 

Si para bien no fuera, tan noble non saliera. ^ 

100. Si omen á la moger non la.4^isie8e bieq. 

Non ternia tantos presos el amor quantos tieo. 
Por santo nin santa que seya, non sé quieo 
Non codície compaiia, si solo se mantien. 

Depois da omissão de doze estrophes na traducção por- 
tugueza, (st. 101-112) segiie-se o resto da columoa terceira 
e a quarta, que comprehendem da estrophe 113 a liO, 
como se segue : 

Os estrologos antigos 
dize em a sciencia, 
eu digo da estrologia 
que é mui nobre sabença; 
que o bomem quando naçe 
logo na sua nacença 
o ssíbo em que ele nace 
'« aquel o julga por sentença. 

Esto disse Tbolomeo 
e assi o dise prato, 
e«utros grandes mestres 
todos n'este accordo som, 
qual be o acidente 
e a sua constellacom 

daqoelle que naçe, tal be ,- 

seu estado e o seu dom. 

A y moytos que trabalham 
muyto pola crelizia, 
€ aprendem grandes tempos, 
despendem grande conlia; 



134 qubstObs db littbratuba 



mas ni) cibo tabem pouco, 
ca o 800 fado os gaja, 
nen o podem doi mays 
a esta estrologia. 

T outros ODtram em ordem, 
por laltarom mas almas, 
ootrofl tomam offleios 
em querer hosarem arma»; 
Col. I.* ontrofl servem a seobores 

coD suas mano) antr'aiDba8, 
porem muytos de aquestos 
dam em terra d'ambas palmas. 

Nom acabam em ordem 
aem som grandes cafalleyros,. 
Bom am mercê dos senhores, 
nem erdam de seus dinheiros; 
porque pode seer esto 
creo eu ser Terdadeyros 
^ segundo natural curso 
os meesteres estrolageiros. 

Porque to creas o curso 
d'este8 sinales a tales, 
dízer-te-eí bom juizo 
som de ciroquo natu rales, 
os quaaes julgaram bum nyno 
per seus certos sinales, 
deerom juízos moj fortes 
poro d' acabados males* 

Era bum rey de mouros 
alçarás nombre avia, 
e naçeu-lha hum filho, 
mays que aquel non lenia; 
mandou per seus sabedores, 
ca deles saber queria 
o synal e a praneta 
do filbo que lhe nacia. ' 

Antro aquelles estrologos 
que hi veerom para ?eer, 
Toerom hi cimquo deles 
que eram de mayor saber; 
desqoe o ponto tomaram, 
DO qual el outo de naçer 
dísse-lbe um dos maestres 
que apedreado hade seer. 



* 



B ARTB PORTUGUEZA 



136 



Vejamos o correspondeote texto original, cuja aproxima- 
ção è preciosíssima para a sua historia externa : 

St. 113. Los aotígnofl Astrólogos díseo eo la sciencia 
Dé la Astrologia ooa bueoa sabieocia, 
Quel onn qosDdo nasce loego eo sn oasceDcia 
El sigDo en qoe nasce le josgan por sentencia. 

111. Esto dis Tbolomeo, é diselo Platon, 

Otros mochos maestros eo este acoeráo son; 
Qaal es el ascendente é la costellacion 
Del qoe nasce tal es so fado et so doo» 

115. Mochos ai qne trabajan siempre por cleresia, 
Depreoden grandes tiempos, espienden graot quantia, 
En cabo raben poço, qoe sn fado los goia, 

No o pojDdeo desmentir á la Astrologia. 

116. Otros eotran en orden por saltar las sos alma«, 
Otros ioman esfoeno en querer osar armu, 
Otros sirfen Sefiores coo las sos manos ambas. 
Pêro machos de aqnestos dan en tierra de palmas. 

117. Non acabao en orden, nin son mas caballeros, 

Nin ban merced de Sefiores, nin han de sns dineros. 
Porqoe poede ser esto, creo ser Tordaderos 
Segond natoral corso los dicbos estrelleros. 

118. Porqoe creas el corso destos signos atales, 
Desirté on joisio de cinco natnrales, 

Qoe jodgaron un nino por sus ciertas senales, 
Dieron jnisios foertes de acabados males. 

119. Era om Rey de moros, Alçarás nombre aTÍa; 

' Nascióle uo fijo bello, mas de aqnel noo tenia, 
Embió poi SOS sábios, dellos saber qoerria 
El sigoo é la planeta de fijo qoel nascia.' 

120. Entre los estrelleros querTÍoieroo á Ter 
Yinieroo cinco dellos de mas complido saber; 
Desque ?ieroD el puoto on qoe hovo de nascer 
Diio el on maestro: apedreado bade ser. 

A folha aolta da antiga versão portiigaeza que aproxima* 
mos do original castelhano pertenceria por ventura a um 
códice completo, que se desmembrou ; que elle existia na 
livraria de el-rBi D. Duarte é um facto indubitável. Pela 
forma da traducção, em que as quadras alexandrinas s3o 
reduzidas á outava da nossa redondilha octasyllabica, infe* 
rimos ser a traducção do próprio D. Duarte, porque assim 



IdS qubstGbs DB LITTBRATURíL 

o usou também na traducçSo do hymno latino de Justus Ju- 
dex. 

II 

o GondeBtavel de Portugal 

No Cancioneiro de Resende, existe um poema moral de 
cento e vinte cinco oitavas de arte maior ou estylo de la- 
mentação, longo tempo attríbuido ao infante D. Pedro, du- 
que de Coimbra, mas hoje plenamente demonstrado como 
escripto por seu filho o Gondestavel de Portugal. A causa 
do erro proveiu do titulo do poemeto: € Coplas fechas por 
el muy illustre Senor infante dõ pe- || dro de por togai: en 
las quaUs ay Mil versos con sus glo- || sa^, contenientes dd 
menosprecio: e contempto de las cosas fermosas dei || mun- 
do: e demonstrando la su vana: e feble leeliad ^> 

Termina com o colophão : ^Acabase las coplas fechas por 
el muy || illustre sefíor iffante don Pedro de por- || togai. 
Deo gracias.3 

Garcia de Resende, eliminando as glosas em prosa que 
ncompanhapi estas oitavas, nas quaes se declara quem é o ver- 
dadeiro auctor do poemeto, incluiu-as no Cancioneiro, pondo 
adiante da rubrica — Do infante dom Pedro esto appeaso 
«fylho d'el \\ rey dom joão da groriosa memoria». 

Pelo estudo d*essas glosas o litterato hespanhol J. M. 
Octávio de Toledo demonstrou pela primeira vez como o 
poemeto do Contempto dei mundo pertence irrevocavelmente 
ao Condestavel Dom Pedro '. 

Na estrophe duodécima se lê: 



Mirad ai Maestre 
Mirad luego juncto 



8i timo penando 
su acábamUnto, 



Referem-se estes versos ao Maestre Senhor de Escalona, 
isto é, a Álvaro de Luna, executado em 1453; tendo o du- 
que de Coimbra sido assassinado em 1449, por certo que 
Dão podia memorar a execução do valido quatro annos de- 
pois do seu próprio desastre. .# 



1 Vol. de 84 fl. folio, ionumeradas, com robricas. 

^ Âpad, Remta Occidental, í/* aDoo, t. ii, pag. S95 a 315. 



E ARTE PORTUGUBZA 137 



Na glosa correspondente á estrophe transcripta se prova» 
Dão sõ que o Maestre é Álvaro de Luna, como lambem 
que o auctor dos versos, o Condeslavel D. Pedro, é o pró- 
prio commentador do texto e nâo Antas Dunea, como erra- 
damente se tem sempre repetido. Eis a glosa alludida : 
«Fabla aqui dei maestre don alvaro de luna gran privado 
dei rey don johan de Castilla el segundo mi tio: cuya pri- 
vanza duro un trentenario de anos: dei qual se averiga 
ayuntar gran copia de thesoros : cuya vida fué siempre en 
muchos: e diversos trabajos haviendo grande e singular 
lucha com la fortuna, de cuya boca yo me reeuerdo haver 
oydo algunas vezes sus ojos non cerrar el sueno: ni los 
cuydados los abrir, que no houiese memoria de su muerte, 
ele.» O Condeslavel era sobrinho em segundo gráo de 
D. João II de Castella, por isso que era neto de D. Filippa 
de Lencastre irmã de D. Calherina mulher de D. Enrique, 
o Doente. Além doeste facto terminante, a referencia ao tra- 
cto pessoal com Alvaro de Luna explica-se pela época da 
expedição do Condeslavel D. Pedro em 1445 com soccorro 
ao rei de Castella,. o qual depois da batalha de Olmedo deu 
ao seu valido em 1446 o titulo de Mestre de Santhiago. O 
Condeslavel refere-se a isto no verso: 



fable el maestre 
diga se le faeste 



penhor d*EàcaloDa, 
fiel ó leal. 



Além doestas provas tão claras, accrescem ainda as glo- 
sas da estrophe 13 eni que diz o Condeslavel, explicando 
os nomes de Vénus é Diana: <de lo qual dke en la mi 
Satyra,f Allude aqui a uma obra intitulada Sátira de felice 
e infílice vida * ; de fado no capitulo iv d'esta composição 
pela primeira vez descripta pelo sr. Amador de los Rios, * 
se commenla os nomes^das deosas Vénus e Diana. E no 
commento da estrophe 31, diz: «Ya deste Vulcano es fecha 
mencion en la epistola que embie a la muy perfecta sefíora 
la reyna de portugal mi soberana sefíora..."» Na verdade a 
Sátirct de felice e infelice vida é dedicada a sua irmã a rai- 
nha D. Isabel, ^ulher de D. Affonso v, com uma carta em 



1 CoDser?a-6e inédita Da Bibl. de Madrid. Est. P. 61. Vol. de fl. 72, es- 
cripto por Christofol Bosch em 1468. 

2 Hist. critica de la Utieratura espaliolat t. tii, p. 82-86. 



138 QUBSTÕB8 DE LITTERATDRA 

prosa em que explica o titulo, o pensameuto da obra e o 
motivo porque a traduzia de portuguez para castelhano. 

Na estrophe 22 do poema Contemplo dei mundo, se lêem 
os seguintes versos, que o Condestavel também commenta» 
dando-se a conhecer: 

Mitaron a Johan iuqu$ dei CondadOf 
00 podo sn estado sa moorte eYJlar. 

E na quarta glosa d'esta passagem diz : c Al duque de 
borgonya pueden llamar duque de condado, porque es da- 
que de borgonya e conde de Sandes, el mas rico e mas 
noble condado de! mundo. Esle johan de que aqui se faze 
mencion fué princepe muy noble e mapnifico, e huvo quasi 
ei mando de toda francia : e fué padre doeste victoríoso e 
muy insigne duque felippe mi tio, honrra de cristiandat e 
espejo de doctrina de cavalleria; etc.» Refere-se portanto a 
Joab Sans-peur pae de Filippe o Bom, que casou em 14!29 
com D. Isabel, filha de D. Jo3o i, e tia do Condestavel. 

O poemeto do Contemplo dei Mundo, foi dedicadg a sen 
cunhado elrei D. Affonso v ^ em cujo proemio allude ás 
suas próprias glosas «que con graciosos e amigables oios 
tu leas los Mil versos mios acompanados de algunas glosas: 
los quales yo caminando por deportar e pasar tiempo ala 
feria pasada de Medina, en mi viaje houe la introduçion 
e la iouençion dellos feriado...» O poema foi escriptoem 
Gastella depois de U53 e remettido para Portugal pouco 
antes de 1458, em que lhe foi permiltido voltar á pátria. 
O manuscripto existente na Bibliotheca de Madrid tem a 
data Qnal de 1457, como nos declara o sr. Octávio de To- 
ledo^. Restituindo-se ao Condestavel de Portugal a compo- 
sição do poemeto Contemplo dei Mundo, fica explicado o 
muito respeito que por elle tinha o Marquez de SantillaDa, 
na celebre Carta que lho escreveu, e em que allude ás 
obras do joven príncipe : talgunas genttles cosas de tales 
que yo he visto compuestas de la vuestra prudencia.p A Sa- 
tyra de felice e infelice vida, como se deprehende,*foi es- 



1 Isto explica a caoBa do erro da Barbosa Machado, qne dava p poema de< 
dicado a D, Afonso de Aragão, administrador perpetao do bispado de Saragoça. 

2 Revista Occidental, L ii, pag, 306. 



E.ARTE PORTUGUBZA 



139 



cripta próximo de 1448, tendo dezoito aimos e outo toe- 
zes, ainda em Portugal, e acabada e traduzida já no exi- 
lio; a Carta do Marquez não é anterior a 1448, e por isso 
sabe-se quaes eram ás geniiles cosas a que se referia. 



Ill 



Vestígios de uma traducção das obras do Marquez 

de Santillana • 



Nas Obras inéditas de Ayres Telles de Menezes, publica- 
das por Caminha em 1792, pondo de parle o que pertence 
realmente ao século xti por ventura escripto por esse ou- 
tro Ayres Telles que esteve caplivo em 1578 em Africa, 
existem algumas composiçi)es rigorosamente do século xv, 
e provavelmente escriptas por Ayres Telles, que figura no 
Cancioneiro de Resende. N'estes Inéditos* de Caminha vem 
«mas coplas (p. 87) que são uma traducção incompleta de 
uma Canção do Marquez de Santillana (ed. Amad. de los 
Rios, p. 418): 



Inedllo de Caminha: 



Original de Santillana: 



Primeiro o rodante Géo 
Se tornará maii«o e quieto, 
Será piedoso Alecto 
No sea escoro alvergoe. 



II 
César afortoDado 
Deixará de combater, 
E obrigarão a desdizer 
A'Primiades armado. 



Atites el rodaote cielo 
Tornará manso e quieto 
£ será piadoso Electo ^ 
£ paToroso Metello, 
Qae yo jamas olvidasse 
Ta virtad, 

Vida mia, é mi salat, 
Nin te dexasse. 

II 
César afortnoado 
Cessará de combalir,. 
£ fiçieran desdecir 
Al Primiades armado, 
Antes que yo te dexara 
Idola mia, 

Nin ia tu phísolomia 
Olvidara. 



1 Var., d^Ms. 59. 



140 



QUESTÕES DE LTTTBRATORA 



III 
Tnlio emodecerá 
E Tarsis sendo tirtooso, 
Sardánhpalo animofo, 
Salomfto inorte e rode. 



IV 

TorDar aeha Elhiopia 
Húmida, fria e oeTO«a, 
Ardeote a Citia e fogosa 
Com espanto dos morlaes. 



Todo emOm mndará 
Sua fixa natureza, 
Porém a minha tristeza 
Hade Teocer a morte. 



Ul 
Ciceroii teroará modo,! 
£ Tartides rirtooso, 
Sardanapalo aoimoso, 
Torpe Salomòn é rodo; 
Eq aquel tempo qne yo 
Gentil criatura, 
Olvidasse to figora 
Coya só. 

VI 
Elbiopia tornará 
Húmida, fria e no?osa, 
Ardieote Gitbia é fogosa, 
É Sfytla repo$ará. 
Antes que el animo mio 
Se partiese 

Dd tu mando é seoorio 
Nin podiese. 

V — XII 

Segoem se mais oito estropies do 
marqoez de Santíllana, sem relação com 
a quinta porlogoeza, e dando a caoçSo 
um outro pensamento finai. 



Vê-se por esle parallelo, que a versão porlugueza é im- 
perfeitamente traduzida ; na primeira, terceira e quarta slro- 
phe Qcou omissa a rima por incúria do tradiíctor, que a fez 
com certeza sobre manuscriptos, como se vê pela variante 
1 .*, e que por isso não entenderia o texto original. O Mar- 
quez de Santillana foi muito imitado no Cancioneiro de 
Resende ; é este o primeiro signal que temos de se lhe ter 
traduzido os seus versos em portuguez, como se fez aos 
de Hern3 Perez de Gusman, D'aqui se conclue que esle iné- 
dito não é forjado por Caminha, como queria Innocencio 
por affirmação gratuita. 

IV 

Lamentação á morte de D. Inez de Castro 

Fora do Cancioneiro geral de Garcia de Resende, pou- 
quíssimas poesias se encontram do século xv, avulsas, po- 
dendo-se com certeza induzir que outras muitas cQmposiçôes 



1 Var. do Canc. de Castillo. 



E ARTE FORTUGUEIA 141 



se perderam, como o próprio Resende confessa. A aristo- 
cracia portugueza conservava o gosto pela poesia lyrica como 
uma distincção heráldica, e é por isso que a actividade poé- 
tica do século XV se concentrou toda nas cortes de Âffonso 
V, D. João II e D. Manuel. É possivel que appareçam de 
yez em quando algumas relíquias d'essa época fecunda, re- 
líquias escapadas á curiosidade de Garcia de Resende; pa- 
rece-nos que se deve considerar como taes algumas coplas 
ultimamente publicadas com o titulo : Versos feitos por D. 
Pedro I, morto em 1367, sobre a trágica morte de sua es* 
posa D. Inez de Castro^. 

Evidentemente Bssas coplas não pertencem ao, século em 
que viveu D. Pedro i; acabara o gosto provençal, é verda- 
de, mas ainda não estava .creada a eschola bespanhola repre- 
sentada pelo Cancioneiro de Baena, que estava longe ainda 
de vir a influir em Portugal. Os versos á morte de Inez de 
Castro são uma lamentação, como se usava no tempo do 
marquez de Sanlillana, e como o próprio Garcia de Re- 
sende escreveu na falia de Inez de Castro, uma das com- 
posições mais bellas do Cancioneiro geral. Os versos a que 
alludimos foram escriptos como monologo deel-rei D. Pedro i, 
sem comtudo pertender dal-os como compostos pelo apai- 
xonado monarcha. Asestrophes d'esses versos são formadas 
de uma quadra e uma quintilha, e em pura linguagem do 
século XV, talvez como imitação da composição de Garcia 
de Resende. Apezar de escripla no puro estylo do século 
XV, poder-se hia suspeitar qualquer fraude lilteraria con- 
temporânea, em que podem cair os mais superciliosos, es- 
pecialmente porque faltam informações acerca da proveniên- 
cia d'essa composição; porém, observando a estructura e 
condições d'essa poesia, vèem-se alguns elementos de au- 
tbenticidàde. As estropbes não são todas perfeitas; n'uma 
falta-lbé um verso, e na ultima falla-lhe a quadra, por isso 
que não termina com o cabo da poética do século xv. Eis 



1 Publicados pela primeira Tez por Balbí, Essai StatisHque sur le Royaume 
de Portugal,^, ii, App. Geograpbie litt., p. th, e lambem oUimameDte do 
Âlmaoak Progresso, para 1878, p. 211, publicação de algoos jovens de Pom- 
bal. Caldas tem dois manoscríptos como declara em oma ediç&o das duas can- 
ções do Gondestayel de Portugal sob o titulo de Cancioneiro de Elrei Dom P6- 
iro 1, 



142 QUESTÕES DE LITTERATUflA 



O trecho lyrico, tal como deve ser restituído á litleratura 
portugueza: 

Senhora, quem foi matou 
Teoba forte desreotora, 
Pois tanta dor e Iriítura 
A fói e a mi caoion. 
E poii 00 Tím maii asinha 
Tolher fosM triite fim, 
Recebo .? os, vida míoba, 
Por senhora • per rainha 
D'estes reinos e de mi. 

• 

Estas feridas mortaes 
Que pelo meu se caosarom, 
Nom uma vida e nom mais 
Mas dnas Tidas matarom; 
A fosía acabou jaa, 
Pelo que nom foi culpada; 
A minha, que fica caa, 
Cem saudade seraa 
Pêra sempre magoada. 

Oh crueldade tam forte, 
E injustiça tamanha! 
Yiu-se nunca en Hespaoba 
Tam cruel e triste morte? 
Contar se- ha per marafílha; 
Minha alma, tam ferdadeira, 
Pois morreis dVsta maneira, 
Eu serei a torturilba 
Que lhe morre a companheira. 

Hi, senhora, desça nçada 
Porque tos fico eu quaa, 
Que Tos«>a morte seraa, 
Se eu viver, bem vingada. 

•-•••••• *••••••• ••••• 

Por isso quero viver,. 
Que se per isso não f<)ra, 
Melhor me fora, senhora, 
Comvosco logo morrer. 



Sangue do meu coraçom, 
Ferido coraçom nieu, 
A quem assi per chom 
Vos espargeu sem razom. 
Eu lhe tirarei o seu, 



B ARTB P0RTC6UEZA 143 



Sabe-se da existência de vários Cancioneiros portuguezes 
do século XV, uns totalmente perdidos, como o do Frei 
Martinho» de Alcobaça, outros ainda existentes como o de 
D. Francisco Coutinho, conde de Marialva, visto em Barce- 
lona por D. Mariano Soriano Fuertes. O fragmento que 
aqui compilamos pertence com certeza á eschola hespanho* 
la, que dominou em Portugal na segunda metade do se- 
culo XV e primeiro quartel do século xvi, e revelanos a exis- 
tência de algum caderno perdido d*essas compilações de 
versos lyricos qiie cairam de moda com a introducçSo da 
eschola italiana. Uma garantia, accidental mas também apre- 
ciável da sua authenticidade, é o serem ignoradas pelos nos- 
sos poetas actuaes as características particulares da poética 
palaciana do século xv, e mesmo a faita de intuito archaico 
na linguagem, por onde quasí sempre os falsiflcadores lit- 
terarios se revelam. Tirando estes versos das condições ca- 
suaes de um livro de estatística, e collocando-os sob o as- 
pecto histórico em que devem ser criticados, temos em 
vista chamar a attenção dos que estudam, para que não con- 
tinue a ser este monumento tao ignorado como quando o pu- 
blicaram em nome do rei D. Pedro i. Outros fragmentos 
de poesia do século xv escriptos na lingua portugueza se en- 
contram em um manuscrípto examinado por D. Francisco Âr- 
senjo Barbieri em um códice da Bibliothec^ do rei de Hes- 
panha, que tem na lombada o titulo Libro de Cantos; este 
códice foi copiado durante a época da revolução de i8G8, 
n*elle achou o illustre maestro quatro composições portu- 
guezas. O eminente phílologo Dr. Jules Cornu, no seu exame 
linguistico do Poema de Atfonso Onceno chegou também à 
conclusão de que esse celebre poema conserva os vestígios 
de um original portuguez que julgamos ser o poema de Âf- 
fonso Giraldes sobre a Batalha de Salado, hoje perdido. 



Poetas portugueses no Cancioneiro de Stúniga 

A nossa critica limíta-se ao ponto de vista particular da 
importância d'este Cancioneiro para o estudo da poesia por- 



^ 



144 qubstOes db littbratdra 



tugueza do século x? ^ ; a riqaeza do lyrísmo da escola gaU 
lega de Viliassandino e Padron, das escbolas catalã e caste- 
lhana, é já bastante conhecida para que a encareçamos aqui. 
As relações da litteratura portugaeza com as outras da Pe- 
nínsula é que ainda n3o estão completamente deSoidas, e 
o Cancionero de Stúfíiga presta-nos para este fim valiosos 
recursos. Quando historiámos a escola hespanhola em Por- 
tugal nos Poetas palacianos do século XV citamos differen- 
tes Cancioneiros em que vários poetas porluguezes haviam 
collaborado (op. cit., pag. 32) ; sobre o Cancioneiro de Re- 
sende reconstruímos a imitação portugueza de Maneias, Juan 
de Mena, de Stuniga, de Aguyllar, de Rodrigues dei Pa- 
dron, de Jorge Manrique, de Juan de Padilla, Perez de Gus- 
man, Montoro, Ropero e Arellano. (/6., p. 24 a 31.) O Can- 
cionero de Stúniga tem a grande vantagem de nos explicar 
o movei que levou o lyrismo hespanbol ao maior desenvol- 
vimento, e porque motivo a poesia portugueza do fim do 
século XIV a meiado do século xvi ficou submettida á sua 
imitação servil ; este Cancioneiro é formado pelas composi- 
ções dos principaes poetas que acompanharam o rei D. Af- 
fonso V de Aragão, filho do Infante de Antequera, na sua 
expedição gloriosa a Nápoles. O platonismo dantesco e pe- 
trarchista animou as cansadas fórmulas provençaes; em 
Portugal só achamos a citação das Cânticos de Dante por 
Azurara, e só se pôde fixar o conhecimento da poética ita- 
liana depois do regresso de Sá de Miranda a Portugal. A 
litteratura hespanhola recebeu esse novo espirito e por isso 
nos dominou. O Cancionero de Stúfíiga, escripto em vitella, 
em letra da segunda metade do século xv, denuncia co- 
pista italiano; esta circumstancia vem até certo ponto ex- 
plicar o modo como foi copiado o afamado Cancioneiro pro- 
vençal portuguez, que existe na Bíblíotheca do Vaticano, e 
que ainda no principio 9o século xv existia em Hespanha 
em casa de D. Mecia de Cisneros, como refere o Marquez 
de Santíllana. Reinava então a monomania dos Cancioneiros 
de mão, como vemos pelas comedias de Jorge Ferreira, e, 
em consequência da expedição de Nápoles, teve Portugal a 



1 Cancionero de Lope de Stúniga^ códice dei tiglo xv, abora por Ia vei prí- 
mera publicado. (Colieccion de Libres raros ó coriosop, t. iv) Aladrid, ImpreoU 
y Estereotypia de Ritadaneyra, 1873. 



- E ARTE PORTUGUEZA 145 

vantagem de lhe ter sidQ conservado o principal monumento 
da sua. poesia trobadoresija. Por este mesmo tempo reinava 
em Portugal um outro D. Affonso v, também apaixonado 
pela poesia, cultivando na corte faustosa o uso das can- 
ções amorosas, largamente coibidas por Garcia de Resende; 
esta bomonymia dos dois ÁfTonso v, ambos com o mesmo 
caracter poético, explica-nos certa obscuridade histórica do 
Candonero de Stúniga; no livro das Moradias de D. Affqnso 
V de Portugal encontramos um fidalgo chamado Monso 
Enriques (Poet. paL, p.. 183) jcom poesias suas no Cancio- 
neiro geral (tom. ni, p. 151, 154). Não seráeste mesnpo 
poeta o que figura no Candonero de Stúniga, (p. 180) com 
umas coplas intituladas Testamento suyo? Justificam a hy* 
pothese estas referencias: 

É yo moerta mipersóna, 
Lè deso procurador 
Al muy honrado sennor 
Arzebispo de Lixbona, 

I 

Al qual on merçed pido 
Con voluntad afincada 
É ddxola recomendada - 
Por quanto lo he tiervido. 
Et sea mi teslamentarío 
É fagá ó mande fazer 
, ^ Que 8in nada fallesçer 

Se cnmpla mi ifiveoinno. • \ 

Este género de composição já apparece no Cancioneiro 
de Resende, em que os poetas se despedem das damas, como 
quem está para expirar. Indubitavelmente estas coplas de 
Affonso Enriques são de um fidalgo portuguez, como. se 
concluo por esta outra estrophe: 

Del sepolchro (an honrado 
Quiero que sea iusillo, 
La sen nora de Vadillo 
Cantando muy mesurado. 
Todas passa en ferm.osura 
La que dixo ende mal, 
AdioSy adióSy Portugal 
Partir mò será cordura. 

A referencia ao arcebispo de Lisboa, isto é a D. Pedro 
de Noronha, mostra-nos que este poeta pertence á época 

10 



146 QUBSTÕB8 DE LITTERÁTURA 



das lactas dos Braganças contra o ínfaDle D. Pedro ; o ar- 
cebispo de Lisboa era contra o infante, e foi também por 
isso que D. Affonso ? admittíu no seu conselho o poeta Af- 
fonso Enriques. No Cancioneiro de Resende encontra-se um 
outro poeta, Diogo de Saldanha, que figura no Cancionero 
de Stúniga com uma glosa ; d*este poeta conserva a collec- 
ç9o portugneza apenas umas coplas glosadas por D. João 
Manoel. fCanc. ger., t. i, p. 388). A sua vinda para Portu- 
gal data do tempo em que alguns fidalgos castelhanos se- 
guiram o partido de D. Affonso v, refugiando-se na sua 
corte depois da batalha de Toro. É por esta via que se 
explicam as numerosas citações de Stuniga em Portugal; 
n'este Cancionero encontramos esta allusSo que nada signi- 
ficava, se o poeta Carvajales, seu auctor, não tivesse rela- 
ções com Diogo de Saldanha : 

Panando por la Toscana, 
Entre Sena et Florencia, 
Vi dama gentil, galana 
Digna de grand reTerencia. 
Cara tenia de romana, 
Tocadora poriuguezttf 
El ayre de castelhana, 
Vestida como seoesa» 

(StojI., 877.) 

Os Cancioneiros do século xvi conservam ainda um mal 
apagado vestígio de elemento popular, bastante para expli- 
car a origem dos cantos ledinos, guaiados ou de amigo, da 
influencia provençal. Foi uma tradição litteraria que se con- 
servou a ponto de vermos outra vez nas collecções aristocrá- 
ticas do século XVI introduzidos os romances popiílares. No 
Cancioneiro portuguez do Vaticano abuodam as serranillas 
ou dizeres imitados do sabor popular; os jograes, de ori- 
gem plebéa, estiveram sempre em contacto com os trova- 
dores artísticos, e nâo podiam deixar de exercer influencia 
decidida. Este contacto ainda se vê no século xv, quando 
os fidalgos pelas suas dependências da vida do paço e pela 
sua subserviência aos monarchas, se achavam então desli- 
gados do povo e atè certo ponto quasi inimigos. A par das 
composições de um D. Juan ir, de um Marquez de Santil- 
lana, ou Enrique de Villena, vemos também as do converso 
Juan Affonso de Baena, de. Antão de Montoro, de Ropero, 



B ARTB P0RTD6UEZA 



m 



christão novo, de Juan el Guarniocero, de Martin Taiieder, 
e de Juan de Yalladolid ; da mesma forma em Portugal,, a 
par das composições do infante D. Pedro, de seu filho ex- 
rei de Aragão, dos mais inclytos poetas vemos, as coplas do* 
criado Gregório Aflonso, do ourives Diogo Fernandes, do 
tangedor Braz da Costa, da Cristalleira, etc. Estes factos 
provam-nos que entre a poesia do povo e a dos cultistas 
da edade media não houve uma completa separação e an- 
tagonismo; e que esta mutua communicação corrigia em 
parte o isolamento politico e civil das classes sociaes. No 
Candonero de Slúfíiga acham -se dois romances, resultantes^ 
d'esta corrente moral, e no Cancioneiro de Resende ha lam- 
bem um pequeno romance allegõrico glosado. A seguinte 
copla de Carvajales dará a conhecer este elemento popular, 
tanto mais que também se encontra desenvolvida por Ca- 
mões e por Francisco Rodrigues Lobo : 

Desnuda en una qoera 
Lavando á la fontaca 
Estaba la oifia locana 
Las manos sobre la treca. 

Nas folhas volantes do século xvii achasse bastante des- 
envolvida esta tradição lyrica da Menina fermosa, que é pro- 
priamente- la nina locana. Antes* de terminarmos esta pe- 
quena exploração, cumpre recolhermos para a'nossa histo- 
ria litteraria esta preciosa lenda do enamorado Macias con- 
tada pelo Condestavel de Portugal na sua Satyra de felice 
é infeUce vida, que ainda está inédita na Bibliotheca na- 
cional de Madrid. O nosso respeitável amigo Amador de 
los Rios, na Historia critica de la Litteratura espafíola, (t. 
VI, p. 77) transcreve-a do seguinte modo: «El infante D. 
Pedro de Poriugal, contemporâneo de Macias, á quien tal 
vez conoció durante su permanência en Castilla, refiere en 
su ya citada sátira De felice é infelice vida, que siendo la 
dama deudora á Macias de la vida, que la salvo sacándola 
de un rio con- peligro de la suya, hallóia acaso en un ca- 
mino, ya casada ; y, (accrescenta Amador de los Rios com 
as palavras textuaes do Infante) —por pagas de sus sena» 
lados servicios le demando que descendiesse, la qual, coa 
piedosos oydos, oyó la demanda é la complió.— Agradecido 
Macias, y advirtiendo el ^pejigro en que la ponia por se- 



148 ÒlESTÕES DE UTTERATURA E ARTE PORTUGUEZA 



guíria de cerca su esposo, rogóle que cavalgasse, — é luego 
ella partida,. Hegõ su mando, e visto assj çstar apeado en 
la mitad de ia via aquel que noa mucho amava, le per- 
gunto que ally fazia; el qual repuso: Mi senuora puso aqui 
sus pies, en cuyas pisadas yo eotieudo vivir, é feoescer mi 
triste vida. E éi, siu otro coxiocimieuta de gentileza è cor- 
tezia, lleno de celos mas que de demência, con una lança 
le dió una mortal ferida ; é tendido en el suelo, con voz 
flaca é ojos revueltos á la parte do su sennora yba, diso 
las seguientes palabras: O mi sola é perpetua sennora, á da 
quiera que tu seas avê memoria, te suplico» de mi, indigno 
siervo Inyo. E dicbas estas palabras con grand gemidp, dio 
la bien aventurada anima.» (Áp. Canc. de S^á^., p.,428). 
Os Cancioneiros palacianos do século xv represeotapi na 
historia litteraria uma das consequendas da independência 
do poder monarchico; a aristocracia ficou annuUada, e para 
ter importância sujeitou-se á vida da coctezania. O lyrisma 
dos Cancioneiros representa este estado moral de quem se 
isente insignificante e se distrae celebrando os mais acciden- 
taes episódios da vida, Mas se por um lado lhe falta a pro- 
fundidade, reflecte a união moral dos povos na imitação 
de todas as litteraturas; separados com ódios políticos de 
Cástelia depois de Aljubarrota, o iúrante D. Pedro imita e 
estima Juan deMena; Castella procurando absorver Aragão 
imita-lhe a sua poesia, e-acceita também os melhores poetas 
da Galliza. 

Podemos dizer que os Cancioiieiros realisaram a prioidra 
unificação da Hespanha,e contribuíram para a mutua ai- 
liança dos povos occidentaes. Reproduzir estes montímen' 
K s lâo fáceis de se perder, porque sâo únicos, é um, dever 
nacional que os èscriptores hespanhoes estão cumpripdo. 
Quando será o dia em que o povo portuguez sinta egual pai^ 
xão pelos seus monumentos? Se da vida politicase pode iur 
ferir para a vida moral, podemos 'avançar que — tarde; 



ARTE PORTUGUEZA NA RENISCENÇA 



Duas correntes se accentuam com clareza nas lilleratii- 
ras da Europa, sobretudo entre aquellas que se formaram 
coDjunctamente com as nacionalidades organisadas sobre a 
dissolução do vasto império romano no occidente; essas 
correntes são o vigor tradicional, que provoca as manifes- 
tações litterarias individuaes, e a auctoridade erudita, que 
conservando o uso da língua latina e a imitação clássica da 
antiguidade reage pelo preconceito do cultismo contra o que 
è transmiti ido pelo povo. Houve composições formadas ex- 
dusivamente de elementos populares, como algumas ges-- 
tas dos troveiros gallo-frankos; houve composições erudi- 
tas adaptadas ao gosto popular, como os cantos dos Go- 
liardos, com a erudição das escholas latinas e a convivência 
do vulgo nas praças e nas tabernas; hoiíve composições 
eruditas formadas pela imitação do gosto popular, como as 
canções provençalescas; mas a completa separação entre o 
escriptor e o povo, a incompatibilidade entre a tradição me- 
dieval e a erudição claustral ou académica, estabelece-se 
com o facto da Renascença do século xvi. A Renascença, 
sendo na sua mais alta significação o restabelecimento da 
actividade scientifica da civilisação greco-romana interrom- 
pida pelo mysticismo christão. teve um lado sentimental e ' 
artístico, que atacou o espirito nacional nas litteraturas e 
na arte moderna. É este o lado condemnavel, devido á in- 
tervenção dos reis nas manifestações sumptuosas da arte, 
e á auctoridade das academias litterarias que produziram 
em ócios sem relação com o povo. Posto assim o problema; 
6 tendo começado pelo estudo do elemento tradicional iia 



150 QUESTÕES DE LITTBRATURA B ARTE PORTUGUEZA 

~ > ■ . II I ■ ' mm 

litteratura portugoeza, vamos vêr como a auclorídade eru- 
dita o despreza e o elimina da actividade nacional : 
. I. A architectura gotbica resiste ás ordens gregas reno- 
vando*se sob a forma flórida impropriamente chamada ma- 
iioelina, mas cae ante a chateza das duas fortes auctorida- 
(les, a architectura jesuítica e a pombalina. 

II. Â pintura nacional, representada pela eschola de Grão 
Yasco, cede o logar á imitação da pintura italiana da Re- 
nascença. 

III. A ourivesaria, reflexo da architectura, levada á per- 
feição ideal por Gil Vicente, é abandonada pela imitação dos 
ourives italianos da Renascença. 

IV. O theatro portuguez, fundado sobre os costumes po- 
pulares das vigílias dos santos e autos de Natal, Reis Ma- 
gos, e coUoquios da Paixão, lucta contra a implantação da 
comedia terenciana e da tragedia clássica, mas embora trium- 
phasse pelo apoio do povo, caiu ante os índices Expurgato- 
rios do Santo OfScio. 



§ !.• A ARGHITEGTUHA PORTUGUEZA 

Começaram os escriptores a dizer, que se chamava im* 
propriamente gothica á arcbitectura moderna; avançavam 
o principio e não provavam. Infelizmente, muitas vezes os 
preconceitos de nacionalidade estão acima da verdade pura 
da screncia ; da Âllemanba e da Inglaterra motejaram a as- 
serção, mas os arcbeologos francezes tinham á rasão e não 
sabiam demonstral-a. Foi Benan, dotado de uma profunda 
intuição tirtistica, o que melbor fundamentou a verdade; 
elle prova que a arcbitectura ogival é plenamente de ori- 
gem franceza, segundo o juizo desapaixonado das outras na- 
ções. A Catbedral de Canlorbery foi principiada por um fran- 
cez, Guilherme de Sens, em H74; a existência de um ve- 
lho esiylo ogival inglez (early englisb) prova a prompta as- 
similação da nova forma da arte, pela homogeneidade do 
aracter inglez com o génio feudal da França do norte. O 
alio clero da Europa tinha quasi todo estudado a theologia 
em Paris; ao retirarem-se os mancebos para tomarem posse 
das suas mitras, das ricas abbadias, levam a imaginação exal- 
tada pelas bellas e pbantasticas creaçôes da arte nova; eram 
esses os typos que escolhiam para as suas edificações. A 
transição do estylo romano para o gotbico data do século 
XII. Magdeburgo, data de l!211, feita por um plano fran- 
cez; por 1228 erigia-se a egreja de Nossa Senhora de- Tro- 
ves pelo modelo de Saint-Yved de Braisne. Dois annos de- 
pois Jacques Lapo, conhecido pelo nome de Tudesco, intro- 
duzia na Itália a Arcbitectura franceza. As cathedraes de 
Strasburgo e Colónia foram edificadas por architectos alie- 
mães sobre modelos francezes. No século xiv um archi te- 
clo francez, mestre Hardouin, dirige os trabalhos de S. Pe- 
tronio de Bolonha ; e os artistas de Buão e de Paris come- 
çam a catbedral de Milão. Diz Benan: «O estylo gotbico 



152 QUESTÕES DE LITTEFLATUnA 



chamou se na Allemaoba estylo francèz; opus francigenum, 
e era esse o nome com que devera ficar. i> Do século xii ao sé- 
culo X!v a archilectura da Europa é uniforme e universal; 
os artistas andam de terra em terra levantando essas Qo- 
restas de columnas, onde haviam de eccoar os hymnos 
christãos. Os artistas francezes, como diz Renan, nâo tive- 
ram o seu Yasari, que recolhesse as tradições^ e fizesse a 
Legenda áurea da arte. 

No século XV as grandes perturbações politicas da Fran- 
ça, a falta de numerário, e o abaixamento da moeda torna- 
ram desconhecidos os trabalhos architectonícos^ O estylo 
gothico foi acolhido em todos os povos da Meio Dia, em 
toda a parte onde as classes servas se emancipavam da 
submissão feudal, e se constituiam em terceiro estado, sa- 
cudindo ao mesmo tempo o jugo da consciência imposto pela 
egreja, e inventando uma nova forma para o seu culto, a 
architectura florida, o maior protesto e violência contra o 



rigor canónico. 



A egreja da Batalha assignala a entrada das Jurandas em 
Portugal; expressão de um voto da Uberdade popular, é 
também um producto da liberdade dos irmãos obreiros, 
creando segundo o enthusiasmo da sua crença, émancipan- 
do-se da austeridade canónica e da immobilidade byzantina. 
Nâo tivéssemos outra prova, bastava a época para explicar 
tudo; os romanist^s iam libertando a sociedade civil das 
Decretaes; as Universidades substituiam as Collegíadas; o 
poder real ia realisando em parte o principio abstracto da 
auctoridade personificado no Ministério publico ; e não ha- 
via o povo, cônscio do seu poder, no fervor da revolta, dei- 
xar desabroxar a rosa mystica da sua alma, fazer a cathe- 
dral como a assembleia gigante para os seus ajuntamentos 
políticos? A maior parte das grandes decisões politicas da 
edade media foram assentadas pelo povo na nave central 
da egreja; a eleição de D. João i fez-se na Sé de Coimbra. 
Era o sino a roída constante, que chamava ao ãppellido, á 
revolta. Uma prova evidente do apparecimento das Juran- 
das em Portugal está na diflerença que separa o Mosteiro 



1 Ideias e factos em parte coibidos na Hisloire lUteraire de la France, aa 
X!Ti"« siède, par Le Glerc e Renao, t. ii ; e em Félix de Veroeilh, no follieto 
U AH du Moijen A^e, et les causes d^ sa dccadsnce, passim. 



B ABTB PORTUGUEZA 153 



de Leça de Balio do convento da Batalha. Quarenta e nove 
annos se inlerna^tiem entre um e outro estylo. Leça de 
Balio concluída em 1336 é núa, despida de ornatos, conhece 
o gothico roas custa-lhe a desamparar a severidade byzan- 
tina, não tem desenho, nem leveza; em vez do concurso de 
crentes receia uma invasão de infiéis, é mais castello do que 
casa de oração. O architecto que levantou essa mole de pe- 
dras, conhecia o gothico, então immensamente espalhado 
pela Europa, não por o ter visto, não por ter viajado, mas 
em simples rascunhos, em traçados graphicos, que mais lhe 
pareceriam filagranna de pedra do que trabalho de canta- 
ria. Ao transportar para a pedra o estylo novo, popular e 
democrático, levantou a grande floresta, mas sem folhagem, 
sená verdura; Leça é a arvore gigante levantada pelo ou- 
tono na primavera da liberdade. É o que o génio porluguez 
podia dar, desajudado e sem modelos. Quarenta e nove an- 
nos levam-nos de repente a competir com o que ha de mais 
bello e estupendo no mundo; a Batalha ergue-se ao mesmo 
sol que illumina Colónia, Strasburgo, Notre Dame e York. 
Como explicar a transformação repentina? Qué faculdades 
inventivas, que sciencia de. desenho, que outros trabalhos 
prepararam tamanha perícia até chegar á perfeição de Santa 
Mana da Victoria? Nas creações do génio dá-se a grande 
lei díi vida : Natura non facit saltus. 

Em 13^5, data da fundação da batalha, é qne se mani- 
festou em Portugal a influencia das Jurandas estrangeiras. 
Viríam da França, da AUemanha, da Inglaterra? As confra- 
rias maçónicas divagavam de ha muito pela Europa, elevando 
essa grande alva de templos, como dizia Glaber. * Pelo ca- 
samento de D. Philippa, filha do iHique de Lencastre, neta 
de Eduardo ni de Inglaterra, com D. João i, abriu-se em 
Portugal um novo asylo para os irmãos obreiros de Ingla- 
terra que divagavam pelo mundo. Quando constava o voto 
de uma edificação feito por um principe, por um bispo, of- 
fereciam-se as diversas Jurandas para lhe darem o comple- 
mento. E natural que por influencia da rainha D. Philippa 
fosse entregue a empreza a um architecto inglez. Murphy, 



^ «Erat instar ac si mundos ipse excoliendo semet, rejectâ vetoiílate paF- 
sim candidum ecclesíarum vestem indueret.» Apud Uicbelet, Int. á Rist, Uni- 
persel, p. 122, • 



154 QCESTOBS DS^LlTTBnATURA 

diz que o architecto Slepban Stephensoo, fõra encarregada 
da coDStrucçSo; * Falkeustein, biblíothecario de Dresde, diz 
que Slepban Stephenson fazia parle da loja que estava fi- 
xada em York, Grand-loge of freemasons at York; e Rac- 
zynskí declara: cdesde o momento que vi a soberba egreja 
da Batalha pelas gravuras da obra in-foUo de Murphy, co- 
nheci n^eila uma tal analogia com a cathedral de York, que 
me não restava duvida sobre a origem commum d^estes dois 
edificios. Seja o plano da egreja da Batalha obra de um por- 
tugnez ou de um inglez, é certo que os dois edificios nas- 
ceram de inspirações artísticas análogas, homogéneas e con- 
temporâneas, e que o estylo das duas egrejas me parece 
idêntico. Esta impressão tornouse mais forte quando visi- 
tei a Batalha.» ' Mão querendo reconhecer a influencia das 
jurandas e mestrias é inexplicável o progresso que se dá 
entre Leça e a Batalha ^. 

As grandes navegações e descobertas, realisadas pelo 
infante D. Henrique produziram uma revolução capital no 
caracter e na vida portugueza. Âs ricas madeiras importa- 
das das ilhas recentemente achadas, mudaram o systema 
das construcções, criaram a architectura civil. Diz Azu- 
rara: ce as grandes alturas das casas, que se vãao ao 
ceeo, que se fezerom e fazem com a madeira d'aqu.ellas 
parles.» (Chron. de Guiné, p*. 14). Chamando a attenção so- 
bre esta passagem, são apreciáveis as palavras do visconde 
de Santarém: cEsla interessante particularidade indica que 
a madeira transportada a Portugal das ilhas novamente 
descobertas pelo infante D. Henrique, principalmente da 
ilha da Madeira, fora em tanta quantidade, que a sua abun- 



1 Traveis tn Portugal, p. II, ed. 1795. CiU qne recebera informações d'isto 
na Torre do Tombo. 

2 Carta xit, p. 336. 

3 Há Memoria bietorica da antiguidade de Monteiro de Leça« por AdIodío 
do Carmo Velho Barbosa, vem notada oàla singular differença:' «Recommendo 
aos curiosos da architectura, que comparem o risco descarnado doesta egreja 
com o risco simples do convento da Balalba, e TÔr-se ha que 6 o mesmo; mas 
que diííereoça de mimo, de gosto e arte se não dá entre um e outro edificiol 
E, bem para admirar, que sendo a egreja de Leça concloida no anno de 1336, 
e a Batalha começada por 1385, e dando se entre uma e outra só o espaço* 
de ciocoenta annos, a architectura fizvsse Uko rápidos progressos i > Pag. 44, 
cap. VIU, § 1., ed. 1852. 



E ARTE PORTUGUEZA 155 



daDCía fizera mudar o systema de construcçSo dos prédios 
urbanos augineutaudo os andares, elevando assim as ca- 
sas, substituindo-o por esta sorte ao romano e árabe, que 
até então provavelmente se usara. Esta probabilidade ad- 
quire maior peso á vista do systema de íllumiuação de Lis- 
boa, ordenado por el-rei D, Fernando, como consta de 
um documento do cartório da camará de Lisboa.» As na- 
vegações e o commercio foram o grande principio libertador 
da burguezia; d'elle dayia provir o impulso para a archite- 
ctura civil que estava para morrer. 

Das innumeras construcçôes mandadas fazer pelo infante 
D. Henrique, diz Aisurara: «Fez outrossy muy grandes 
acrecentamentos na ordem de Xpus, de cuja cavallarya foe 
regedor e governador por auctorida'de do scto padre, ca 
lhe dea todo o spritual das ilhas, e no regno comprou ter- 
ras de que fez novas commendas, a fora casas e herdades 
que anexou aa dicla ordem. E acrecentou no convento duas 
muy fremosas crastas, e htíu coro alto com muytos e ricos 
ornamentos, que lhe offereceo para sua servenlya. 

«E porque era muy devoto da virgem Marya, mandou 
fazer aa sua honra hua muy devota casa de oraçom, bua 
legoa de Lixboa, acerca do mar, onde se diama Restello, 
cuja envocaçom se diz Seta Marya de Bellem. 

«E em Poombal, e em Soure mandou fazer duas igrejas 
muy notavees. Leixou muy nobres casas ao estado de Lix- 
boa, prazendolhe de aministrar' sua proteiçom por mayor 
honra das scripluras santas, etc. 

<E hua sua capella de Santa Maria da Vitorya, dava per 
esta guisa sete marcos, ele.» (Azur. ib., p. 31.) 

Quando o infante D. Henrique tomou a administração da 
Ordem de Christo que já estava assente em Thomar, refor- 
mou a antiga egreja ccnstruida por Galdim Paes: «O In- 
fante D. Heniique começou então os erabellezamentos e me- 
lhoramentos da Ordem, no que respeitava ao reino de Deus, 
fazendo na dita egreja o que era indispensável para que os 
religiosos, ft*eyres e padres podessem celebrar convenlual- 
menle os oflicios divinos, e ter os seus capítulos segundo 
a sua regra. EUe construiu o coro. 

«Em um pano da parede contigua, par^ a banda do norte, 
fez abrir uma porta, e constituiu uma escada na espessura 
do muro para servir de communicação com o coro. 



156 QUESTÕES DE LITTER ATURA 



«Em um caixilho visinho, abriose uma porta para a sa- 
cristia que fez construir dando-lhe também uma communi- 
cação com o coro. 

«Fez construir um claustro para a sepultura dos religio- 
sos e dos cavalleiros, e para as procissões; a porta de com- 
municaçao com a egreja foi essa mesma que dava sobre o 
interior do segundo recinto. 

cEdlficou a sala do capitulo, do lado do norte do claus- 
tro; depois um outro claustro com um corredor superior, 
junto do primeiro do lado de leste. 

«O mesmo Infante D. Henrique, quando mestre da Or- 
dem, fez, pelos annos de 1416 a <420, construir uma hon- 
rosa sepultura para o sétimo mestre da Ordem de Christo, 
D. Lopo Dias de Sousa, na Egreja de Thomar, e a collocou 
na parede do lado do Evangelho junto da porta da antiga 
sacristia que agora é murada.» (1561)* 

Como os grandes guerreiros, o Condestavel Nuno Alva- 
res .Pereira acabou a sua vida na clausura monástica. Elle 
mandou construir o Convento do Carmo em Lisboa; é um 
monumento do golhico puro, hoje quasi derrocado total- 
mente. N'este tempo em Lisboa tornavam-se célebres pelo 
seu talento, os três architeclos Alphonso Eannes, Gonçalo 
Eanes e Rodrigo Eanes; foi a estes que o Condestavel en- 
carregou o trabalho. Com que vontade n3o seria servido 
n'esse século de crença individual o heroe rtiais popular e 
sympalhico da nossa historia antiga I O Condestavel fez um 
contracto em que elles se obrigavam a trabalhar todos os 
dias, salvo se lhes interrompessem o pagamento. O modo 
como eram pagos, espalha uma luz immensa sobre o cnsto 
da construcção no século xv, e sobre a econonwa domesti- 
ca. A cada servidor pagava-se 10 réis; ao official que era 
official 30 réis. Os outros offlciaes só recebiam 13 réis por 
dia, quasi dois alqueires e meio de trigo, cujo valor era de 
cinco réis cada um^. 

O que mais inspira a arte na edade media é a tradição; 
na egreja de Notre Dame de Paris collocaram os padres um 
busto de um advogado do rei, esculpido de uma fòrmíi gro- 



' Frei José Pereira de Santa Anna, Chronica dos Carmêlilas. GommaoicaçSo 
de Juromenba a Raczyneki, p. 73 do Dicc. 

2 Noiicia dj Abbadc Casio, apud Raczynski, Carta X, app. xiii. p ^%%. 



E ARTE P0RTU6UEZA 



Í57 



tesca». nas yenUa do qual apagavam as luzes dos altares. 
Aos pés do altar da Senhora da Victoria de Guimarães es- 
culpía-se quasi pelo. mesmo tempo o busto de outro iicen- 
ciado, a quem a collegíada odiava pelo mesmo motivo. O 
advogado fraucez chamava se Pedro de Coigoet» o licenciado 
portuguez, cbamava-se egualmeale Pedro de Uliva. Apro- 
ximemos as duas lendas; conla Estiene Pasquíer: «Pe- 
dro, de Coignet, advogado do rei oo parlamento de Paris, 
bppoz-sô com todo o vigor, contra as expoliações que os 
ecclesiasticos faziam aos seculares. Apresentou as queixas 
ao rei Pbilippe de Valois em 13!;^8; elle próprio pleiteou a 
causa, e apesar de todas as rasões do arcebispo de Sens 
e de Pedro Bertrand, bispo de Autun, que fallaram em nome 
do .dero,. o advogado levou a melhor. Os padres ficaram de 
tal modo irritados, que mandaram fazer uma figura tosca, 
que coliocaram a um recanto de Notre Dame^ e á qual de- 
ram por causa d'isto, o alcunho de Pedro Coignet. . . » (Re- 
cherches de la France, Liv. in, cap. 32 e 33.) Babelais com** 
plela, dizendo que contra elle apagavam as luzes. (Novp 
prologo^ Liv. IV.) Nas Memorias ressuscitadas da antiga Gui- 
marães, escriplas em 169á pelo padre Torqnato Peixoto dei 
Azevedo, se encontra: «Aos pés do altar de Nossa Senhora 
da Victoria, está esculpida em baixo relevo a eíQgie do li-: 
cenciado Pedro de Oliva, o qual sendo advogado pretendeu 
destruir os privilégios do cabido e caseiros do Nossa Se- 
nhora, o que fazia com grande instancia. £ estajido uma 
manhã conversando junto doeste padrão com o abbade de 
Freitas e Luiz Gonçalves, cónegos da Collegiada, sendo por 
elles reprehendido diante de outras pessoas, da perseguição 
que fazia, e que se guardasse da ira de Deus, respondeu: 
«que não era o diabo tão feio como o pintavam, e que em- 
quanto vivesse não havia de abrir mão do que começara.» 
Ainda não tinha acabado de pronunciar quando caiu mor- 
tal, cam a língua de fora da bocca, a falia perdida e o rosto 
disforme, e sendo levado para sua casa, tanto que a ella 
chegou deu o final arranco de vida.» E continua: «pelo quQ 
se mandou retratar o dito perseguidor do^ privilégios da 
Senhora, e.o caso se escreveu em pergaminho.» (Obr. cit., 
p. 261.) Por isso bem dizia o profundo senso commum de 
Rabelais: «A verdade tem sempre de ser ultrajada, e a 
prova está na estatua ignominiosa de Pedro de Coignet.» 



158 QubstObs db litter atura 

Este facto explica a tradição artística da edade media em 
Portugal, e ao mesmo tempo o modo como se origíoaram 
essas formas grotescas da architectura. 

N3o'só a magnificência dos reis, também a piedade par- 
ticular levantava templos. O cardeal de Alpedrinha, Jorge 
da Gosta, logo que foi nomeado arcebispo de Lisboa em 
i4C4 fez a capella de Nossa Senhora da Assumpção no con- 
vento de Santo Eloy em Lisboa. D. Jorge fora preceptor da 
infanta D. Catherina, fílha de D. Duarte; a capella foi des- 
tinada desde a sua fundação para servir de sepultura da in- 
fanta. De facto em 1464 elle morreu, com 27 annos. Com 
o golpe dado por D. João n na fídalguia, D. Jorge passou 
a Roma, onde permaneceu até ao fim da vida, e ali mor- 
reu cardeal de uma provecta edade. No terremoto de 17S5 
a egreja foi quasi completamente destruída ^ • 

O infante D. Pedro, filho deEI rei D. João v, fundou o con- 
vento de S. Domingos de Aveiro. (Extracto das noticias da 
fundação do Hospital das Caldas pela Rainha D. Leonor mu- 
lher de D. João 11. (Ap. Racz., p. 350.) 

A corrente erudita da Renascença começa em Portugal 
no reinado de D. João ii; as chronicas do reino são tradu- 
zidas em latim; a aristocracia vae á Itália instruir-âe com 
Policiano; a auctorídade da ei^udição condiz com o estabe- 
lecimento da auctorídade absoluta do poder monarcbíco. 

Além de Contucci encontramos outros architectos italia* 
nos em Portugal no tempo de D. João ii. A tradição altri- 
bue o convento dos monges capuchinhos de Jesus de Setú- 
bal, ao italiano Botaca em 1490; Juromenha e Raczynski 
provam que* elle era portuguez e fora mandado á Itália para 
estudar, e de lá foi chamado para vir encarregar-se da obra. 
Diz a Chronica Seraphica da Provinda dos Algarves: «A 
senhora Justa Rodrigues achava^se em Setúbal ao mesmo 
tempo que o grande architecto Botaca foi chamado de Itá- 
lia pelo rei D. João ii. Esta Justa Rodrigues fez chamar a 
architecto para lhe dizer que tendo tido conhecimento da 
sua celebridade, ella lhe abria o seu coração, e que inspi- 
rada por Deus queria fundar um mosteiro. O architecto res- 
pondeu: é quanto basta. Eis aqui um convento que eu vi 



Pedro 'Alves Seco, Escripturas da Ordem de Chrísfo. Ms. (R. 316.) 



B ARTE PORTUGUBZA 159 



«m sonhos, e qae eu desenhei quando estava ainda em Ha- 
lia.» * Em outro logar diz: tO rei D. Jo3o achando-se n'esla 
tidade em i492 notou que os alicerces da egreja eram pe- 
quenos e querendo corrigir este defeito, fallou n'isso ao ar- 
chilecto Botaca.»* 

No tempo de D. João ii tornava-se sensivél a influencia 
italiana da renascença dassica, proscrevendo o gothico flo- 
rido. André Contucci introduziu era Portugal o novo estylo. 
Soppõe-se que Pantaleao Dias, architecto de D. João n, foi 
^eu discipulo. D. João ii o nomeia no seu testamento: 

«Item, eu promelti de fazer edificar uma capella era Al- 
meirim, dedicada a Santa Maria da Montanha. Eu desejava 
que fosse levantada junto da fonte que se acha ao pé, e que 
a egreja tenha muros sólidos, assim como a sacristia e a 
casa do cemitério. Que o todo seja construído de tyolo e 
de argamassa, e com boas abobadas, como se vê circum- 
stanciadamente por um desenho de Pantaleao Dias. Parece 
que esta obra deverá custar pouco mais ou menos 150,000 
réis, e queria que os dispendessem para este fira, e que 
se alguma cousa restasse fosse empregado em outras obras 
de utilidade para esta egreja. 

«Item, eu queria que se continuasse o tumulo de S. Pan- 
taleao no Porto, conforme os desenhos que estão nas mãos 
dos cónegos da sé. Segundo as minhas intenções este tu- 
mulo deve de ter 5 a 7 palmos de largura sobre 31, 2 a 
4 de altura. 

«Item, prometti fazer um oratório a Santo António na 
casa em que nasceu em Lisboa, de modo como está expli- 
cado em um escripto que está nas mãos de Pantaleao Dias, 
e como foi combinado com o thesoureiro Aflbnso Fernan- 
des. Parece-me que esta obra pôde custar 1000 justos de 
ouro, conforme a perfeição e riqueza que eu queria que ti- 
vesse,, e se restar alguma cousa, que se empregue em obra 
de utilidade para o dito oratório.» ^ 

O uso do tijolo nas construcçôes estava então bastante 



1 Frei Jeronymo de Belem, Chrou. Seraph. Part. 4.*, Li?, x, p. 676. 

* Id. Parte 4.% Liv. m, cap. it, n« 16, p. 588. 

' Teslamento de D. Joio ii, gaveta 16, mdsso l.«, n.° 16, na Torre do 
Tombo. Copiado pelo Visconde de Juromooba e publicado pelo Conde de Rac- 
i)Hil\, Carta x, p. 419. 



160 QUESTÕES DE LITTERATURA 

■ .■ ■■■ ■■■■■■■..■—■■■ ■ ■^^^ ■»■■» ■! • ■-■ — ■■■ 

vulgarisado na Itália. Bramante e Bapbael tinham-no em- 
pregado na arcbitectura. Francisco de Hollanda, tendo via- 
jado na Itália* escrevia: «Servi-vos de desçnfaopara acon- 
strucção da fortaleza de Lisboa, como eu recommendeí a 
Vossa alteza, e para as mais que se levantarero em outras 
partes do reino, onde n3o tendes uma cidade fortificada â 
maneira moderna. Que o desenho dirija a forma e a propor- 
ção dos bastiões, baluartes, torres, ameias, muralhas, gua- 
ritas, casamatas, reductos, escarpas, parapeitos, fossos, e 
tudo o que pertence ás praças bem defendidas. É preciso 
que tudo seja de tijolo e não de pedra. Tal é a fortaleza de 
Mazagao, da qual o rei e o infante me recominendaram os 
desenhos e os modelos; foi a íirimeira praça bem fortificada 
que se construiu na Africa. É para lamentar que, nâo fosse 
construída de tijolo^ como eu tinha recommendado àp rei e 
ao infante.» (Dos Mnnnmenlcs que faltam á cidade de Lis- 
boa., cap. V,) Póde-sc. dizer que este era um caracter ma- 
terial da nova eschohi italiana. D. Manuel, éiilendeu que não 
devia abandonar a bella pedra de Portugal pelo tijolo, que 
sóservia quando muito para alguma couslrucçao mais au- 
daciosa ; o golhico florido podia exigir tudo do granito das 
provincias do norte, e os lavores mais caprichosos rendi- 
lhados na abundante pedra de lioz, das provincias do sul. 
O numero das edificações de D. Manuel é assombroso; a 
sua vontade era tornar o reino uma floresta de templos, e 
de monumentos commemorativos dos feitos assombrosos da 
sua época. ^ 

No século XV, os monârchas chamavam os artistas es- 
trangeiros, e mandavam a mocidade portugueza estudar 
fora do reino os bons modelos da antiguidade. D. João u 
mandou educar por Angelo Policiano o filho de João Tei- 
xeira; André Contucci, conhecido com o nome de Sansovi- 
no, archilecto dacôrte.de Lourenço Medicis, duque de Flo- 
rença, foi chamado a Portugal por D. João ii, e cá se de- 
morou nove annos, até á morte d'este monarcha; Elle linha 
todos os requisitos do bom archilecto; era também escul- 
ptor e piptor; Vasari atlribue-lhe um palácio feito em Lis- 
boa, o qual tinha quatro torres, e muitos outros edificios. 
Diz Vasari: «Era muito estimado de Lourenço de Medicis, 
o velho, e do rei de Portugal. Lourenço enviou-o a esle ul- 
timo; elle executou em Portugal muitas obras de escuiptora 



B ARTB P0RTU6UBZA 161 



6 de architectura e priocipalmente um palácio com quatro N 
torres, e muitos outros edifícios. Também fez para D. Jo3o 
u um altar escuipturado em madeira, no qual represeutou 
muitos prophetas. Elle modelou também em barro (para ser 
depois executado em mármore) uma soberba batalha, re- 
presentaudo a guerra que o rei teve de sustentar contra os 
Mouros, na qual foram vencidos. Nada se viu ainda mais 
grandioso, nem mais terrível do que esta obra, n3o só pelo 
movimento e carnificina que ai predomina, como peias po- 
sições dos cavallos, e pelo furor com que os soldados fa- 
zem mover os seus braços. Também fez uma figura de um 
S. Marcos y que é uma cousa curiosa.» (Vasari, Vida dus ' 
pituores, ed. 1759, t. ii, p. 166 e 168.) Loureiro, director 
da Academia de Bellas Artes de Lisboa em 1844, dizia, que 
$e não sabe qual é esse palácio das quatro torres, que D. 
João II, residia particularmente em Évora e em Setúbal, 
onde é provável que tivesse sido erecto K A baialha é por 
certo a batalha de Azamor? Era de mármore, e Loureiro 
disse que a vira aútes de 1810 no convento de S. Marcos, 
próximo de Coimbra. Ali também se achava a estatua de 
S. Marcos, e ambas as obras sofTreram bastante com a in* 
vasão de Masseua K Com a vinda de André Contucci a Por- 
tugal, podemos dizer que entrou esse espirito systematico 
que imprimiu ao gothico florido um rigor geométrico. O . 
gothico florido, filho do génio popular e espontâneo era como 
a emancipação da consciência, que começava a mentir por 
si, libertada da egreja; este estyloera franco, livre, sym- 
bulico« maravilhoso como o estado da crença na alma popu- 
lar; de facto o gothico florido è uma creação anonyma, do 
baixo povo; antes, por assim dizer, de mostrar a indepen- 
dência politica na communa, eternisou a independência sen- 
timental da crença nas soberbas cathedraes que se alevan- 
taram na superficie da Europa. A communa era feita pela 
conjuração dos visinhos; a cathedral çehjuranda dos obrei- 
ros, uma mesma confratemldade levantava o ediflcio da. 
crença e da liberdade. 



1 No CofkcíofMtro geral de Resende falla-ie com insistência nas tcrret ie Al 
meirtin, d'oode inferimos ter sido ali collcicada a constrocçAo de Gontacci. 
' lUciyoski, Carta, xit, app. iii, p. 811. 

11 



162 QUB6T0B8 DB LITTBBATUBA 

O estylo clássico da architectara, no secnlo xt e xvi, op- 
poz á efiDoresccDcia gotbíca, ao dítbyrambo das formas, á 
floresta de linhas, uma parcímonía de simplicidade, certa 
pureza e symetria, e uma reproducçSo das ordeus gregas, 
confaudidas e empregadas com arte. Bramante, Rapbael, 
Peruzzi, Geminiano de S. Gallo arvoraram o doto estylo. 
A liberdade burgueza ia sendo coarctada pelo cesárismo dos 
reis; por essa raz3o ia esmorecendo também o espirito po- 
pular que levantou esses olympos do cbristianismo. Por as- 
sim dizer, a tranformaçSo política da Europa influenciou mais 
na extincçSo do gotbico florido, do que a própria Renas- 
cença. O gotbico começou a ser desprezado, como quem 
ignorava as regras da arte. Erancisco de Hoilanda, que via- 
jou na Itália, diz: cPara fazer construir os seus edíficios o 
rei deve saber de arcbítectura ; saber se ella é pura ou al- 
terada, antiga ou moderna, romana ou gotbica; elle deve 
saber distinguir os bons desenhos dos que s3o máos ; por- 
que é uma grande desgraça quando um rei ou príncipe não 
a conhece (a scíencia do desenho). Como poderá elle ter 
boas fortalezas?. . . Gomo poderá, finalmente, sem conhe- 
cer o desenho, fazer construir todos os monumentos que já 
citei, como palácios, aqueductos, pontes e tantos outros?» 
(Dos manumentas ^ faliam á adade de Lisboa^ cap. vi.) 
Estas ideias de Francisco de Hoilanda, qge viajou pela Itália 
e estudou em Roma, eram communs no tempo de D. João 
II, que ligava uma grande importância ao desenho, como 
conta Garcia de Resende. Assim podemos dizer, que San- 
sovino vulgarisou em Portugal o estylo da architectura clás- 
sica; elle mesmo, florentino, era escolptor e pintor. Diaute 
da belleza geométrica das ordens gregas, a inspiração tu- 
multuosa das creações do estylo florido tornavam-se no 
acinte da reacçSo uma obra rude e sem eurythmia. Pode- 
mos dizer, que este era o estado do gosto quando D. Ma- 
nuel subiu ao tbrono. Gontucci, deiíou Portugal, depois da 
morte de D. Jo9o n; parece que a auctoridade do archite- 
cto da corte dos Medicís deixou de pezar sobre o génio 
creador em Portugal. D. Manuel, aventureiro nas suas em- 
prezas, quiz deixar nos monumentos que ia consagrando ás 
suas descobertas, allusões aos factos que eram a maior glo- 
ria do seu reinado. O estylo manoelino não é mais do que 
uma reacç3o do combatido gotbico florido, contra a areln- 



B ilBTB PORTUGUESA 163 



iectura clássica da Renascença ^ Diz Roquemont, em nm 
apontamento sobre arcbitectura dado a Raczynski: ^Em to- 
dos estes géneros de archítectura ha alguma cousa de pritJOr 
tívo^ que pertence unicamente a Portugal. i^^ 

A lucta do gosto erudito da Renascença contra a tradi- 
ção gotbíca da arcbitectura acba-se esboçada de um modo 
pittoresco no Auto da Ave Maria, de António Prestes, na scena 
em que ^Entra o Diabo vestido á italiana, que vem enga- 
nar o Catalleiro e diz : 

Ha edificios, teogo andado 

para Tal os 

todo ol orbe, y soy de haxellos 

maestro; be edificado 

por Roma, Itália, barto dellot. 
Câ?allkiko: Foi ídtooç&o soberana. 
Mbstki: Alegram-se n'ella cegos. 
GATÂLLBiao: Esta in?ençao de qoem mana? 
Mkstsb: De Grécia. 
Catâllkiio: Foi graciana. 

DuBo: Los primeros fueron gregos; 

despoes de labrada en Grécia, 

biso Roma 

delia 80 romana poma; > 

y desde entonce la Pérsia. 
Catallbibo: Sabe d'era o qoe sobm? 
Diabo: To sé las colonas dóricas 

y corínthias, y sé mas, 

las jónicas de la pax, 

de la guerra las tbeoricas, 

SQs talles, basas, compás; 

pêro acá en manicordio, 
. SOS retóricas, >^ 

signen olras metafóricas 

adforsas de sa exórdio; 

por las corintbias las dóricas, 

dóricas por las tbeoricas, 

jónicas por las toscanas, 

las toscanas por las jónicas; 

no sabeis do efttao las dóricas, 

Bi corÍBtbias, todas fanas. 



1 «Eo aebo bastante engenhosa e josta a obserração que me fes om dia • 
tr. HercalanOy a propósito da arcbitectara de Manoel: É a rem^eneía do M<yi» 
yofàico, contra o estylo de Francisco L Eo aceresceatareí: e contra o de Bal- 
tbasar Peratsi, de Bramante, e oMsmo de Raphael como arcfaitecto.! Rac- 
xynski. Carta xnr, p. 331. 

^Racxynskiy Carta 21, app. i, p. 410. 



164 QOBSTÕBS DB LITTBRATUBA 



La Bísna traosBÍgncioD 
▼an pedaiM 

BMiclados, los principalis 
COD los qne do foe raioa 
qaé ll^gaica a ser Ulta. 
Mas» sefior, los capitelos 
sin los frisos, arquitrafos, 
(rootespicios sio conclates 
piaUD todo ol triste Apelas 
qaé se moera a siete Uaves... 
Por la qual rasoa notivo 
si acá en la arqoitectora 
qoieren obra limpia e para 
yo la sé, yo la rebito 
adó maere so escriptara, 
CAfiLLiiao: E a prota d*ellaT 
DiAio: Eo toscano 

moy a la soma 
la escroTi, ai no presama; 
delia el grão Sebastiano 
fue la tiota, yo la plama. 
T en siglos de edad dorada 
por Villalpaodo en Espafia 
foe tradocida y sacada 
dei toscano; es sublimada 
so tradociaoy cosa estro fia. 
GATALLEiao: Haveis algo edificado 

de arqnitetora? 
DuBO: T qoien foe so compostura, 

so mosayco, so labrado, 
SO alabastro, so pintora? 
Yo senor, edifique 
nn tiemplo, loor y fiesta 
de Minert a, y le labré 
de bronse metal, y foé 
la máxima; otro a Vesta..... 
£1 otro antigo edificio 
Panléon templo romano, 
quieo le trassó? quien? mi mano 
quieo le labró? mi offlcío; 
proeva mi Sebastiano; 
los theatros de Mafçello, 
obra altiva 

los labré de pedra bita, 
en ellos Toran mi sello, 
si el tierapo no me lo prÍTa. 

BoMTRÁBiLBo: Foz isto longe d'aqoi? 

Diabo: Romã, Itália 

Mistbb:' £ a que vem a esta terra? 

DuBo: Woftrar mi saber, mis msnoe; 

soefia allá qoe lositanos 



B ARTE PORTUaOEM. 



165 



10 gueto ahora se eDciom 
. en edificioa romiDos. 
GáTALLEiBo: Ed soq Qm dos qoe estSo postos 

ii'es8e gosto, 
• q«e Dlo i\ melhor composto; 

heí-o por gosto dos gostos, 

jamais lhe Tirarei rosto. 
Moço: Bofe, qae «oís necessário 

maíto cá por arcbitecto; 

dareis trigo; cá em secreto 

fos abrirei om almario 

cá dos meos, o mais discreto, 

mais perfeito, mais sapremo. 

Sabei, Me^tre^ 

qae o de fora dSo se adestra 

mais, aqni tem graça extremo. 

Tado o nosso acbosílfestre, 

mnito grosseiro; o de lá 

é mais d'arte, lustra mais . 

no atilado. 
Mistbb: Somos taes 

que naturexa nos dá 
• estranhos por natoraes: 

sSo tão certos os espritos 

portDgaexes 

reresarem moitas texes 

os gostos, 08 appetitos, 

qoe d*ahi nacem os revexes. ^ 

ITeste Auto de António Prestes está consignada unia pre- 
ciosa pagina da historia da architectura portugueza, quando 
lactava contra o gosto clássico da Renascença; a referencia 
ao gran SebastianOy fixa-nos a data da composição pelo me- 
nos em 1529. Este arcbitecto è Bastiano de Sangallo (1481- 
1551), que se distinguiu também pela sciencia da perspectiva» 
e pelo tino critico com que pbilosophava sobre arte, mere- 
cendo dos seus contemporâneos a antonomásia de AnstolUe. 
Quando Carlos v entrou em Florença, Sebastião fez-se ad- 
mirar pelos seus extraordinários talentos scenographícos» 
circumstancia a que se refere António Prestes/ N'esta scena . 
do Auto ia Ave Maria ha ironias pungentes contra a mono- 
mania pelo estylo romano, e contra a facilidade com que se 
abandonou a tradição pela moda. O que acontecia na arte» 
deu-se também cohi os costumes ; os foraes, ou garantias 



t Autos, de António Prestes, p. 67 a 7.2. 



166 qubstObs dk utisrâtura 



locaes coDSuetudiDarías, foram extíDClos sob a unificação 
do código das Ordenações, calcadas sobre as leis romanas ; 
Gil Vicente satyrisa esta transformação nos versos do Can- 
cioneiro geral: ^ 

▼ereys com quuta grateia 
bosca leyi de geoiileia 
DO liodo estylo romaoo. 

O pensamento das descobertas marítimas começon desde 
o seu principio a inspirar a architectura portugueza. Da 
egreja de Belém diz Jo3o de Barros: <0 Infante Dom Hen- 
rique, per raz3o d'esta empreza que tomou de mandar 
descobrir novas terras, em as partes donde as suas ar- 
madas partiam a este descobrimento, por louvor de Nos- 
sa Senhora, mandara-Ibe fazer uma caza, uma das quaes 
a do Restello em Lisboa da invocação de Belblem, na qual 
linha certos Freires da Ordem da Milícia de Ghristo, de 
que elle era Governador e Administrador, i qual Ordem 
ellc tinha dado esta casa com todas as terras, pomares, e 
aguas, que para elle comprara... O fundamAito das quaes 
casas, e principalmente d*esta de Bethlem, era para que 
os sacerdotes, que aiii residissem, ministrassem os sacra- 
meolos da confissão e communhão aos mareantes que par- 
tiam para fora, e emquanto esperavam tempo (por ser uma 
legi^a da cidade) tivessem onde ouvir missa». (Década i, 
L. IV, Gap. 12.) O mesmo pensamento sustentou o gotbico: 

cEl Rei D. Manoel, como imitador d*este sancto e catho- 
lico avoengo, vendo que succedéra a este Infante (Dom 
Henrique) em ser Governador e perpetuo Administrador 
da Ordem da Milícia de Ghristo, e assim em proseguír este 
descobrimento, tanto que veiu Vasco da Gama, em que se 
terminou a esperança de tantos aonos, que era o desco- 
brimento da índia, quiz, como premicias d*esta mercê 
que recebia de Deus, em louvor de sua Madre (a quem o 
Infante tinha tomado como Protectora para esta obra) fun- 
dar um sumptuoso Templo na sua ermida da vocação de 
Bethem... A qual Gasa el-Rey deu aos Religiosos da Ordem 
de S. Jeronymo, pela síogular devoção que tinha n'este 
Saneio... £ porque a Ermida com todas as propriedades» 
por a ter dotada o Infante ao convento d'elle, que está em 
a vílla de Thomar, por auctoridade apostólica deu El-Rey 
por elia ao mesmo convento a Igreja de Nossa Senhora da 



B ABTE PORTUGUESA. 187 



Conceição de Lisboa, a qual elle fez da esuoga que era dos 
Judeos.» (João de Barros, Década i, L. iv» cap. l±) 

O Dorte de Portugal abunda em excellente pedra do can- 
taiia; foi esta uma das causas das numerosas edificações; 
indicaremos ás princípaes egrejas do Porto e a época da 
sua fuQdaç9o, peias quaes se pôde caracterisar a nossa 
evolo^o architectonica. 

A Sé: cEste famoso edificio, que desde o sen fundamento 
foi reedificado pelo Conde Dom Henrique, compõe-se da parte 
exterior do norte de uma arcada magni^ca de pçdra la- 
vrada primorosamente, com uma varanda' e balaustres da 
mesma pedra, que tudo termina em um elevado frontispi* 
cio, que fica da parte do poente, cuja magestosa elevação 
domina uma grande parte da cidade. Duas torres fortíssi- 
mas de cantaria rematadas em abobeda da mesma pedra.,, 
elevam a belleza e dão um novo lustre a este frontispício. 
O interior do templo è dividido em três naves, que fínali- 
sam ém um espaçoso e comprido arco cruzeiro donde pega 
o coro principal e capella mór... O seu pavimento è de 
mármore branco e vermelho formado em xadrez, e assim 
mesmo os cunhaes e cornijas são d*esta pedra em que en- 
tra igualmente o mármore preto e roxo. Um discipulo.de 
Miguel Ângelo, chamado Valentim, foi o auctor d'esta ad- 
mirável fabrica.9 (Descripção topographica e histórica da 
cidade do Porto, por Agostinho Rebelio da Costa, p. 59, 
cap. in, ed. 1789).— O coro e capella mór foram feitos pelo 
bispo D. Frei Gonçalo de Moraes em 1609, e concluída 
pela sedei vacantOb de 1717. O claustro é obra do bispo 
D. João m, QÒ anno de 1385: ciguala na arcbitectura a 
mesma capella mór, porque além da sua extensão é ro- 
deado de 304 columnas de pedra lavrada em cujos capiteis 
firmam-se elevados arcos da mesma pedra, sobre os quaes 
ha quatro extensas varandas também de columnas, e que 
dão entrada á grande e aceada casa do cabido e outros 
quartos pertencentes á fabrica da Calhedral.» (Id., ib. p. 60). 
Para este claustro deu a Camará da cidade mil pedras la- 
vradas. (Id., p. 76). 

Da egreja de Cedofeita, diz Agostinho Rebelio : «A sua 
estructura é de gosto gothico» e accrescenta que a fundara 
Tbeodomiro» rei dos Suevos em 559, o que é inconciliável. 

—«A Misericórdia foi fundada em 1555 na rua das Fio- 



168 QUBBTGBS Dl UTTBIUTURA 

res, aonde existe...» (Id. p. 97.)— cD'esta egreja diz o ilios- 
tríssímo CuDba, que é uma das mais bem acabadas do rei- 
no^ e á capella mór haviam poucas que lhe fossem compara^ 
veis. Hoje o seu frontispicio è um dos mais regulares e for- 
mosos entre todos os da cidade.» (Id., pag. 98.) 

— cConvento deSamDomingos. £ o majs antigo de todos, 
fundado no anno de 1239 em uma formosa praça, a qaal 
lhe deu o nome. A sua egreja, que era de três naves, foi 
devorada pelo fogo em 1777...» (Id., p. 111.) 

— «Convento .de Sam Francisco, de Religiosos observan- 
tes, fundado em 1241, fora dos muro^ da cidade, e trans- 
ferido por el-rei Dom João i.no anno de 1425 para o sitio 
em que presentemente existe... A egreja d'este convento 
é de três naves, coberta de alto a baixo de entalha, nova- 
mente dourada, de sorte que toda ella parece um dilatado 
monte de ouro.» (Id., p. 112). 

—«Convento de Santo Eloy, fundado em 1491, etc. (id. 
p. 112.) 

— aConvento de Santo Agostinho da Serra, assim cha- 
mado porque está no sitio mais alto da cidade, e da parte 
meridional do rio Douro. A sua fundação foi no anno de 
1540.... A egreja formada em circulo imita a de Santa Ma- 
ria chamada Redonda, de Roma. O claustro é egualmente 
redondo e todo de cantaria. Os dormitorips e otficinas são d 
moderna e segundo a architectura de bom gosto.n {\A.\ p. 113.) 

« — Convento dos Agostinhos descalços, fundado em 1560, 
e n'elle estiveram os jesuítas até o anno de 1759. Em 1780 
tomaram posse os sobreditos religiosos^ tendo-o comprado 
á Universidade de Coimbra... A egreja d'éste convento é 
toda de cantaria lavrada com um largo e desafogado arco 
cruzeiro da mesma pedra, rematado em uma soberba co- 
pula que realça a belleza da capella mór e dos altares col- 
lateraes em tudo correspondentes a esta grandeza. O 
frontispicío é s^m controvérsia o mais conforme á perfeita 
architectura e o que n'este ponto gosa a perferencía entre 
os outros da cidade.» (Id., p. 114.) 

— «Convento do Valle da Piedade, pertence aos religio- 
sos menores reformados da provinda da Soledade. Foi fun- 
dado em 1569, etc.» (Id., p. 114.) 

—«Convento de Sam Joam Novo; foi seu fundador Dom 
António de Noronba, governador de Cochim, sobrinho do 



B ARTB PORTUOUBZiL 1 69 



iVIarquez de Villa Real, em 1392... Tem uma bella e grande 
-egreja toda de cantaria.. .> (Id., p. HS.) 

— cCoDvento de Sam Bento da Victoria, fundado em 1 598. 
<Id., p. 4i5) 

— «Convento dos Carmelitas Descalços, foi fundado em 
4619.B (Id., 116.) 

— f Convento de Corpus Chrísti, fundado em 1343; «A 
grande inundação do Douro, acontecida no anno de <623, 
foi a que obrigou as religiosas á feitura doesta obra, que as 
jseota d*outros simiibantes assaltos.» (Pag. H7 ) 

c — Convento de Santa Clara, em 1416.* cA Egreja é toda 
de entalha dourada, e riquíssima de ornamentos de ouro, 
<]e muitas alampadas, castiçaes, banquetas, tudo de prata.» 
<Id., P.-118). 

c— Convento da Ave Maria, das Religiosas benedicfmas, 
fundado poreNrei Dom Manoel no anno de 1318... Desgra- 
çadamente a sua egreja e os seus dois coros riquíssimos 
de exceltentes pinturas foi tudo reduzido a cinzas em ou- 
tubro de 1783.» (IJ., p. 119.) 

. Ainda boje se conserva no norte de Portugal a tradição 
pura dos trabalhos de cantaria, mantida apenas pelas exi- 
gências da arcbitectura civil. 

A uniformidade de direitos, estabelecida pela Ordenação 
Manoelina cimentou o fundamento da sociedade burgueza ; 
assim a arcbitectura civil, devia forçosamente apresentar 
um desenvolvimento natural. A velha arcbitectura dos cas- 
telios roqueiros agora estava demarcada pela lei. Diz a Or-' 
denação: «Os alcaides dos castellos que os teverem de ju- 
ro, e assi as ordens, qae castellos teverem serã obrigados 
a fazer, e assi repairar nos ditos castellos as cousas seguin- 
tes: A todo apousentamènto necessário pêra a vivenda do 
alcaide moor, e assi estrebarias, atafonas, fornos, casa d'al- 
mazem e de mantimentos, telhados de torres, portas de 
fortaleza, e assi barreiras e baluartes, trancas, ferrolhos e 
fechaduras, repayro de cisternas e poços, e quaesquer dã- 
nificamentos. de muros e barras e torres e assi dameias o 
peitoris. E caindo torre ou lanço de muro, baluarte ou bar- 
reira, o povo lhe dará a ferramenta. E o 'mais fará ho al- 
caide moor aa sua custa.» (Ord. Man., L. n, xlihj, foi. lxv, 
edição de 1363.) 

O gothíco florido da época manoelina ainda se conservou 



170 QDBSrÕBS Dl MTTERATURiL 

duraDte o período dos Pbilippes, em lacta já com a paatada 
esquadria dos estéreis jesuítas. Mas assim como estes ab- 
sorventes pedagogos mataram os talentos, a dignidade e a 
nacionalidade portugueza, fácil lhes foi também desnatarar 
a nossa arte. 

Nas Victgens na minha terra, Garrett faltando do GoUegío 
dos Jesuítas de Santarém, que está ao lado do convento de 
S. Francisco, diz: cÁ direita o grandioso edificío pbilippino, 
perfeito exemplar da macissa e pedante arcbitectura reac- 
cionária do século XVII, o Gollegio, typo largo e bello no 
seu género, e quanto o seu género pôde ser, das constrac- 
ções jesuíticas. — N3o ba alma, nSo ba génio, não ba espi- 
rito. n'aquellas massas de pedra, sem elegância, nem sina* 
plicidade; mas ba uma certa grandeza que impõe, uma so- 
lidez travada, uma symetria de calculo, umas proporções 
frias, mas bem assentadas, que revelam o pensamento do 
século e do instituto que tanto o caracterisou.— Não são as 
fortes crenças da meia edade que se elevam no arco agudo 
da ogiva ; não é a relaxação florida do século xv e xvi que já 
vacilla entre o byzanlino^e o clássico, entre o mystico ideal 
do cbristianismo (^ue^arrefece e os symbolos materiaes do 
paganismo que acorda ; não, aqui a renascença triumpboa, 
e depois de triumphar degenerou. É a Inquisição, são os 
jesuítas, são os Pbilippes, é a reacção catbolica edificando 
templos para que se creia e se ore, não porque se crê e se 
orâ. — Até aqui o mosteiro e a catbedral, a ermida e o con- 
vento eram a expressão da ideia popular, agora são a for- 
mula do pensamento governativo.— Ali estão, olbae para 
elles, defronte um do outro, os monumentos das duas re- 
ligiões, a qual mais expressiva e loquaz, dizendo mais claro 
que os livros, que os escriptos, que as tradições, o pensa- 
mento das edades que os ergueram, e que ali os deixaram 
gravados sem saber o que faziam.» ' O Gollegio de Santa- 
rém e o Gollegio de Coimbra são os dois espécimens mais 
completos da arcbitectura jesuítica: «Gá estamos no GoUe* 
gio, ediQcio grandioso, própria babitação da Compaobia-rei 
que o mandou construir para edificar os infantes seus filbos. 
— Creio que esta e a de Coimbra eram as principaes casas 



' txarrelt, Viagem^ U ii, p. 18. 



B ARTB PORTBGUEZA > 171 



qoe^para islo tinham os Jesuítas em Portugal.» *— «O ediPi- 
cio do Collegio é todp pbilippino . . . : a egreja dos mais bel- 
los espécimens d'este estylo, que, em geral sécco, duro e 
sem poesia, não deixa comtudo de ser grandioso.» ' 

Garrett tioba uma extraordinária iutuição artistica, que 
n'este ponto sq revela com a sensibilidade consciente de 
um Micbeiet, quando caracterisou a arcbitectura jesuítica. 
Sâo cheias de verdade estas palavras de Micbelet: <À sa- 
tyra mais violenta contra os Jesuítas é a sua arte. Tal é a 
arte, taes sao os homens . . . Uma verdade transparece aqui, 
e que é de força reconhecer: a arte é a única cousa iuac- 
cessivel á mentira. FilbãT do coração, da inspiração frauca, 
a arte não sojGfre o amalgamma do falso, não se deixa violar, 
protesta, e se a falsidade triumpba, morre. Tudo o mais se 
imita e se macaqueia. Os Jesuítas poderam formar uma 
theologia no século xvi, uma moral no século xvii; mas uma 
arte, nunca. Pode simular-se o santo, e o justo, mas como 
contrafazer o bello? Tu, és feio, pobre Tartuffo,.e feiobasde 
ficar: é o teu sello. Tu altingires o bello, tocal-o! seria uma 
impiedade sobre impiedade. O bello é a face de Deus.» Mi- 
cbelet depois compara a arcbitectura jesuítica com a arcbi- 
tectura secular do tempo das jurandas e das revoltas com- 
munaes: «Fomos nós, na nossa candura, que levantámos, 
que edificámos essas egrejas que elles desconhecem. O pa- 
dre fazia S. Sulpicios, e outros monturos de pedrals. Os se- 
culares descobriram Notre-Dame, Saint-Ouen; mostraram- 
Ihe o espirito christão n'essas pedras vivas, e o padre não 
o viu . . . Que ha para admirar? A Egreja pertence àquel- 
les que a comprebendem. E os que a comprebendem são 
os únicos que a respeitam e que tem saudades d'ella.» 

O domínio dos Jesuítas em Portugal, chegando a gover- 
nar como ministros de D. João v, tem impresso o. seu cu- 
nho esthetico nas obras do faustoso imitador de Luiz xiv. 
As obras eram feitas por homens agarrados pela auctorí- 
dade, á custa 4os milhões dos diamantes do Brazil, mas 
faltava-Ihes o que os Jesuítas não sabiam inspirar, a crença 
e a verdade. 

Uma obra sem pensamento é como um corpo sem alma. 



lld..p. 138. 
2 Id., p. 139. 



172 QUB8T0B8 DB LITTBRATURA 

Gontemple-se Mafra, imagem da realesa no século xvhi; é 
uma grande eça levantada como prenuncio da Revolução. 
Infunde tristesa o vér o grandioso amalgamado com o va- 
sio ; o espirito desola-se por vér uma cousa medíocre cao- 
sar-lbe a impressão de um enigma. Para que se chamaram 
architectos italianos? Para que se amontoaram tantas pe- 
dras? Para nada. Esta arcbitectura erudita estava, como3S 
construcções dos jesuítas na meslna relação de inferioridade 
para com o velho gothico. Faltava-lhe.a tradição da arte, 
como aos jesuítas faltava a crença intima. 

A intervenção da auctoridade na Arte produz o alinha- 
mento, como o pedantismo das 'arcádias produz a poesia 
correcta, bem metrificada, mas fria. O excesso de absolu- 
tismo exercido pelo marquez de Pombal acabou de matar 
a arcbitectura portugueza; o estylo pombalino é um docu- 
mento moral. 

Garrett, dotado de um senso artístico distincto, tendo 
conversado com os mais illustrados viajantes que tem vindo 
na sublime peregrinação da arte a Portugal, caracterísa as- 
sim esta arcbitectura: . 

<Perverteu-se por tal arte o gosto entre nós desde o 
meio do século passado especialmente, os estragos do ter^ 
remolo grande quebraram por tal modo o âo da arcbite- 
ctura nacional, que na Europa, no mundo todo talvez se 
não ache um paiz onde, a par de tam belloa monumentos 
antigos como os nossos, se encontrem tam villans, tam ri- 
dículas e absurdas construcçoes publicas como essas qaasi 
todas que ha um século se fazem em Portugal. 

<xNos reparos e recoostrucções dos templos antigos è que 
este péssimo estylo, esta ausência de todo o estylo, de toda 
a arte mais offende e escandalisa. 

«Olhem aquella impena clássica posta de remate ao fron- 
tispício todo renascença da Conceição-velha em Lisboa. Ve- 
jam a implastagen} de gesso com que estão marcados os 
feixes elegantes de columnas gothicas da nossa Sé. 

«Nao se podo cair mais baixo em arcbitectura do que 
nós caímos quando, depois que o marquez de Pombal nos 
traduziu em vulgar e arrastada prosa os recocós de Luiz xv, 
que no original, pelo menos, eram floridos, recortados, ca- 
prichosos e galantes como um madrigal, esse estylo bas- 
tardo, hybrldo, degenerando progressivamente e tomando 



B ARTB PORTCGUEZA 173 



presumpções de clássico chegou dos nossos dias até ao cha- 
fariz do Passeio publico» ^ 

O marquez de Pombal, tendo de reedificar Lisboa, crean- 
do uma administração publica em Portugal, emfim dan- 
do-nos sob a capa de um severo absolutismo, instituições 
rudimentares da liberdade, deu aos ediflcios que mandava 
construir um caracter e feiç3o que se distinguem com o 
Dome de architectura civil de Pombal. Os caracteres d*esta 
architectura s3o uma pertençao clássica, uma severidade 
romana, visando ao monumental deslocado. As linhas são 
rectas e inflexíveis como o caracter geométrico e duro do 
ministro; quebram-se, mas nao se torcem em espiras. S3o, 
como diria Sá de Miranda : 

De antes quebrar qae torcer. 

As columnas gregas que adopta s3o pecadas como o ba- 
lanceiro que imprime o despotismo; poucos ornatos, e es- 
ses mesmos introduzidos a furto, a medo. É ainda archi- 
tectura jesuítica, mas com mais franquesa; é lisa, sem ar- 
rebiques, diz o que tem a dizer, com precisão e rigor. Não 
finge, nem procura macaquear a crença que já não tem; é 
Tulgar, comesinha, grammatical, como a poesia de um re- 
latório de ler em que se cita de passagem um auclor grego 
ou romano; é a traducçao fiel d'esta phrase oíBcial: alia 
e independente soberania pela qual manda, quer e decreta de 
sciencia certa e poder abÉoluto. A architectura de Pom- 
l)al faz lembrar as creações d'esses génios produzidos pe- 
los programmas ofiiciaes, e condecorados e premiados, mas 
que ficaram estéreis e pecos como um frucio que amadu- 
receu por unturas e não com o calor vital do sol. Sob este 
ponto de vista esta architectura avançou além do seu sé- 
culo. O bonito, o gracioso n'esta architectura torna-se re- 
coco, amaneirado; como podia rir e folgar, quem tinha ca- 
bello no coração? O riso na bocca de um carrasco é fúne- 
bre, mortal. Se algum documento demonstra a nossa pro- 
funda decadência, não é tanto a dissolução moral do con- 
stitucionalismo, nem angustiosa ruina da riquesa publica, 
más a nossa actual incapacidade e esterilidade na Arte. 



i^yio^nt na minta ferra, t. ii, p. tS. 



ff 2.» OHÂO VASCO 



Determinação histórica da sua personalidade 



Bepete-se o nome de Grão-Vasco como a personificação 
mytbíca de uma eschola portugueza de pintora ; caracteri- 
soa*se-lhe o estylo como pertencendo á grande época de 
Van-Eyck, porém a abundância de pintores com o nome 
de Vasco, taescomo : Vasco Eanes pintor (USO), Vasco fB«- 
minador (1455), Vasco Fernandes do Casal (1525), Vasco 
Fernandes (1552), Vasco Pereira pintor (1575), e Veias- 
ques Luzitano, tem embaraçado de um modo invencivel o 
problema da determinação histórica d'esta individualidade 
artística. 

Tentando apresentar alguns factos novos e decisivos para 
accentuarmos a existência e época de GrSo-Vasco, apenas 
summariaremos o estado da questão, para se tornar mais 
intelligivel o nosso resultado. 

Eis a ennumeraçSo das bypotbeses que se tem aventado 
acerca da personalidade de Grão-Vasco: 

1.* Considerado por Taborda o illuminador Vasco, ci- 
tado em um documento da Chancellaria de Affonso v, de 
1452. 

2.* Considerado como o possuidor dos Moinhos do Pin- 
tor, em Vizeu, e como sendo Vasco Fernandes do Casal; 
era esta a opinião corrente no século xvni, como vemos 
pela informação de Manoel Lopes de Almeida para o Diccio- 
nario corographico de Cardozo, em 1758, seguida depois 
por Balsemão, Visconde de Juromenha e pelo Conde de 
Raczynski. 

3.* Considerado como o filho do pintor Francisco Fer- 



j 



QUESTÕES DE UrTERATCRA B ARTE PORTUGUEZA 175 

I 

nandes, nascido em Vizea em* 1552, segando am documento 
descoberto pelo cónego Berardo, da Sé de Yizeu, e que 
determinou a opinião decisiva em Raczynski.— Cada uma 
d'estas bypotheses foi sendo derrogada por outra, que veia 
de cada vez complicar ainda mais o problema histórico. O 
próprio Raczynski sentia contradicções inconciliáveis D'esta 
ultima. 

4.^ A opiniSo de Robinson derroga as três anteriores, 
apoíando-se na authenticldade do quadro assignado por 
Vasco Frs., e cujo estylo è anterior a 1520. 

É a esta ultima hypotbese que, fortificada pelos caracte- 
res da corrente^artistica, vamos hoje corroborar com fac- 
tos históricos, que, pela conciliaçSo que estabelecem, nos 
parecem conter a solução definitiva. 

As opiniões do conde de Raczynski s3o de duas {latu- 
rezas: umas puramente artísticas, dictadas por um senti- 
mento educado no estudo de todas as escholas de pintura, 
outras fundadas sobre uma erudição momentânea de indi- 
cações históricas casuaes que lhe offereciam ofiBciosamente. 

As suas opiniões artísticas não o enganaram nunca, e le« 
varam-no a presentir a verdade onde ella está ; mas os do- 
cumentos que lhe apresentavam, mal interpretados, mal 
relacionados, obrigaram-no a ir de encontro ao sentimento 
qne o dirigia, e até certo ponto a sacrificar o espirito lu- 
eido ante a lettra inconsciente. 

N'esta contradicção de dois processos críticos, Raczynski 
não podia explicar o estylo gothico dos quadros com as da-* 
tas que seVeferíam a Vasco Fernandes, que indicavam uma 
época de influencia italiana, senio por um estado anachro- 
nico em que tivesse ficado aquelle pintor que nunca sairá 
da sua terra; eram duas hypotheses forçadas que formava 
para sustentar uma terceira bypothese absurda ^ 

Das investigações de Raczynski apuram-se duas conclu- 
sões definitivas: i.* «Que entre os quadros mais importan^ 
tes que lhe são attribuidos, não ha senão os de Vizeu cuja 
origem seja beni authenticada ,e concorde com as tradições, 
do seu auctor;— 2.* Que esses quadros são do mais bello 
estylo gothico.» 



1 Mel., p. 9S. 



176 QUBSTÕBS DB LITTBRATORA 

Pode*se accrescentar j«\ um terceiro resultado, e que for- 
taleceremos com uma clara interpretação dos documentos: 
3.^ Que Vasco Fernandes é a realidade histórica de 6r3o- 
Vasco; porém esta prova pertence ao sr. Bobinson, que do 
seu opúsculo intitulado A antiga Eschola portugueza de pin- 
tura, revela a existência de um quadro assígnado por Vasco 
Fernandes, que estudou em Vizeu, e no qual encontra to- 
dos os caracteres do período de esplendor da Escbola fla- 
menga. 

D*este modo veiu a prova histórica fortiflcar o sentimento 
artístico que dirigira Raczynski nas suas primeira» affir- 
mações. Eis as palavras fundamentaes do sr. Robinson: 
<Surprebendeu-me este cavalheiro,* quando me informou 
que possiúa um quadro com a assignatura de Grão- Vasco. 
A máxima importância doeste quadro, visto que até hoje 
não se conhecia nenhuma pintura assignada por Vasco, nem 
sufGcien temente authentica para lhe ser attribuida sem pe- 
rigo de erro, deixou-me primeiro suspeitar que houvesse 
engano. Porém, apenas entrei no estudo do sr. Pereira, fi- 
quei convencido da realidade da sua asserção. Apresentou- 
me este artista três tábuas separadas, que eram as três 
partes de um retábulo. A parte central representa o Des- 
cimento da Cruz, e as abas Sam Francisco em extasis, com 
um bello fundo de paizagem, e Santo António na praia pre- 
gando aos peixes. Na parle inferior da labua do centro esti 
a assignatura abreviada do pintor — Vasco Frs.— clarissima 
e distinclamente escripta ou pintada de amarello como imi- 
tando ouro. * Estas tábuas, ou para melhor dizer, esta pin- 
tura de Vasco Fernandes, pareceu-me oaupar um logar in- 



^0 sr. ÁDlonio José Pereira; acerca d'eete artista de Viíea já eecreTia 
Raczynski em 1814: «0 sr. AdIodIo José Pereira, que Dunca saiu de Yizea, 
e com aspecto de oSo ter roa*is de YÍDte o seis adoos. íei uma copia der oma 
das meias figuras de um quadro de 5. Jeronymo, de Grio Vasco, que se acba. 
oa sacristia. Esta obra revela felizes disposiçOeSi e o talento d*esle pintor me- 
rece ser aofmado.» Utires, pag. 371. 

2 D'este precioso quadro escreve o sr. Marquei de Sonsa Holstein, no opos- 
culo ObiervàçOet sobre o estado actval do ensino das Artes em Portugal (1875)^ 
p. 28 : «palmam (se. os estrangeiros) quando encontram á venda e por pouco 
dinheiro objectos dç arte qoe ba muito deveriam ser propriedade do Estado,, 
' tees como o quadro único que traz a assignatura de Vasco Fernandes, o Gr2o- 
Vasco, ba pouco vendido a um inglez |K)r 500^000 réis. 



E ARTE PORTUOUEZÁ 177 



tennedio na eschola entre os quadros da Casa do Capítulo 
e os da Sacristia, e depois de coasciencioso exame creio 
poder afBrmar que foi executado pelo anuo de 15!fO. 

«Todas as pinturas de Vizeu indicam do modo o mais 
saliente a influencia dominante da arte flamenga ; é porém 
importante observar que esta influencia é a da, primitiva e 
grande época, isto é, a de Van-Eyck, Mensling e Quintino 
MartyreSy e não a dos mestres flamengos contemporâneos 
dos pintores de Vizeu.»* 

Até aqui as palavras do sr. Robinson, para authenticar 
a existência de um quadro assignado por Vasco Fernandes, 
e no estylo de uma época anterior á que lhe apontam os 
documentos históricos publicados pelo Conde de Raczynskí. 

O marquez de Sousa Holstein, que traduziu a memo- 
ria de Robinson, escreve: «A opinião de Robinson formada 
sobre bases que parecem solidas, merece em todo o caso 
uma discussão séria e profunda. É para desejar que a pu- 
blicação d'este trabalho provoque novos estudos e novas 
indagações, que dêem em resultado a descoberta de novos 
argumenios, e que d'este modo se consiga sanccionar de- 
finitivamente a hypothese ultima, ou demonstrar que é in- 
sustentável.» 

O nosso trabalho não tem outro fim mais do que mos- 
trar que o quadro assignado por Vasco Frs., cuja impor- 
tância o sr. Robinson foi o primeiro a conhecer para carac- 
terisar este pintor como do principio do século xvr, está 
realmente de accordo com os documentos históricos. 

Quaes são esses documentos? 

Uma leitura severa dos Diálogos moraes, históricos e po^ 
líticos sobre a fundação de Vizeu, por Manoel Botelho Pe- 
reira* vae-nos revelar particularidades, que não souberam 



1 Vid. Oposcalo citado. 

^Hsfl. da Bíbliolheca do Porto fi.°* 187 e 511 (Eslanle B-4); o primeiro 
é copiado por Freire da Livraria de Dom Diogo d9 Nápoles Noronha e Veiga, 
6 segundo foi copiado peio mesmo Freire em Lisboa, em 1747. tilalo com* 
pleto.é : Diálogos moraet, hisioricos e politicos. Fundaçam da cidade de Vizeu^ 
Historia de seus Bispos; genealogia de suas famílias. Relações sobre muitof 
succestoi que tiveram logarn'esta' Cidade, diversas antiguidades e factos curió-- 
soSf por Manoel Botelho Ribeiro Pereira, feito no anno de 1630.e E' este li- 
vro o primeiro documento em qne se aothenticam «eis quadros de GrSo-Vasco : 
Betabulo da Capella de Jesus, Retábulo do Altar môr, Capelia de Sam Pedro^ 
Som João Baptista^ ÂUar de Santa Anna e Sam Sebastião. 

12 



178 qubstCbs db littbii atura 

t ■■■■■■■ 

achar os que leram para esta questão o tSo precioso ma- 
nuscripto da Bibliotheca do Porto; o período de actividade 
de Vasco Fernandes tendo sido entre o governo do Bispo 
D. Fernando Gonçalves de Miranda (1487-1491) e o de 
Dom Ortiz de Villegas, fica perfeitamente autbenticada a 
época histórica da sua florescência que condiz de um modo 
admirável com o seu estylo. 

Eis a linguagem textual dos principaes trechos dos Diá- 
logos moraes de Botelho Pereira, que em seguida explica- 
remos ; no Dialogo quinto e politico, dos mais Bispos de Vi- 
zeu, e outras curiosidades, quando trata no capitulo i db 

^ Bispo Dom JoSo o Protector, diz : 

«Ao outro dia madrugou Lemano para ouvir missa e ver- 
se com seu Soldado para dar fim á historia de sua pátria; 
ao sair de casa encontrou com elle com a mesma tenção e 
pensamento, e alegres, de vér-se, só o julgue quem com 
verdadeiro amor e singelo animo trata verdadeira amizade 
(se hoje se permitte havel-a) que a conversação tinha en- 
gendrado no coração de ambos, nas marcas de como se 

-haviam de apartar foram 'praticando até á Sé, entrando pelo 
eirado e Capella de Jesus, esteve o Soldado notando as per- 
feitas e excellentes Imagens d'aquelle Retábulo, que parecem 
de vulto e a variedade de tantos diversos rostos como n'elle 
debuxou a mam do grande Vasco Fernandes ; e notando de 
traz de uma sepultura que tinha 2 leonês ao pé e 'nto es- 
cudo com umas chaves que parecia ser d'este apellido e 
por porta da sepultura a imagem de um Bispo, parecendo- 
Ihe que seria o auctor d'aquella obra, perguntou a Lemano 
a certeza, o qual lhe respondeu assim... (Segue-se no Ms. 
a discussão de quem fosse o prelado, chegando a estas con- 

•clusôes:) Esta capella narant || Mandou fazer o Reverendís- 



simo I Sr. Dom João Bispo que foi de || Lamego Protector 
da Re igião de || Santo Eloy em o anno de 1451=20 11 de 
Fevereiro. 

«Este letreiro se tapou por razão da Capella nova que 
fez o Dr. Lourenço Coelho Leitão ao Santíssimo Sacra- 
mento...» E accrescenta: «dizem que foi este nosso Bispo 
Medico do Papa Nicoláo v, que foi eleito anno de 1448, de- 
via de ser no tempo que foi Cardeal e antes de ser Pontí- 
fice; se fez outras obras não ha memoria d'ellas, mas deí- 
xou-a de opinião de santidade; falleceu pelos annos de 1452 



B ARTE 1»0RTDGUEZA 179* 



OU 53. O engano de cuidarem que este Bispo de que Irac- 
tamos se chamou Dom João de Chaves, causou aquella se- 
pultura que vedes com 2 escudos em cada qual duas cha- 
ves...» * 

Âpezar de ser em <4S1 a época da fundação da Capella 
de Jesus, não se conciue que já D'este tempo estivesse ali 
o Retábulo do Altar-mór; por tanto querer attribuír á ac- 
tividade de Vasco Fernandes uma data tão atrazada é vio- 
lentar o sentido do texto, por isso que a realidade è que 
os interlocutores dos Diálogos contemplaram o altar-mór 
como elle se achava em 1630, época do Manuscripto. 

Confirma-se isto com outra passagem do mesmo Manu- 
scripto ; no capitulo quarto, quando falia do Bispo D. Fer- 
nando Gonsalves de Miranda, já nomeado em 1 487, diz que 
se encontram as suas armas «em o Retábulo do Altar Maior 
da Sé, junto com as do seu successor Dom Ortiz de Villegas^ 
e infere d'aqui que €um o mandou fazer e o outro juntar.^ 
O governo do Bispo D. Fernando Gonsalves de Miranda 
durou até 1491, e foi durante elle que trabalhou Vasco 
Fernandes. 

Vejamos agora os textos positivos dos Diálogos de Bo- 
telho: 

No capitulo quarto lê-se: «Dom Fernando Gonsalves de 
Miranda foi immediato successor de Dom João Gomes de 
Abrei); consta por um livro de Confirmações ser Bispo em 
o anno de^ 1487, e no anno de 1491...» (Fl. 5^2); «junto 
ao Casteltó um Escudo das armas doeste prelado e de sua 
geração está em o Retábulo do Aliar Maior da Sé com ou» 
iro de Dom Ortiz de Villegas seu successor, d'onde infiro 
que um o mandou fazer e outro o mandou juntar.» (Fl. 553.) 
«Soldado: Raro e eminente devia ser o pintor das Ima- 
gens d'elle, que não só parecem de vulto, mas vivas se 
nos representam enganando a vista como ás aves o cacbo 
de Apelles, ou a elle a toalha de Zeuxis. — Vasco Frz (res- 
pondeu Lemano) se chamava o Autor de tão maravilhosas 
pinturas, o qual também o foi das collateraes de S. Pedro, 
S. João Baptista, altar privilegiado todas as segundas fei- 
ras, bem grandíssimo para as almas do purgatório; tam- 



1 Mb. cil., foi. 539 a 541 



180 qdbstOes de uttbb atura 

bem píatou o de Santa Ânua e de Sam Sebastião dos Claus- 
tros, e o de Jesus que é o da Capelia do Bispo Dom João 
o Protector...! (Fi. 553.) 

Esta. parte do texto de Botelho nunca foi interpretada^ 
porque os excerptos sem nexo ministrados a Raczynski nâo 
se prestavam a uma completa inteliigencia ; das paginas 552 
e 553 do Manuscripto se vé que Vasco Fernanda pintava 
> no tempo do Bispo D. Fernando Gonçalves de Miranda, en- 
tre 1487 e 1491, e que por sua encommenda fez o retá- 
bulo do altar-mór, terminado já sob o governo de D. Or- 
tiz de Villegas. A acção dos Bispos intelligentes e amantes 
da arte, (alguns tinham residido em Itália, com D. João Pro- 
tector) fez com que se desenvolvessem os talentos que pro^ 
duziram essa cultura especial, que com rasão se chama Es- 
cola de Pintura de Vizeu. O luxo da Sé era notório no fim 
do século XV, como se deprebende da offerta dos vestidos 
da viuva do príncipe D. Monso, morto desastrosamente a 
13 de julho de 1491, para se paramentarem com elles as 
imagens^ da Sé de Vizeu, como refere o auctor dos DialO' 
gos moraes. 

O período da actividade de Vasco Fernandes coincide com 
p estylo dos seus quadros no género flamengo e ailemao, 
que durou em Portugal pouco além de 1520; algumas das 
contradicções dos factos colligidos pelo Conde de Baczynskí 
conciliam-se com a época comprebendida entre 1487 e 1491. 

Existiu ékn Vizeu um Vasco Fernandes do Casal, que se 
confundiu com o pintor, (hypothese 2.*) e sobre o qual es- 
creveu Raczynski: «Como pôde ser que o mesmo individuo 
haja sido artista consummado em 1480 e moço da camará 
em 1552?» (Lettres, p. 147.) A resposta a este syocretismo 
acha-se no Manuscrípto de Diogo Gomes de Figueiredo, de 
1684, intitulado Familias de Portugal^; ali se lê, que Vasco 
Fernandes o Velho, natural de Vizeu, casara com Leonor 
Vaz, natural do Pindo de Penalva, de cujo consorcio houve 
uma filha, que veiu a casar com Belchior Gonçalves do Ca- 
sal, que foi a Flandres em serviço de el-rei D. Manoel; 
doeste casamento houve sete filhos, e Vasco Fernandes do 
Casal, um d'elles, moço do infante D. Duarte, era portanto 



^ Pertence á Bibliotheca nacioDal de Lisboa. 



B ARTE P0RTU6UEZA IJBf 



um dos netos de Vasco Fernandes o Velho. A tradição dos 
Momhos do Pintor, em Vizeu, mostra-nos que realmente 
Vasco Fernandes do Casal era neto dOv pintor cuja indivi- 
dualidade histórica discutimos. 

A explicação de uma outra passagem dos Diálogos mo- 
raes de Botelho, em que se cita uma obra de Grao-Vasco 
em 1553 acabará de accentuar esta individualidade: «Foi 
D. Gonçalo Pinheiro embaixador de D. Jo3o iii em França 
sobre duvida que teve com el-rei Francisco. Da vinda o fez 
Bispo doesta cidade anno de 1553, em a qual fez algumas 
obras dignas de seu animo, como foi a escada do coro d'esta 
Sé onde se vêem suas Armas^ que s3o um Pinheiro e um 
Le3o rompente em campo vermelho; mandou edificar de 
novo a capelta de S. Sebastião nos claustros que intitulou 
da Vera Cruz, em cuja abobada se mostram escudos de suas 
armas como formosa pintura do Retábulo do Grande Vasco 
Fernandes, de que já tendes noticia ...» (Fl. 579-) 

Por esta passagem dos Diálogos moraes se vè que D. Gon- 
çalo Pinheiro entrou na Sé de Vizeu em 1553, porém as 
obras que mandou fazer não revelam que Vasco Fernandes 
ainda fosse vivo a esse tempo; trabalhava então o pintor 
Francisco Fernandes, pae de um Vasco Fernandes, que não 
foi pintor, mas que ultimamente se confundiu com o Grão- 
Vasco. (Vid. hypothese 3.*) Esta opinião viciou todas as in- 
vestigações de Raczynski, e é triste vêr este claro espirito 
lactando entre o seu irrefragavel sentimento artístico e a 
letra de desconnexos documentos. 

O estylo dos quadros de Vasco Fernandes denunciava-lhe 
a escola flamenga do fim do século xv; a certidão de edade 
do filho do pintor Francisco Fernandes de 1552 forçava-o 
a acceital-o como pintor, cultivando o estylo flamengo em 
1570, quando em Portugal predominava o estylo e gosto 
italiano. 

As palavras de Raczynski em que julga como artista os 
quadros de Grãi>Vasco, são uma prova technica e morai 
que acaba de fundamentar a nossa prova histórica. Eis a 
primeira afSrmação franca do grande critico, ainda livre 
das complicações hypolhelicas: «Ouso affirmar, d'ora em 
diante, que nenhum dos*quadros de algum mérito attribui- 
dos a Grão-Vasco, e que até aqui tenho visto, não é mais 
antigo do que o começo do século xvi.» (Letíres, p. 120.) 



182 qubstObs de littbratura 

Caracterisando como estylo flamengo o que dirige o pin- 
cel de GrSo- Vasco, Raczynski limila a época histórica como 
deducção lógica : <D'ora avante parece-me bem claro, que 
Da época de D. João iii, entre 1530 e 1550, se fez uma re- 
volução completa na arte em Portugal; é a época que ac-* 
centua a passagem do geneio flamengo e allemão para o gé- 
nero italiano, etc.» (Lettres, p. 176.) 

Agora dá-se uma modificação forcada nas opiniões artís- 
ticas de Raczynski; diz elie a propósito do quadro do Cal- 
vario: «É de um grande mérito, postoque mal conservado. 
Eu o consideraria mais antigo que 1570; mas emfim os do- 
cumentos são uma mais forte auctoridade do que às minhas 
impressões.'^ (Letlres, p. 366.) 

Que documentos? Quaes são ellés? A certidão de edade 
do filho de Francisco Fernandes. Acceitando a fé de docu^ 
mentos sem relação com os indivíduos, o senso artístico de. 
Raczynski protesta de novo: «Ha bastante logar para nos 
admirarmos de que Grão-Vasco permanecesse fiel tanto 
tempo á tradição flamenga e allemã, e seria mais surpre- 
bendente ainda que pintores mais modernos (os seus dis- 
cípulos) tivessem resistido á influencia italiana. ]> (Lettres, 
p. 373.) 

Raczynski vae ainda contra o absurdo da pretendida prova 
histórica, a que se submette: cSeria bem assombroso que 
Vasco Fernandes em 1580 conservasse o estylo gothico, ao 
passo que em Hespanha, n*esta época e mesmo antes, ob- 
servamos Vargas, (n. em 1502) Campana, (n. em 1503 em 
Bruxellas) Villegas, (n. em 1520) Juan Juanes, (n. em 1525) 
Roellas, (n. em 1558) adoptarem o estylo italiano da época 
clássica, e que os Gaspar Dias, Fernando Gomes, Campello, 
Vanegas e outros tinham já introduzido estas mesmas ideias 
em Portugal.» (Dict., p. 95.) 

Raczynski recorro a um meio capcioso para conciliar esta 
contradicçâo entre o documento artístico e o documento ta- 
beílionico; é a revivescência do gosto flamengo por meio 
da propagação do estylo allemão: «Os quadros de Grão- 
Vasco não pertencem como eu havia supposto á influencia 
italiana, mas decididamente à de Alberto Durer, e vê-se 
que esta influencia continua a inspirar os artistas portugue- 
zes a par dos Gaspar Dias e dos Campello, que haviam in- 
troduzido no seu paiz o estylo e as tendências italianas da 



B ARTE PORTUGUESA 183 



época clássica. Direi até, que a influencia de Flandres e da 
Allea^anha produzia melhores resultados do que a da pin- 
tura clássica da Itália.» (Lettres, p. 367.) E por ultimo: <0s 
quadros de Gr3o-Vasco, assim como os quatorze da sala do 
Capitulo, quanto a mim não apresentam analogia com o Pe- 
rugino. Pelo contrario acbo n'elles o que tantas vezes tenho 
ditQ a respeito (}e outros quadros--a influencia flamenga e 
allemã, á qual os hespanhoes foram longo tempo submet- 
lidos com relação ás artes, no tempo de Carlos* v, e de seus 
successores.» (Letires, p. 370.) 

Depois d'estas provas de valor esthelico veiu alliar-se a 
prova histórica no quadro assignado por Vasco Fernandes, 
analysado pelo sr. Robinson; hoje existe o termo de com* 
paração para caracterisar pelo estylo as obras de Grão- 
Vasco. 

Podemos já fazer uma ennumeraçao dos seus quadros, 
devendo-se seguir como base critiQa : 

4.^ O local em que existem os quadros; e n'este caso o 
facto de se conservarem nas proximidades de Vizeu è uma 
boa garantia de authenticidade. 

2.** Que a attribuiçSo seja escripta, sobretudo em época 
antiga; e por pessoas cuja fé tradicional seja uma garantia, 
taes como Botelho Pereira e os parochos informadores do 
Diccionario corographico de Cardoso. 

Obedecendo a estas indicações apuramos dezenove qua- 
dros de Grão-Vasco, producto bastante para que mesmo in- 
conscientemente se tornasse chefe de uma escola. Eis a se- 
rie : 

I. Descimento da Cruz; assignado por Vasco Frs. Perten- 
ceu a António José Pereira, distincto pintor natural de Vi- 
zeu, e sobre a authenticidade doeste quadro escreveu o sr. 
Robinson a sua memoria sobre A antiga Escola de Pintura 
portugueza, que poz em bases positivas a questão sobre a 
individualidade histórica d'este artista. 

II A Paixão. Na capella de Jesus, de Vizeu. Authenti- 
cado no Ms. de Botelho Ribeiro, fl. 539. 

III. Descimento da Cruz. No altar-mór da sé de Vizeu. 
Authenticado no Ms. de Botelho, na Bibliotheca do Porto, 
fl. 553. 

IV. S. Pedro. Na capella collaleral, na sé de Vizeu.Jbid. 

V. S. João Baptista. Ibid. 



184 ' qubstCbs db littbratura 

YI. Santa Anna. Nos claustros. Ibid. 

VII. S. Sebastião. Nos claustros. Ibid. 

YIII. Jesus visitando íêartha. Na quinta de Fontello, per- 
tencente á mitra de Vizeu. AulbenticadQ pelo cura Nicoláo 
António de Figueiredo em 1758, na informação para o Dic* 
cionario corographico de Cardozo, t. xlvu, p. 569, 588(1758). 
Ms. na Torre do Tombo. 

IX. S. Braz. Na egreja de S. Martinho. Autbenticado pelo 
cura Manoel Gomes Simões nas informações para o Diccio- 
nario de Cardozo. 

X. Nossa Senhora da Piedade. Na egreja de S. Martinho 
de Vizeu. Ibid. 

XI. O descimenta da Cruz. No Convento de S. Francisco 
de Orgens, em Vizeu. Autbenticado por Manoel Lopes de 
Almeida, em 1758. 

XII e XIII. Santo António— Santo Amaro. Na capelia de 
Nossa Senhora do Bom Successo, na parochia de Cabemâes, 
do districto de Vizeu. Autbenticado por Frei Agostinho de 
Santa Maria, no Sanctuario Mariano, t. y, p. ^40. 

XIV. Nossa Senhora, )Na parochia de Santa Maria de 

XV e XVI. Dois quadrosÁ I?^^^^^?;^!!' ^^ ^'^^"^^^ ^® 

^ ) Vizeu. Ibid. 

XVII. A Virgem ao pé da Cruz. Na parochia de S. Mi- 
guel Arcbanjo, a oito léguas de Vizeu. Sanct. Ski^riano, t. 
V, p. 278. 

XVIII. S. João Evangelista. Ibidem, id. 

XIX. Nossa Senhora. Na antiga capelia de Nossa Se- 
nhora de Guardão, a três léguas de Vizeu. Ibid., t. v, p. 
376. 

Cumpre advertir que o que authentíca estes quadros é, 
além da attribnição tradicional a Grão-Vasco, a sua disper- 
são por localidades visinhas de Vizeu. Outros quadros lhe 
são attribuidos por D. Thomaz Caetano de Bem, Ribeiro dos 
Santos e Volckmar Machado; mas como hypotheses ou affir- 
maçôes plausíveis aceitamos só essas dezenove obras, pelo 
fundamento allegado. 

O nome de Grão-Vasco substituindo o nome de Vasco 
Fernandes só começou a ser usado no fim do século xvi por 
necessidade ; assim como nos Nobiliários era conhecido pelo 
nome de Vasco Fernandes o Vellio, para o dlfiferençarem 
do seu neto Vasco Fernandes do Casal, assim o epitbeto de 



B ABTB P0RTU6UBZA 185 



Grão serviu para dístinguíi-o de outros pintores do mesmo 
Dome do âm d*esse século. 

Vejamos quem eram esses pintores. 

Diz RobiusoD, DO opúsculo que citamos: «De Vizeu vol- 
tei a Coimbra, onde nao perdi tempo em observar de novo 
certos quadros na antiga Igreja e mosteiro de Santa Cruz. 
Um d'elles deve ser obra de 4530-1540, e representa o 
Pentecostes . . . Verdade é que o quadro de Coimbra differe 
muito do Pentecostes de Vizeu, sendo melhor em todo o 
mentido, más a similhança exacta no desenho, no colorido, 
nas particularidades do vestuário, na execução e sobretudo 
nos typos pbysionomicos das figuras princípaes não me dei- 
xou duvida. Emfím estou convencido qu8 é esta uma obra 
do Grão-Vasco tradicional de Vizeu. Imagine-se pois qual 
seria a minha, satisfação, quando achei a assígnatura Ve- 
lasco F.i 

Infelizmente para o ponto de vista de Robinson esta as- 
signatura não quer dizer Velasco Fernandes, mas Velasco 
fecit: e a differença para melhor no quadro de Coimbra re- 
vela outro pintor e outro estylo, e por ventura é Velasco 
Luzitano^ ou Vasco Pereira, que pintava em Sevilha entre 
1594 e 1598. Assim é que se concilia a necessidade do epi- 
tiíeto de Grão, dada a Vasco Fernandes para o separarem 
de outros pintores do mesmo nome que haviam abraçado 
já outro estylo. O nome de Grande em vez de Grão, usado 
por Botelho Pereira em 1630 é um purismo pedanlesco que 
usa em outros legares, como leonês por leões. 

O motivo porque Francisco de Hollanda e mesmo Garcia 
de Resende na MisceUanea, não alludem a Vasco Fernandes, 
explica-se pela hostilidade que a nova escbola italiana por 
estes artistas representada em Portugal, mostrou sempre 
contra a eschola velha, quer na poesia, quer no tlieatro, quer 
na Ârchitectura como na pintura*. 



1 Nas Cartas, p. 161, falia Raczynski doeste pintor do qual existe um qua- 
dro no altar de S. Sebastião da parocbia de S. Lucas de Barrameda, com a 
asflígoatora Vasquez Luzitanus tunc incipiebam, 1562; d'e8te artista falia Ber- 
mudes. Vid. Dict. des Artittes portuguais, p. 293. 

2 Esta lucta já foi por nós tratada com relação á poesia na Bislorxa Aos 
Quinhentistas; com relação ao Theatro, na Historia do Úeatro portuguez ; com 
relação á aifhilectara, na Historia de Camões, 



186 QUISTÔB8 DB LITTBRÀTUBA 

No. livro de Francisco de Hollanda represeatante da Es- 
cola italiana em Portugal, e escripto por {5i9, quando a 
eschola flamenga decaía mas ainda tinha sectários, lè-se esta 
passagem: «Uma cousa escurece a gldria de Portugal e Hes- 
panha ; é qiie nem em Portugal, nem em Hespanha se co- 
nhece , a pintura ; ella não é aqui nem honrada^ nem cuUir 
vada com successo.» (Da Pintura ant. div. ii, prol.) 

O sentido d'eslas palavras é histórico. Francisco de Hol- 
lanrla nâo queria dizer que não havia pintores; mas, saben- 
do-se o seu desprezo pela pintura flamenga, que elle tantas 
vezes caracterisa apoiando-se em phrases de Miguel Ângelo, 
coraprehende-se que elie considerava como nullos os pro- 
ductos d'esta eschdia em Portugal, e por isso não os citava. 
Em todo o caso antes da eschola flamenga tinha Portugal 
um representante de primeira ordem do estylo byzantino- 
italiano, bem conhecido era no meado do século xvi o seu 
nome^ por isso que se citavam por antonomásia os seus 
quadros; a prova é que o próprio Francisco de Hollanda, 
formando A lista dos celebres Pintores modernos denominados 
as Águias, no decimo oitavo logar, diz: «Eu colloco no nu- 
mero dos famosos o pintor portuguez que pintou o aUar de 
S. Vicente, de Lisboa. • * 

Aqui está uma realidade : quem era pois este pintor cuja 
reputação era ainda vigorosa no meado do século xvi? 

Segundo Bermudez, repetido pelo Conde de Raczynski. 
este pintor aqui alludido seria Nuno Gonçalves; senáo as- 
sim, com certeza Francisco* de Hollanda queria referir-se ao 
mais eminente representante da eschola anti-flamenga em 
Portugal, e Nuno Gonçalveíí é o primeiro, mas na antigui- 
dade ; pelo contrario, na Sé de Lisboa, segundo as notas 
de Ribeiro dos Santos existiam quadros de Grão-Vasco, e 
entre os quadros da sua eschola existe um S. Vicente e S. 
João * que coincide com a indicação de Francisco de Hol- 
landa ^. 

Isto nos mostra que eflectivamente se referia á eschola 
ex-flamenga, como em outro logar se declara de um modo 



1 Ap. Raczynski, Letires, p. 55. 

2 Ap. Raczynski, Leltres, p. 152, n.^ 187. 

^ Autes do 8eculo xv as eschuias nHo tém caracteres próprios. 



tf ARTE PORTUGUEZA 187 



explicito: «Quero mencionar um pintor porluguez digno de 
memoria, porque em uma época qua participava ainda da 
barbárie, elle procurou imitar de alguma maneira o esmero 
e o tino dos antigos pintores italianos : foi este, Nuno Gon- 
çalves, pintor do rei D. Affonsa, que pintou a caihedral de 
Lisboa, o altar de S. Vicente, e também creio que um qua- 
dro que representa o Senhor atado á columna e açoutado 
por dous homens, que se vè na capella do Convento da Trin- 
dade, eto 

Segundo o Visconde de Juromenha, Nuno Gonçalves per- 
tence á época de Dom Affonso iv, e n^este caso as pala- 
vras de Francisco de Hollanda são verdadeiras na allusão 
á barberie da época, e alludem ao representante da pri- 
meira corrente iJyzantino-italiana que precedeu em Portu- 
gal a eschola flamenga. 

Nuno Gonçalves é o predecessor de Grao-Vasco; e como 
Francisco de Hollanda não concedia foros de arte ao estylo 
flamengo, e corno as obras de Grão-Vasco em 1549 não se 
teriam diffundido longe dos arredores de Vizeu, é natural 
que não alludisse aos seus quadios por não os conhecer, 
ou melhor, por um silencio systematico, para assim protes- 
tar contra a eschola que elle vinha ajudar a demolir. 

Na Miscellanea; de Garcia de Resende, espécie de chro- 
nica em estylo de Cancioneiro, falia se da escuiptura e da 
ourivesaria, como melhores e mais subtis do que na época 
antiga, postoque agora (1553?) a pintura e a iUuminura 
se achassem no seu apogeu. 

Decididamente Garcia de Resende alludia ao fervor da 
eschola italiana em Portugal, por isso que dá como ponJlo 
de partida a^ obras que vira do grande Miguel Angelo, de 
Alberto Durer* e de Raphael, aproximando d'ellas as dos 
artistas portuguezes, que quasi as egualam ^que vem quasi 
ao oliveL* 

Garcia de Resende esteve em Roma, e postoque em ar- ' 
chitectura conservasse o gothico florido ou manuelino, em 
pintura não podia retroceder pi^omulgando a sua admira- 
ção pela eschola flamenga. 



1 N'e8te tempo a maneira de Dorer tinha em Portagal representantes oq 
imitadores, como Feroa^do Gallego de Salamanca e (líovane de Hemessem. 
iettres, pag. 197. 



18d QUB8T0B8 DB LITTBRATURA 



É crivei qae oavisse fi^llar no nome de Vasco Fernandes/ 
tendo o cbronista vivido na corte de D. JoSo ii, e tendo a 
rainha, altissima protectora das artes, oSerecido os ricos 
vestidos da noiva de seu defuncto filho em 1491 pata a 
egreja catbedral de Vizeu, este Tacto, qae denota um inte- 
resse artístico particular, também induz a admittir que de- 
veria ser conhecido na corte o nome de Vasco Fernan- 
des. 

Só por esta via é qiie se poderá estabelecer a authenti- 
cidade de alguns quadros de Grio-Vasco conservados em 
Évora e em construcções de D. Jo3o ii. 

Depois d'este primeiro fervor da escbola italiana, ella 
não se pôde conservar pura em Portugal, por isso mesmo 
que os artistas flamengos perderam a sua primitiva inge* 
nuidade vindo estudar á Itália; criou-se assim esse estylo 
mixto, introduzido pelos artistas flamengos chamados ainda 
depois da segunda metade do século xvi para Portugal, 
ou que para nós trabalharam. 

D'esta sorte a pintura portugueza obedeceu a um im- 
pulso de regressão, voltou ao estylo flamengo pelo habito 
tradicional e pelos assumptos exclusivamente hieráticos. 
Foi vencida a Escbola italiana por uma acçi^o inconsciente, 
e a quantidade de quadros attribuidos a Grão-Vasco, signi- 
fica a preponderância do estylo flamengo representado na 
personificação quasi mythica do artista que melhor a sus- 
tentou DO seu período de esplendor. É n*estas condições 
que se pode considerar como uma Escbola portugueza a 
persistência d'estes caracteres. 

Só quando no fim do século xvi acabou o purismo cias* 
sico pela acção dos jesuitas, e que a tradição local revlves- 
ceu no meio da decadência geral, é que o nome de Grão- 
Vasco se tornou outra vez respeitável, mas com a extensão 
da legenda. 

De todo este rápido trabalho podem apurar-se as seguin- 
tes conclusões definitivas sobre Grão-Vasco : 

1.^ Viveu e exerceu a sua actividade na ultima metade 
do século XV, pintando para a sé de Vizeu, no governo do 
bispo D. Fernando Gonsalves de Miranda (1487, 1491). 
Prova-se pelo manòscripto dos Diálogos moraes e históricos 
de Botelho Ribeiro, escríptos em 1630, e conBrma-se pelo 
estylo flamengo allemão dos seus quadros analysados pelo 



E ARTB PORTUGUEZA 189 



conde de RaczyDski e Bobinson, qae dão esta Escbola co- 
mo extincta em Portugal depois de 1520. 

2.° O seu nome Vasco Fernandes, do Ms. de Botelho Bi- 
beíro, -e também Vasco Friz, concordam com a assignatura 
do quadro do Descimento da Cruz, que pertenceu ao pin- 
tor viziense António José Pereira, o qual tinha em letra a 
tinta amarelia Vasco Frs. O nome de Vasco Fernandes o 
Velho, do manuscripto genealógico de Diogo Gomes de Fi- 
gueiredo, denota que se distinguia de um outro Vasco Fer- 
nandes do Casal, que era seu neto, e possuidor dos Moi- 
nhos do Pintoj-y o que coqfirma a^ genealogia do artista. Em 
1758 a tradição de Vizeu equiparava Vasco Fernandes do 
Casal com Grão-Vasco, como vemos peia informação de 
Manoel Lopes de Almeida. 

3.** A actividade artistica de Grão-Vascó exerceu-se espe- 
cialmente em Vizeu, e Das egrejas das freguezias circum- 
visinbas é que existem os seus quadros mais authenticos. 
Nas varias obras que soffreu a sé de Vizeu todos os bis- 
pos se mostraram , sempre apreciadores dos quadros de 
Vasco Fernandes, e isto revela a sua influencia na conser- 
vação do gosto pela pintura. 

4.** A época da morte de Grão-Vasco deve também fl- 
xar-se antes de Besende ter escripto a sua Miscellanea, e 
antes de Francisco de Hollanda ter escripto o livro sobre 
a pintura. (1548) 



f ni.-GIL VIGENTE, OURIVES E POETA 

Entre os symptomas fecundos de revivescência nacional, 
que se manilestaram por occasiao das festas do Centenário 
de Camões, deve considerar-se em primeiro logar a discU 
plina do individualismo organisado em vigorosas Associa- 
ções, que adheriram cohi enthusiasmo a esse jubileu da tra- 
dição portugueza; depois, a clara comprehensão que tive- 
ram d'elle os Municipios, esse único elemento puro sobre 
que se hade basear a moderna constituição democrática ; e 
por ultimo, o deplorável contraste da localidade do gover- 
no, que a titulo de força dirigente se poz em hostilidade 
contra este accordo das forças vivas da nação, pervertendo 
um movimento tão sublime como espontâneo com appre- 
hensões de um levantamento insurrecional. Entre estes 
symptomas fecundos, assistimos á inauguração da Associa- 
ção dos Ourives da Prata lisbonenses, cuja tradição histórica 
se apoia em documentos de 1450. N'esta Associação ou Ju- 
randa existia o cargo de mestre da balança da moeda, em 
que Gil Vicente fora provido em 1513. Nomomento em que 
a nação portugueza fazia a apotheose do poeta, que nos 
Lusíadas dera a expressão immorlal á consciência da na- 
cionalidade portugueza, a classe dos Ourives da prata com- 
prehendendo lambem o sentido histórico da Custodia feita 
por Gil Vicente cora o primeiro ouro das páreas de Quiloa, 
entendeu ligar-se ás festas do Centenário, avivando as tra- 
dições esquecidas da sua antiga Associação sob a égide 
d'esse extraordinário artista. Convidado por tão respeitá- 
vel corporação para fallar sobre Gil Vicente, deram-nos a 
honra de considerar a nossa Conferencia histórica do dia 6 
de junho como o acto solemne de authenticidade do seu ti- 
tulo tradicional. Não podemos agradecer de um modo mais 
elficaz a honra que recebemos da. Associação dos Ourives 



QUESTÕES DE LITTBRATURA E ARTE PORTUGUEZÂ 191 



da Prata lisbofltnses, senSo fortalecendo com provas o qne 
então dissemos n'essa Conferencia preliminar do Centena* 
rio. Tal é o motivo do presente estudo. 

fio nosso peqaeno Manual da Historia da Litteratura por- 
tugueza, (p. 237) estudando a individualidade assombrosa 
de Gil Vicente, dissemos— que assim como os contempo- 
râneos que admiraram as suas obras de ourivesaria duvi- 
davam que elle fosse o creador do Tbeatro nacional, a que 
o poeta respondeu com o repto da farça de Inez Pereira, 
em 1SS3, mais tarde só a fama do poeta é que ficou con- 
sagrada, esquecendo se a memoria do ourives a ponto de 
se pôr em duvida a coexistência doestas duas diversas £ípli- 
does no mesmo génio. Nós restabelecemos a verdade, mos- 
trando que um mesmo Gil Vicente fora o lavrante da rai- 
nha D. Leonor, mulher de D. João n, e que a pedido desta 
extraordinária rainha escrevera elle os primeiros versos no 
Cancioneiro geral e os primeiros Autos que fundaram a 
nossa litteratura dramática ^ Julgávamos completa a nossa 
prova e conquistado um resultado positivo para a sciencia, 
a nada mais visámos; comtudo surgiram contradictas de 
envolta com virulências pessoaes, mas estimamol-as ainda 
assim porque nos prestam o ensejo de conciliar com faci- 
lidade as leves antinomias que se nos apresentam entre os 
nobiliários de Alão de Moraes e de Cabedo de Vasconcel- 
los, nos qàaes se trata da. descendência de Gil Vicente. Ê 
sempre a sciencia que lucra; estudamos separadamente os 
factos que se referem ao ourives e ao poeta.e depois os in- 
tegraremos na mesma individualidade. 

Como os documentos acerca de Gil Vicente foram acha- 
dos gradualmente., fácil foi e atè natural incorrer no erro 
de attribuir ao mesmo homem documentos que abrangiam 
a área chronologica e histórica da sua existência. N'este caso 
nos achámos com relação aos documentos que nomeam Gil 
\ken[e requeredor das sizas de Santarém, e também mestre 
da carpentaria de Santarém e dos paços de Almeirim. Fe- 
licitamo nos hoje por estes erros * porque serviram de es- 



1 Theáe histórica apresentada no líno Bernardim Ribeiro e os Bucolistas, 
p. 934 a UL 

^ fieferimo nos ao estado d'esta questão do Positivismo, t. ii, p.^48 a 376. 



192 QUE8T6B8 DB LITTBRATDRA 



timulo a pesquizas que trouxeram mais u«ia verdade para 
a historia; o nosso bom e inteilígente amigo e patrício Ja- 
cíntho Iguacio de Brito Rebello, por documentos positivos 
distinguiu estas duas personalidades, simplificando o pro- 
cesso critico para a evidencia do nosso problema fundamen- 
tal*. 

1.— Gil Vicente na corte de D. Affonso V 

A primeira data com qqe nos apparece citado Gil Vicente 
na corte, è em uma carta de D. Affonso v^ de 23 de outu- 
bro, de {475, na qual figura como moço de estribeira do 
príncipe D. João. Esta carta foi descoberta pelo sr. Brito 
Rebello, e para nós tem a grande importância de dar-nos 
uma data authentica, base de conciliação com a data lioil- 
tada pelo anno de 1536, no qual se colloca a morte do poeta. 
(Vide Doe. I.) 

Este documento dá-nos Gil Vicente, moço de estribeira 
de D. João 11, então príncipe em I47S; n'este anno D. Af- 
fonso V despacbou-o Porteiro dos Contos do Almoxarifado 
de Beja, O único argumento que o sr. Brito Rebello apre- 
senta contra o referir-se tal documento a Gil Vicente po^tó, 
é ter este morrido por lfi36, dizendo na Floresta de Enga- 
nos: f Ja fiz os sessenta e seis, já o meu tempo é passado.» 
Porém, a muita velhice a que allude o poeta na Carta a D. 
João III em 1531, leva a corrigir a data contida nos versos 
para setenta e seis, attendendo a que a edição das Obras do 
poeta foi deturpadissima pela censura, e feita sobre manu- 
scriptos só muito tarde impressos por Luiz Vicente e em 
typo gothico sem perfeição e de diflicil leitura. N'este caso 
os setenta e seis annos revocam o nascimento de Gil Vicenlfr 
a f 4tO pouco mais, tendo aproximadamente quinze annos 
quando entrou para moço da estribeira do príncipe D. João. 

Como, porém, conciliar a vinda de Gil Vicente, filho do 
ourives da prata de Guimarães (como o diz Alão de Mo- 
raes) para a corte? Em uma carta passada a Fernão da Sil- 
veira Coudel-mór, por D. Affonso v, de Évora, em data de 



1 Appareceu eeta discossSo na revista O Occidente, d.<^' 65, 66, 67, 68, 69^ 
70 e 78 com o tilolo A Custodia do Contento dos Jeronymos, 



B AKTB PORTUGUEZA 193 



r 

2 de dezembro de 1460, encontramos assignado como es- 
crivão da Chancellaria um tal Fernão Vicente; era este, por 
ventura, irmão ou parente de Martim Vicente, sendo por 
via d'elle que Gil Vicente veiu servir na corte? Mais tarde, 
o filho do poeta, Luiz Vicente também apparece em 1552 
como moço da camará do príncipe D. João e por eile cha- 
mado bom escrivão. A conservação dos ofQcios nas famílias 
revela-nos a importância doestas aproximações. 

Prova-se sem difBculdade a existência de Gil Vicente poeta 
na corte de D. Âffonso v^ pela influencia franceza que ai 
recebeu e que reflecte nos seus Autos. No Auto da Fé, vem 
a rubrica: ^Cantam a quatro vozes uma ensélada que veiu 
de França . . . > E também iio Auto dos quatro tempos vem 
oatra rubrica : ^Até chegarem ao presépio vão cantando uma 
cantiga franceza que diz : 

Ay de la Doble 
Ville de Paris. . .» 

I 

Na poesia do século xv coUigida no Cancioneiro geral de 
Garcia de Resende, abundam as referencias á influencia fran- 
ceza: D. Luiz da Silveira relembra dez annos de Sena, (Canc. 
ger., 1. 111, p. 371 ;) Duarte de Brito falia dos costumes fran- 
cezes refei:indo-se d lei de França, (ibid., t. i, p. 318); o 
Coudel-mór oflerece a sua cunhada uma escrevaninha fran- 
ceza, (ib., 1. 1, p. 175;) e allude ás noticias, que se recebiam 
fnil falias de França, (ib., p. 139;) e na galanteria compara 
o sobrinho a um francez (ib., p. 144.) O conde de Vimioso 
allude aos trajos francezes (ib., t. ii, p. 142.) Não admira 
pois que um Auto de Gil Vicente conserve a anedocta das 
Cem Novellas novas de Luiz xi, que imitasse no Testamento 
de Maria Parda o Testamento de Pathelin, e que sob a in- 
fluencia franceza mantida desde as relações da corte com o 
Duque de Borgonha até á viagem de D. Aflonso v em 1477, 
desse Gil Vicente aos seus Autos o nome de Moralidades. 
G lógica e fundamental a attribuição dos documentos de 
^475, U82, 1485 e 1491 ao poeta que conservou na ulte- 
rior revelação do seu génio a influencia franceza então pre- 
ponderante na corte. Na corte de D. Aflonso v usaram-se 
Díuito os Antremezes, como se vê pelo Cancioneiro de Re- 
sende, e houve depois crisautos (eclipse ou cris de Autos) 

13 



194 QUESTÕES DE LITTBRATURA 



isto é, em que este divertimento scenicó foi abandonado ; 
reflecte-$e também isto na actividade de Gil Vicente, cujo 
gosto foi despertado pelo que via na mocidade, mas revê- 
lando-se só quando foi incitado pela rainha D. Leonor. D. 
Affonso V morre em ^9 de agosto de 1481» e a 14 de fe* 
vereiro de 148^2 D. JoSoii confirma Gil Vicente no cargo 
de Porteiro dos Contos do Almoxarifado de Beja, seguindo 
o espirito que iniciara na administração publica da revoga- 
bilidade das doações regias e da necessidade das confirma- 
ções geraes. N'este documento, Gil Vicente já nao é moço 
de estribeira, mas criado e escudeiro. Vejamos como se re- 
vela o seu 'assombroso talento. 



2.— existência cie um poeta Gil Vicente na corte de D. Joa.o n 

O gosto das canções provençaes conservou-se em Portu- 
gal, quando em todas as cortes da Europa se seguiam as 
formas do lyrismo italiano; eram qs formas chamadas de 
Cancioneiro as que se preferiam entre nós, e os divertimen- 
tos palacianos consistiam principalmente em improvisações 
poéticas, cqmo apodos, motes, processos allegoricos, e ou- 
tros restos dos torneyamens provençaes. Sá de Miranda falia 
nos seus versos nos bons tempos dos serões de Portugal 
completamente decaídos na corte de D. Jo3o lu. A activi- 
dade poética dos serões da corte de D. João n e D. Manoel 
acha-se bem representada no Cancioneiro colligido por Gar- 
cia de Resende. A rainba D. Leonor, mulher de D. João ii, 
era a principal motora d' estes passatempos, e a ella se deve , 
a creação da Imprensa em Portugal, a fundação das Mise- 
ricordias, os bellos trabalhos de ourivesaria encommenda- 1 
dos ao seu lavrante Gil Vicente, e o apparecimento do Thea- 
tro portuguez, cujos primeiros Autos foram a sed pedido 
também escriptos por Gil Vicente. 

Pelo Cancioneiro de Resende, vemos que em 1493 era 
Gil Vicente conhecido já e estimado como poeta; discutia- 
se em um serão do paço em forma de processo judiciário 
a aventura de Vasco Àbul, que vendo dançar uma cigana 
lhe lançara um collar com o qual ella fugira; n'este pro- 
cesso jocoso apparecem versos epigrammaticos de Gil Vi- 
cente ^om a seguinte rubrica: € Parecer de Gil Vycenten^este 



B ABTE PORTUaUEZA 195 



processo de Víisco Abul á rraynha D, Leonor. ^ * Foi a rai- 
nha que o mandou versificar, como se vè por este trecho: 

Yoss^alteza me perdce, 
ea acbo raayto danado , 
este feyio processado, 
em qun monda que rasóe . . . 

* 

N'este mesmo processo instaurado por Anrique da Motta, 
figura com Ajuda, antes de todos os outros poetas do paço. 
Mestre Gil Em primeiro logar a Ajuda era uma forma poé- 
tica dos apodos do século xv, frequentissima no Cancioneiro 
de Resende, e por isso é disparate o querer inlerpretal-a 
segundo os antigos Ujsos therapeuticos, para poder-se con- 
siderar Mestre GiL como sendo o physico Gil da Costa ; além 
d isso havia o oflBcio de crystaleira no paço, e por tanto se- 
parado dns funcções de physico; em segundo logar, falia 
no mesmo processo duas vezes o poeta, uma em Ajuda, ou- 
tra por mandado da ramha. O nome de Mestre Gil, define- 
nos a sua posição na corte como lavrante da rainha, por- 
que no testamento (l*esta illustre senhora se falia no Reli- 
cário da Madre de Deus «que fez Mestre Joãó,it sem duvida 
collega de Gil Vicente no serviço do paço *, como se vê pela 
clausula alludida, e pelo alvará de 1511. 

No Auto pastoril castelhano, escripto a pedido da rainha 
D. Leonor, refere-se Gil Vicente á côrle de D. João u, ci- 
tando Juan Domado, Con su cajado real, e em nota aceres- 
cenla: ^ Dizia por D. João ILu Os primeiros Autos de Gil 
Vicente, como se declara nas rut)ricas finaes, foram escri- 
ptos por mandado da rainha, e na dedicatória do Auto de 
D. Duardos a D. João iii, ainda repete «que as comedias, 
farças e moralidades foram compostas em serviço de sua 
tia,» a rainha viuva, irmã de D. Manoel. Mas a relação en- 
tre o Mestre Gil Vicente do Cancioneiro geral e o que com- 
poz os Autos, estabelece se de um modo indubitável, por- 
que muitos nomes dos poetas da coUecção de Resende se 



^ Canc, geral, fl. 210, col 5. 

' É o qae «te infere do: «ÂWará para se pagar em pimenta a raião de 2% 
cruzados ao quintal 131^130 réis a Mestre João, oorives, de feitio da Custo- 
dia que mandou fazer (se. D. Manoel) para o Mosteiro da Gonceiçfto de Beja. 
^ 96 de junho de 1511» J. P. Bibeiro, Diss, chronol., 1. 1, p. 332. 



196 quistObs db littbr atura 

■ - - 

repetem nos Autos de Gil Vicente. Citaremos primeiramente 
Diogo Fernandes, poeta e ourives dos serões do paço, ci- 
tado nas Cortes de Júpiter (t. ii, 406): 

Diogo Femond$t irá 
Porqoe he commendador . • . 

No Cancioneiro de Resende vem uma t Pergunta de Diogo 
Fernandes, Ourives, a João Rodrigues de Sá.* {Canc., fl. 126, 
col., 3| Y.) Este facto também coadjuva a conciliação entre 
as duas aptidões de ourives é poeta em Gil Vicente; o ce- 
lebre poeta da corte de D. Jo3o ii, Jorge de Vasconcelios» 
provedor do Âlmazem de Lisboa em 1499, acha-se também 
citado nas Cartes de Júpiter, bem como a Joanoa do Taco, 
do Cancioneiro de Resende, Garcia Moniz S Âffonso Valeo* 
te', e outros muitos, não esquecendo também as damas 
mais afamadas. Adiante esclareceremos as relações entre 
Gil Vicente, como poeta e como ourives, com Garcia de Re- 
sende. 

Do apreço em que Gil Vicente era tido na corte de D. 
Jo3o II, temos além dos factos citados^ e da consideração 
immensa que lhe ligava a rainha D. Leonor, os documen- 
tos históricos, ainda inéditos, que copiámos na Torre do 
Tombo; em carta de 14 de fevereiro de 1482, como criado 
e escudeiro de D. Jo3o ii é confirmado porteiro dos Contos 



1 No docoDMnto de 1513, em qoe Gil Vicante é iodícado como^arives d» 
rainba D« Leonor, ▼em o nome de Garcia Monit^ como thesooreiro da moeda» 
A eiie aliode o poeta: 

Veabaes embora forcado 

Qoe diz lá Garcio Moniz f 

(Attiío da Barca do Inferno^ p. SiO). 

Ob Sam Garcia 
AhniZf ta qoe boje em dia 
Fazes milagres dobrados, 
Dá-lbe esforço e alegria 
Pois que és da compaobia 
^os peoados. 

(Id., t. 111, p. 79.) 

2£omo Âffonso Vaknie 
O que agora é carcereiro, 

{Auto da Barca do Inf., p. Sll.) 



B ARTB PORTUOUBZA 197 



no Almoxarifado de Beja*; em 20 de setembro de 1485 
faz-Ihe D. Jo3o ii mercê de uqs certos bens na víila de Be- 
ja'; e ainda em 1491 è nomeado Porteiro dos Contos do 
Mestrado de Aviz, em substituição de Affonso Alvares ^. Por 
estes documentos se vê a importância que tinha já na corte 
o celebrado artista, e a sua residência em Santarém coin- 
cide com a* do poeta, como se pôde vêr a cada passo das 
soas obras» especialmente na queixa á rainha D. Catherina 
e na Carta a D. João iii; finalmente a substituição em 1491 
de Affonso Alvares é que nos explica a rivalidade que houve 
entre o escriptor dramático e o mulato criado do Bispo de 
Évora que escrevia também Autos «a pedimento dos muy 
honrados e virtuosos cónegos de S. Vicente^i^ taes como o de 
Santo António e de Santa Barbora. A destituição de Affonso 
Alvares em 1491, de Porteiro dos Contos do Mestrado de 
Aviz, explicar-se-ha pela relação de dependência pessoal com 
a casa de Bragança, odiada por D. João ii?^ 

O facto attribuido pelo Nobiliário de Cabedo, que Gil Vi- 
cente era mestre de rbetorica do duqu6/de Beja, Dom Ma- 
noel, em nada contradiz os factos anteriores, taes como o 
de ser porteiro dos Contos do Almoxarifado de Beja, e rece- 
ber uma doação de D. João ii de certos bens também em 
Beja; o grande valor que a rainha D. Leonor ligava a Gil 
Vicente, o conhecimento directo do seu poderoso talento, 
justificam mais ainda a escolha que lella poderia fazer do 
seu lavrante para mestre de rhetorica de seu irmão D. Ma- 
noel (n.«1469) então simples duque de Beja. 

A importância ligada a Gil Vicente é que explica as di- 
versas nomeações e doações regias que teve na corte de 



1 Yid. Docamenlo ii. 

^ Vid. Doe. ui. 

3 Vid. Doe. lY. 

* Segando os ootos docomeotos apresentados pelo sr. Brito Rebello, este Af- 
fonso Alfares era asiodor e cotinheiro de D. João tt, o qáal desde 11 de feve- 
reiro ide 1486 era Porteiro dos Gontoâ do Mestrado de Aviz. Se o assadore co^ 
Hnheiro de D. JoSo ii em 4486 é oq oSo esse mulato Affonso Alvares, tam- 
bém criado do Bispo de Évora, e poeta, poaco nos interessa para o nossa pro- 
blema. Pela Carta de 11 de março de 14^6, vé-se qae o cargo de Portei o 
dos Contos do Mestrado de Aviz rendia aooualmente três mil trezentos e vinte 
e um réis. Pela carta de 15 de novembro de 1491 Té-se também qae o cargo 
de Porteiro dos Contos de Beja rendia a mesma qaantia, o qae jastifica uma 
permita de offieio. 



198 QDB8T0E8 DB LITTBRATURA 



D. João II. A rbeloríca do secalo xv consistia em explicar 
alguns livros de Cícero, em exemplificar com trechos dos 
escriptores antigos certos modos figurados de fallar; o ta- 
lento litterario de Gil Vicente, tal como se nos revela no 
Cancioneiro de Resende, para ser mestre de rbetoríca do 
joven Duque não precisava de uma actividade exclusiva. 
Elle podia ser tudo; era esse o característico dos grandes 
espíritos do começo da Renascença; eram assombrosamente 
enc}xlopedicos. O que se vè com artistas como Leonardo 
de Vinci, Rapbael e Miguel Ângelo, repete-se em Portugal; 
Garcia de Resende era historiador, poeta, musico, archite- 
cto, desenhador e diplomata. Gil Vicente eleva-se á mesma 
craveira de universalidade dos grandes espíritos que pre- 
pararam a Renascença, elle é o lavrante da rainha, o poeta 
do Cancioneiro e dos Autos, o actor das próprias compo- 
sições, musico dos villancicos, è o livfe-pensador que com- 
bate pela liberdade de consciência, e é considerado pelos 
grammaticos seus contemporâneos Fernão de Oliveira e 
João de Rarros uma auctoridade em questões philologicas. 
A época histórica em que figura Gil Vicente justifica esta 
universalidade de aptidões; os documentos que se referem 
a Gil Vicente, isto é, desde I48i alé 1525, coincidem com 
a actividade tanto do ourives como do poeta. Mas temos 
ainda outro argumento ^ue se deduz das relações littera- 
rias entre Garcia de Resende e Gil Vicente; os dois gran- 
des artistas não se estimavam, e restam allusões poéticas 
nas suas obras em que mutuamente se ferem. Gil Vicen- 
te, nas Cortes de Júpiter, allude aos talentos encyclopedi- 
eos de Resende, e á sua extrema obesidade: 

E Garcia de Resende 
Feito peixe tamboril, 
E ainda que tudo etUende 
Irá dizendo por ende 
Quem me dera om arrabil. 

Garcia de Resende, quando moço da escrivaninha de 
D. João II era o valido do monarcha, dormia com elle no 
quarto, tocava instrumentos músicos para o distrair, reci- 
íava-lhe as Coplas de Manrique para o adormecer; pelo seu 
lado Gil Vicente era considerado pela rainha D. LeoDor 
como lavrante e como letrado. Os dois grandes espíritos 



B ARTB PORTUGUEZA 199 



tinham entre si nm certo cíume; Garcia de Resende não só ' 
não colligiu as Obras meudas de Gil Vicente, como se deduz 
das trovas que andavam no Cancioneiro Portuguez feitas 
a pedido do Conde de Vimioso, e não impressas no texto 
de 1516, como também o fere no seu talento de Ourives, 
dizendo na JUiscellanea : 

m 

£ vimos minas reses 
D*oaro e d^oatrosmetaes 
No Reyno se descobrir ; 
MaU que nunca vi sair 
Engenhos de oficiats. 

E exaltando os artistas estrangeiros, sobretudo os ita» 
lianos, prosegue: 

Otirtmm e Escaiptores 
S&o mais sotis e melhores. 

Mas contra o talento dramático de Gil Vicente dá-se a 
mesma perfídia de Reseode; na Miscellanea destitue-o lam- 
bem da originalidade dos seus Autos : 

£ Timos sÍDgalarmente 

Fazer representações, 

n^estylo moy etoqueote 

De moy DOTas iovenções, 

E feitas por Gil Vicente. 

Elle foi qae ioventoa 

Isto cá, e o usoo. 

Com mais graça e mais dootrioa^ 

Posloque Juan dei Encina 

O Pastora começou. 

É crível que Garcia de Resende conhecesse dois indivi- 
dues de nome Gil Vicente, um ourives, e outro poeta, que 
os não differençasse nos seus apodos satyricos, e logo por 
coincidência extraordinária tivesse má vontade a elles am- 
bos? Só uma obcecaçSo apaixonada é que pôde manter a 
ideia de duas individualidades dístinctas. 

No celebre documento de 15 de fevereiro de 1509,* em 
que D. Manoel nomeia — Gil Vicente ourives da Senhora rai-- 



1 Yid. Docameoto t. 



200 QUB8T6B8 J>B LITTBBATURA 

nha minha irmã — Vedor de todas a3 obras de ouro e prata 
dos mosteiros de Tbomar, Todos os Santos e Belém, assi* 
gna como escrivão André Pires; ora na tragicomedia da 
Romagem de Agravados, diz o poeta : 

o Alvalá que mostroa 
Com tâoto de filhamento. 
Tanto de acrecentameDlo 
Não sei quem lb'o deepachoo. 
Damifto Dias, oo algoeni, 
Lbe boQTe o negro ahalá, 
Chríftovam EsteTei também, 
Ga qaiçaee, eabe Deoe qoem, 
André Pirei^ nfto eerl ? 

(Obr., t. n, 510.) 

A abundância das coincidências tíra-lhes o caracter de 
casualidade. Nos Autos do poeta, laes como a Farça dos 
Almocreves, e Cortes de Júpiter, e no Auto da Alma, sao 
numerosissimas as referencias do poeta ás obras de ouri- 
vesaria. O triumpho da arte italiana em Portugal fez esque- 
cer Gil Vicente como lavranle, d'aqui talvez a sua pobre- 
za, e depois de 1536 e 1537 é que começa a ser estudado 
como escriptor pelos grammaticos Fernão de Oliveira e João 
de Barros. 

Pelo fallecimento de D. João n, a coroa de Portugal veiu 
a perteqcer a D. Manoel, irmão da rainha viuva D. Leo- 
nor; vivendo na corte, mas profundamente alquebrada pe- 
los desastres da sua familia, esta senhora não tendo que 
dar a fazer ao seu lavrante, por que para ella haviam aca- 
bado as sumptuosidades, pedia-lhe por occasião das festas 
religiosas que compozesse algum Auto hierático, «fi por 
ser cousa nova em Portugal, gostou ianto a Minha velha 
doesta representação, que pediu ao Autor que isto mesmo lhe 
representasse ás Matinas de Natal, endereçado ao nasámento 
do Redemptor.. .» Gil Vicente, ao serviço da rainha como 
lavranle, e tendo já versejado nos serões do paço a pedido 
de tão mclyta senhora, preferiu antes fazer uma obra nova; 
fez o Auto pastoril castelhano em vez de repetir o Monologo 
do Vaqueiro; na rubrica final revela-nos : cA dita Senhora 
Rainha, satisfeita doesta pobre cousa, pediu ao auctor que 
para dia de Rets logo seguinte lhe fizesse outra obra.j> Escre- 
veu portanto em 1S03 o Auto dos Reis Magos, e ainda n'esse 



B ARTE PORTUGUEZA 201 



mesmo anno o Auto da SybiUa Cassandra; diante da rai- 
nha D. Leonor representou em 1505, nas Caldas, o Auto dé 
Sam Martinho, e em Lisboa o Auto dos Quatro tempos, nos 
paços da Ribeira em 1508 o Auto da Alma, em Santos o 
Velho o Auto da Fama em 1510; na capelía do Hospital 
de Todos os Santos, representou ainda diante da ramha 
D. Leonor o Auto da Barca do Purgatório, que pertence a 
essa trilogia primeiramente escripta em poiíuguez com o ti- 
tulo Auto de moralidade e depois traduzida pelo próprio au- 
ctor para castelhano com o título Tragi-comedia allegorica 
dei Paraíso y dei Infiemo. Insistimos sobre este ponto da 
influencia da rainha D. Leonor sobre o talento dramático 
de Gil Vicente, porque d'aqui se tira um fortíssimo argu- 
mento para provar a identidade do poeta com o ourives. 
O próprio Gil Vicente, na dedicatória da tragicomedia de 
Dom Duardos a D. Jo3o ni, declara ter composto a maior 
parte dos seus Autos em serviço da rainha tia, viuva de 
D. João II : «Como quiera Excellenle príncipe y Rei muy 
poderoso, que las Comedias, Farças y Moralidade que he 
compueslo en servido de Ia Reyna vuestra tia...» * Por 
outro lado os documentos ofliciaes sao todos conformes 
em dar a Gil Vicente o titulo de Ourives da rainha D. Leo- 
nor. Como è possível que dois grandes espíritos do mesmo 
nome, e vivendo ambos no paço, trabalhando ao serviço da 
mesma rainha, e entre malquerenças e invejas, se nâo dis- 
tinguissem entre si, pelo menos nos ataques da malevolen- 
cia dos seus contemporâneos? O apreço do poeta na corte 
de D. Manoel, coincide com o apreço ao ourives; a deca- 
dência do escriptor coincide com a do arlista na corte de 
D. João ui, o que se explica pela morte da rainha D. Leo- 
nor, qúe o protegia. 



3.— E3xistencia de um Ourives Gil Vicente na corte de D. João II, 

D. Manoel e D. João IH 

O primeiro documento em que se acha publicado o nome 
de Gil Vicente como ourives, é o testamento de el-rei Dom 
Manoel, de 7 de abril de 1517, nas Provas da Historia ge- 



1 Ap. Folha Volante da Bibl. do Porto (N— 8— 74.) 



202 Q0ESTÕE8 DE LITTBRATDRA 

'"' ■ '- y . . . . Ill 

nealogica; em uma das clausulas se diz que Gil Vicente è 
o assombroso artista da Custodia do mosteiro de Belém: 
«Item, Mando que a Custodia feita por Gil Vicente para o 
Mosteiro de Bellem, seja entregue á dita Casa, bem comg a 
grande Cruz, que foi guardada na minha tbesouraria, feita 
tombem pelo mesmo Gil Vicente, e também as Bíblias escri- 
ptas á penna, que fazem parte do meu guarda roupa, as 
quaes são guarnecidas de prata, com cobertura cramesi^» 
Nos extractos do testamento da rainha D. Leonor, publi- 
cados por Frei Jeronymo de Belém, na Chronica seraphicá, 
acha-se também esta preciosa indicação: citem, deixo ao 
dito Mosteiro da Madre de Deos o Relicário que fez Mestre 
João, em que está o santo Lenho da Vera Cruz... e os dous 
Cálices que andam em minha Capella: a saber, o que cor- 
regeo Gil Vicente, e outro dos que elle fez, que está ja no 
dito Mosteiro, etc.'* A data d*este testamento é de 1S2Í, 
o que importa para fixar o apreço em que era tido o ar- 
tista ; pelos dois documentos de ha muito publicados, po- 
dia-sé ennumerar de um modo autheutico as obras de Gil 
Vicente : 

1.® A Custodia do mosteiro de Belém. 

2.^ A Cruz grande do mesii)0 mosteiro. 

3.® Cálices, feitos por ordem da rainha D. Leonor, mu- 
lher de D. João ii. 

4.° Outro Cálix concertado por Gil Vicente, mandado en- 
tregar pela referida rainha ao mosteiro da Madre de Deos. 

De todas estas obras, aquella que se conservou cuida- 
dosamente foi o extraordinário monumento da Custodia; 
d'elle falia lord Beckford, na sua Carta vii, de 12 de jimbo 
de 1787, mas por este tempo o nome de Gil Vicente estava 
esquecido como ourives, e não se sabia quem fora o auctor 
da Custodia; diz o celebre lord: <N'uma pequena e escura 
casa de thesouro, que por uma escada de caracol commu- 
uica com a porta do edificio que a tradição designa como 
habitação de el-rei Dom Manoel, quando em certas épocas 
religiosas do anno se retirava a este recinto, mostraram- 
me à luz de velas algumas alfaias extremamente curiosas, 



1 Âpod Soosa, Prota da Bisf. geneal., i. ni, p. 828. 

2 Apud Chron. t^raphiea, t. iii, pag. 85. 



B ARTE POHTUGUBZA 233 



e em especial uma Custodia, feita em 1506, do mais puro 
ouro de Quilôa; n3o ha cousa mais bella, como specimen 
do bem trabalhado IsTor gothico do que esta complicada 
peça esmaltada, e com leves esteios e pináculos cinzela^ ^ 
dos, tendo os doze apóstolos em seus nichos debaixo de 
pavilhões, formados por milhares de voltas e ramificações.» 
Vè-se por este documento que a clausula do testamento de 
D. Manoel foi cumprida, e que è de Gil Vicente a Custodia 
dos Jeronymos, em cuja base oval ha um friso em letras 
de esmalie branco: * o * mvito * alto * puinccpe ♦ e 

* poderoso * SCHOR « REI «DO * MANVEL * ANDOV * FA- 
ZER * DO * OURO * I ♦ DAS * PARIAS * DE * QUlLOA * 

AQCABOv # E * ccccvi. — Do USO do V monumeutal em vez 
do u, e dos estragos doesta inscripção, quizeram deduzir 
que o ourives nao sabia escrever, c por tanto era essa igno- 
rância incompatível com a capacidade litteraria de Gil Vi- 
cente, fundador do theatro portuguez. Á parte a explicaçíío 
de que o trabalho de esmalte poderia ser feito por qual- 
quer oflQcial do grande mestre, o sr. Teixeira Aragão, que 
descreveu minuciosamente o monumento, prova que ha en- 
xertos posthumos feitos por mão inepta, e também «faltas 
na ornamentação, figuras e esmaltes antigos. » ^ Deixemos 
as argucias que só servem para desvairar a opinião; achada 
a relação entre o nome de Gil Vicente e a Custodia dos Je- 
ronymos, importava determinar esta gigantesca individua- 
lidade artística. Pelo testamento da rainha D. Leonor, já 
sabíamos que Gil Vicente trabalhara por sua ordem; em 
um documento de 15 de fevereiro de 1509, do Cartório 
do Hospital de Sam José', se lé; Gil Vicente, Ourives da 
Senhora Rayiúa, minha irmã...it E em outro documento 
de D. Manoel, de 4 de fevereiro de 1513, se lê ainda: «Gtt 
Vicente, ourives da rainha minha muito amada e prezada 
irmã.., ^» Note-se que n'estes dois documentos^ como já 
observámos, os nomes do escrivão André Pires, e do the- 
soreiro da moeda Garcia Moniz, se acham também citados 
nos Autos de. Gil Vicente, Autos feitos a pedido da rainha 



1 D, Vatco da Gama » a ViUa da Vidigueira, p. 86. 

* Publicado Da Historia de Camões, t. i. p. 65. Víd. Doe. ▼. 

' Vid. Documento ti. 



20 1 QUB8T6B8 DE LITTBRATURA 



D. Leonor, como o poeta declara. Em um docomento de 
D. Joio 111, de 9 de janeiro de 1525, é Gil Vicente agra- 
ciado com uma tença ', mas já se lhe não chama ourives 
da rainha D. Leonor, poraue esta illustre senhora era fal- 
lecida ; e Gil Vicente na dedicatória da tragícocomedía de 
D. Duardos a D. JoSo in, diz: «las comedias, farças y mo- 
ralidades, que é compue^to en servido de la Reitèa vueslra 
tia.. .li D*onde.se concluo que o lavrante da rainha era 
apreciado pelos talentos litterarios, e que á influencia da 
rainha D. Leonor, que actuou profundamente na civilisa- 
ção portugueza fundando as Misericórdias, deseuTolven- 
do a imprensa portugueza, se deve também o impulso geir 
neroso para a fimdaçSo do Theatro portuguez. O génio 
de Gil Vicente n3o podia ser completamente aproveitado 
na corte de D. Jo3o ii, perturbada com as conspirações 
da aristocracia, com a catastrophe do Duque de Bragan- 
ça, e por fim com a calamidade da morte desastrosa do 
príncipe D. Affouso, filho único de D. JoSo ii, no areal 
de Santarém, e com a morte do grande monarcha attribuida 
a envenenamento. Só na corte de Dom Manuel é que des- 
abrocha o talento de Gil Vicente, provocado pela Rainha 
viuva que bem o conhecia; assim em 1502 funda pelo Jlfo- 
nologo do Vaqueiro o Theatro portuguez, e com o ouro pri- 
meiro recebido das páreas de Quilõa fabrica a sublime Cus- 
todia, a primeira epopèa artistica da audácia portugueza no 
Oriente. Pela influencia da rainha viuva, el-rei D. Manoel 
confirma em 1409 todas as mercês feitas a Gil Vicente ', 
que então residia em Santarém, junto da corte, como o 
poeta. No Alvará de 15 de fevereiro de 1509, Dom Manoel» 
por ventura em paga do desempenho do trabalho da Cus- 
todia terminado em 1506, nomeia Gil Vicente Vedor de 
todas as obras de ouro e prata feitas para o Convento de 
Thomar, Hospital de Todolos Santos e Mosteiro de Belém ; 
e confirmando as suas altas qualidades moraes de bonda- 
de, discrição e fidelidade, nomeiao em 4 de fevereiro de 
1513, Mestre da Balança da moeda de Lisboa, cargo cuja 
venda a Diogo Rodríguez concede em 15 i7^ As composi- 



> Vid. Docameoto tiii e ix. 

2 Vid. Docomento ▼. 

3 Vid. DocamentOB n e tu. 



B ARTE^ PORTUOUBZA 205 



coes dramáticas de Gil Vicente eram provocadas pelas fes- 
tas do paço, como o nascimento de D. João ui, em i502, 
nascimento do Infante Dom Henrique em 15i2, partida do 
duque Dom Jayme para Azamor em #13; ou pelas festi- 
vidades religiosas das ^esperas do Natal, fieis Magos e Pai- 
xão, e sobretudo quando a corte andava foragida das pes- 
tes periódicas; era um trabalho accidental na sua activida- 
de. Succedeu a mesma coincidência com Lope de Rueda, 
ourives de Sevilha, também fundador do Theatro hespa- 
nbol; a profissão de ourives explica este encyclopedismo 
artístico. É também um ourives, Fortiguerra, quem des- 
cobre a gravura. A ourivesaria, como disse o Bíblio- 
philo Jacob, era a eschola de todas as artes na edade me- 
da; aili se aprendia a chimica* e o esmalte^ a cerâmica, a 
estatuária, a gravura, a pintura; cada vocação particular 
seguia o seu instincto; os espíritos vastos, que abrangiam 
a comprehensao de todas. as formas do bello ficavam ouri- 
yes, dominavam como semideuses. Nao é Gil Vicente o 
único homem que em Portugal se tornou inexcedivel em 
mais de uma forma de arte: o seu contemporâneo Garcia 
de Resende também foi politico, poeta, musico, historia- 
dor, desenhador' e architecto. Era este o caracter doesse 
século forte pelo sentimento da antiguidade, pelo ^osto da 
sumptuária que o levava á comprehensao do bello peia acti- 
vidade intellectual; sob este ponto escreve Cournot, que se 
lhe nao pôde contestar o ter sido o século dos artistas, e 
Doesto sentido incomparável: «Artistas como Leonardo de 
Yinci, Miguel Angelo e Raphael, que são simultaneamente 
geómetras e architectos, esculplores, pintores, poetas, en- 
genheiros, physicos, philosophos, e que primam em géne- 
ros tão differentes, não podem ser mais especialmente 
grandes,, incomparáveis artjstas senão porque vivem em um 
tempo e em um paiz em que a arte captiva de preferencia 
as mais altas e as mais completas intelligencias. Ora, isto 
mesmo constitue um phenomeno histórico de primeira or-. 
dem, uma singularidade de que não ha precisamente exem- 
plo no passado, e tal, que tudo leva a crer que o exemplo 
não se reproduzirá mais.» ^ A actividade artística do se- 



1 Considerations $ur la marche dei Idées^ 1. 1, p. 178. 



206 QUESTÕES DE LITTBRATDRA 

1 — ■ 

• 

culo XVI foi o poderoso estimulo da actividade scientifica 
do século XVII ; Augusto Comte conheceu que nada ha mais 
eflicaz para sugerir o trabalho da intelligencia do que a 
contemplação artisífta; e Hume, um dos seus precursores, 
considera a cultura artística como um poder sugestivo do 
desinteresse altruísta e do encanto da meditação V. Em Por- 
tugal seguimos também essa lei da historia; tinhamos no 
século XVI os génios encyclopedicos. os grandes artistas, 
que preparariam a actividade scientifica de um outro sécu- 
lo, se a Inquisição não assentasse os sens arraiaes D*este 
desgraçado paiz. Ficámos atrazados na civilisação. Gil Vi- 
cente pertence a essa plêiada pelo génio e pelo século : 
quando elle escreveu a Dom João ni a dar-lhe coata do 
modo como aplacou o povo de Santarém que tentava tru- 
cidar os Judeus, deixou uma prova do seu tino politico e 
dos seus conhecimentos em physica: quando desmascarava 
nos seus Autos a absorpção que o clericalismo estava exer- 
cendo sobre a sociedade civil, e. quando pugnava pela li- 
berdade de consciência e pela descentralisação, mostrou 
esse espirito de independência do /terceiro estado que os 
jurisconsultos soubiTam sustentar; discutia como iheologo 
sobre a scena os raysterios da fé, por onde os eruditos da 
Renascença portugueza lhe chamaram Pasquino, guerrean- 
do o por fazer trrumphar as formas populares do drama 
da edade media sobre as seccas imftações das comédias de 
Plauto e de Terêncio; era elle que divertia a corte nos de- 
sastres das -guerras da Africa, nas pestes periódicas que 
assaltavam o paiz, e este seu ultimo aspecto equiparava-o 
a Boccacio e a Rabelais. Caracteres tão diversos no escri- 
ptor dramático, bastavam de per si para filial-o na plêiada 
gigante dos espíritos encyclopedicos do século xvi; porém 
o facto de nos apparecer o nome de Gil Vicente ligado ao 
mais assombroso monumento da ourivesaria portugueza, é 
a comprovação doesse encyclopedismo, e a identidade do 
ourives e do poeta podia presentir-se antes de qualquer 
comprovação histórica. 

Pela noticia conservada por Alão de Moraes, Gil Vicente 
era filho de um ourives de pi^ta de Guimarães. Na época 



1 Obras philosophicaSf t. ii, p. 5. £d. 1764. 



B ARTE P0RTU6CBZA 207 



em que figura Gil Vicente a eschola da ourivesaria de 
Guimarães estava fioresceote, e o estylo da Custodia dos 
Jeronymos repete-se do Cálix offerecido á Collegiada em 
1527 pelo Chantre Fernão Alves: «no pé véem-se esculpi- 
das em alto relevo as figuras de oito Apóstolos; no meio 
estão seis estatuas, a de Nossa Senhora e a de cinco Após- 
tolos, mettidos em nichos, inteiramente vasados, aos quaes 
fazem coroa uns arrendados baldaquinos, guarnecidos de 
delicadíssimos lavores; na parte superior ha também um 
coro de anjos em «adoração, cinzelado com singular esme- 
ro. • * Se este cálix não é um dos feitos por Gil Vicente, 
como se sabe pelo testamento da rainha D. Leonor, que 
documento mais eloquente para definir uma mesma corrente 
artística? Emquanto a rainha D. Leonor viveu, Gil Vicente 
sentiu-se apoiado com o seu valimento; nos Autos o poeta 
queíxa-se da sua decadenciía, e conhece-se que foi duramente 
hostilisado, como se vê pela composição da Farça de Ignez 
Pereira. Gil Vicente era ferido na dupla forma do seu génio; 
pela lei de 1Í535, foram prohibidos os trabalhos de ourivesa- 
ria sumptuária, e em i536 inaugura-se a Inquisição em Por- 
tugal assassinando a liberdade de consciência. O ourives não 
foi mais conhecido, e o poeta calou-se, como se sabe pela ru- 
brica da Floresta de Enganos, representada em Évora: «A 
derradeira que fez Gil Vicente em seus días.v O ultimo docu- 
mento histórico acerca de Gil Vicente é datado de Évora, em 
19 de janeiro de 15i5, no qual D. João m lhe manda dar três 
moios de trigo por anno*; aproximamos este documento da 
queixa do Auto pastoril portuguez, representado em lSâ3, 
em dezembro. 

E hum Gil, um Gil, um Gil. . . 

(Que mk retentiva hei) 

Um Gil. .. jà Dão direi; * 

Um que não tem nem ceilll, 

Que faz os Aitos a El-rei. 

Aito, éoido qiie dizia, 
Âíto, asei cuido que he ; 
Mae jà n&o Aito, bofe, 
Como os Ailot que fazia 
Quando elle tinka com quê? . 



1 J. A. Almeida, Dicc. chorog., l. i, p. 498. — P.Torquato, Mm. retsuscila* 
das, p. S1I. 
' 2 Vid. Docameoto ix. 



208 QUBBTÕB8 DB LITTBRATDRA 

Este verso Quando elle tinha com quê, refere-se á sua 
actividade lítteraria começada em 1502, e que coincide com 
as numerosas tenças e dístincções recebidas de D. Jo3o ii 
e conQrmadas por D. Manoel, como Vedor de todas as obras 
de ouro e prata dos Mosteiros de Belém, Todos os Santos 
e Tbomar, e Mestre da Balança da moeda em Lisboa. 

Brito Rebello encontrou mais um documento em que se 
refere a este cargo, vendido por Gil Vicente a Diogo Ruiz. 
ourives da Infanta D. Isabel; é um alvará de 6 de agosto 
de iri17. D'este documento em que Gil Vicente apparece 
pela ultima vez citado como ourives, quer Brito Rebello 
inferir uma época provável da sua morte, e para isso for- 
tifica-se com uma Carta de D. Jo3o ni, de 3 de março de 
1530, na qual se lè relativamente ao Convento dos Freires 
de Christo de Tbomar, um privilegio concedido a cum ou- 
rives que estiver na dita villa que tenha carrego de fazer as 
cousas de prata que se mandarem fazer para o dito convento 
e de alimpar e correger as que agora ha.t (Livros da Ordem 
de Christo, n.® 13, íl. 21, v.) Desta aproximação dos dois 
documentos conclue Brito Rebello: «Em vista d'elle pode- 
mos quasi affirmar que o famoso ourives Gil Vicente falle- 
ceu entre 6 de agosto de 1517, data da renuncia do cargo 
de mestre da Balança, e 3 de março de 1530, data da carta 
que acabamos de publicar, e que portanto u9o podia ser o 
poeta, que ainda vivia em 1536.i Esta inferência è pasmo- 
sa. Contra ella oppõmos, primeiramente: Gil Vicente re- 
nunciou por venda o cargo de mestre da Balança, porque 
era um oiScio temporário; depois da morte da rainha D. 
Leonor, de quem era lavrante, cessou o motivo do seu ti- 
tulo; os trabalhos crescentes da composição dramática e 
representação dos Autos obrigaram-no a abandonar a ou- 
rivesaria, mesmo porque todos os seus filhos eram empre- 
gados no paço, e nâo tinha quem lhe succedesse no officio» 
O privilegio ao ourives residente em Tbomar em nada in- 
valida a auctoridade de Gil Vicente, porque é concedido a 
um ourives de prata, destinado a fazer, correger e alimpar 
as cousas d*esse ramo especial e restricto, sem derrogação 
da auctoridade do Vedor sobre o seu exame e avaliação. 

A pobreza de Gil Vicente como poeta dramático, quei- 
xando-se de não ter nem ceitil, e alludindo aos tempos em 
que elle tinha com que não só se explica pelo abandono da 



B ARTS P0RTU6UBZA. 209 



oorivesária pelo serviço da composição litteraría dos Autos 
e sua representação nos serões do paço, senão pela influen- 
cia do gosto italiano e divisão do trabalho artistico por out 
tros, taes cpnoo Diogo Fernandes ourives da infanta D. Ma- 
ria, João Cansado lavrante da rainha D. Catherina, Diogo 
Rodrigues ourives da infanta D. Isabel, Affonso Pires ou- 
rives do Convento de Thomar. 

O que a Gil Vicente succedía com a arte repetia-se com 
as letras; antes de 152() decaíram os serões do paço por 
causa do fanatismo de D. João nr, e sò por meio de tenças 
é que Gil Vicente podia ser compensado por alguns Autos 
representados pelo nascimento dos Infantes. No Livro das 
pessoasi que tiveram tenças de el-rei, consultado por Brito Re- 
bello, acha-se sob o titulo: Tençm que el-rei nosso senhor 
deu o anno de xxiiij, vem a folha Hl verso, esta verba: 
€A Gil Vicente de tença xijr.r (IgjJOOO rs.) 
E a fl. 113, do mesmo livro, referente ao anno de 1325: 
«A Gil Vicente dacrecentamento fr«>)*.» (8í5000 rs.) 
Na Romagem de Aggravados allude Gil Vicente á situação 
percaria dos que vivem das tenças e da subserviência do 
paço; essas tenças podem também justiíicar-se por ter Gil 
Vicente por morte da rainha D. Leonor deixado de ser la- 
vrante ou de receber por esse encargo da casa da fallecida 
rainha. Porque abandonaria Gil Vicente depois de 1517 a 
ourivesaria, entregando-se exclusivamente a trabalhos dra- 
máticos? 

Na arte portugueza derase uma profunda transformação 
com as viagens dos nossos artistas á Itália; a pintura trans- 
formou-se em uma nova eschola, e a ourivesaria amiga por- 
tugueza decaia do gosto, como se vé pela phrase de Gar 
cia de Resende, na Miscetlaned: «Ouriveses e esculptores 
são inão mais sutis e melhores, i^ Gil Vicente não quiz lu- 
ctar com o gosto da corrente italiana nos trabalhos da ou- 
rivesaria; faltava-lhe o apoio da rainha D. Leonor, não lhe 
davam trabalho, nem era fácil mudar de estylo. Atacado 
também nos seus Autos por Garcia de Resende e outros 
homens de bom saber, isto è, pelos nossos humanistas da Re- 
nascença, elle aproveitou os divertimentos do paço para 
reagir contra a imitação artificial da Comedia clássica tra- 
zida da Itália pelos eruditos. Isto lhe consummiu a vida n'uma 
lucta, cujo pensamento profundo era protestar pela libçr- 

14 



210 QíSWBMWê Dl f jmilATCRA. 

dade de consciência. Os seas ires flibos. bem collocados no 
pago, também flzeram esquecer o oaríves para se nobilita- 
rem com a fama do litterato. 

No nosso livro Bernardim Ribeiro e os Bucolistas, accn- 
mulámos as descrípções tecbnicas de oorivesaria que se 
acbam nos Autos de Gil Vicente ; o rigor d*essas descrípções 
nSo é casual. Sobre este ponto 6 preciosa a leitura da Farça 
dos Almocreves, em que um Ouriyes pede ao fldalgo o pa- 
gamento de certas obras ; no Auto da Alma, descrevem se 
as jojas com que o diabo vem seduzir a alma; na Fragoa 
de Amor a scena é uma forja, onde os velhos se tornam 
moços e os frades se convertem em galantes; finalmente 
nas Cortes de Júpiter cita-se Diogo Fernandes, também ou- 
rives e poeta do tempo de Gil Vicente, e descreve se. o 
tbrono ou andor de ouro em que deve ir o infante D. Luiz: 

o príncipe, domo Mobor, 
Irá com quatro rociofe 
Htriobos, em um andor 
Do molhor oaro qoo fôr 
Em todk a terra dos Chios: 
E on «obrecéo por cima, 
D'esmeral4a8 e robi», 
Lavrado de obra de lima, 
Qae nSo po»»am dar estima 
A larores t9o sobtis. 

(Obras, t. n, 108.) 

N'estes dois últimos versos o poeta faz consistir a per- 
feição da obra de lima na maior desestimaçSo d*elia; tal 
era a sua situação na corte de D. Jo9o ni. 



4.— Conciliação dos nobiliários acerca da familia 

de Gil Vicente 



Òs primeiros dados genealógicos que encontramos sobre 
Gil Vicente acham-se na Pedatura Itisitana, manuscripto de 
Ghrístovam Alão de Moraes, de 1667 '; o termo d esta ge- 
nealogia em um descendente do poeta, que foi procurador 






1 M*. n.* iil, da Bibl. pabliea do Porto ; • II. 17S. 






B ARTB PORTUGUESA ? t i 



és cortes em 1668, leva-nos a iDferir sobre a veracidade 
das informações obtidas por Alão de Moraes. O modo como 
«ste iJDhagista é julgado, será oegativo para os qoe tèm a 
superstição nobiliária ; para nós o ter escripto de pessoas 
'desconhecidas, e a Wjíerdade com que qualificava as pessoas 
de quem escrevia, è mais um titulo para a nossa confiança, 
pelo menos no que se refere á família dos Vicentes*. 

Sob o titulo Dos ViCRNTES, traz Alão de Moraes os seguia* 
tes factos, que iremos confirmando com auctoridades his- 
tóricas irrefragaveis, aproveilando-nos até dos próprios er- 
ros para explicar as falsas indicações do Nobiliário de Ca- 
bedo de Vasconcellos : 

a NARTiM Vicente: fm um homem natural de Guimarães; 
dizem qrw era Ourives de praia; não podemos saber com 
quem casou; só se sabe de certo que teve a Gil Vicente, 

•GIL VICENTE, filho único d'este Martim Vicente, foi homem 
mui discreto e galante, e por tal foi sempre mui estimado dos 
príncipes e senhores do seu tempo. Foi o que fez os Autos, 
que em seu nome se imprimiram e por sua muita graça fo- 
ram sempi e celebrados pelo^ melhores que se fizeram naqueUe 
genm*o. Está sepultado em Évora, Casou com ,.. de Almei- 
da, filha de , . . de quem houve, clc. 

No tempo de Alão de Moraes ainda se conservava a me- 
moria de q'ie Gil Vicente era filho de um ourives de prata 
de Guimarães, mas já se havia esquecido totalmente a me- 
moria de que fora o celebre lavrante da riainha D. Leonor, 
mulher de D. Juão ii; a família do ourives nobilitava-se com 



1 Dii D. António CaeUno de Soom, no App, geveal , p. cxtn: «Cliristovâni , 
Alão de Moraes, desembargador do Porto, onde vWeo e mbrreu, boroem letrad» 
na 8ua profissão e erudito, e mai dado ás genealogias, de que escreveu seí:« to- 
liimes. Não se lhe pôde negar qoe soube muito, ma* não tinha intepçào mui 
recta, e que no qoe toca á genealogia não merecem os seus livros es imaçâo 
porque escrtveu t«vi ttcolka, de peuoat desctmhecidat. e que não deviam entrar 
em Nobiliários, e ainda qoe somente para deslositrar umas e outras as mettes 
entre as familias iliustre^ e nobres.* 

Nas Memorias dê Frei Joio de Som Joié Queiroz^ pag. 160, repete -;:# • 
mesmo ponto de vista critico: «0 Doqoe de Cadaval D. Nuno Alvares Pereira 
irSo quix comprar as Memorias genealógicas de Cbristovam Alão de Moraes 
ditem pela liberdade com que o auçior gud/t/icooa as pessoas de quem esarevia.* 
Isto 008 explica a razio porque AIfto de Moraes colUgio na Pedatura a genoa- 
logia de um oorivei e poeta cómico; o argumento é todo em beneficio d'eèl& 
fonte de coDéolta. 



212 qubbtObs db uttbrâtuha. , 

a lilteratura do seu antepassado, dando, o a conhecer pelos 
livros dos Autos. Os livros tambeoi já não eram vulgares, 
porque A13o de Moraes n3o pôde descobrir o nome da mu- 
lher de Gil Vicente, que nas obras do poeta tem um epi- 
taphio por onde se sabe que se chamava Branca Bezerra. 
Traz apenas o appellido de Almeida, e esta indicação nos 
basta para explicar quem é esse Gil Vicente de Almeida^ 
sobre que se basèa a genealogia de Cabedo de Vasconcel- ' 
los. A Pedatura de A13o de Moraes, enumera os seguintes 
filhos do poeta e ourives Gil Vicente: 

1.® €Luiz Vicente,"» A existência doeste filho está autben- 
ticada no «Prologo dirigido ao mui alto e poderoso Bei 
Nosso Senhor D. Sebastião, o primeiro do nome, por Luiz 
Vicente,» que acompanha a edição das Comedias e Autos 
*de 1562. No Nobiliário manuscripto da familia dos Silvei- 
ras, por D. Luiz Lobo da Silveira, citado como auctoridade 
por D. António Caetano de Sousa, existe um documento 
por onde se vê que Luiz Vicente era moço da Gamara do 
príncipe D. João, pae de D. Sebastião; é uma carta diri- 
gida ao poeta Fernão da Silveira : 

«Eu o Princepe, vos envio muito saudar, pelo que m& 
escrevestes por uma carta vossa acerca de vos mandar al- 
guns escrivães para trasladarem as vossas Obras^ que os 
dias passados vos mandei pedir: envio agora Luiz Vicente, 
meu moço da Gamara, que é bom escrivão para as trasla- 
dar e m'as trazer, e cumprindo tomar alguns outros escri- 
vães mais, elle o fará, porque assim lh'o mandei que o fi- 
zesse, vae provido de todo o necessário para assim o fa- 
zer ; encommendo-vos muito que lhe deis todo o bom avia- 
mento para lhe cumprir, porque quanto mais cedo vierem 
vossas Obras, mais folgarei. António Ferrão a fez, em Al- 
meirim, a 29 dias do mez de janeiro de 1552 annos.» (Ms. 
fl. 212, da Bibl. do Porto.) 

Foi este o filho do poeta que compilou as Obras do fun- 
dador do theatro nacional, conservando com intelligencia as 
rubricas históricas das representações da corte. Alão de 
Moraes diz d*elle: 

«Lttíz Vicente, filho primogénito doeste Gil Vicente; casou 
com Joanna de Pina, filha de Luiz de Pina, de Santo Antó- 
nio do Tojal, e de Meda Barreto, sua mulher; e teve d'ella: 
— Gil Vicente de Almeida; — Martim Barreto.^t Voltaremos á. 



B ARTE PORTUOUBZA 213 



investigação doestes netos do poeta e lavrante da rainha ; 
prosigamos na enumeração dos seus filhos : 

2.^ Martim Vicente^ que serviu bem na índia, onde mor^ 
reu solteiro, 9 Este facto colligido por Alão de Moraes, con- 
corda com as ti-adições persistentes no século ivii, conser- 
tadas por Faria e Sousa, de que Gil Vicente mandara para 
a índia um filho, por inveja do seu talento. Julgava*se er- 
radamente que este filho do poeta se chamava também Gil 
Vicente, pela állusão dos Commentarios de Affonso de Albu-- 
guerque, de quem elle era um dos seus escrivães, e compa- 
nheiro n'este perigosíssimo ofBcio, de Gaspar Corrêa, au- 
€tor das Lendas da índia, Afionso de Albuquerque andava 
sempre acompanhado dos seus escrivães, e o que cada um 
escrevia era ignorado pelos outros (odos, para assim co- 
nhecer quem era o inconfidente e o punir immediatamente 
com a morte ; por esta circumstancia se pôde avaliar a si- 
tuação do desgraçado Martim Vicente, que morreu pôr ven- 
tura das fadigas do sen cargo junto do terrível vice*rei. 
Eis o que se Tê nos Commentarios: «Affonso de Albuquer- 
que desejava tanto de tomar alguma concrusão com o Ht- 
dalcão, que mandou logo recado a Garcia de Sousa, que es- 
tava sobre Dabul, que largasse a navegação do porto, não 
sendo mercadorias defezas, é que se os mouros quizessem 
seguros pêra suas náos navegarem que lh'os mandasse pe- 
dir a Goa. Despachado este Embaixador, mandou Affonso 
D'albuquerq em sua companhia, pêra assentar paz Diogo 
Fernandes, adail de Goa, e o jiliio de Gil Vicente porsea 
escrivão, e João Navarro por lingua, e seis cavalgaduras, 
e um capitão da terra cô vinte piães pêra os servirem pelo 
caminho.» * A gloriosa antonomásia o filho de Gil Vicente 
repete*se em outros documentos históricos com relação a 
um outro filho, o que significa o profundo respeito que se 
tinha por este homem extraordinário. A sua celebridade era 
tamanha já n'essa época da embaixada aoHidalcãoem 1512, 
quando apenas tinha escripto onze Autos, representados 
quasi todos a pedido da rainha D. Leonor, que a não po- 
demos explicar senão pela sua fama incomparável firmada 
por obras de ourivesaria ; em um documento de 1540, Bel- 



1 Comm. de ÁJoniO i' AlhuquerqM^ P. iii, cap. 5t, p. 44t; Ed. 157€* 



SI 4 QUB8T0B8 DB LITTBRATORA. 



\ 



cbíor Vicente è chamado também por aotonomasia o filha 
de Gil Vicente, e isto vinte dois annos antes de ser conbe* 
eido do publico como auctor das comedias e autos repre- 
sentados no paço. D'onde vinha esta reputação grandiosa 
senão de trabalhos conhecidos, que lhe asseguraram o pri- 
meiro logar na ourivesaria portugueza? 

Do Nobiliário de Cabedo parece inferir-se que o filho de 
Gil Vicente, citado nos Commentarios de Affonso de Albtiquer- 
qtte, se chamava também Gil Vicente, e que casara na fa- 
mília dos Almadas e Menezes. Aqui é que começa a ferie 
de erros do mannscripto de Cabedo ; chamavase o escrivão 
de Affonso de Albuquerque Martim Vicente, e morreu na 
iudia solteiro, como aflirma Alão de Moraes. Deu-se por- 
tanto aqui evidente confusão de Martim Vicente com Gfí 
Vicente de Almeida, e no próprio Alão de Moraes se con- 
funde com o próprio auctor dos Autos quando lhe dá por 
terceiro filho D. Valeria Borges. Peio Nobiliário de Cabedo, 
dieio de erros n'este ponto, é que podemos descobrir o 
modo como as duas genealogias se confundem, e como os 
factos históricos é que os esclarecem em bases positivas. 
Nos seus contraseusos, Cabedo de Vasconcellos chega a sup- 
pôr um segundo casamento de Gil Vicente, quando o poeta 
tinha um filho secretario de embaixada em 1512^ viuvando 
em 1527 na terrível peste á qual ailude dizeodo que lhe en- 
trara em casa, e dizendo em i531, na celebre carta escri- 
pta de Santarém a D. João ni, que está muito visinbo da 
morte I Seguindo a serie dos absurdos de Cabedo, como è 
que Jacome Carvalho do Canto, fallecido em 16:i3, podia 
ser chamado, como o repete Barbosa Machado na Biblio- 
íheca Lusitana, csobrinho de Gil Vicente, poeta cómico,» 
que havia fallecido depois de 1536? Por esta serie de er- 
ros dojs compiladores de genealogias, erros que facilmente 
se derrogam diante dos factos históricos que nos servem 
de base^ se vè como um neto do poeta, ^chamado Gil Vi- 
cente de Almeida, se converteu na entidade do fundador do 
theatro nacional e do primeiro génio da ourivesaria portu- 
gueza. Mas prosigamos. 

f />. Valeria Borges, mulher de D. António de Menezes, fi- 
lho de D. Luiz de Menezes.n Esta pretendida filha de Gil 
Vicente segundo Alão de Moraes e Cabedo de Vasconcellos, 
está deslocada nas genealogias; è n'esie facto que se veri-< 



B ARTB PORTUGUESA 215 



fica O ponto em qoe se debatem os absurdos dos linhagis- 
tas sem apoio histórico. Quaodo tratarmos dos filhos de 
Luiz Vicente ficará a verdade inteiramente restabelecida. 
Prosegue Alão de Moraes : 

3.® • Paula Vicente, que também compoz comedias e aju- 
dou ,muito a seu paa A existência historia d'esta filha 
acha-se provada no Alvará de privilegio passado a 3 de se- 
tembro de lS6i para a impressão das Obras de seu pae, 
e por elle se conhece, que era moça da camera da rainha 
D. Catharina mulher de D. João m. Por outros documen- 
tos sabe-se que tinha assentamento de tangedora no paço. 
A lenda sympathica de ajudar seu pae na composição dos 
Autos, sempre acompanhados de canto. a de árias france- 
zds e populares, acha-se aut^ienticada no Enthusiasmus poe- 
ticus do P. António dos Reis. 

4.^ Belchior Vicente. Na Pedatura lusitana de Alão de Mo- 
raes, .ignora-se a existência doeste filho de Gil Vicente. A 
sua existência authentica-se por diversos documentos. Em 
uma Petição de Garcia Fernandes a elrei D. João ni, para 
alcançar os privilégios que lhe haviam sido concedidos por 
D. Manoel no caso de acabar a obra do palácio da justiça 
de Lisboa, e de desposar a filha do fallecido pintor Fran- 
cisco Henriques, n'essa petição figura como testemunha— 
€Belchim' Vicente, fiUio de Gil Vicente, a quem Deus haja, 
moço da CapeUa do Rei nosso senhor. i^ * 

Nas Provas da Histotia genealógica, traz D. António Cae- 
tano de Sousa a lista do pessoal da Capella de D. Joãoni, 
e ai se encontra ^Belchior Vicente, filho de Gil Vicente,^ en- 
tre os Moços da capella '. Se Luiz Vicente era moço da ca- 
mará do príncipe D. João, Paula Vicente moça da camará 
da rainha D. Catherina, e Belchior Vicente m^ço da capella 
de el-rei D. João ni, vê-se que se conservava por seu pae 



1 Este documento apparece pela primeira Tez citado no livro de Raczynski, 
Im Arts en Portugal^ p. 21â. Vid. também Corpo chronologico, Part. iii, Maço 
16. Doe. 13, na Torro do Tombo. — Jaroúaeoha, que forneceu este documento 
a RaczjDfkí, diz em nota: «Ignoramoi se Btie é o nosso celebre cómico.» Era, 
com certeza, porque sendo o documento de 16 de abril de 1540, diz de Gil 
Vicente «a quem Deos o/a,» o que concorda com a data da soa morte depois 
de 1536, indicada por seu filbo Luiz Vicente. 

*iVoww>l. II, p. 783* 



216 que8tOb« de uttbratura 

Gii Vicente o profundo respeito que lhe dedicaram na corte 
de D. João 11 e D« Manoel, como Oca autbenticado nos do- 
cumentos que se referem ao ourives. A antonomásia o fi- 
lho de Gil Vicente não tem outra significação ; se elle com- 
pilou as suas Obras dramáticas foi para comprazer com D. 
Jo3o 111, e se Luiz Vicente as publicou no tempo de D. Se- 
bastião, foi pelo muito amor que a esses Autos tinha o prín- 
cipe D. Jo2o. 

A importância litteraria só veíu a prevalecer sobre a fama 
do ourives depois da sua morte, e quando os filhos rece- 
biam as honras de ofiicios do paço. 

Depois de termos autbenticado a existência histórica dos 
quatro filhos de Gil Vicente, vamos destrinçar a confusão 
genealógica de Alão de Moraes e de Cabedo de Vascòncel- 
los, comparando os dois. Diz Alão de Moraes^ acerca de 
Gil Vicente de Almeida, primogénito de Luiz Vicente : 

«Gí7 Vicente de Alnietda, fUho prinwgenito do sobredito: 
casou com D. Maria Tçívares, que havia sido mulher de Gas- 
par de Góes do Rego, de Barceílos, e era sua parenta, e fi- 
lha de... e tiveram: a D. Maria de Almeida, que casou com 
D. Luiz de Menezes sen primo segundo, e por sua morte se 
casou com um barbeiro. n 

No Nobiliário de Cabedo se diz, que Gil Vicente (confunde 
avô com o neto e chamavalhe do Canto, em vez de Almeida)» 
. casara em segundas núpcias com D. Maria Tavares, viuva 
de Gaspar de Góes Rego; doeste segundo casamento teve uma 
filha chamada D. Valeria Borges, que casou com D. António 
de Almeida e Menezes. ii 

Agora o confronto dos dois pontos errados na genealo- 
gia de Alão de Moraes e Cabedo: 

Alão de Moraes, fazendo D. Valeria Borges filha de Gil 
Viceale (poeta e ourives) corriga-se pelo manuscripto de 
Cabedo, que também cae no mesmo absurdo, mas deixando 
os meios de corrigir, pelo casamento de Gil Vicente de Al- 
meida com D. Maria Tavares, (accordo em Alão e Cabedo) 
que D. Valeria Borges é bisneta do poeta. No Nobiliário de 
Alão de Moraes, D. Maria Tavares, viuva de Gaspar de 
Góes do Rego, natural de Barcellos era parenta de Gil Vi- 
cente de Almeida; no Tratado panegyrico de Frei Pedro de 
Poyares, um Belchior de Góes do Rego, filho do primeiro 
matrimonio de D. Maria Tavares, é chamado neto ou bisneto 



B ARTE PORTUGUkZA 217 



de Gil Vicente (pelo^ padrasto). Isto vem-nos explicar nSo 
sò o motivo da confusão das genealogias, como a tradição 
vaga da naturalidade de Gil Vicente attríbuida a Barcellos. 

Alão de Moraes, diz que D. Valeria Borges casou com 
D. António de Menezes, filho de D. Luiz de Menezes. Cabedo 
repete também :.ca«oii com D. António de Alunada e Mene- 
zes. Agora a explicação e concordância do erro de Alão de 
Moraes acerca de D. Maria de Almeida. (Qlba do segundo 
casamento de D. Maria Tavares, evidentemente confundida 
com D. Valeria Borges); diz Alão de Moraes: cD. Maria de 
Almeida casou com D. Lttiz de Menezes, seu primo segundo, 
e por sua morte se casou com um barbeiro. 

Segundo Cabedo, D. Valeria Borges cenviuvando se ca- 
sou com um homem baixo.^ Isto demonstra a evidente con- 
fusão de Alão de Moraes, e ao mesmo tempo desjroe as 
seguintes affirmaçôes falsas: i.^ que Gil Vicente tivesse 
uma íilha chamada D. Valeria Borges (Alão); 2.^ que Gil 
Vicente, poeta e ourives, casasse segunda vez, (Cabedo^^e 
portanto que a sua familia proviesse dos Cantos de Guima- 
rães; 3.^ que a ser Jacome Carvalho do Canto, fallecido em 
1623, sobrinho de Gil Vicente, poeta cómico, como diz Barbo- 
sa, verifíca-se que a confusão veiu do século xvii, por iden- 
tificarem Gil Vicente de Almeida, neto do poeta, com o pró- 
prio poeta. 

Notadas as conciliações dos dados históricos, vemos que 
a Pedatura lusitana, de Alão de Moraes, erra menos do que 
o Nobiliário manuscripto de Cabedo; e em vista da nossa 
discussão, regeitamos a affirmação doeste ultimo, dando Gif 
Vicente como oriundo da familia dos Céantos, de Guimarães; 
porque não sé acha o nome de Gil Vicente com o apeilído 
do Canto inscripto nas moradias de D. Manoel nem de 
D. João ni, e seria inevitável se com elle condissesse essa 
Taga indicação ^hom poeta e mestre de rhetorica de D. Ma- 
fioel.i^ O titulo de mestre de rhetorica condiz com a grande 
estima em que era tido Gil Vicente ourives e poeta^ por- 
que doeste modo se cobria o que então havia de deslustre 
no exercício da arte scenica. E assim como apparece nas 
moradias de D. Jdão ni: Marcos Gily. filho de Gil Fernan- 
des Canto (Provas^, t. vi, p. 885), a omissão do nome de 
Gil Vicente seria inexplicável tendo na corte a proGssão da 
pedagogo. 



218 Q0ESTÕB8 DB LITTBRATURA 



O querer insistir sobre este errado elemento genealó- 
gico é uma obstinação doentia do cérebro, com o intuito 
de perverter os serenos resultados da critica e a conquista 
de mais uma verdade para a historia ^ 

Em uma follia volante do- século xvii encontramos uns 
Arrenegas do arraes da Barca do Inferno (imitação evidente 
dos Arrenegos de Gregório Affonso, do Cancioneiro de Re- 
sende) que tinham a rubrica «Por Gil Vicente de Lisboa* 
Pela época em que o Chiado pôs outra vez em moda o es- 
tylo dos Arrenegos nos Avisos para guardar, e por falta- 
rem esses versos no Auto da Barca do Inferno de Gil Vi- 
cente, podese inferir que esse Gil Vicente de Almeida, do 
ultimo quartel do século xvi, fosse também poeta cómico 
ou chistoso, e só assim é que se explica o ter por sobrinho 
Jacome Carvalho do Canto, fallecido em 1623. 



6.« Conclusões sobre a identidade de Gil Vicente 

Ourives e Poeta 



Não è uma simples curiosidade histórica o investigar se 
o auctor da maior das maravilhas da Arte moderna, a Cus- 
todia feita com o primeiro ouro recebido das páreas de 
Quiloa, egual no seu sentido aos Lusiadas de Camões, é ao 
mesmo tempo o auctor dos Autos, Farças e Tragicomedias 
com que, a começar de 1502, foi fundado o theatro portu- 
guez. Qualquer das formas das duas capacidades artísticas 



i Também oo Diário de Notidiu de 1874 appareceo esta noticia sem res- 
ponsabilidade: «Ha tempos se discute se o illaslre Gil Vicente foi ou nSo oo* 
rives antes de ser poeta e auctor dramático e se foi ou n&o fabricante da fa- 
iDOi^a Custodia dos Jeronymos. (Refere- se aqui ao nosso artigo nas Artes e 
Uttras.) O sr. Visconde de Joromeoha traia -de concluir uma memoria para pro* 
Tar que CU Vicente era mestre de Rketorua^ e que a Custodia dos Jerony- 
mos foi feita por outro Gil Vicente, ourives. Podemos acrescentar o que talvei 
não seja sabido, que no districio de Lisboa existe uma familia descendente em 
linha recta de Gil Vicente, a qual ainda possue um tombo dos bens que per- 
tenceram ao poeta, e nSo ba muitos annos estava de posse de uma quinta qoe 
foi d'elle. Esta família usa boje de appellidos que entraram na familia de Gil 
Vicente, poucos annos depois da. morte d 'este. — No tombo ainda se vé a assi- 
^ gnatura d'um filho ou neto de Gil Vicente, oSo nos occorre se filho on neto, 
chamado Gil Vicente de Almeida.» sr. visconde de Juromenha nada escre- 
veu; Té se por tanto d*a(iui, que se trata de um neto do poeta. 



S ARTE PORTUOUBZA 219 



revela am génio tão vasto, qae a suâ coexistência no mesmo 
espirito antes do ^er uma verdade histórica é uma conse-^ 
quencia lógica d*essa heterogenia psychologica que distiu- 
jgue as vocações absolutas. 

De todo o trabalho anterior conclue-se sem esforço que 
o fundador do theatro portuguez foi o mesmo Gil Vicente 
que deixou a obra inimitável e gigantesca que elevou á 
maior altura a nossa ourivesaria . no século xvi ; importa 
recapitular aqni os .resultados d'essa argumentação, desta- 
cando os factos nas suas numerosas coincidências: 

1-® Apparece Gil Vicente como poeta na corte da rainha 
D. Leonor em 1493, fazendo versos a pedido delia. (Fl. 
210, col. 5 do Canc, de Resende). N'esta mesma peça fi- 
gura outra vez com o nome de Mestre Gil. No testamento 
d'esta mesma rainha, em que se ciiam obras de ourivesa- 
ria de Gil Vicente, dà-se a um outro ourives o nome de 
Mestre João. 

2.** No Auto pastoril castelhano escripto por Gil Vicente 
a pedido da rainha D. Leonor, refere-se o poeta a ter vi- 
vido na corte de Dom João n. Em Ii82 era Gil Vicente 
escudeiro, e D. João u nomêa-o Porteiro dos Contos do 
Almoxarifado de Beja; isto coincide com a tradição genea- 
lógica de ter educado o duque ¥le Beja, como mestre de 
rbetorica, notando-se que o duque era irmão da rainha 
D. Leonor. Em 1485 recebe a doação regia de certos bens 
em Beja. 

3.** Esta importância extraordinária concedida ao ourives, 
reflecte-se lambem no poeta, como se vê pelos Commenta- 
rios de Affonso de Albuquerque, onde por antonomásia se no- 
mêa o filho de Gil Vicente, e na Petição de Garcia Fernan- 
des, bem como na lista do pessoal da capella dé D. João m. 

4.** Nos Autos de Gil Vicente figuram o ourives Diogo 
Fernandes, também poeta do Cancioneiro de Resende, Jorge 
de Vasconcellos, Afifbnso Valente, Garcia Moniz, que assi- 
gna o documento de 1513 em que Gil Vicente vem indicado 
como Ourives da Rainha D. Leonor, e André Pires, que as- 
signa o Alvará de Í509, em que outra vez se nomêa Gil 
Vicente como ourives da Rainha. 

5.® Em documento de 149 í é nomeado Gil Vicente Por- 
teiro dos Contos do Mestrado de Aviz em substituição de 
Affonso Alvares; sabe-se que Affonso Alvares também au- 



/. 



220 qubstObs m littibatura 

ctor de Autos hieráticos era considerado como rival de Gil 
Vicente. 

6.^ No Anto das Cartes de Júpiter, Gil Vicente chasqaêa 
a obesidade de Garcia de Resende, e o seu encyclopedismo; 
Resende na Miscellanea apoda Gil Vicente negando-lbe a ori- 
ginalidade da concepção dramática, e ao mesmo tempo fere 
o ourives dizendo que os ourives italianos s3o mais subtis 
e melhores. Vé-se aquj como o chronista satyrico atacava 
as diversas aptidões do mesmo individuo, porque não é na- 
tural que tivesse o mesmo resentimento contra um Gil Vi- 
cente ourives e contra um Gil Vicente poeta- O ódio de 
Garcia de Resende fez com que excluísse do seu Cancio- 
neiro geral varias composições (obras meudas) de Gil Vi- 
cente, que na edição de 1562 se colligiram alludindo a ou- 
tras que andavam no Cancioneiro portuguez. 

7.° Em documentos de 1509 e 1513 Gil Vicente é cha- 
mado Ourives da rainha D. Leonor, viuva de í). João ii; 
no íim do Mofwlogo do Vaqueiro traz Gil Vicente a nota pela 
qual se sabe que a rainha D. Leonor lhe pediu a repetição 
(l'aquelle Auto para as Matinas do Natal. A pedido da rai- 
nha e diante delia foram escriptos ou representados os Auto 
pastoril castelhano. Auto dos Beis Magos, Auto da SybUla 
Cassandra, Auto de S. Martinho, Auto dos Quatro tempos. 
Auto da Alma, Auto da Fama, e na dedicatória da tragico- 
medía de /). Duardos a D. João ni, repete que as suas com- 
posições de Autos, Farças e Moralidades foram escriptas 
em serviço da rainha sua tia. Vè-se por aqui que a rainha 
tinha um Ourives e um Poeta de nome Gil Vicente, ambos 
vultos extraordinários. Os documenlos históricos que sé re- 
ferem ao ourives limitam-se entre 1482 e 15^5, e as obras 
litterarias do poeta tém datas certas entre 1493 e 1536. 
Esta coincidência reduz o problema ás condições naturaes» 
identificando as duas aptidões no mesmo homem. 

8.* Tanto o poeta como o ourives são talentos encyclo- 
pedicos; Gil Vicente, era poeta; actor, como sabemos pelos 
versos latinos de André de Resende; compositor de mu- 
sica, como se sabe pelas rubricas dos seus Autos; com au- 
ctoridade em questões philologicas, cbmo vemos pelas Gram- 
maticas de Fernão de Oliveira e de João de Barros ; era 
um livre-pensador e luclava pela liberdade de consciência, 
como se vê pela Carta a D. João iii. A época em que ira- 



E ARTE PÒErrUOUEZA 3^1 



balha o Ourives è aquella em que o génio encyclopedíco 
distinguia também Leonardo de Vinci, Miguel Angelo, Ra* 
pliael. Gomo Lope de Rueda, ourives de Sevilha, que funda 
o theatro bespanhol, Gil Vicente ourives dá ás representa- 
ções populares a forma litteraria do Auto. 

9.* Os livros genealógicos dão Gil Vicente, poeta cómico, 
por filbo de Martim Vicente ourives de prata em Guima- 
rães; esta circumstancia tem um grande valor sobretudo 
em uma época em que havia a hereditariedade das proGs- 
sões. A Custodia dos Jeronymos, feita por Gil Vicente em 
4506 com o primeiro ouro de Quilôa, tem profundas analo- 
gias de estylo com o cálix da Collegiada da Oliveira de Gui- 
marães, dadiva do chantre Fernão Alves.— Nas composições 
de Gil Vicente, poeta, conservam-se na sua forma mais pura 
as serranilhas populares das províncias do norte de Portu- 
gal, a ponto de Frederico Diez fazer a comparação entre 
ellas e as Serranilhas gallezianas conservadas nos Cancio- 
neiros provençaes portuguezes. Aqui a tradição artística e 
a tradição poética do norte de Portugal identiGcam-se tam- 
bém no mesmo homem. 

10.** No tempo de Gil Vicente, era somente reconhecido 
o seu talento artístico de ourives, como se vê pela Farça 
de Inez Pereira contra os que lhes negavam o merecimento 
dos seus Autos, e pelas Comedias em prosa de Sá de Mi- 
randa ; com as leis sumptuárias de D. João iii o trabalho 
da ourivesaria portugueza decaiu. E sò depois da morte de 
Gil Vicente é que seus filhos, empregados no paço, deram 
relevo e fizeram prevalecer a reputação do pae como es- 
criptor. Nos Autos de Gil Vicente Fragoa de Amor, Farça 
dos Almocreves, Auto da Alma, Cortes de Júpiter e outros, 
descrevemse dé um modo bastante technico trabalhos de 
ourivesaria, o que de certo não provém de referencias ca- 
suaes. 

li.** As fontes genealógicas para o estudo de Gil Vicente 
são a Pedatura lusitana de Alão de Moraes, e o Nobiliário 
de Cabedo de Vasconcellos; a primeira, sobretudo, é mais 
preciosa pela sua despreoccupação de uma nobreza exclu- 
siva. Ambas estas fontes devem ser corrigidas com o con- 
fronto dos factos históricos; Alão de Moraes erra dando 
como filha de Gil Vicente D. Vakria Borges (que era sua 
bisneta), mas por este erro se vê conao Cabedo de Vascon- 



y 



222 QUESTÕES DB*LrrrEnÀTLllA 

t 

cellos confunde com Gil Vicente seu neto Gil Vicente de 
Alm**ida, pae de D. Valeria Borges. O nome de Almeida 
justifica a genealogia de ÂlSo, que dá o nome de Almeida 
á mulher de Gil Vicente. É possível que o neto do grande 
ourives e poeta, este Gil Vicente de Almeida fosse um ver- 
sejador do século XVI, que se aparentasse na família dos 
Cantor, e fosse lio do escriptor mystico Jacome Carvalho 
do Canto, fallecido em 16i3; mas o que se conclue para 
a sciencía é que sob este homonymo se tem querido sepa- 
rar a individualidade de Gil Vicente em um assombroso ou- 
rives e um fecundo e piítoresco poeta dramático. 



DOCUMENTOS 

I 

« 

Dom afon?o & fatPmos saber que conHando nos na bondade e descripçom 
lie gil oieem/e, moço de«iribeira do príncipe roeu sobre todos muito amaiio e 
preçado fiiho que o fará bem e como compre a noiíso serviço e quer«nd(flbe 
fazer graça e merçée teemo» por bem e damolio por nos.<o parteiro doi Contos 
do almoiarifado de beja, as^y e pella guisa que a etie deve ser e o ora luii 
{^oocalvas que o dito otBcio tyntia per nos<*a carta e se ora finou. £ porém 
mandamos aos veedores de nossa fazenda etc. com mantirpento, de dada em ss* 
tremoz a xib Joutubro. Kt Rei o mandou por gonçallo vaai de castel brauco 
& gonrallo do rego a fez ano i.vxb. 

(Arcbivo nac. Chanctsllaria de D. Affonto f , Lim. xxx, fl. 28. — ^Ap. Brito 
Rebello, Oocidentê, d.« 67.) 

II 

D. JoSo, etc* A quantos esta nossa Carta tirem, fazemos saber, quo ron* 
fiando nós na bondade e discriçom de GUI Vicente nosso criado e nosso Es''a' 
deiro, que o fará bem e como compre a nosso serviço, e querendo-ibe fazer 
graça e mercê, temus por bem e damol-o por nosso Porteiro dos Cootos do 
noss^o Almoxarifado de Beja, assi e pela guisa que o elle até qui fos^e |>or 
Carta dei Rei meu senbor e Padre, cuja alma Deos tem. e pordm oiandamos 
aos nossos Vedores da Fazenda e ao Co^itador da Comarca e a qoaesquer ou- 
tros offiriaes, e pessoas a quo o conhecimento d'esta pertencer e esta carta for 
mostrada que d*aqui em diante hajam o dito CU Vicente por Porteiro dos Con- 
tos e outro nenhum nom. e o leixem servir e usar o dito OlScio e haver eis 
todo o que a elte pertencer, e haver o mantimento, etc, em forma. Dada em 
Monte -Mor o Novo, ali dias do mez de Fevereiro. El Rei o mandou por Do» 
Pedro de Castro, do seu conselho, e Vedor de sua Fasead*. Pêro Bento a fei 
anno de 1182. 

ItV« de D. Ma II, vi, /l. li t. 



B AATB P0RTU6UKZA 223 



III 

Dom JoSo, etc. A qoaDtos esta nossa Carta tirem, fazemos saber qoe a nós 
disseram ora que... Anões, clérigo de missa já Gnado, morador em a villa de 
Beja, comprara em sua vida certos bens na dita Tifla e termo, sem para elio 
ter nossa licença, e bem assf^ao tempo de sua morte, lei tara certos bens k 
egreja de Sam Salvador da dita villa sem pêra elio ter outrossi nossa lioren- 
ca, per a qual rez2o se assi he como a dós disseram elle por bem das nosra.« 
Ordenações em tal caso feitas perde pêra nÓM os ditos bens, assi aqoelUs que 
mercou como aqoelles que leixou, e nós os podemos com direito dar a quem 
nossa mercê fôr; e ora querendo nós fazer graça e mercê a GUI Vicente nof so 
porteiro dos contos da dita comarca, temos, por fcem e fazemos-lbe mercê dos 
ditos bens quanto a nós de direito pertence, e com direito Oj dar podemos; e 
porém mandamos a todos os nossos Corregedores, Juizes, Justiças a que e»t<i 
nossa Carta for mostrada, e pessoas .a que o conhecimento pertencer, que 
sfieodo per ante elles citados e ouvidos os herdeiros que bi houverem, sãibam 
d*eIlo o certo, etc. em forma. Dada em Cintra a 20 dias de Septembro, ei Rei 
o mandou por Marfim Vaz de Casteilo Branco, e Vedor de sua fazenda. Ál- 
varo, Fernandes a fez, de mil quatrocentos e outeota e cinco.» 

lÁvro de D, João ii, V /l. 10 o. 



IV 

D. Jo&o, etc. Â quantos esta nossa carta virem, fazemos saber como Ami» 
nistrador e perpetuo governador que somos da Ordem e Cavalleria do Mestrado 
de Avis, que querendo fsizer graça O' mercê a Gitl Vicente, Porteiro que foi 
dos Contos de Beja, confiando d'elle que o fará bem, e como a no.^so sert ço 
cumpre, temos por bem e damol o por Porteiro dos nossos Conto.^ do dito Mes- 
trado de Avis, assi pela guisa que o até qui foi A/fonso Alvares que o dito OfB- 
cio tinha e o renunciou em nossas mãos per um instrumento de renuociaçclo, 
que perante nós apresentou, que parecia ser feito e assignado por Jorge An* 
nes, tabelliSo per nós em esta cidade d'Evora, aos %5 dias de Fevereiro do 
anoo presente de 1191, e per vertude de um nosso Alvará de licença que lhe 
dello demos. £ porém mandamos ao nosso Contador em o dito Mestrado e a 
qaaes ontros Offlciaes e pessoas, a que esta nossa Carta for mostrada, e o co- 
nhecimento pertencer, que o hajam por Porteiro dos ditos Contoç, e o leixem 
servir e usar do dito Offlcio, e haver os trcz mil trezentos e um reiís em cada 
om anno de seu mantimento; e ordenado, assi como o^ havia o diio Affonso 
Alvares, sem duvida nem embargOLqoe lhe a elle ponhaes, em maneira alguma 
que seja. O qual GUI Vicente jurou em a nossa Chancellaria etc. em forma. 
Dada e^m a nossa cidade de Évora, em o 1** dia de Março. El Rei o mandni, 
por D. Martinho do seu Conselho e Vedor de soa Fazenda. Rodrigo R beiro a 
fez, anoo de 1491, aonos. 

Itero IX de D, João ii, /l. 78. 

Alvará de Gil: Vicente Ourives, 

Nós El Rey, fazemos saber a quantos este nosso Alvará virem, que con- 
fiando DÓ8 do Gyl Vkente^ Oorivet da Senhora ftayoha minha irmH, e que 



224 qdbstObs de litteratura 



n'e8to nos lerrirâ assy h%m, e como o fai em todas as ootras coosas em qoe 
o encarregamos, por lhe fasermos graça e mercê, temoe por bem e o fazemos 
Vedor de Iodas as obras qoe mandamos faser ou se flxeram de ooro oa prata, 
para o oo»so CoBveoto de Tbomar, e Espritál de Todolos Santos da nossa Ci- 
dade de Li «boa, e Mosteiro de No»sa Senhora de Belém; queremos qoe iodas 
as obrss, qoe para as ditas casas se bouforem de fazer, ora seja por nosso 
ros lidado orá por as ditas casas o mandarem f^ier, se façam pelo dito Gil Vi» 
cente, oo por Offlciaes qoe elle para isso ordenar; e se as elle b$o quiíer fa- 
ser, e aqueUas q*ie por elle ou em soa casa não forem feitas elle as verá e 
examinará se f&o na perfeiçfto que devem e avaliará se comprir; e portanto, 
msniamos a D. Priol do dito Convento de Tbomar, e Provedor do dito E^pri- 
(ai, e Priol e Frades do dito Mosteiro de Bclem, qoe d'aqui em diante conhe- 
çam o dito Gil Vicente por Offlcial e Vedor das ditas obras e das ditas Casas, 
e lho dêem e façam dar toda a dita prata e ouro a lavrar quando for necessá- 
rio; e tudo façam com seu accordo e conselho, e assy mandamos aos OflSciaes 
outros qoe nas ditas Casas temos poftos, que o hajam assy por Official d*el- 
les, e o honrem e tratem como é resam, e em todo lhe cumpram este nosso 
Alvará como n'elle he contbeudo, o qual lhe mandamos dar por nós assigoado 
para ter por soa guarda e queremos qne valha como Carta passada por nossa 
Cbanceilaría, e as^ellada sem embargo de qoaesquer Leis e ordenações qoe hy 
haja em contrario. Foito em Évora, a quinto dias de Fevereiro. — André Pires 
o fez — de mil quinhentos e nove.» (Cartório do flospital de Sam José, oo Li- 
vro 1 do Registo geral, fl. 16 v. o 17.) 



VI 

Dom Manoel etc. A quantos esta nossa Carta virem fazemos saber que con- 
fiando nós da bondade e disquirição e fieldade de Gil Vicente ourives da rainha 
minha muito amada e prosada irmft, e querendo-lhe fazer graça e merco, te- 
mos por bem e o damos ora por Mestre da Balança da Moeda da cidade de 
Lisboa, assi e pela maneira qoe elle o deve ser e o atéqui foi Fernão Gil por 
cujo falecimento o dito officio vagou, com o qual queremos e nós pra^ que aja 
o mantimento, proes e precaiços a elle direitamenle ordenados como o su dito 
Fernão Gil havia e bem as«í todos os privelegios e liberdades que hão e de- 
vem daver os Mestres da dita Balança, o qual OQlcio terá e haverá asii até 
Miguel filho do dito Fernão Gil, ser em edade de vinte e cinco annos, por- 
que tanto que os houver ficará a Nós rei^guardado fazermos a elle ou a outra 
qualquer pessoa que nosso sfrviço mais seja mercê do dito Officio;' e porem 
mandamos a Grada MoniZy Thesoureíro da dita nossa moeda e quaesquer ou- 
tros Ofilcíaes ou pessoas a que pertencer, que o mela em posse do dito Offi- 
cio, e lho leixem servir e usar e haver o mantimento, proes e precaiços a elle 
direitamente ordenados assi como ós bavia o dito Fernão Gil e meíbor se os 
elle com direito melhor puder haver, o qual jurou em a nossa Chancellaria aos 
Santos Avangelhos, que bem e verdadeiramente sirva e use do dito OflScio, 
guardando a nós nosso serviço e ás parles seu direito; dada em Évora, a qua- 
tro dias de Fevereiro. Jordão Pires a fez, anno do miil e quinhentos e treze.» 

Liwo 42 de D, Manoel, fl. 20, o. (Torre do Tombe.) 



B ARTE PORTCGUEZA 225 



YII 

Dom mannell &. Â quantos esta nosa carta vyrem fazemos saber qae con- 
fyaodo nos da bondado e descryção e fyeldade de diogo roiz ourivez da Ifamte 
úoDíL Issabeli mynba mtt}lo amada o prezada filba, e qoerendo-ibe fazer graça 
e merco lemos por bem e o damos ora por mestre da balança da moeda desta 
nossa cidade' de Lisboa assy e petla maneira que o elle deve sser e o até qui 
foy Gil Vicente^ qae Ibo vendeu per nossa licença e o reauocion, segando delle 
fomos certo per bum publico estormento de reoonciaçam que parecya ser feyto 
e asyoado per pêro fernandez tabelliam na dita cidade aos trez dias deste mes 
dagosto com teslemunbas em elle nomeadas eai o qoall ofycyo queremos e nos 
praz qae aja o mantymento proes e precalços a eile dereylamente ordenados 
como 08 o dito Gil Vicente a?ya e bem asy todolos pryvylegios liberdades qae 
am e devem daver os mestres da dita balança o quall ofyçyo terá e a?era asy 
i^té mígell filbo de fernSo Gill ser de edade de vinte e cinquo annos porque 
tanto que os ouver fycará a nos resgoardado fazermos a elle ou a outra qual- 
quer pessoa que nosso serviço mais seja merçee do dito ofycyo. £ porem man- 
damos a Ruy leite tesoureyro da dita nosa moeda ou qualquer outro ofyciall 
ou pessoa que pertencer o meta em posse do dyto oficio (e em forma) dada em 
Lisboa a bj dias do mez dagosto mannell de moura a fez jb xby (1517) anos. 
Arcbivo Dac, Livro x de D. Manoel, fl. 71. Ap. Omdente^ n»^ 72). 



YIII 

Tenças que el-rei nosso sendor deo o anno de ixiiij: 
• A GUI Viçemie de tença xur.» (IS^OOO réis.) 
«A Gill Viçemie dacreeeniamento biij.* (8^000 réis.) 
(Do Livro das pessoas que tiveram tenças d'el-rei, fl. 111, e fl. 113. Ap. 
Brito Rebello.) 

IX 

Dom Joito etc. A quantos esta minba Carta virem faço saber que havendo 
eu respeito aos serviços que tenho recebidos de Gill Vicente, e aos que espétò 
ao diente receber d'eUe e querendo* Ibe fazer graça e mercê tenho por bèm e 
me praz que.eHe tenba e haja de mim de tença des o primeiro dia de Janeiro 
presente em diante em cada um anno trez moios de trigo no recebimento de 
um por cento, porém mando ao recebedor d*elle que do dito Janeiro em diante 
em cada um aooo dé e pague ao dito Gil Vicente os ditos trez moL»s de trigo 
e per o trellado d'osta que o escrivSo de seu cargo trelladari no livro de sua 
despeza e seu conhecimento mando que Ibe sejam levados em conta; e por fir- 
meza dello Ibe mandei dar esta per mim assinada e assellada do meu tello 
pendente. Dada em Évora a xix dias de Janeiro Álvaro Neto a fez; anno de 
Nosso Senhor Jesus Ghristo de mil v*xxv (15S5.) António da Fonseca a sub- 
screvi.» 

Liv, VIII de D. João iii, fl, 131. (ArcA. nmondl,) 



15 



t4.» REACÇÃO DO ESPIRITO NACIONAL. NO THE ATRO 

Na lucta de Gil Vicente para fundar o tbeatro nacional 
contra a corrente erudita da comedia terenciana, que en- 
trava em Portugal através das imitações dos humanistas de 
Itália, deparamos com um facto curioso e signiflcativo ; o 
poeta viu-se forçado a traduzir algumas das suas composi- 
ções para castelhano, porque restrictas as suas representa- 
ções aos serões do paço, era impossivel exercer influencia 
em um foco onde, desde o absolutismo pedagógico de Cle- 
nardo e André de Resende, a monomania erudita prepon- 
derava como uma distincçSo aristocrática. £ assim que os 
Autos das três Barcas, apresentam duas redacções, uma 
primitivamente em portuguez, da qual Barrera y Lairado 
dá noticia no Catalogo biographico y bibliographico dei Thea- 
tro antiguo espaflol, na folha volante : a Auto de Moralidade 
composto per Gil Vicente, per contemplação da sereníssima 
e muyto catholica Reynha Dona Lionor nossa senhora, e re- 
presentado per seu mandado a o poderoso prencipe alto 
Rey Don Manoel primeiro de Portugal d'este nome.» 

Pela edição feita por Luiz Vicente sabe-se que este Auto 
foi representado na camera da rainha, quando ella estava 
doente, pouco tempo antes de morrer, em 1517; as diffe- 
renças do título comparado com a da folha volante sem 
data, revelam-nos que os manuscriptos de Gil Vicente or- 
denados pelo filho para a impressão foram vagarosamente 
retocados pelo grande artista creador do Tbeatro portu- 
guez, e que a eliminação do titulo Auto de Moralidaie pro- 
veiu da necessidade de apagar os vestígios medievaes, dan- 
do-lbe a denominação erudita de Tragicamedia. De facto 
Wolf cita uma folha volante, in-4.*^, de vinte e quatro fo- 
lhas innumeradas e sem logar de impressão, que é a se- 
gunda redacção e traducção castelhana do. auto das Barcas; 



QUESTÕES DE LITTERATURA E ARTE P0RTI7GUEZÂ 227 

<eis O seu titulo: ^.Tragicomedia allegorica: Del Paraíso y dei 

Inferno (Gravara de madeira representando duas barcas; 

601 gravuras lateraes as figuras das pessoas seguintes com 

seas nomes: Hidalgo, Juan, Logrero, Ladrou, Alcahueta, 

Corregidor, Letrado,) moral representaçion dei diverso ca^ 

mino que hacen las almas d'esta presente vida, figurada 

por los dos navios que aqui parescen; el uno dei cielo, y 

€i otro dei infierno, cuya subtil invencion y matéria en el 

argumento de Ia obra se puede ver. Son interlocutores ...» 

No fim do texto, tra^ um trecho do Ecclesiastes, com duas 

estrophes abaixo, explicando o assumpto. Este exemplar è 

descripto por Fernando Wolf, como existindo em um tomo 

de comedias antigas hespanholas da Bibliotheca de Munich. 

Moraiin^ dá noticia de uma outra edição da Tragiconiedia 

allegorica dei Paraíso y dei Infiemo, «impressa en Burgos 

en casa de Juan de Junta, a veinte e cinco dias dei mez de 

enero, ano de i539.]^ Segundo Moratin, a tragicomedia é 

anonyma, mas em uma copia d*ella tirada de outra edição 

(provavelmente a edição sem data) vem a seguinte nota: 

<tCompusola en lengua portiigueza, y luego el mesmo auctor 

la traslado á la lengua de Castilla, aumentandola.^ A nota 

refere-se ao Áuio de Moralidad4i composto por Gil Vicente, 

e por tanto esclarece-nos a época em que o próprio auctor 

o traduziu para castelhano. 

Don Barlolomé José Gallardo, no Ensaio de una Biblio- 
theca de Libros raros ó curiosos (t. K col. 981 a 988) traz 
os angmentos que fez Gil Vicente na traducção castelhana, 
os quaes são totalmente desconhecidos na litleratura por- 
tugueza. Imporia vulgarisal-os para os estudos críticos doeste 
grande espirito encyclopedico da Renascença portugueza. 
A redacção castelhana do Auto de Moralidade ou àí^s Bar- 
cas, tem a mais do que o original portuguez: 
aj Um intróito, no qual se allude a Lisboa. 

b) Um Argumento, em que, cita todos os personagens 
que entram no Auto (os mesmos que apparecem na pri- 
meira redacção porttigueza.) 

c) Quatro quadras raoraes em endecasyllabos. 
Suppõe-se que Gil Vicente teria n'esle Auto imitado o 

celebre Dialogo de Mercúrio y Caroníe de Juan Valdez; 6 
certo que na historía da civilisação portugueza do século 
XVI, Gil Vicente teve uma acção análoga á de Valdez emi 



238 qubstOes db littbratura 



Hespanba, propagando os princípios de emancipação da 
consciência dos primeiros alvores da Reforma. £ talvez este 
lado commum que sugere a aproximação das duas compo- 
sições litterarias. Aproveitaremos também os excerptos das 
scenas castelhanas do Diabo com o Fidalgo, com o Logreiro 
(Onzeneiro), do Anjo com o Frade, da Alcaiota com o Dia- 
bo, e d'este com o Judeu. 

O Auto das Barcas funda-se em tradições medievaes, 
syippatbicas á índole popular de Gil Vicente; as barcas 
transportando os mortos para serem julgados acbam-se ci- 
tadas em uma lenda céltica conservada por Procopio, como 
notou Sismondi: «elle conta que as almas d'aquelles que 
morrem nas Gallias são transportadas cada noite para as 
margens da ilha da Bretanha, e entregues ás potencias in- 
fernaes pel<|^ barqueiros da Frisia ou da Batavia. Estes bar- 
queiros, diz elle, não vêem ninguém; mas por alta noite 
uma voz terrível os chama ao seu mysterioso ofBcio ; elles 
acham na praia bateis desconhecidos prestes a largar ; sen- 
tem o pezo das almas qué ali entram uma após outra, e 
que fazem descer á flor d'agua a borda do barco. Comtudo 
nada vêem elles. Chegados n*essa mesma noite ás praias 
da Bretanha, uma outra voz chama uma após uma todas as 
almas, e ellas desembarcam em silencio. » ^ Nos costumes 
populares do principio do século xiv, d'onde saiu a conce- 
pção da Divina Comedia de Dante, acha-se a figuração dra- 
mática da viagem para o inferno e paraíso; Yillani conta a 
terrível anedocta do mysterio representada no i .° de maio 
de 1304 sobre a ponte de Carraía, do burgo de San Priano, 
interrompido pelo desabamento da ponte, afogando-se no 
Amo milhares de espectadores. A parábola das Duas Bar- 
cas, ^ue el-rei D. Duarte traz no Lexil conselheiro y 6 uma 
deducção abstracta de um facto concreto dos costumes po- 
pulares, que receberam a sua definitiva forma líttefaria em 
Gil Vicente, que ainda allude á tradição céltica da Ilha per- 
dida. Eis os excerptos desconhecidos: 

INTRÓITO 

jMocho nora boena estesl 

{T aan tambien en tal yo Tengal * 

iQae salitaciOD tan lòaDga, 



1 Eis(<rirt dé la ehuU dt VEmpirt romain, 1. 1, p. tSS. 



B ARTB PORTUaUBZA 229 



TaD chapada y tan cortes! 

No qae mnchos ballaréA 

Presomidos, 

Qoe presumen d*embotIdos 

T aon DO dobran el gasnate. 

|MaIa rabia los rebate 

Tao tiestoB y tan ergoidos! 

Nosotros bieo comedidos 

Los pastores, 

May mejor qae los sefiores 

Cbapainos la re?erencia 

Huy bumilde et coo bemencia, 

Sin mirar eo mis primores 

Que los más y más mayores; 

Al fie, fin, 

Hasta el paslorico ruin 

Y el hidalgo mas cbapado 
Mas por obras eá jazgado, 
Qae por la babla gentil. 
Aanque yo juro á Sant Jil, 
Se qaijese 

Qae a todos os embotiese 
Á babrar y á chaozonetaB 
Do ai diabro esas burletas, 
E àuo á mi 8Í â ellos me diese; 
No soy bombre de interese 
De esoe fueros. 
No como oiros, qaé ronceros 
Por andarse lomiergoidos 
Mogolloneros perdidos 
De tras de los c^balleros, 

Y ai Gd son uno» groseros 
Como yo, 

Que juro â qoien me parió, 
Si mirais sin sonsooete, 
Por.beDcbir su caxquele 
Es todo cuanto babrol 

Y auDqoe digais si et qae do 
Se babeis de dar, 

Que ai fin, fin bade tragar. 
iGuay dei dia de la coeola 
Donde no terneis descueota 
Del tragar y dei bolgar? 
No os andeis tras escachar 
Tal devaneo, 

Pues que ^eís, y aan yo lo feo, 
Que es perder tiempo eo tal cosa 
Que es la cosa mas preciosa 
Que en el mando biy, seguo creo. 
No qaiero dar mas rodeo, 
Pues sentis 



230 questObs db LrrrRRATORA 



Mejor qM de mi lo oif. 

No mas pint^ eo etta albarda, 

Qae alia la paga se os goarda 

Del bíen ó mal qoe YÍfis; 

Ei 8i DO of arrtpentis 

De me escachar 

tMia fel yo os qoiere cootar 

No sé qoi que fi eo Lisboa, 

Qoe diceo qoe es cosa boa 

Segoo ta cornou hablar, 

Et qaiere sigoificar 

Eo coDcrusioo 

No se qoe Dategadoo 

Ed on lago rio o mar, 

T ai ti empo dei embarcar 

Hay mocba tribolacion; 

Escacbad coo aieocioo. 

▲ROXJIIBHTO 

Lo primero 

Eo el lago qde os prefiero 

Hay dos barcas de pasaje, 

Sa codíIdoo navegaje 

Moy Tcloce y moy ligero; 

Ed la Qoa ao diablo floro 

Es patroa. 

Ed Ia otra oo bay baldoo 

Q'«l arraéz es gracioso, 

Ud aogel moy glorioso 

De moy lioda perfecioo. 

Agosá pões 8ÍD pasioQ 

Los eidos, 

Que es o do destes oavies 

Dis qoe ai tíempo dei mocir 

Hábeis de fuerza de ir 

AoDqoe esteis muy faveridos. 

No emboceis pues los seo tidos 

Y Teres 

Ud idalgo portogoes 

Yeoir aqoesta pasaje 

Geiugrao rabe, silla e pajé, 

Qae de ferio reírés, 

Do loego cODOScerés 

Sa porGa, 

Sa moy leca faotasia, 

Adoodo qoereode o do 

Embarco seguo tí yo 

GoD Gareo e sa valia. 

Trás deste toma Ia Tia 

Ud Logrero, 

Qqa por el negro díoero 



B ARTE PORTUGUEZA 281 



Bii qoe el cíelo trae conprado, 

T ai fio qnedase embarcado 

Gamino dei caa serbero. 

Lnego va mi coupaoéro 

El bobo Joaa 

Qoe jaro por ean MillaD 

El Diabro coo eu poder; 

NoDca lo podo coger ( 

A la fio pofl el ee Tan, 

Has el ÀDgel sio afan 

Lo acojó; 

E.tra8 aqaeete Ilegó 

Una dama e fraycasqoete 

Con broquel e capasete 

Y e«pada que do falló; 
De Ia cual muy bien jugo 
Diestro io ella; 

£ danzó con Ia doacella 

Qoe fabe muy bien dansar 

Mncbo mas que de reear, 

Al fio se embarca con ella; . 

£1 fraile va coo qoerella 

Por la moza 

Púes la barca no se embota 

Con tal gente yo os profiero. 

Lnego viene um sapatero 

Qoe de presto se alboroza, 

Mas por mas que se retrosa 

£d renegar 

Al fin bacendo embarcar 

£o 60 barqoeta, 

Logo viene una alcabueta 

Muy corriendo a mas andar, 

Muy cargada a rebentar 

De hechizos, * 

De dos mil vírgos postizos, 

Titulo de sus coròzas, 

Bien Ilorada de las raozas 

E de ruGanes castizos. 

Un judio de los mestizos 

Viene luego 

Como qoien repica a fuego, 

Y a cuestas trae un cabron 
E tambíen nn ansaron, 

Diz que lo bade comer luego 

Al cual no le Tale ruegò 

Al embarcar, 

Que con su cabesear 

E su dar capirotadas, 

Por sus tristes negras badas 

Al infierno ya a parar. 



232 QUBSTÕBS DB LITTBRATURA 



•Loego Tiooe tio tardar 
Coo honor 

Un eefior corregidor. 
Coo noa vara lo la raaao 
Mas por más que viaoe ufano 
Allá vá coo disfavor.^ 
Trás este viene uo doctor 
O* licenciado 

De sus libros tan cargado, 
Que ai entrar eo el navio 
Por poço dará en el rio 
iTanto viene de hínchadol 
Todos estos han entrado 
Con Caron. 

£ tambien entra on ladroo 
E con ese bao levantado 
Las vellas de perdicion. 
E despoes, eo concrusion 
Los postreros 
Vienen cuatro caballeros 
Que fflorieron en Alleo 
Nuestra fe enialzando bien 
Como rouy nobles guerreros; 
Cantando moy placenteros 
A buen son 

Se allegan a áquel patron 
Del barco de Dios eterno, 
Los oiros van a! ioflerno 
Y aquestos a ealvacion. 
^Pareceos que es hobarron? 
?Quien lo ba contado? 
Paes joro a mi pecado 
Qud el que se adurraiese acà 
Que ai tiempo que vaya allá 
Quizá se baile burlndo. 
{Prega á Dios que mi pecado 
Ni el de nós 

No estos ben que vos et nos 
Yayamos á paraiso, 
E aquesto os doy por aviso, 
Por eso quedad coo Dios. 

[Entra el Diáblo y el barquero dei iniierno llamado Caron.) 

DiABLo: Qoien viniere embarcará. 
Que viene buentf maraa! 
Corre, companêro arrea 
Pon esa palanca allá, 
Esa p!ancba bien está 
Ponia en tierra, 
Mira se se desaferra 
Nanca te dsscuides tu, 



B ARTE P0RTU6UEZA 233 

^__ 



{Oh gracioso belcebul 

Bieo nos va en aqaesta guerra 

Para acá be de uoa perra. 

^A que esperas? 

£1 aocora ponia íuera 

Cata a Don Martin Ribera 

Goa sus faldas muy raslreras. 

H1DAL60: Di barqoero, i á quieo esperas 
Por tu Tida, 
£ Ia barca apercebida? 

Dublo: Mi siQor, a yós espera; 
£& ligera e graa velera 
£ ya estamos de partida 
K va a la isU perdida. 



Goalqoier pecador que el traoce postrero 
^ehsáre de muerte, pecar cesará 
Temiendo prímero, despues amará 
Al josto juez que es Dios verdadero. 

Voiverse ba de esclavo eo hijo beredero; 
Irá de virtod crecíendo en viriud; 
Despues deste siglo, á eterna quíetod 
Pasarlo ba eo su barca cl saocto barquero. 

Ribera este rio, crísiiano lector, 
V.os ratos que pierdes te ve a palear; 
Y mira en cual barca querras to passar 
Despues de la muerte que pone temor. 
. S) guardas viviendo la ley dei Seíior, 
Gon él á los cielos iras á reioar: 
Si no Io guardares ai triste lugar 
No quieras perder;e por breve dulzor. 

DiABLo: ;Via, embarcar 

Habiades ya tle Ilegar 

Amigo mio Logrero. 
LoGBEBo: ^Que dices de mi dínero? 
DiABLo: Si traes algo qtie emprestar. 
LoGBEBo: Déjate dese hablar 

^Do es la via? 
DiABLO: AI iufierno e su Yalia. 
LoGBERo: Do ai díablo^tal pasaje; 

No vo yo eo ese barcaje, 

Que esotro barco es mi guia. 

iQuien vioera eo esle da 
^ Descuídadol 

(Si no tuviera comprado 

£i cielo con mi dinerol 
DiABLO: (Oh que seso de logrerol 

^l)o bailaste ese mercado? 
Logrero: Dos reales de bueo grado 



234 quistObs di littbratura 



Ve coité, 

Que una bola tome 70 
Coando me qoise morir; 
Segoro poodo partir 
A la groria donde to. 
DiABLo: |To ro ro ro ro ro ro! 
{Mira qoe tipo! 
Cuareota aOot de eontino 
Son los que robô »tn coento, 
Y agora pone en descoeoto 
Una ochavilla de lino. 
(S08. embarca, hornecino! 
L06BIB0: ^Omo embarca? 

^No es dei Papa aqoe»ta marca? 
^No vale aqtii so conduta? 
QiABLo: Dejate de«a disputa, 

Que no tiene soelo esa arca; 
Tu pobre seto no abarca 
Tal cuêftioo. 
Mira necio bobarron 
^Parece te conveniente 
Quo andes tu á robar la gente 
Esperando e«e perdon? 
LooBBBo: Qoierome ir â aqoel patron 
Que alli está: 
Quiia que obedecerá 
La bola de roí pasaje. 
DiABLO: (Sus! Andad con mal viaje, 

Que no volvereis acá. 
LoGBBBo: iAh barquerol 
Aiijbl: ^Qoien va alIá? 
LooRBBo: Yo soy, bermano: 

Quiero daros en Ia mano 
Las letras de mi segoro. 
Aimbl: Desas letras no me coro 
Sino traes el pecbo sano. 
LooREBo: Pues mira, 00 hablo en vaoo 
A mi ver. 

^No quereis obedecer 
Lo que manda el santo Papa? 
Ahjel: Al que los pecados papa 
No le absuelve su poder 
Si te qoieres recoger • 
En mi navio, 
Yo te ruego sin desvio 
Díme to vida pasada. 
LooRBRo: Por entrar en tu morada 
Yo te Ia diré sin brio 
Nonca bice desvario; 
Yo gane 
Ocho coarto qoe dejé 



AHTB PORTUaUEZÁ 235 



Á mis bíjos 6 muger; 
Enferme antes de «yer 
Et nori no fté porquê, 
Mi anima no ordoné 
Por no poder; 
Mas dejelo a mi moger 
Un poder qae la ordeiiafOi 
E qoe lo que elia manda«e 
Se baga sin detener; 
Lo que mas pude hacer 
De arrebatada, 
Foe tomar esta craiada, 
Qne foe harto bueo aviso 
Para ir el Paraíso. 

Arjsl: No baras tu esa jornada. 

LoGBBao: ^Gomo? iqoel. ^oo vale oada? 

Ahjbl: Dos reales 

Qaedieste â los officiales.... 
Arjbl [ai FraUe.) Coando, padre, tos entrastes 

En relegion, 
Erades pobre ganon 
No teoiades ^é comer; 
Entrastes alii á mi ver 
Por comer de mogollon 
No foera mejor razon 
Trabajar, 

Qoe no bolgar e iMgar? 
Del afao de los coitados 
Andais gordos y aviciados, 
Lo demàs qoiero callar. 

Frailb: Si aqoeso me hade dafiar, 
Nadie qoeda 
Que no va por esa meda. . 

Ahjbl: El que asi es y aqui veroá, 
En mi barco no entrará.... 
Yibja: (klcahuetaj ai Diablo barquero) 

^Pasas tambien las mujeres? 

Dublo: Todo cabe en Ia barcada. 
^Gómo vieoes tan cargada? 

yiBJA: ^Para qoe saberlo quieres? 
Estos soo mis menesteres 
E mi oficio; 
Tengolo por ejercicio 
Todas son estas cosillas 
Aparejos de fornício 
E de placares é vicio. 
Á la gente 

Traígo agora aqui ai presente 
Cinco mil virgos p'08tizos, 
E sin numero de hechizos. 
Foé muy sábio y elocoeole 



236 QUESTÕES DE LITTERATURA 



Mi penooa, 

Qaíerenme los de corona 

Porque les pongo remédio. 

Dublo: Pala vieja, ojoe de mook. 

Yibja: Poefl V>tra virtod me abona 
May boorada, 

Que aunqoe be tido eneorosa 
Y azotada cinco vecei, 
El tído que tiene heces 
No 08 dará por etlo nada. 
Paes la semana pasada 
A mi Ter, 

Le yendi yo á on bachillor 
Una moza por doncella: 
Más babian entrado en ella 
Qae en Salamanca á aprender. 
Destas cosas sé bacer 
Moy sin cuento, 
De toda suerte de onguento 
Para sanar criaturas 
Afeites de mil becburas: 
Por ganar todo lo intento; 
Soy mujer que me contento 
Gon qoiquiera; 
No como mi compafiera 
£ otras mucbas en Sevilla 
No modarán su 8er#)la 
Si Itrs dan paga Ugera. 
No bay otra de mi manerà 
Tan bonrada, 
Si no (ue la Maldonada 
(À la' coal pordone Dios) 
Que segun creemos nós 
Elia foé martirisada. 

Dublo: Alli está canonizada 

Yibja: |En boena íél 

Dublo: Y por cierto la passe 
En aqoesto mi navio. 

Yibja: ^ Aon de está el amor mio 
(Aí que amigos mios (ue! 



Jumo: lAb marinerol 

Paseme por mi dinero, 

Que qoiero ir á ver á Dios. 
Dublo: Ese Dios; mi fél so yo, 

Que ba mocbo que aqui te espero. 
Judio: ?Y el Dios tiene ese garguero 

Denegrido? 
Dublo: Entra ya barbi-bacído.-' 

Pêro no entre acá el cabron. 

(Que llevaba el Judio) 



E ARTE P0RTU6UEZA 237 



Judio: Barqoero, toma no tostoo: 
Por amor dei Dió oa pido. 

 transcripçSo foi loDga» mas era indispensável restituir 
á litteratura portugueza este documento desconhecido de 
uma segunda redacção dada por Gil Vicente ao Auto das 
Barcas. Muitos outros trabalhos de Gil Vicente se perde- 
ram, e pelo Catalogo de Barrera y Leirado sabemos de uma 
outra composição sua, o Auto da Donzella da Torre ou do 
Fidalgo portuguez. O facto da Iraducção dos Autos portu- 
guezes para castelhano pelo próprio Gil Vicente revela-nos 
uma circumstancia característica da historia do nosso thea- 
tro nacional; a intolerância religiosa ia transformando os 
costumes pelo fanatismo, e aquellesque escreviam para o 
theatro tinham de ir procurar para a vulgarísação dos seas 
pensamentos uma lingua e um publico para quem a tradi- 
çao hierática medieval se harmonisava com a forma dramá- 
tica. Effectivanlente, á medida que a nacionalidade portu- 
gueza caia no obscurantismo, e o ascetismo monsichal atro-^ 
phiava as relações sociaes, os poetas dramáticos escreviam 
em castelhano; os Autos de Simão Machado, de Francisco 
Rodrigues Lobo são um exemplo^ e a força creadora de um 
Jacintho Cordeiro, João de Mattos Fragoáo, António Hen- 
riques Gomes, Manoel Freire de Andrade e de outros foi 
engrossar a corrente inexgotavel da grande época do thea- 
tro bespanhol no século xvii. 



o CANCIONEIRO DE ÉVORA 



;A publicação deste códice mannscripto da Bibliolheca de 
Évora * é uma consequência do interesse que sempre estão 
merecendo aos estrangeiros os monumentos portuguezes, 
tão descurados pelos nacionaes. Não se procura estudar o 
nosso passado histórico, porque é mais fácil abrir cami- 
nho pela corrupção politica ; os que reconhecem a impor- 
tância d'estes estudos e que participam do poder, empre- 
gam todo o seu esforço em nada produzir de util, e a Aca- 
demia espera que os sábios estrangeiros nos restituam 
pelo seu desinteresse scientifico estes monumentos que a 
nossa negligencia vae deixando perder se. Um eminente 
philologo italiano restituiu pela imprensa á litteratura e á 
historia de Portugal, o Cancioneiro Poriuguez da Biblio- 
theca do Vaticano, e o Cancioneiro de Colocci, o illustre 
Monaci, de quem nos occupámos anteriormente. O mesmo 
sentimento inspirou o sr. Hardung, allemão que viajava em 
Portugal, a prestar-nos o serviço da publicação do Caricio- 
neiro de Évora, Quando tirará a nossa negligencia publica, 
dos livreiros, das academias, dos gQvernos, a lição que es- 
tes factos encerram? 

O dr. Victor Eugénio Hardung, que durante três annos via- 
jou n'este paiz com o intuito de estudar os costumes, a lingua 
e a litteratura portugueza a fim de se dedicar ao magisté- 
rio rra sua pátria, natural de Dusseldorf sobre o Rheno, 



1 o Cancioneiío d^Ecora, poblié d^après le Manoscript original, et acoropa- 
gné (Tune notice liUeraire bistorique, par Victor EuaáKB HABDune. Lisboa, Im- 
prensa Nacional, 1875. 1 folb. ia-S.» gr. de 77 pag. 



QUESTÕES DE LITTBRATURA E ARTE POHTUGUEZA 239 

eoDtaya então vinte e oito annos de edade; Dusseldorf 
já deu duas rainhas a Portugal, a mulher de D. José e a 
de D. Pedro v, circumstancia que explica em parte o inte- 
resse que provocou ao joven litterato o nosso paiz. O dr. 
Hardung formou-se em philosopbia em i868 na academia 
de Munsler, e em litteratura em Bonn, onde foi discípulo 
de Frederic Diez e de Svbel em Historia, em 1871. Ter- 
minados os estudos, veiu completar os seus conhecimen- 
tos pelas viagens, visitando as bíbliotliecas e os archivos 
da Bélgica, onde fez notáveis descobertas de textos de 
francez antigo e de flamengo, publicando em 1872 em Mu- 
nich os seus resultados em dissertação inaugural sobre A 
Feitoria hanseatica na cidade de Bruges. Depois de ter vi- 
sitado Londres, dirigiu-se a Portugal em 1872, percorrendo 
todas as provindas com o fim de estudar a língua portUv 
gueza; na bibliotheca de Évora copiou o notável Cancio* 
neiro manuscripto do século xvi, que imprimiu na Imprensa 
nacional. Tendo percorrido também as províncias do norte 
de Hespanha, possuía todos os elementos para saber obser- 
var os nossos costumes, o que legitima o interesse que os 
seus artigos causaram a ponto de serem logo traduzi- 
dos em hollandez*. Esse artigos intitniam-se: Allemaiihaem 
Portugal; Portugal na AUemanha; O paiz; A gente; Uma 
tourada portugueza; O primeiro de Maio nos costumes por^ 
tuguezes. O dr. Hardung falleceu no Porto era 1878, tendo 
no anno anterior publicado em Leipzic a colíecção dos nos- 
sos Romanceiros. 

^ O Cancioneiro de Évora pertence á segunda melade do 
século XVI, e representa na nossa historia litteraria a reac- 
ção da poesia da eschola hespanhola,/>u do vérso de re- 
dondilha, contra a eschola italiana, ou do verso endecasyl- 
labo; nos costumes palacianos, essencialmente conservado- 
resi é que a chamada eschola da medida velha se conser- 
vou mais tempo, e poetas do alto valor de Camões, para 
comí)razerem com os costumes do paço tiveram de glosar 
motes de redondilhas e cantigas velhas. N'esta parte o 
Cancioneiro de Évora é precioso, porque encerra muitas 
composições que yeram hoje desconhecidas, e d'onde Gamões 
lirou bastantes Motes. O digno editor d'este Cancioneiro 
comprehendeu muito bem que o seu estudo litterario de- 
via consistir principalmente sobre a área dos Cancioneiros 



240 QUESTÕES DB LITTERATDRA 

portuguezes, para assim determÍDar a corrente a qae esta 
pertence. Depois de uma longa enumeração, do mais viva 
interesse, comprehende se esta sua afSrmaçSo: cEn Portu- 
gal ces recueils de poésies, appelés Cancioneiros, sont plus 
nombreux que cbéz aueune auire nation, et possedent una 
importance fondamentale ponr Ihisloire littèraire de ce 
pays.» (Pag. 3). O fazer collecçôes poéticas, e o possuir 
Cancioneiros de mão era um costume portuguez, tanto da 
aristocracia como da classe media ; Jorge Ferreira de Vas- 
concellos e Gil Vicente ridiculisaram esse costume, mas è 
justamente no século xvi que a monomania se torna mais 
acirrada. O príncipe D. João, fiibo herdeiro de D. João iir^ 
empregava todo o seu alto poder em colligir os versos dos 
principaes poetas quinhentistas, mandando pedir a Sá de 
Miranda as suas obras, e mandando a Évora Luiz Vicente,, 
seu moço da escrevaninha, copiar as* composições de Fer- 
não da Silveira. 

Quando nos lembramos que as obras dos quinhentistas 
ficaram inéditas atè ao fim do século xvi e que a melhor 
« parte 'd^ellas se perdeu, bem dizemos essa monomania dos 
Cancioneiros manuscriptos, porque por elles se conserva- 
ram muitos inéditos de Camões, e se pôde avaliar a acti- 
vidade litteraria d'essa época em que a lingua acabava de 
constituir a sua grammatica. 

Desde muito tempo que era conbecií^a a existência do 
Cancioneiro de Évora, mas ninguém o havia estudado; por 
outro lado um estúpido regulamento da bibliotheca de Évora 
prohíbe o tirar-se copias dos manuscriptos, aó contrario do 
que é racional e de costume nas mais opulentas bibliotbe*^ 
cas da Europa, onde se considera a publicação dos manu- 
scriptos como uma salvação do monumento. 

Da impossibilidade do estudo do Cancioneiro de Évora e 
apenas por algumas vagas descripções se formou o errado 
juizo de que esse manuscrípto era formado de composições 
do século XV ; o sr. Hardung, como nós também, labo* 
rara n'esse erro. Finalmente pelo estudo directo do Candor 
neira se fixa a data da colleccionaçao; a primeira peça fr 
uma Trova do Conde de Vimioso^ eslando em Belém enfada^ 
do do tempo e das cousas dcdle; este conde è o segunda 
d'este titulo, que não quiz reconhecer o governo de Pbi* 
lippe II. 



B ARTE PORTUGUEZA 341 



O n.° 2 é uma trova de André Soares, que fora Vedor 
da Fazenda de D. João iii, e dirigida ao Secretario, Dome 
por que apparece conhecido Pedro da Costa Perestrello, se- 
cretario do Archiduque Alberto, que governava Portugal 
por Philippe ii. O n.° 3 refere-se na rubrica á vinda da 
princeza de Castella, que foi em 1552, quando D. Joanna ca- 
sou com o príncipe herdeiro. Os n.°' 4 e 5 alludem d Rainha, 
nome por que era mais conhecida D. Catherina, mulher de 
D. João III, por causa da sua longa regência; finalmente, 
o n.° 56 é uma homília elegíaca de Jorge da Silva, piedoso 
conselheiro de D. Sebastião, que morreu com elle em Al- 
cácer Quíbir em i578; e o n.^ 71 traz o mole do Capitão 
Bernaldim Ribeiro Pacheco, que ainda vivia em 1598. 

Estas referencias fixam cabalmente a época do Cancio- 
neiro, que está de accordo com o gosto litterario da cha- 
mada eschola da medida velha, e provam-nos que essas 
composições eram as mais queridas na vida e seroes pa- 
lacianos.^ Em geral essas composições são escriptas em cas- 
telhano, o que prova maiç o gosío do paço, e não apresen- 
tam grande merecimento artístico; comtudo, o facto de con- 
terem muitos versos que se acham glosados nas Redondi- 
lhas de Camões, sendo até hoje ignoradas essas canções, vem 
fazer com que se esclareça mais o meio litterarío em que 
se inspirou e desenvojveu o espirito de Camões. O primeiro 
Mote, que achamos no Cancioneiro, e glosado ndiS Redotidi- 
lhas de Camões, é : 

Se me levam aguas 

Not olhos as levo. i 

{Red., p. 89. Ed. da Actualidade.) 

Acha-se na Cantiga 17 do Cancioneiro, que transcrevemos 
por ser lindíssima: 

Partir nSo me atrevo 
qae me lembram maguas; 
se me levam aguas 
DOB olhos as levo. 

■ 

Se Tou ao Tejo * 

para me partir, 
não me posso^ ir * . 
sem. ver meu desejo. 

16 



242 QUESTÕES DE LITTERATURA 



E quando o fejo, 
partir não me atrtfo, 
te me lefam agua* 
DOS olhos as lefo. 

N3o é perfeitamente camoniaDa esta cantiga ? Não haverá 
InconveDienle em attribuil-a ao próprio poeta que a glo- 
sou, porque n*este mesmo Cancioneiro vem aDonymamenie 
yarios Sonetos de Camões, como abaixo explicaremos. 

O n.^ 18 do Cancioneiro (f Évora traz outra cantiga taai- 
bem glosada nas Redondilhas de Gamões : 

Foi-se ffaitando a esperança, 
fui eoteodendo ot eoganos, 
do mal ficaram-me os danos, 
e do bem só a lembrança. 

(Red., p. 178. Ed. da Adual) 

As palavras que ficam grifadas são variantes da lição ca- 
moniana. A segunda strophe d*esta cantiga 18 não estava 
bem escripta segundo a forma, e deve cortar-se assim : 

Tslo me fica da vida 
perdida servindo a qiiem, 
em logar de me dar nem 
me dá morte conhecida. 

O sr. Hardung preferiu seguir fielmente o ms., que traz as- 
sim o primeiro verso: «Ysto me fica da vida perdida.» Incli- 
namo-nos a crer que n'este Cancioneiro se encontram Redon- 
dilhas de Camões, principalmente aquellas composições que 
tem versos glosados, porque todas as vezes que o Mote itâo 
é composição sua, elle escreve Mote alheio; assim no n.^ 
21, que é uma espécie de Yillancico em castelhano e por- 
tuguez, traz os seguintes versos, que se acham nas Re- 
dondilhas de Camões: 

MOTE ALBIIO 

Já oSo posso ser contente 
Tenho a esperança perdida; 
Ando perdido entre a gente, 
Nem morro, nem tenho vida. 

(AmI., p. 55. Ed. da Actual.) 

No n.** 32, strophe quarta, acham-se os versos d'onde 
Camões tirou outro mote: 



E ARTE POnTUGUEZA, C43 



El remédio que me die>te 
de olvidar y aborrecer, . . 

Parece que andavam em aphorismo na côrte estes ver- 
sos, porque nas fíedondilhas inéditas dos Ms. da Bibliotbeca 
das Necessidades, vê-se que Camões foi consultado para os 
explicar: 

' Intendimento a ette verso: \ 

Olvide f atorrescy. 

[Red., p. ââ9. Ed. da Actual) 

O n.** 80 traz a cantiga castelhana que começa cora o 
verso: «Menina de los ojos verdes», e em Camões (Redond., 
p. 91, ed. da Aciualid.) com o titulo de Mote alheio. 

Finalmente, no n.® G2 vem um Cantar castelhano, do 
qual a primeira strophe se acha glosada por Camões nas 
redondilhas manuscriptas da Livraria das Necessidades : 

(Redond.y p. 183 ed. da Actual) 

» 

Afttera, con^ejos vanos 

que despertais mi doior. 

DO me tuequem vuestras maoos, 

que los consejos de amor 

los que matan soo los sanos. 

-Vejamos agora os Sonetos de Camões ali colligidos. 

O n." 63 do Cancioneiro d^Evora é um Soneto que 
desde 1595 anda nas Rythmas de Camões; confrontado com 
a lição de Seropita vê-se, que nos dois quartetos segue a;s 
variantes do manuscripto de Luiz Franco, mas os^dois ler- 
ceios são totalmente diversos, e d'aqui a importância doesta 
lição, mais aíTastada ainda da de Faria e Sousa: 



Quando da bella vista e doce riso 
tomando estilo meus olhos mantimento 
tam enlevado sinto o pensamento > 
Que me faz ver oa terra o paraizo. 



1 Tfio elevado sinto o pcosameoto. Ed. Faria e Soasa. 



344 QUESTÕES DE LITTERATURA 

Tanto da vida bamaaa estoa dÍTUo ^ 
qae todo ai me parece qae é veoto, ' 
6 em caso tal, segundo. tento ' 
aêiás de pooco faz qnem perde o f iso. * 

Quii Bens da gente ser glorificado ^ 
mostrando em yós o qae n'elle mora, 
pêra serdes exemplo aolre as bellas. 

Em Tós seu gram poder oos é mostrado, 
em TÓS se vé que quem tos fei, senhora, 
pouco lhe foi fazer sol, lua, estreitas. 

« 

Pelo confronto das quatro variantes fundamentaes doeste 
Soneto póde-se concluir da existpncia de quatro manascri- 
pios differentes. Será o Cancioneiro de Évora o fragmeDto 
d'esse inanuscrip^ copiado em Évora por Francisco Alva- 
res sobre a collecção de Godinho, de 1562? fVid. ed. de 
Hardung, Intr. p. 7, n.*^ 10). N*este Cancioneiro encon- 
tram-se outros Sonetos de Camões não assignados. 

Eis outro soneto sob n.^ 66 com variantes fundamentaes 
da lição de D. António Alvares da Cunha : 



t Tanlo do bem humano estou diviso. Ib. 

2 Que qualquer outro bem julgo por vento. Ib. 

3 Aisi, que em termo tal, segundo sento. Ib. 
Assi que em caso lai fegundo sento. Ed. 1595. 

Certo que em passo tal, segundo sento. Ms. de Luiz Franco. 
* Pouco vem a fazer quem perde o siso. Ed. Faria e Soufa. 
& Em loutar-vost senhora, não me fundo; 

Porque quem vossas graças claro sente, 

Sentirá que não pôde conhecel-as. 

Pois de tanta extranheza sois ao mundo 
Que não é de extranhar, dama excellente^ 
Que quem tos fez fizetse ceu e estreitas. 

Ed. Faria e Sousa. 

Quiz a natureza da gente ser louvada, 

E poz em vós tudo que n*ella mora 

Para serdes exemplo entre as bellus. > 

Em vós nos é sua industria declarada. 
Em TÓS se vô que quem vcs té, senhora. 
Pouco é ter o sol e as estrellas. 

Ms. de Luiz Franco. 



E ARTE PORTUGUEZA 245 



D*amor escrafo, d*amor trato e tívo, 
d*anior me nfaca amar sam ser amado, 
d'amor padeço lembrança d^irm cuidado 
de qoem o mesmo amor me fac cativo. 

D^amor perfeito, justOf brando, altivo 
d*amorleaI, d'amor, desenganado, 
d'amor que pôde tanto em todo estado 
me Tem padecer em bum amor esquivo. 

Desamor é quem fas tanta mudança 
que amor sempre costuma ser constante 
nas parles que pretende a fé que trata. 

Aqui nada aproveita, que esperança 
se em parte dá prazer ao triste amante, 
nas mais Ibe dá pezar e ao longe mata. 

A lição de D. António Alvares da Cunha, de Í66S, é quasi 
totalmente differente: 

D*amor escrevo, de amor trato e vivo; 
De amor me nasce amnr sem ser amado; 
De tuAo se descuida o meu cuidado 
Quanto não seja ser d^amor cativo. 

• 

De amor que a lagar alto tôe altivo 

E funde o gloria sua em ser amado, 

Que se veja melhor purijicado 

No immenso resplandor de hum raio esquivo. 

Mas ai que tanto amor sô pena alcança! 

Mais constante ella^ e ellê mais constante. 

De seu triumpho cada qual só trata, * 

Nada emfim me aproveita; que a espera nta 
Se anima alguma vez a um triste amante 
Ao perto vivifica^ ao longe mata. 

N'este Cancioneiro de Évora encontram-se mais três So- 
netos, também anonymos, como os dois acima transcriptos» 
que se não acham nos vários corpos das Rimas de Gamões, 
mas tem o sabor idealista da sua escbola; são os que come- 
çam: O suefio dulce trega ai pensamento (n.® 38); Em tão 
senhora minha trabalhões (n.° 39); e Já inclinava o sol dei- 
xando a terra, (n.^ 64) os quaes sem grande escrúpulo lit- 
terario, poderiam ser incorporados enlre os Sonetos do 



246 QUESTÕES DE LITTERATURA 

poeta, o sr. HarduDg teve a feliz lembrança de procurar 
nas Rimas de Gamões algumas redondilbas qae serviam de 
motes, mas esqueceu-lhe o tentar o mesmo trabalho para 
os Sonetos. O Cancioneiro de Évora não encerra nenhum 
grande poeta, nem composição alguma distinctai mas esta 
relação intima com as obras de Camões é que lhe desco- 
bre a sua verdadeira importância, e que o torna indispen- 
sável para o estudo da litteratura portugueza quinhentista. 
É pena que a publicação do ms. de Évora se não fizesse 
integral, apesar de conter as poesias castelhanas de D. Dio- 
go de Mendonça, porque nunca nenhum editor poderá pre- 
ver os intuitos d^aquelles que estudam. 

Os n."* 72, 73, 74 e 75 encerram quatro romances ve- 
lhos, escriptos em um castelhano, que era popular em Poiv 
tugal, no século xyi em algumas províncias da fronteira; 
são talvez as peças mais preciosas do Cancioneiro. O pri- 
meiro doestes Romances, que começa: Muerto jaçe Duran- 
darte, tem todos os característicos da tradição popular, le- 
vemente modificada pela imitação culta do principio do sé- 
culo XVI ; e a prova está em que o primeiro verso se tor- 
nou aphoristico, e por isso imitado no romance anonymo 
Muerto yace el-rey Don Sancho, e por Sepúlveda, no ro- 
mance Muerto yace esse buen Cíd, ò segundo Romance per- 
tence ao género mourisco, e nas collecções castelhaiias en- 
cont;a-se com o titulo de Romance de Álietar; confrontado 
com as lições castelhanas, vê-se que este do Cancioneiro 
de Évora é da mais alta importância, por ser tradicional; 
confrontemos os primeiros versos: 

De Granada^ se parto el moro 
qoe Alacar se liaDiava, 
primo ermano de Albaialdos 
el qoe ai Mestre matara. 

(Canc, de Évora, n.» 73) 

De Granada sale el Moro 
Que Aiiatar era llamado, 
Primo bermaDO dei valienle 
Y muy esforçado Albaidos. 

(OcbôaJ lesQTO de Rom. p. 367.) ' 

O confronto da lição de Évora com a hespanhola leva a 
concluir, que o género litlerario dos romances granadinos 






B ARTB PORTUOUBZA 



247 



teve também uma origem popular. O terceiro romauce do 
cyclo de Bernardo dei Garpio, não se eucontra nas collec- 
çôes castelhanas. O quarto romance é também tradicional 
e bastante análogo ao que nas collecçôes castelhanas se in- 
titula El Infante vengadôr, e começa: «Helo, helo por do 
viene.» 

Mostrando por este modo a importância da publicação 
do sr. Hardung, e indicando as partes que mais provocam 
o estudo do Cancioneiro de Évora, cumpre-nos louvar a 
direcção da Imprensa Nacional por ter tomado a iniciativa 
(ia edição; seria bem para desejar que aquella casa pro- 
vasse que não é uma ofQcina meramente industrial com 
que o estado faz concorrência ao trabalho particular, mas 
sim uma eschola em que a arte encontra o exemplo das 
mais recentes applicações das sciencias no campo da typo* 
graphia, e a litteratura a coadjuvação espontânea para se 
salvarem os ricos monumentos da lingua portugueza. 



RSIVINDIGA0O DO PALMEIRIM DE INGUTERRA 



Depois da tSo disputada novelia portugueza do Amadis 
de Gaula, que os hespanhoes reclamam para si pelo facto 
material de um texto secundário de uma paraphrase rhetch 
rica, a originalidade portugueza do Palmeirim de Inglater- 
ra, de Francisco de Moraes, também começou a ser-oos 
pleiteada desde que em 18á8 o livreiro bespanhol Salva 
achou um texto castelhano publicado em Toledo em 1547, 
vinte annos antes da primeira edição portugueza de Évora. 

O texto castelhano trazia uma dedicatória do livreiro Mi- 
guel Ferrer, na qual se dá por auctor da novelia poriu- 
gueza« e seguem-se-lhe quatro oita>*as, sob o titulo El au- 
tor ai lector, nas quaes modernamente se veiu a descobrir 
este acróstico traiçoeiro: Luyz Hurtaio, autor, allectorda 
salud. Salva e D. Pascoal de Gayangos procuraram conci- 
liar esta contradicçâo dos dois auctores, iim que se attri- 
buia a novelia com. redundâncias de um estylo sem lógica, 
e outro que se encapotava em um acróstico capcioso que 
só no principio doeste século foi descoberto. Mas este facto 
minava a força moral da prioridade da novelia castelhana, 
e portanto a edição do Palmeirim de Inglaterra feita em 
Évora em 1567 por Francisco de Moraes devia forçosa- 
mente ter sido precedida por uma primeira anterior à ver- 
são de Toledo de 1547. Tal era a base da questão sobre 
que devia assentar a critica ; o maranhense Odorico Men- 
des publicou em 1860 o seu Opúsculo acercado Palmeirim 
de Inglaterra e seu Auctor, no qual se prova haver sido a 
referida obra composta originalmente em Portuguez. Ainda 
não estava bem extincta a questão, porque o erudito bes- 
panhol D. Nicolas Dias de Benjumea acaba de publicar a 



QUESTÕES DB LITTBRATURA E ARTE PORTUGUEZA 249 

expensas da Academia das Sciencias de Lisboa um,Discurso 
sobre el Palmeirim de Inglaterra y su verdadero aiictor. O 
sr. Benjumea fortalece os argumentos de Odorico Mendes, 
e do seu discurso os transcreveremos robustecendo-os com 
novos factos que escaparam a estes criticos. Contra a ca- 
pacidade do livreiro Miguel Ferrer para poder escrever 
o Palmeirim de Inglaterra, apresenta o sr. Benjumea o fa- 
cto inapreciável da queixa de D. Diego Gracian de Aldrete, 
secretario de Carlos v, e auclor do livro La Morale de Plu- 
tarco, contra o roubo indecoroso do seu prologo que foi 
achar adaptado a um Palmeirim de Inglaterra, quando se 
achava em Mouron. Os próprios críticos que tentam apode- 
rarse da novella portugueza deixam fora do pleito a Mi- 
guel Ferrer. Resta Luiz Hurtado; o seu acróstico está em 
contradicçao com o pensamento das oitavas ao leitor, por- 
que nellas diz: 

Leyendo esta obra, discreto leclor 
Vi ser espejo de hechos famo:»os 

Y TÍendo aprovecba á los amorosos 
Se puso la maDO eo esta labor. 

Tudo isto se refere a um livro já escripto que Luiz Hur- 
tado viu, e achou que aproveitava aos namorados, e cor- 
rigiu a versão feita atropelladamente pôr Ferrer; mas adiante 
confessa que a obra é um fructo alheio: 

Cojed coD sentido en ello despierlo 
Todas las flores de dicbos notablesi. 
Oyendo sentencias qae son saludables 
Bobando la fruía de agenos huerios. 

* 

A esta prova moral, acrescenta o sr. Benjumea uma prova 
material; tendo nascido Luiz Hurtado por 1530, teria quando 
muito dezeseis annos quando em Toledo se publicou o Pal- 
meirim de Inglaterra em 1546; portanto não foi auctor de 
um livro que demandava alguns annos para ser escripto, 
nem traductor, mas escreveu as oitavas para figurarem em 
nome de Miguel Ferrer, incluindo o seu no acróstico por 
uma travessura de rapaz e para disfructar a imbecilidade 
do livreiro que. descaradamente se dava por auctor da no- 
vella. 



250 qubstObs ds littbbatora 



Outros- argumentos trazem os dois críticos sobre a ori- 
gem portugueza, tirados das circumstancias pessoaes de 
rFaucisco de Moraes, como os seus amores com a Torci, 
adma da corte de Fr.mcisco i, e os nomes de logares, como 
o castello de 'Almourol, Thomar e outras. Â todos estes ar- 
gumentos acrescentaremos alguns factos que passaram des- 
apercebidos. 

Antes de 1547 era já bastante conhecido na corte de D. 
João Hl o Palmeinm de Inglaterra, e alguns episódios ti- 
niiam tanta celebridode que forani glosados em verso; Ca- 
mões, qne começou a frequentar a corte depois de IS42 
e qne foi desterrado antes de 1546, traz uma glosa á Ten- 
ção de Miragnarda entre os seus versos de redondilha, gé- 
nero que elle cultivara para comprazer com o gosto do paço. 
Tenção é um género poético provençal em que entram dois 
cantores apodando-se ou experimentando alternadamente 
o seu talento; no scculo xvi era um vestigio que a eschola 
da medida velha ainda avivava; a Tevção de Miragvarda è 
essa cançoneta do capitulo cix do Palmeirim de Inglaterra, 
da qual Camões glosou em voltas os seguintes versos: 

Triste vida se iD'ordeDa, 

Pois quer vossa condiçfto, 

Que 08 males qae daes por peoa, -* 

lie fiqaem por galardão* 

No Cancioneiro manuscripto de Luiz Franco, fl. 102, 
achamos estes mesmos versos como glosados por Camões 
e com a rubrica inicial: Vilancete de Francisco de Moraes. 
Sabendo-se que a novella na edição de Évora de 1567 é 
dedicada á Infanta D. Maria, a quem o próprio Camões de- 
dicava versos, conclue-se que o poeta conheceu esse livro 
quando frequeptava a côrle, isto é, antes de 1546. Mas não 
se objecte que nãa estando vulgarisado, o poeta o poderia 
ter conhecido em uma forma mauuscripta, porque achamos 
ainda outra vez o Palmeirim citado nos autos de António 
Prestes. 

No Auto do Procurador, de Prestes, parece alludirseao 
furto em Toledo por Ferrer, e á edição do Palmeirim ter 
saído anonyma em França ; transcrevemos os versos pre- 
ciosos, que tanto elucidam este problema liiterario: 



E ARTE P0RTU6UBZA 25! 



Nfio é Palmeirim de Franca 
qae Dada se lhe joeira ; 
he trigo francez, peneira 
seri Palmeirim pilbança. 

A palavra piUiança não é aqui casual ; em outros versos 

insiste Prestes no roubo : 

« 

NHo venham lifros d^estorias 

limar vos pêra mamados, 

com Palmevrim furtoriat ... ^ 

Tanto Odorico Mendes como Benjumea deduzem que exis- 
tiu uma edição portugueza do Palmeirim anterior á casle- 
lhana de 4547, e feita fora de Portugal; tal éa descripção 
do editor de 1786, «que a nossa Bibliotbeca de S. Francisco 
da Cidade possue: enr caracter gothico e redondo, que dá 
mostras de ser impressa fora do reino, ^ Segundo Nicoláo 
António, esta edição appareceu sem nome de auctor, e Qua- 
drio no livrp Delia Storia e delia ragione d' ogni poesia. (voK 
IV, p. 5i5) cita sob o seguinte titulo essa edição sem data: 
^ Libro dei famosíssimo y valerosissymo Cavallero Palmeirim 
d' Inglaterra filho dei Rei D. Duarte. Trovasi impresso in- 
folio e senza altra data.» Este titulo posto que apresente 
alguns traços hespanhoes tem ainda bastante de portuguez 
para se vêr que esses traços são de negligencia de Qua- 
drio. Âuthenticada por essas três auctoridades a existência 
de uma edição do Palmeirim de Inglaterra sem data, vamos 
provar como ella è anterior a 1547, e que se pôde fixar 
com certa segurança em 1543, época em que Francisco de 
Moraes regressou a Portugal, e na corte de D. João ui a 
dedicou com uma allocução manuscripta, á Infanta D. Ma^ 
ria. 

Na dedicatória do Palmeirim de Inglaterra á infanta 
D. Maria, diz Francisco de Moraes: «Eu me achei em 
França os dias passados; em serviço de D. Francisco de • 
Noronha, embaixador de el-rey nosso senhor e vosso ir- 
mão, onde vi algumas chronicas francezas e inglezas...» 
Importa determinar a data histórica a que se referem os 
dias passados; sabe-se que U. Francisco de Noronha foi 
mandado por embaixador a Francisco i de França em 1 540, 
e Francisco de Moraes acompanhou-o como seu secretario. 
O motivo da embaixada era dar explicações a Francisco i 



252 QUBSTÕeâ DB LITTBRATURA 



acerca do casamento da inranta D. Maria, filha de D. Joãoin; 
como se sabe, Francisco i era casado com D. Leonor, viava 
de eUrei D. Manuel, dj qual houvera uma filha também 
chamada D. Maria. Por causa d esta infanta houve graades 
embaraços políticos; o rei de França queria a enteada para 
a sua corte, e o rei de Portugal nâo a queria ceder, porqae 
assim evitava o cumprimento da onerosíssima escriplura 
de casamento de eireí D. Manuel. 

A noticia do casamento dn infanta D. Maria fez suspeitar 
a Francisco i, que se tratava da sua enteada; mas o facto era 
que a princesa nao era a irmS consanguínea de D. João iii, 
mas a íilha do monarcha. A circumstancia de Francisco de 
Moraes residir na côrle de França em 1840, e conheceras 
intrigas palacianas acerca da entrega da infanta D. Maria, 
é que o levaram a oflerecer-lhe logo que chegou a Portu- 
gal, o livro da sua novel la. 

Em Portugal em volta da infanta estabeleciam o maior 
numero de distracções lítterarias para afíastar-lhe a atten- 
çao de qualquer casamento, e assim esquecer a ruinosa es- 
criptura do casamento de D. Manuel. Ue sorte que a de- 
dicatória do Palmeirim de Inglaterra não é um simples fa- 
cto de bajulação de escriptor, mas uma consequência não 
só da permanência de Francisco de Moraes em França em 
1540, senão da situação especial em que se achava, a in- 
fanta D. Maria. 

No capitulo cxxxvii a cxlih refere-se Francisco de Mo- 
raes na sua novella a circumstancias pessoacs que lhe suc- 
cederam na corte de França S onde se enamorou de uma 
dama Torsi; a dedicatória da novella referindo-se a D. João iii 
(morto em 1550), prova-nos que a novella foi offerecida á 
infanta muitos annos antes da edição conhecida em 1567, 
e portanto escripta ainda em França e offerecida no re- 
gresso da embaixada a Portugal em t543. A época do 
apparecimento da versão castelhana (1547-1548) é poste- 
rior á época em que Francisco de Moraes voltou a Portu- 
gal com o seu livro. Nas genealogias de Belchior Gaspar 



^ Entre os opoicalos de Francisco do Moraes, exísle um inlilalado De$culpa 
de uns amores que teve em Paris com a domella Torsi; iáto prova a relação 
intima da novella de Palmeirim com o escriptor. 



E ARTE PORTUGUEZA 253 



de Andrade, no tituk) Moraes Palmeirim, e na genealogia 
de Frei Gaspar Barreto (l. iv) se aCQrma que o nome ainda 
hoje usado, Palmeirim, foi dado a Francisco de Moraes como 
titulo de nobresa por causa da sua novelia^ 

Vamos transcrever aqui uma caria inédita de Francisco 
de Moraes, datada de Melun, de.i54l, pela qualseconhe* 
ce que elle era a alma da embaixada portugueza junto de 
Francisco i; foi copiada em 1837 pelo dr. António Nunes 
de Carvalho no Archivo da Torre do Tombo (gaveta 2.% 
maço 5.*, n.® 6!.j A carta é escripla em uma folha de pa- 
pel branco ordinário com uma mâo com roseta, com marca 
da fabrica; em meia folha está o sobrescriplo Ao Conde de 
Linhares, meu senhor, e era dobrada em quatro dobras na 
largura da folha, ficando assim em um formato oblongo. 

A indicação ao Conde de Linhares, signiGca que a carta 
era dirigida a D. Ignacío de Noronha, que mais tarde re- 
signou o seu titulo no irmão D- Francisco de Noronha. Por 
esta carta se vè que Moraes dando conta ao conde de Li- 
nhares do proceder sensato de D. Francisco, era antes de 
tudo conselheiro e amigo da casa de Linhares. A carta é 
preciosissima pela descripção dos costumes da corte fran- 
ceza; em 1541 assistiu Moraes a um jogo de péla em que 
figuravam as damas Lalranja, Talensí e Mansy, e na sua 
carta ao conde de Linhares descreve a desenvoltura doestas 
damas, como homem entrado em edade e que se não des- 
lumbra. Estas e gutras scenas, que descreve, levam-no a 
fazer confrontos com a sombria corte portugueza. A situa- 
ção especial da rainha D. Leonor contrista-o, e é de crer 
que Moraes alcançasse a confiança d^ella fallando-lhe de sua 
filha a infanta D. Maria, retida na corte portugueza. É no- 
tável a circumstancia das festas relatadas na carta de lã&l, 
e dos mesmos nomes, das damas se repetirem no Palmei- 
rim de Inglaterra. Depois d'isto não é possível negar-lhe a^ 
originalidade. da sua novella. 

Apesar de roçar pelos cincoenta annos e de ser mentor 
de D. Francisco de Noronha, Moraes não pôde escapar ás 
seducçôes das danaas desenvoltas da corte de Francisco i ; 
de repente achou-se apaixonado pela joven Torsi. N*esta 



1 o. HeodeS; Opúsculo, pag. 72. 



254 QUESTÕBS DE LITTERATURA 

nova pliase de seu espirito, e influenciado pelas pragmáti- 
cas posthumas do rei cavalleiro, Francisco de Moraes laa- 
çou-se a escrever a sua novella do Palmeirim de Inglaterra. 
Junto de Francisco i este talento dava-lbe auctorídade. 

Nó fim de í343 D. Francisco de Noronha regressou a 
Portugal, por isso que em 1544 já estava por embaixador 
em França o bispo D. Gonçalo Pinheiro; n*este regresso o 
manuscripto do Palmeirim foi offerecido á inranta D. Maria, 
e se vulgarisaram as coplas da Tensão de Míraguarda, que 
glosou Camões. Eis a preciosíssima cai ta inédita de Fran- 
cisco de Moraes: 

«Como d'esla terra eu nam tenha com que possa servir 
vossa senhoria se nam com novas, pesa-me quando o tempo 
nam ofrece alguas com que faça minha vontade. Lembra-me 
muito bem que escrevi a vossa senhoria que lhe escreve- 
ria a mostra que estava para se fazer dos moorguados e 
gentis omens de França pêra a poder mostrar ao Ifante que 
segundo se qua diz é a cousa d*esle reyno raays pêra ver; 
mas como nos dias que isto escrevi se soava que averia 
guerra co Emperador e a este lim El-rey juntava todo o 
grosso do seu reyno e mandava fazei a perto da frontaria 
de Torym ; com se dizer que o emperador se embarcava 
pêra Hespanha/se desfez tudo e a mostra que avya de ser 
toda junta se repartiu em muytos pedaços e em muylas 
vias de maneira que não ouve que ver, nem que escrever, 
nem depois succedeu cousa de que pudesse mandar novas 
a vossa senhoria; e as de aguora sam que o senhor Dom 
Francisco fica muy bem e vae-me parecendo que pêra ham 
omem ser immorlal n'esta terra haade beber agua inda que 
seja contra regimento de. mestre Dioguo de Gouvea, que 
diz, que pêra saúde perfeita todalas vigílias se am de que- 
brar em França-, e só as de Baco se devem guardar. Pa- 
rece me que esta regra, ainda que o dam por autor d'ela 
deve vir de mays longe, porque cousa tam bem guardada- 
como esta aqui he, nam deve ter seu nacimehto de tara 
perto. Vossa senhoria crea que nam ha qua festa que com 
iam siimtosa celebraçam se faça como esta; ostjnhorDom 
Francisco a guarda muy mal e cuydo que por isso lhe vay 
bem; estas novas bastam pêra vossa senhoria, e ainda que 
o senhor Marquez n'elas tenha parte, as d'aqui pêra baixo 



E ARTE PORTUGUCZA 255 



sejam todas suas, que pêra vossa senhoria someule rada 
lhas dera a medo. 

«Antonlem, que foram oilo doeste raez, se partio el-rey 
de Fonlenablço, e foy dormir a hua vila d'aly ires léguas, 
que chama Valença, e nara levou as damas corasigo que he 
maior milagre que aparecei o Espírito Santo em forma 
muyto desacostumada, que nas costumadas, cuido que ha 
pouco que o fez. No mesmo dia depois del-rey partido, se 
saíram ao campo a Delfyna, madama Marguaryta filha del- 
rey, madama de Elampes, a duqueza de Monpensé que he 
nova e das famosas d'esta terra, sobrinha del-rey, filha de 
hua sua irm3a, e também dizem que avO, por sobeja ami- 
zade que tem com Monsior d'Orlyens. Na verdade cousas 
doesta calydade sam quaa tam desacostumadas que se nou 
deve de crer; sairam mais Mamsy, que é a mimosa del- 
rey, e madama de Latranja e outras da mesma banda, e 
metidas em hum' cerco de cordas grandes que mandaram 
fnzer repartidas em dous bandos em vasquinhasde tafelaa 
curtas e manguas de camisa, por que os dias n este tempo 
sam quaa quentes, jugaram a péla huas contra outras, e 
duas ou três por muyto destras davam d'arras juguar sem- 
pre CO pee; pode vossa senhoria crer que aas vezes torna- 
vam o voléo mais alto do que era necessário pêra lhe fica- 
rem cubertos os artelhos, e ainda que se fiassem nas cal- 
ças que chegavam tee o gyolho, também afirmo a vossa se- 
nhoria que tinham ruim fyador. Eu me achey presente a 
esta festa, que aquele dia por mandado do senhor D. Fran- 
cisco fuy a Fontenableo a negocio, crendo que el rey e a 
corte estavam ali e sey que quaa pareceu muy bem e lam- 
bera sey que em nossa terra nam parecera asy. E pêra que 
os brincos tivessem mais graça acercando-se da banda de 
fora do cerco hum padre theologo da ordem de Sam Do- 
mingos, que agora prega todo o avento a raynha, e não sey 
se, de muyto servidor se de namorado começou servyr de 
fora do cerco as pélas que ymham perdidas de dentro. No 
principio ainda parecia que ho fazia co menos despejo, mas 
como a cousa começou a andar, deu cõ abyto no campo, e 
se o jogu durara muyto, parece-me que assy como se des- 
pejou do .abyto de cima, se despira de todo para ficar mays 
desenvolto. Afirmo a vossa áenhoria que foy hum dos mays 
destros juguadores de péla que nunca vy. Acabado de per- 



256 qubstOes de littxratura 



der huma das partes, aquelas príncezas e senhcras se fo- 
ram d'aly tee o paço, que seria doze tiros de besta juguando 
o aieo e saltando buas por cima das outras ; também aqui 
avya aas vezes saltar mal e cayr cos focinhos pêra baixo ; 
mas ynda que as novas sejam pêra o senhor Marquez como 
a carta é pêra vossa senhoria, nuo posso dizer tudo, senam 
que o padre pêra nam ver desonesiydades remetya as que 
cahiam e cubertas cõ manto as ajudava a levantar; duas 
cousas lhe vy em estremo mavyoso e ligeiro, o que eu nam 
cuydey que avia n*eles, que de conversáveis já he manqueira 
veelha que lhe hade durar tee morte. Aa noute coatro ou 
cinquo doestas senhoras em que entrou Tampes, Latranja, 
Mansy, madama de Monpensé, e despidas em calças e ca- 
misa com frauta e tamboril vyeram em mascara a casa da 
raynha onde amtraGzenim volteadores e sempre muito mal ; 
soo o pino acertou de ter graça n'ele madama de Mansy. 
A raynha parece qnè lhe nam pareceu tam bem a festa, e 
porqlie nam ousou dizei-o mandou despejai a casa porque 
nam podesse ser vista de muytos; ela se governa tam sa- 
bia e discretamente, que por nam desaprazer ao major tee 
as cousas que lh'avorrecem nam contradiz, mas antes pelas 
contentar aquela noute depoys de acabadas as momarias 
dançou com Tampes hua baixa e com ysto as despediu; 
aqui nam chegou o padre nem entrou em casa da raynha 
e parece que temeo sua autorydade. A outro dia mandou 
ei rey chamai as damas; la iryam fazer mays voltas; soo 
a raynha com sua casa íicou em Fontenableo, onde ha pou- 
cos d'estes entremeses, e aly estará tee que el rey se de- 
termine pTjra Paris ou outra parte; os dias passados se soa- 
ram aqui suas novas do Emperador e de sua armada, nam 
vy quem ofrecesse muastos de cera por sua salvaçam ; a 
raynha vive tam encolheila que tee as cousas com que lhe 
estaa chorando alma nam ousa fazer mostra com que se 
lhe syntam no rosto. Depoys se tornou a dizer que ele çra 
salvo e a perda íôra pouca ,^ esta derradeira nova, crea 
vossa senhoria, nam ouve que ora ousasse pobricar com 
trombetas. Os francezes dizem patentemente que pêra o 
verão averá guerra, nam sey se será assy; el rey acrescen- 
tou nas talhas do seu reyno muita copia, e também lançou 
grandes imposições aos clérigos sem por isso fazer sopri- 
caçam ao papa, nem eles de ousarem refusar. Eu perguntey 



B ARTE PORTUGUBZÂ 257 



jaa, porque via el rey, ou os reys de França poodem fazer 
pensyonàrios os clérigos sem consentimento d'eles ou au- 
torydade do papa; dizem-me que dizem, que como as ren- 
das que comem sejam dizimos de pessoas seculares, ou in^ 
stituições de foros e prasos feytos por eles mesmos a mos- 
teyros e igrejas, os reys como senhores e juizes do secu- 
lar podem dispensar dos taes bens pêra necessidade do 
reyno segundo lhe vier a vontade sem mays autoridade 
apostólica. Â razam ora seja boa, ou nam boa, aly nam ha 
quem a contradigua e laa vam leys . • . Nosso Senhor acres- 
cente a vida e estado de vossa senhoria e da senhora con- 
dessa por muytos anos. — De MdluU; a x de Dezembro de 
1541. — Cryado de vossa senhoria — Francisco de Moraes,.. lí 

Cremos que os argumentos accumulados por Odorico 
Mendes, D. Nicolau Dias Benjumêa e por nós, e aqui pela 
primeira vez reunidos, decidem de um modo positivo a 
questão da originalidade portugueza do Palmeirim de Ingla- 
terra, restituindo-o inabalavelmente ao seu auctor Francisco 
de Moraes. Recapitulamos por sua ordem esses argumen- 
tos : 

1.^ Em 1540, Francisco de Moraes acha-se como secre- 
tario da embaixada na corte de Fraqcisco i, e ahi assiste 
ás festas palacianas em que figuram as damas Talensi, La- 
tranja, e Mansy, que elle introduz na sua novella do Pal- 
meirim de Inglaterra. O nome de Torsi figura também na 
novella, e por um opúsculo Desdulpa de uns seus amores 
que teve em Paris com a donzella lorsi, de Francisco de 
Moraes, é publicado pela primeira vez em 1624, se vê a re- 
lação pessoal entre o auctor e a sua novella. 

2.^ Nos fins de 1543 ou princípios de 1544, D. Francisco 
de Noronha regressou a Portugal, e com elle Francisco de 
Moraes; foi então que dedicou á infanta D. Maria, filha de 
D. Leonor, viuva de D. Manuel e em segundas núpcias ca- 
sada com Francisco. I, a sua novella, alludindo na dedicató- 
ria aos dias passados que esteve em França. Pela dedicató- 
ria se conhece que el-rei D. João iii ainda estava vivo. 

3.° Por 1543 começou Camões a írequentar a corte, e 
foi então que glosou a celebre tensão de Mtraguarda, ves- 
tígio portuguez conservado na versão castelhana de 1547. 
Anterior a esta data é que se fez a primeira edição porlu- 

17 



258 questOes de littbrâtu/ia e arte portugueza 



gueza, talvez ainda em França, e sem data, como se de- 
prebende de Quadrio, e sem nome de auctor, como aíiirma 
Nícoláo António. 

4.® O furto da edíç2o de Toledo de 1547 justífica-se pelo 
facto de apparecer a novelia portugueza anonyma; comtudo 
o furto da novella foi conhecido em Portugal, como se vè 
pelas referencias dos Autos de António Prestes, e isto por- 
ventura levou el-rei D. Jo2o m a dar a Francisco de Mo- 
raes o appellido de Moraes Palmeirim. A novelia. não po- 
dia ser escripta por Miguel Ferrer, como se vè pelos ver- 
sos ao leitor, de Luiz Hurtado, nem tSo pouco por este, 
que em 1547 pouco mais tinha do que quatorze annos, e 
nos próprios versos chama á novelia ^fructa roubada de 
agenos huertos.* A edição portugueza de 1567 d3o traz a 
dedicatória á infanta D. Maria; publicando-a Affonso Fer- 
nandes na edição do Palmeirim em 1592, è porque a achou 
em uma edição anterior á de 1567, que julgamos feita em 
Portugal. Do rapto das novellas portuguezas pelos castelha- 
nos se queixava também por este tempo o Dr. João de Bar- 
ros, alludindo ao Amadis; 



AS TRIDUCÇÕES INGLEZ&S DOS LUSIAD&S 



O poema de Camões já não é simplesmente a epopêa da 
nacionalidade portugueza ; os séculos que destroem o que 
é vulgar e sem ideal, tornaram-n'o uma das grandes obras 
prinaas da humanidade. Esta consagração repete-se em to- 
das as lítteraturas, e raro é o anno que uma nova traduo 
ção ou um estudo critico não vem authenticar a perpetui- 
dade da admiração. 

Ainda no corrente anno (1878) o Dr. Wilhelm Storck, dis- 
tínctophilologo romanista da universidade de Miinster, tradu- 
zia em allemão as Lyricas completas de Gamões, e já de In- 
glaterra se espalhava pelo mundo a sexta traducçSo ingleza 
dos Lusíadas, pelo sr. João Jacques Aubertin. Approxima-se 
o anno de 1880, terceiro centenário da morte de Camões, 
e nem sequer se trabalha n'este paiz para organisar a grande 
e a única festa nacional para a qual devem contribuir o go- 
verno, os escriplores, os artistas, os argentarios, a acade- 
mia, emfim, todos aquelles que sentem que os unem ou- 
tros laços além da circumstancia material de se acharem no 
mesmo território. Se nos falta comprehensão do nosso des- 
tino histórico, úão nos admira que nos falte também o in- 
teresse que o nome de Camões desperta nos grandes cen- 
tros da cívilisação europèa^ 



1 Assim escreTÍamo9 em principio de 1878, proBegoindo no mesmo intoito 
com que nos nossos cursos de bisloría das litlpraturas românicas, e na corre- 
spondência com algans escriptores alIemSes, francezes, italianos e hespanboes, 
proclamámos sempre, desde 1872, o pensamento do Centenário de Camões, Por 
Tezes asstfllaram-nos profundos desalentos diante da indifferença geral, e foi 
esse o motivo da nossa linguagem acerba. O dia 10 de junbo de 1880 signi- 
fica hoje a maior e a mais ferJadelra emoçSo nacional; Portugal reTÍreu pela 
sua tradição, e ninguém podia prever que um pofo morto desde 1 U7 por uma 



260 QUESTÕES DE LITTERATURA 

A recente traducçSo dos Lusíadas, pelo sr. Auberlin, de* 
monstra-nos esse interesse íntellectuai» e» faltando d'ella, 
pagamos uma dívida nacional a qaem presta uma tão elo* 
quente homenagem ao nosso paiz. 

A traducçSo do sr. Aubertin, de uma extrema belleza ty* 
pograpbica» acompanhada de três finíssimas gravuras (re- 
trato de Camões, de Inez de Castro e de Vasco da Gama) 
e de um mappa da navegação cantada no poema, não é só 
a sexta traducção na ordem das traducçôes inglezas dos 
Lusíadas, é também, e com desassombro o proclamámos, 
a traducção definitiva que faltava aincU na íitteraiura in- 
gleza. Para autbenticar este juízo é-nos necessário esboçar 
um rápido juizo sobre as traducçôes que precederam esta. 

A primeira traducção ingleza dos Lusíadas foi feita por 
sir Richard Fanshow, em 1655; Fansbow conhecia a litte* 
ratura latina, italiana e bespanhola, e por esta circumstan* 
cia foi algumas vezes feliz na sua versão, sobretudo n'a- 
quelles logares em que soube conservar a fidelidade. Po* 
rém Fanshow não tinha sentimento poético, e das bellas 
phrases epigrammaticas com que Camões fecha as suas oi- 
tavas, fez eile máximas moraes, pedantescas e insípidas. 

O criticp inglez Southey não acha na traducção de Fan* 
show aquella dignidade da epopèa, deficiência supprida no 
traductor por formas empoladas, que tornam o poema ob* 
scuro e mediocrel Voltaire teve a infelicidade de formar o 
seu juizo pela traducção de Fanshow, que lhe mostrou o 
coronel Blandon, e póde-se avaliar a importância da traduc- 
ção ingleza de 1655 pela somma dos disparates que Vol* 
taire disse a respeito dos Lusíadas. 

Mick\e e Quillínan, que também traduziram Camões, con- 
sideram a versão de Fanshow como obscura e contaminada 
de uma invencível chateza prosaica. 

Estas criticas podem ser attenuadas pela circumstancia 
de ter sido impressa a traducção de Fanshow, quando o seu 



iofame intervenção armada pedida pela monarcbia ao estrangeiro, fosse capaz 
do QiD movimento tSo sublime pela ena extraordinária unanimidade! As inicia- 
tivas iodi TÍduaes limitaram-Ee apenas ao acto qoe determina a explosfto; lodos 
foram en volvidoâ na grande corrente, e tão vigorosa, que a má vontade doa 
poderes públicos (paço e ministério) não se atreveram a abafai- a. 



E ARTB P0RTU6UEZA 26! 



auctor se achava emigrado ãe Inglaterra, no tempo da re- 
volução de Cromwell. 

A segunda versão ingleza de 1778, pertence a William 
Jales Mickle, bastante apreciada em Inglaterra, mais pelo 
talento litterario do auctor do que pela fidelidade. 

O rev. Migufel Daily, que em 1782 tinha relações como 
editor de Camões, padre Thomaz José de Aquino, proce- 
deu com este á analyse da traducção de Mickle; resume-se 
nas seguintes palavras: 

«Ainda que não é nosso intento criticar o traductor in- 
glez, que faz tanta honra e justiça a Camões^ não devemos 
comtudo passar em silencio o ter elle tomado varias liber- 
dades a respeito do original, umas que confessa e outras 
que não confessa. Das que não confessa apontaremos dois 
exemplos, deixando a outros a liberdade de julgar se um 
traductor deve afastar-se tanto do seu original e texto que 
traduz. Na ficção de Adamastor, Camões faz que aquelle gi- 
gante conte ao niesmo Gama a sua historia e a dos seus 
amores; o traductor, porém, toma outro caminho, porque 
depois das vozes propheticas contra os portuguezes faz 
desapparecer o espectro e el-rei de Melinde refere haver 
entre elles esta tradição: que na* guerra dos gigantes ha- 
via caido sobre aquellas praias um d'elles, cujos gemidos 
se ouviam de noite, e que pelos encantamentos de um san- 
tão, o espectro foi obrigado a dizer quem era, e então se- 
gue a sua historia. O outro logar é no principio do nono 
livro: Camões faz que o Samori solte o Gama pela fazenda, 
que veiu a terra no livro vni, e no nono conta simplesmente 
que o Gama, impaciente de partir para a Europa, mandou 
que tornassem os seus feitores a bordo com a fazenda, mas 
veiu-lhe a noticia que os feitores haviam sido presos, e logo 
o Gama mandou prender uns mercadores que vieram ás 
naus a vender pedraria e se prepara para partir; porém. 
as mulheres e filhos dos que estavam presos a bordo das 
naus correm ao Samori e se queixam que os seus maridos 
e pães estão perdidos^ Movido com estas queixas manda o 
Samori soltar os feitores portuguezes e restituir a fazenda, 
e o Gama parte-se de Calecut. 

«O traductor, porém, representa tudo isto de um modo 
differente. Conforme a sua relação o Gama está preso na 
corte do Samori ainda no nono livro. Em uma falia, cheia 






262 qubstObs db urrERATURA 



de soberba, manda o Samori que o Gama faça trazer á terra 
e entregar-lbe as velas das naus. Porém, o Gama nao quiz 
coDseDtir D*esta proposta, percebendo a intenção maliciosa 
do Samori. Logo se fazem «os signaes para a frota do Sa- 
mori atacar a armada portugueza; segue-se a descripçao da 
batalha; sobrevem uma tempestade que desfaz inteiramente 
a frota do Samori; chega a armada do Gama victoriosa mais 
perto da terra, e começa a atirar com a artilheria contra 
a cidade. Corre o povo assustado ao Samori e pede que se 
faça justiça aos portuguezes; este príncipe, atemorisado 
pela' destruição da sua frota, pela commoção do seu povo 
,e pela intrepidez dos portuguezes, solta o Gama e lhe per- 
mitte ir a bordo das suas naus. , 

tN^esta relação ha mais de trezentos versos, aos quaes 
nada se acha no original que lhes corresponda. Aponto aqui 
estes dois legares só, por causa da brevidade; mas o lei- 
tor ii)telligente da lingua ingleza e da portugueza achará 
outros muitos onde o traductor toma a liberdade de se 
afastar do original, ou supprimindo passagens, que lá se 
acham, ou acrescentando outras que lá se nãe acham.» 
(Ed. de P. Thomaz José de Aquino, Obra de Camões, i, 
p. i\\ a L1V.) Mickle sacrificou o poema original <á felici- 
dade das expressões, á energia e elegância;» foi esta preoc- 
cupação que induziu a Soutbey no inexplicável erro de jul- 
gar esta versão melhor do que o original, versão que além 
das opiniões do padre Daily, é tida por Quillinan como 
«bombástica.» 

Ainda modernamente se reimprimiu uma sétima edição 
da versão dé Mickle, em 1877. Elle não sabia bem o por- 
tuguez e seguiu a traducção em prosa franceza de Du Pér- 
ron de Caslera. O seu talento litlerario, por onde é apre- 
ciado em Inglaterra, é que o levou a saltar pelas diCTicul- 
dades dos ±usiadas, phantasiando arbitrariamente um novo 
poema; diremos d'esta ' traducção que é um meio termo 
entre a paraphrase e a imitação livre. Por aqui se vê que 
a Inglaterra conheceu e apreciou por muitos annos uns Lu- 
síadas falsificados. 

Depois da traducção de Mickle seguiu-se, em 1826, a 
traducção de Thomaz Moore Musgrave; este individuo foi 
longo tempo empregado de uma companhia de vapores em 
Lisboa, e por isso chegou a ter um cabal conhecimento da 



B ARTE PORTUGUEZA 263 



lingua portugueza. N3o tinha cultura litteraria, nem a ima- 
ginação de Mickle, com quem nem de longe quer com- 
pelir. O que elle procura è interpretar fielmente, etel-o-ia 
feito de um moda aproveitável, se ensaiasse uma traducção 
em prosa. Mas, sem sentimento poético, sem rima, sem 
uiha comprehensão histórica e artística do poema, deixou 
o poema de Camões deslavado e quasi illegíveL 

A inferioridade das versões inglezas dos Lusíadas era 
lambem um movei para incitar os novos traductores a pro- 
curarem dotar a litteratura ingleza com uma obra perfeita. 
Edward Quillinan tentou de novo em 1850 essa empreza 
difflcil; concorriam n'elle circumstancias especiaes. Nascera 
no Porto em 1791, onde viveu até 1821 ; elle mesmo, amigo 
e genro de Wordsworth, era poeta sentimental da eschola 
dos lakistas. Com relações intimas com os principaes ca- 
monianistas, e com intelligencia e amor do texto dos Lu- 
síadas, poderia ter dotado o seu paiz com a versão defini- 
tiva do poema, se não tivesse fallecido prematuramente. 
Foi depois da sua morte que o camonianista John Adam- 
son publicou os cinco únicos cantos da versão de Quilli- 
nan; esta traducção é boa emquanto á interpretação; po- 
rém Quillinan tinha contra si o ser um poeta de terceira 
ordem. 

Depois da publicação do fragmento dos Lusíadas de Quil- 
linan, em 1853, o coronel Livingslon Mitchel, nos desenfa- 
dos de uma longa viagem em volta do cabo d'Horn, em- 
prehendeu uma quinta traducção da epopêa portugueza. 
Mitchel havia estado çm Portugal no tempo da guerra pe- 
ninsular, amava Camões; porém trabalhou «invita Miner- 
va.» Superior á de Musgrave, está abaixo de todas as ou- 
tras que a precederam. 

Ultimamente, apparece a versão do sr. Aubertin no cor- 
rente anno de 1878, e já se falia em mais duas versões in- 
glezas dos srs. capitão Burton e Robert Duff. Sejam bem 
vindas. No sr. Aubertin dá-se a circumstancia de ter vivido 
durante muitos annos entre portuguezes noBrazil e de fat- 
iar perfeitamente a lingua portugueza ; o seu conhecimento 
do latim, italiano, francez e hespanhol é uma garantia da 
intelligencia philologica do texto camoniano. O sr. Auber- 
tin concilia na sua versão a fidelidade que se deve ter por 
um monumento secular que se pretende dar a conhecer. 



264 QUB8T6B8 DB LriTBRATURA 



com O colorido, movimento e vibração característicos de 
uma eterna obra de arte, que sõ^póde transportar-se para 
uma outra lingua sentindo bem o original. O sr. Âubertin 
entende bem o texto, mas sente-o ainda melhor. É por isso 
que a sua fidelidade nSo é servil, e os seus transportes en- 
thusiasticos não são paraphrasticos como em Mickle. Con- 
frontando as oitavas portuguezas com o inglez, maravilha- 
nos como uma lingua de índole tão diversa, pôde ser ada- 
ptada a reproduzir as construcções peculiares do poeta, as 
suas figuras de dicção, as suas gradações nos epilhetos e 
verbos com que descreve, como conserva ás vezes as mes- 
mas rimas, e sempre o seu sentimento nacional. I 

Póde-se dizer que a litteratura ingleza possue de boje em ^ 
diante uma versão definitiva dos Lusíadas, que, na severa 
linguagem de Milton, recebem um relevo novo, reforçando 
o seu caracter de epopèa da grande navegação. A versão 
do sr. Âubertin tem hoje também' a sua opportunidade pe^ 
rante o publico inglez; Camões celebrou a façanha dos por- 
tuguezes, que teve como resultado para a cívilisação, além 
das grandes consequências futuras, o de evitar a invasão 
dos turcos, que se iam alastrando pela Europa no fim do 
século XV ; hoje, no momento em que se discute de novo o 
caminho do oriente, e quando os turcos estão em risco de 
serem por uma vez repellidos para a Ásia, os successos 
actuaes dão a uma recente leitura dos Lusiadas um com- 
mentario bem significativo *. 

Eifectivamente, ^or occasião do Centenário de Camões ap- 
pareceram as duas novas traducções dos Lusiadm^eXos srs. 
Robert French Duff, e Richard Francis Burlon. Duas home- 
nagens commoventes no jubileu de uma pequena mas glo- 
riosissima nacionalidade I O sr. Duff reside ha mais de qua- 
renta annos em Portugal, conhece perfeitamente a nossa 
historia e o idioma de Camões, o que é uma garantia para 
a superioridade da sua traducção. Adoptou de preferencia 
para a versão das oitavas camonianas a forma speocèriana 
egual ás antigas oitavas em endexas da poesia hespanhola. 



1 Jorn. do Comm. n.« 7:337.—No jornal Th» Athemeum (n.o 2:638. de 18 
de maio de 1878) publicámos am eitado mais extenso — Jik« LuHadt of Ca- 
moens. Translated into englisb verse, by J. J. Âubertin, 2 voU. (C. Kcgan Paul 
& Co.)— 6 columnaS) p. 687, 628. 



B ARTE PORTUGUEZA 265 



usadas antes do predominio das formas fixadas na epopêa 
moderna por Ariosto. No New York Herald (de 26 de abril 
de 1880)' vem um juizo comparativo entre as duas versões 
de Aubertin e Duff: «A versão do sr. Aubertin segue mais 
de perlo o texto e forma do original; a versão do sr. Duflf 
è mais melodiosa e de facil comprehensão, mas ambas as 
Iraducçõeg estão longe da inspiração poética de Camões, 
havendo ainda bastante logar para mais altas tentativas 
n'este diflBcil ramo da arte litteraria. Talvez não baja espe- 
rança de termos em inglez uma versão dos Lmiadas egual 
á de Briccolani em italiano, porque o espirito da lingua ita- 
liana presta-se muito mais do que a nossa lingua guttural 
á reproducção da diCQcultosa ottavà-rima do original por- 
luguez. — O assumpto do seu poema parecerá somente mes- 
quinho áquelle que ignorar a brilhante pagina da historia 
occupada pelos estadistas e navegadores de Portugal na 
primeira parle do século xvi, e a forma do poema parecerá 
excêntrica áquelle que deixe de recordar a grande parte 
que Virgílio e Ariosto tomaram em dar colorido e brilho â 
poesia do período da Renascença.» A insistência dos escri- 
ptores inglezes lentaçdo novas traducções dos Lusíadas, 
toma o caracter de uma lucta para nacionalisarem essa epo- 
pêa da grande navegação. O capitão Burton, celebre via- 
jante inglez, publicou a ultima traducção dos Lmiadas , em 
dois volumes, trabalhando actualmente em outros dois vo- 
lumes de commentarios ao poema. O illustre viajante lem-se 
acompanhado com o livro de Camões em todas as suas ex- 
plorações geographicas, e o amor a essa gigante obra de 
arte nasceu-lhe pela constante verificação da sua verdade. 
É o sentimento da natureza o lado por onde o capitão Ri- 
chard Francis Burton penetra no intuito nacional dos Lu- 
síadas, e é esse mesmo sentimento que o leva para a pri- 
meira *íentativa de uma traducção -completa das Lyricas de 
Camões, da qual dá noticia o Graphic de 5 de marÇo de 
1881. Todas estas oito traducções inglezas dos Lusíadas 
possuem bellezas especiaes, mas nenhuma poderá nunca 
cgualar as vantagens de qualquer das realisadas nas lín- 
guas românicas, que sem tíiíBculdade nos dão o equivalente 
(lo mais alto monumento da civilisação do occidente latino, 
e cOm uma espontaneidade que prova a solidariedade eth- 
nica e histórica dos povos meridionaes. 



A SATYRA DA PERDA DA NACIONALIDADE PORTDGDEZA EH 1580 



Nas Poesias e Prosas de FernSo Rodrigues Lobo Soropi- 
ta, que se guardavam iueditas no mosteiro de Tíbães, e que 
se imprimiram uo Porto em 1868, acba-se uma Satyra (p. 
133 a 143) acerca das pretensões de vários moDarchas ao 
dominio de Portugal, e verberase a venalidade da aristo- 
cracia que trazia em almoeda a independência da sua pa- 
u*ia. No fim de um Cancioneiro manuscripto castelhano 
do fim do século xvi, que possuimos, acha-se copiada essa 
mesma Satyra, sem nome de auctor, mas com importantis- 
simas variantes de sentido mais correcto, e com bastantes 
estropbes inéditas e transpostas. Isto leva nos a inferir que 
a Satyra correu de mão em mão, e que o seu auctor a mo- 
diflcava segundo as copias que vulgarisou. Publicando este 
importante monumento histórico e litterario, deixamos in- 
dicadas em notas as variantes do texto impresso em 1868, 
para que melhor se aprecie: O nosso Cancioneiro é ern pa- 
pel de linho em 8.° pequeno, com excellente letra do fim 
do século XVI, começa a folhas -9, tem bastantes composi- 
ções riscadas pela censura, e algumas paginas illegíveís por 
estragos de agua; ali se acham muitas odes, sonetos e ro- 
mances subjectivos. Apenas existe n'este apreciável códice 
uma Letrilha portugueza, que transcrevemos aqui:^ 

Se de vós já se me deu 
não 60 me d& nada agora; 
sey de outro moyto embora, 
t que eu qaero lambem ser meu. 

Confesso, senhora minha, 
que no tempo (^ue vos vim, 
andava fora de mira 
porque na alma vos linha. 



QUESTÕES DE LITTBRATDRA E ARTE PORTUGUBZA 267 



' Mais a^ora que sei eu, 
que estaes de minha alma fora, 
sey de outro, moyto embora. 

Era O ultimo lampejo dos «poetas da medida velha» de que 
falia o próprio Soropita. N'esle Cancioneiro enconlra-se en- 
tre outras curiosidades, como uns versos contra Lope de Ve- 
ga, umbelloepigramma contra o canibalismo dePbilippe ii: 

Lo dei Principe foé cierto; 
De la Reioa está eocubierto; 
Del Marquês no ay que dudar^ 
Que £1-Rei le mandão matar. 

Agora que conhecemos o Cancioneiro, convém dar á pu- 
blicidade a Satyra da perda da Nacionalidade portugueza, que 
encerra mais vida moral do que as paginas opacas das nos- 
sas cbronicas: 

Arre! arre para traz, 
asno do Luzo coitado! ^ 
olba que a ser despenhado 
caminhas poV donde vás. ^ 

Se deoima parte arrochadas 
de arreeiros te encaminham, 
os que a soccorrer-te vinham 
querem fazel-o a panquadas. ' 

Zurra sobre mal tamanho, 
asno, pois quiz teu pequado, 
que pêra tão triste estado 
viesses a dono extranho. 

Chora sobre o mal presente , 

os bens que passados sam; 
já foste asno de Balam 
oje es burro de Vicente. 

Vende-te o cura da egreja, ^ 
grande trabalho te vejo! 
a moleiro d'Alemtejo 
não quiz irender-te d'inveja. ^ 



Variantes dn edição de 1868: 
^ Asno de luso... 



2 Caminhas por onde... 

3 Querem fazel-o a pedradas, 
Deix<ni-ie o cura da igreja 
Não quiz deixar^te de enveja. 



4 



S68 QUISTÕBS DB LITTBRATUBA 



Também comprtr-le queria, * 
e attai te fora melhor, 
o DOMO hoorado Prior, 
todo foi Taibaquaria. 

Emqoanto Anlfto o das botai 
por seo te tinha em poder, 
oio eobiat ta traier 
tanta carga sobre as costas. > 

Sempre a gineta vestido, 
ferrado de prata e ouro, 
Tejo. Guadiana e Doaro 
te da?am pasto escolhido. 

Do Gangetf Nilo e Indo 
Qi clarat aguat bebias, 
com que envejado te viat 
dot moradoret do Pindo. 

Quando o inwrno mesquinho 
en tão moo caminharia 
pelo lodo te metia 
por te dar o bom caminho. 

Mas agora o qoe te guia 3 
esse Gil das calsas brancas 
poi-te catorze nas ancas 
e manda c'ora acoute a via. * 

Fez barata a compra injusta, 
por isso te desestima, 
porque emfím tudo se cRtima 
segundo o preço qoe costa. ^ 

Sem dar logar qoe respirem, ^ 
gritam e não se envergonham, 
todos qoe cargas te ponham, ? 
nenhoos que carga te tirem. 



^ Também levar-te queria. 

2 Quando o Ant&o das botas largas 
por teu se tinha em poder, 

o3o sohias to trazer 

sobre as costas tantas cargas. 

3 Mas agora que te guia 
ette Gil.... 

* E co*a espora manda a via. 

5 Porque tudo emfm se estima 
conforme ao preço que custa. 

6 Sem logar a que respirem 

? Todos qoe a cor^^a te ponham. 



E ARTE P0RTU6UEZA 



269 



Nesta confusSo amarga 
Ob arreçirofl qoe podem 
todos a tanger- te accodem, 
mas nenhum á sobrecarga. 

E ao retorteíro te tracem 
com albarda e sem cabresto, 
somente metem o resto ^ 
nas afrontas qae te fazem. 

Sempre em tuas matadoras, 
taas tristes carnes rotas 
alveitares idiotas 
experimentam novas coras. 

De sorte, asno, te vejo, 
e hei tal lastima de ti 
pelo estado em que te vi, 
que de ver- te tenho pejo. 

Entregue a rapazes loucos 
que te guiam por abrolhos, 
tantos a tapar-te os olbos. 
a destapar-t*os tão poucos! 

Pelo dono que te deram 
verás toas perdições, 
filho de quatro naçOes 
que nunqua bem se avieram. 

Já com teu senhor passado 
sobre ti em pleito andou; 
agora que te comprou 
bas de pagar o fiado. 

Aos que foram nWa venda 
já hoje o tempo lhe ensina 
quem sem tempo determina 2 
ante tempo se arrependa. 

Mas por divertir- te a dor 
do mal que em ti considero 
outros males chorar quero: 
zurra tu por teu senhor. 

E vós, tágides, que ouvis 
o som de males táo tristes 
chorai do bem que já vistes ' 
as lembranças que sentis. 



1 Só metem todos teu resto 

2 Quem teu tempo determina 

3 Chorai dos bons que já vistes. 



/ 



270 QUBSTOBS Dl r.UTBRATURA 



Chorai do passado abril 
as seccas flores qoe vedes, 
es as desertas paredes 
effeitos do sorto tíI. i 

E to, pátrio Tejo ameno, 
reTohe toas claras agoas, 
qoe é jasto que em tantas magoas 
Dio corras claro e sereno. 

Bom vês qoe o cham qoe regaste 
fortilisado comtigo, 
affrontudo como emigo ^ 
mil ireies o eiperimentaste. 

E 08 pastores do teu prado 
andam, pordida a esporança, 
já de mudaoça em mudança 
j& do coídado em coídado, ^ 

O pio no campo frescais 
froclo de soor alheio 
comem sem nenhom receio 
corvos, gralhas e pardaes. ^ 

Estam de gritar já modos 
o sem animo os espritos, 
Qoe poDCo aproveitam gritos 
donde os ouvidos sfto surdos. ^ 

Já entre nós vivem $6 
os Maquabeos o propbetas, ^ 
já nSo derriba» trombetas 
os muros de Jeriquó; 



Chorai o passado bem 

Pelo mal qoe entro vós arde; 

Mais ai! que chorais já tarde, 

Oh filhas de Jerusalém. 

Alfronial-o como imigo. 
3 (li» B. Esta estrophe acha-so cinco cstropbes abaixo.) 
* Brada-lhes Mingo o do saio, 

Citfranco o do saio, brada 

Não dio por seus brados nada, 

Nem poupam pio para, maio. 
5 Uodos de gritar estam 

Desanimados espritos 

De fôr que não valem gritps 

Se os ouvidos surdos sio. 
^ D*Ácab ot falsos propbetas 



t 



B ARTE P0RTC6UEZA 271 



Qoe o som do metal covarde 
afaíate t todos os mais, ^ 
e sam soas forças taea 
qoe n*elle o fogo Dão arde. ^ 

N^este estado e perdíçam 
podes crer qoe podem já 
roais qoe a lança de Joáb 
os cabellos de Abselam. 

No grão Pinheiro das falhas 
se sentam ji por demais 3 
por baixo as ave reais, 
por cima corvos e gralhas. 

Os rafeiros qoe o rebanho 
guardavam de nossos gados, 
todos andam tresmoolados, ^ 
metidos no mato extranho. 

Porqoe os que mil/vezes d^eile 
a preza e lobo trouxeram, 
da carne nada lhe daraio, ^ 
deixam-lhe os ossos sem pelle. ^ 

Has já dos lobos guerreiros^ 
fica sendo mal singelo; 
porque cobras de capello 
bebem sangue de cordeiros. 

Já não ha cachorros velhoe, 
os d*aquella antiga raça, 
e assy se vamos á caça "^ 
os cães fogem dos coelhos. 

Os galgos qoe entam corriam 
as lebres em terra extranba, 
oh que vergonha tamanha! 
já das lebres se desviam. 



1 Abateu todos os mais 

2 Na edição de 1868 entra aqui a cslropbe: Os Pastores etc. 

3 Já se assentam deseguaes. 

4 Andam todoi transmontados 

^ Dnxaram-lh$ os ossos sem pelle 
^ Mas ai dos lobos guerreiros. 
^ Já qwmdo imos á caça 



272 QUESTÕES DE LITTBBATXJRA 



Já fenentídos • imbeles ^ 
dodim como desmodadoa, 
e de lorle dcsmaDdadot 
que aa lebres correoi irai d>Iles. 

BascaTam eotio grfto Pastor 
o pastor pêra mo gado; 
agora bosca o croado 
peio gado a seo seobor. 

A branca Ift qoe oma «rx 

tosquiada tira a rooha, ^ 
agora como peçouba 
qoada mez Ibe tiram dez. 

» 

Qoe o qoe virtode eolam 
por mezinha exercitava, 
oje da cobiça escrava 
fiqoa servo d'ambiçam. ' 

Mizericordia e cobiça 
assentaram tal concórdia, 
qoe a falsa misericórdia 
tf m desterrada a justiça. 

O que todo o mondo dana * 
tem posto em trono cruel, 
contra a voz de Daniel 
08 juizes de Suzana. 

E assentara n'egta feira 5 
cousa qoe mais desatina, 
moitas guitarras sem prima 
mas nenhuma sem terceira. 

Porque publiqoa o escrito ^ 
verdades que o tempo sonha, 
quem d*ouvil-as se envergonha* 
o desterram para o Egypto. 



< Afftminadot^ imbclles 
Andam como desmatodof 
E de sorte ot vêem torhadoi 
^ Tosquiada Unha ronha 
' Fica cabo da ambiçam. 

4 Quem tudo ao mondo dana 

5 Já te tangem n'eeta feira 
^ Porque publica o esprito 

Cousa que mais detanima 



E ARTE P0RTU6UEZA 273 



-•- 



Chombados exteriores - 
firmam só capacidades, 
publicas seteridades 
tem por verdades maiores ^ 

Porque reprovo não medro 
com miHhat verdades mudas 
vêr que dam a bolta a Judat, 
do thesouro d$ Sam Pedro. 

Todo o remédio é incerto 
em tão differentes pragas, 
pois dSo por remédio ás cliagas ^ 
Amam, de chagas coberto. 

Mas já que o tempo pasBoa 
figara d*este presente 
no qoal o vaso do oriente 3 
a voz do santo éscoitoo. 

Modo sentimento só 
oprima o coração triste, ^ 
de ver qae Izaú insiste 
em perseguir a Jacob. 



1 Tem por virtudes maiores 

2 Pois dam por medico as chagas 
Na a mão de chagas coberto. 

3 No qual o vasto oriente 

* Primor e coracSo triste 

« 

Pois vejo que Esaú insiste 

18 



o P0RTD6DEI SANCHES, PRBGDRSOR DO POSITIViSIO 



Um dos caracteres que dá a maior importância histórica 
á Philosopbia positiva, é d3o ser simplesmente uma syn- 
tbese universal formada pelos modos de vêr particulares 
de uma grande intelligencia, mas sim o ter raizes no pas- 
sado, ser como a consequência inevitável de uma evolu- 
ção lenta da actividade intellectual hun^ana. É isto o que 
faz com que essa ordem de concepções derivadas da scien- 
cia para a Pbilosophia seja effectivamente um estado posif 
tivo. Quando se acha em Turgot a indicação casual da lei 
dos três estados e da filiação histórica, nem por isso a con- 
cepção gigante de Augusto Comte per<^ da sua originalida- 
de, porque ella consiste unicamente nas deducções funda- 
mentaes pelas quaes chegou pelo maior ou menor gráo de 
positividade das sciencias a agrupal-as em um quadro hie- 
rarchico, pela mutua dependência historico-dogmatica. Sem 
a analyse das concepções humanas, segundo a lei dos três 
estados, foram improfícuas as classificações das sciencias 
tentadas por Aristóteles, Sam Boaventura, Bacon, d'Alem- 
bert e Ampere. O facto de ter sido pela primeira vez pre- 
sentida por Turgot essa variação regular das concepções 
humanas tira a Augusto Comte toda a suspeição de hypo- 
these systematica para a constituição da Philosopbia po- 
sitiva. 

O quadro da bierarchia das sciencias, presentido tam- 
bém por Burdin, e realisado praticamente durante a moci- 
dade de Comte na Escbola polytecbnica de Paris, muito 
menos enfraquece a valentia d'aquelle espirito disciplina' 
dor da intelligencia moderna; Comte tirou á classificação 
das sciencias o que ella tinha de erudição e estéril appa- 



QUESTÕES DE LITTBRATDRA E ARTE P0RTU6UBZA 375 

rato, coDvertendo-a em uma syothese dos conhecimeDtos 
cosmologicos, biológicos e sociológicos, sem os quaes ne- 
nhum conhecimento do Eu è posdivel. Assim a velha these 
da phiiosophia — Conhece-te a ti mesmo — só se tornou rea- 
lisavel quando se pôde estabelecer o conhecimento da me- 
sologia em que o Eu se manifesjla. Âs applicações praticas 
de uma tal classificação são incalculáveis, porque pela pri- 
meira véz se achou quanto as sciencias progrediam pela 
determinação da sua unidade, e quanto era fecunda a Pbi* 
losophia que fundando essa unidade recebesse das scien- 
cias os elementos verificáveis para basear sobre ellas as 
suas syntheses. 

A importância do Eu colleclivo, ou humanidade, presen- 
tida por Condorcet e por Kant, a força e inconsciência da 
evolução determinada por este ultimo metaphysico; a divi- 
são fecunda na ordem da phenomenalidade, estabelecida 
por Blainville em fados staticds e dynamicos; a base socio- 
lógica antevista por Saint Simon, o primeiro periodo reli- 
gioso das sociedades, começando no fetichismo, aulhenti- 
cado por Dulaure e comprovado modernamente pela ethno- 
logia; tudo isto vem dar á obra de Augusto Comte a imper- 
sonalidade e a verdade de uma deducção suprema, fundada 
sobre a marcha da intelligencia e da consciência humana. 

Tal è a rasão por que procurar em lodos os trabalhos 
nnentaes desde o século xvi para cá, em que a Europa en- 
trou pelos estudos da physica no caminho da positividade, 
lodos os elementos fragmentários e dispersos com que 
Comte formou a synthese philosophica do século xix, é dar 
a esta Phiiosophia a grande comprovação do que tende a 
rcalisar-se por si mesmo e a força do que provém de uma 
evolução intima. O titulo do nosso estudo Um' Portuguez 
precursor do Positivismo, deve até certo ponto causar ex- 
Iranhesa, sabendo-se que Portugal saiu da vida histórica 
desde o século xvi em consequência da intolerância de um 
catholicismo ferrenho, que o não deixou participar da elabo- 
ração scieniifica da Reforma; que lhe alrophiou as intelli- 
geocias apoderando-se do ensino e da educação publica pe- 
los Jesuitas; que lhe impoz o esquecimento da tradição na- 
cional, conseguindo assim a decadência immediata da lit« 
teratura; que perseguiu os mais distinctos pelo seu saber» 
laes como Gil Vicente, Damião de Góes, António Pereira 



276 qubbtQbs db LrmRATCiiÁ 



Marramaque, AdIodío Luiz e outros que em grande parte 
expiraram no queimadeiro; que lhe atropellou o seu direito 
civil fazendo adoptar com força jurídica o Concilio de Tren- 
to; e que finalmente entregou esta pobre nacionalidade ao 
seu inimigo natural o cesarísmo bespanhol representado no 
seu typo mais odioso, Pbilippe ii. 

N'estas círcumstancias como poderia surgir em Portugal 
uma intelligencia de tal forma robusta que vencesse a cor» 
rente deprimente, e presentisse quplquer dos princípios 
saudáveis do Positivismo? Pela historia doeste paiz, que é 
também fragmentaria e desconnexa, se vè que os princi- 
pães homens de intelligencia que tiveram a infelicidade de 
nascerem no reinado do obscurantismo, desde o seulo xvi 
até ao principio do actual, procuraram os paizes estrangei- 
ros para darem largas ao seu desenvolvimento. O encyclo- 
pedico Damião de Góes vive na Hollanda e frequenta a com- 
panhia de Lutbero e de Melanchton, pelo que vem mais 
tarde a sucpumbir nas masmorras inquisitoriaes do Rocio; 
o mesmo succede a Uriel da Gosta, que também se refugia 
na Hollanda, a terra abençoada da tolerância e da liber- 
dade de consciência; os que cultivam as sciencias naturaes 
e a medicina estavam sempre em perigo de contradizerem 
por qualquer acto o prestigio do sobrenatural, como o me- 
dico Eslevam Rodrigues de Gastro, professor na universi- 
dade de Pisa. Já no século xvni, quando a Inglaterra se 
tornava também um refugio contra o cesarísmo, é ali que 
se estabelece o medico e polygrapho Jacob de Gastro Sar- 
mento, o qua) sendo consultado por D. João v em 173ã 
para indicar os meios pelos quaes se devia proceder á re- 
forma das sciencias em Portugal, teve o raro senso de in- 
dicar que a reforma antes de tudo devia começar por in- 
troduzir um critério novo n'este paiz, fazendo traduzir para 
portuguez o Novum Organum Scientiarum, que foi para o 
século XVII e xviii o que é o Positivismo para o tempo pre- 
sente; esse grande impulso do génio de Bacon nunca foi 
conhecido em Portugal, e a Philoçophia continuou sob a 
influencia da Lógica Conimbrincense dos jesuitas, que nem 
admittiam nos exercícios escholares theses que puzessem 
em duvida o aristotelismo humanista. Outros sábios, como 
Ribeiro Saáches, elogiado por Vicq d'Azir, como o duque 
de Lafões, amigo intimo de Gluck e de Mozart, como o 



B ARTE PORtUGUEZA §?? 



' Abbade Costa, consultado pelo musicograpbo Barnay, como 
Corrêa da Serra e outros muitos, procuravam os paizes 
estrangeiros, a França, a Itália e a Allemanha para pensa'» 
rem livremente e n3o serem victlmas das demencías do 
Santo Officio. Além disto, a marcha da sciencia em Por- 
tugal era quasi nulla no século xvi, truncando de repente 
a sua manifestação brilhante, nas Mathematícas represen- 
tada por Pedro Nunes, o auctor do Nónio, (hoje Vernier) e 
Francisco de Mello, na Botânica e na Medicina por Garcia 
-d'Horta e Amato Luzitano. Portanto, qualquer precursor 
do Positivismo em Portugal só podia surgir d*entre os ho- 
mens emigrados nos paizes tolerantes, e pela corrente he- 
terodoxa, como então se considerava a Mathematica e a 
Medicina. 

São effectivamente estas as condições em que apparece 
o portuguez Francisco Sanches, natural da cidade de Bra- 
ga, oriundo dé uma familia judaica e filho do medico An- 
tónio Sanches. Com certesa se Francisco Sanches tivesse 
permanecido em Portugal, como vemos pela época de seu 
nascimento, em i552, elle não occuparia na historia da Phi- 
losophia a parte que lhe têm assignado, de chefe do sce- 
pticismo moderno, nem teria tido a liberdade de pensar o 
seu livro revolucionário Quod nihil scitur. Esbocemos al- 
guns dados da suá vida, porque assim fica indicado o pro- 
cesso da sua marcha inlellectual. 

Francisco Sanches, ainda criança, acompanhou seu pae 
quando partiu para França por ventura em consequência 
das largas e cruas perseguições contra os judeus; viajou 
-em seguida pela Itália, demorando-se em Roma, até que fi- 
xou a sua residência definitiva em Tolosa, onde morre em 
1632, com oitenta annos de edade. O livro que lhe deu 
a sua reputação europêa, e que lhe conferiu um logar á 
parte na historia da Philosophia é o Quod nihil scitur: foi 
escripto em Tolosa em 1581; as condições em que se achava 
a sua intelligencia são o porque natural de uma concepção 
tão nilida das necessidades da reforma da Philosophia. Fran- 
cisco Sanches graduara-se na universidade de Montpellier 
era 1573; professou a Medicina durante onze annos, su- 
stentou polemicas escríptas sobre Mathematica, e leccionou 
Philosophia durante dezoito annos; as suas obras sobre es- 
tas disciplinas foram publicadas por seus filhos Dionisio a 



i 



S78 QUBSrfiBB DB UTTIEATDRA 



' Goilherme Sanches. Por aqui se vô qoç o seu espirito es- 
tava fortalecido com os metbodos da sciencia mais positiva 
que existe» a Matbematica, já deductiva na civilisaçSo gre^- 
ga ; a Matbematica revelou-lbe que existia uma outra lógica 
mais racional e progressiva do que a dialetica escbolasti- 
ca. Pela pratica da Medicina cbegou mais cedo a conhe- 
cer a inanidade das divagações idealislas, e pelo assassinato 
de Pedro Ramos em 20 de agosto de 1572 por cansa do 
seu racionalismo, a fugir de todas as bypotbeses, fortale- 
cendo-se com a realidade^ A longa pratica do ensino da Pbi* 
losopbia, que obrigadamente seria aristotélica, fèl-o conhe- 
cer de um modo pratico os vícios da Escbola, provenientes 
do abuso exclusivo da dialéctica. A Pbilosophia de Aristóte- 
les deduzida das duas únicas sciencias positivas que a an- 
tiguidade conheceu, a Matbematica e a Astronomia, não foi 
continuada pela edade media, porque a creação de novas 
sciencias esteve interrompida até ao principio do século xvii. 
Se na lucta de Pedro Ramus, este pbilosopho tivesse o es- 
pirito fortalecido com noções de Pbysica como teve Des- 
cartes, ou de Pbysica e Cbimica coroo teve Hume, elle não 
luctaria directamente contra a Pbilosophia de Aristóteles para 
a derogar, mas empregaria todo o seu esforço para a com- 
pletar, desviando-a da dialéctica por meio de novos elemen- 
tos objectivos. O mesmo succedeu a Francisco Sanches; 
faltavam-lbe o^ poderosos elementos scientificos que tiveram 
os séculos XVII e xviii, mas. ainda assim a sua intelligencia 
previu qual a solução pela qual a Pbilosophia seria tirada do 
in pace. Ê pelas soluções propostas por Francisco Sanches, 
que o classiQcamos como um precursor do Pçsitivismo e 
não como um sceptico systematico, como querem Rayle, 
Brucker e Teunemaun, os quaes não sabiam distinguir en« 
tre o que era negação arbitraria e o que era consequência 
de um estado prematuro de revolta e indisciplina mental. 

Vamos tentar um exame do livro de Francisco Sanches, 
que se intitula : De multum nobile et prima universcUi scien* 
da: Quod nihil scittir, submettendo-o a este critério novo, 
e ver-se-ha a grande importância d'esle vulto na constitui- 
ção da Pbilosophia moderna, como aquelle que primeiro 
lançou um protesto de positividade scientifica contra a tra- 
dição metaphysica alimentada por uma lógica formal. 

A fórmula inicial — Nada se sabe— em uma época em 



S ARTB PORTDGUBZA 279 



'que todas as noções eram absolutas, a crença, a auctorí- 
dade temporal, a naturesa e a vida, era a proposição altiva 
e destemida da relaiividade dos conhecimentos humanos, 
N'esta via positiva Sanches vae buscar a forma do conheci- 
mento ás.sciencias, e trata de estabelecer a noção de Scien- 
cia como' um conhecimento superior (Interna visio,) que 
resulta do perfeito ou completo conhecimento dos seguin- 
tes elementos! res cognita, ou o objecto; ens cognoscens, o 
que tem a receptividade da relação ou o sujeito; e cognitio 
ipsa, ou a deducção racional da lei que domina as manifes- 
tações. Na explicação doestes elementos do conhecimento 
scientifico, Sanches toca alguns dos principios fundamentaes 
do Positivismo. Sobre a Res cognita, ou o que é accessivel 
ao conhecimento, avança que os seres, isto é, as maoifes- 
tações do mundo objectivo não existem independentes, mas 
sim n'uma mutua conoexão, d'onde resulta que só podem 
ser conhecidos pelo maior numero das suas relações. So- 
t)re esta característica fundou Sanches a variedade das scien* 
cias, e como lúcida consequência o nexo hierarchiço das 
sciencias entre si, e a necessidade de um desenvolvimento 
ericyclopedico para pelo maior numero de relações se attin- 
gir um conhecimento mais próximo da verdade. Se^ como 
Bacon, Sanches tivesse tentado uma classificação dos conhe- 
cimentos humanos, determinava-se j)erfeitamente qual era 
o seu intento philosophico. Apesar de não proclamar como 
Augusto Comte a rejeição das noções absolutas como inve- 
rificaveis, por isso que no seu tempo não existia uma com- 
pleta creação de sciencias que puzessem de parte um certo 
numero de problemas irreductiveis, comtudo Sanches for- 
mula, que o homem não conhece senão por via dos senti- 
dos, como limitado pelo tempo e pelo espaço não pôde jul- 
gar do infinito. 

Quanlo-ao segundo elemento Ens cognoscens, reconhece 
quanto as apparencias afastam o espirito da comprehensão 
da realidade; as apparencias, que são o que os sentidos re; 
cebem do mundo exterior, são na linguagem de Sanchesi' 
ainda sob a nomenclatura scolastica simtilacra rerum; é por 
ellas que a inteilígencia julga, e por tanto o juizo é tanto mais 
perfeito quanto essas apparencias nos advertem de uma rea- 
lidade que nos toca por essa forma os sentidos e não de 
meras entidades nominaes. D*aqui parte Sanches para a re- 



280 QUISTÕBS DB UTTBBATUIU 



forma da Lógica, sustentando qae o JSyllogísmo não desço- 
bre objectos do conhecimento, mas simplesmente protTa, e 
por isso não tem havido disparate e facto incogniscivel qoe 
o Syllogismo n3o tenha provado conciliando-lhe adeptos. É 
verdadeiramente positiva esta belia afiQrmaçSo: cNenhoma 
Sciencia se formou com Syllogismos, ao contrario muitas 
Scíencias se tem inutílisado por causa d^elles.» Só um es- 
pirito fortalecido pela Mathematica, e pela Medicina (que en- 
tão snppria a falta da Biologia e dava elementos positivos 
á Psychologia) é que podia presentir tão longe do século xix 
uma tão fecunda these. Sanches conhece que a intolerân- 
cia e a habilidade das argucias dialécticas estão na rasão 
inversa da importância ligada aos factos scientificos: cE 
tanta a sua estultícia e tal a argúcia da habilidade syllogís^ 
tica, que abandonados os factos se voltam para as phan- 
tasmagorias.» (P. n). O eccleUsmo no nosso século foi o ul- 
timo esforço da dialéctica para constítuir uma pbilosopbia, 
procurandp conciliar por explicações os differentes syste- 
mas philosophicos em vez de ir buscar ás sciencias os fa- 
ctos fundamentaes. 

Quanto ao terceiro elemento, ou a Cognitio tp^a, noção 
da lei, essa não pôde ser completa porque depende da qua- 
lidade essencial do sér pensante; quer dizer, que sendo o 
homem limitado pelo tempo e pelo espaço os seus conhe- 
cimentos não podem ultrapassar os limites impostos por es- 
tas duas relações fataes inherentes á nossa naturesa. Ac- 
ceitando estas duas relações, o Positivismo alarga a limita- 
ção do tempo pelo critério scientíQco. da historia e pelo 
complemento do individuo na humanidade; no século ivi, 
Sanches não podia tirar esta lúcida consequência, não só 
porque a historia era então a biograpbia dos reis, e as na- 
ções eram inimigas por causa dos ódios dynasticos, não po- 
dendo sentir a solidariedade humana, revelada por Pascal. 

A limitação no espaço, segundo o Positivismo, leva o ho- 
mem a formar uma noção menos illusoria do seu destino 
sobre a terra, e a juigar-se feliz realisando a sua finalidade 
social. O libello de Sanches não é uma philosophia, mas 
sim^ o maior esforço tentado antes de Bacon para a reor- 
ganisação das sciencias como. base preparatória d'essa syn- 
these; como Augusto Comte, Sanches lambem teve o in- 
tuito de estabelecer o regimen scienlifico, e não o prazer 



B ARTB PORTUGUBZA 281 



pessoal de derrubar os erros das escholas dialeticas do 
seu século. Sanches afiQrma no fim da sua obra: <0 meu 
intuito é estabelecer a sciencia, quanto por mim possa, 
em base firme e fácil; deixando as chimeras e phantas** 
magorias que são extranbas- á verdade da realidade, e por 
isso aptas para alardear a subtilèsa de engenho de quem 
escreve, e não para ensinar.» Era este o tfabalho princi- 
pal para a creação de uma nova philosophia; nenhuma obra 
resta de Sanches por onde se veja que reaiisou um tal pla- 
no, mas ainda que o houvesse tentado e levado a elTeito, 
os elementos scientificos do seu século eram ainda incom- 
pletos e haviam de annuUar-lhe os esforços, como aconte- 
ceu a Bacon, Descartes, a Locke e Hume, os quaes, pela 
mesma causa não poderam levar a cabo a concepção univer- 
sal de Augusto Comte. 

Por ultimo, terminaremos com uma observação dos pro- 
cessos mentaes de Sanches, análogos aos deComte; todos 
sabem que o fundador do Positivismo, durante o trabalho 
da sua vasta synthese se privou systematicamente de todas 
as leituras; assim procedeu Sanches: «Vendo que me não 
era possivel apprender cousa alguma nos livros, concen- 
trei-me na minha actividade, e, como se cousa alguma hou- 
vesse sido dita, comecei por examinar as cousas em si 
mesmo,» 

Por todos estes factos devemos considerar o portuguez 
Francisco Sanches não como.sceptico isolado no rigor da 
sua logicá, mas como um precursor espontâneo do Positi- 
vismo, que exerceu unh acção imponente na direcção scien- 
tiflca do século xvii, e que por não ter assistido á renova- 
ção mental d'esse século^ é que não construiu a philoso- 
phia nova por falta dos elementos necessários para uma 
synthese unanime e definitiva ^ 



1 Citaremos aqoi ama moDOgraphia alIemS sobre este phílosopho, ínlila< 
lada: Franc. Sanghbz. Ein Beitrag zur Geschichte der philosophischen Bewegun* 
gen in Aoíangi der neueren Zeit. Wien, 1860, em 8.« gr. de iy — 14S pp. 



HISTORIOGRAPHIA INSDUNi 



Entre as diversas riquezas litterarias que a nossa incú- 
ria portugueza deixara ficar inéditas com o risco de mais 
tarde se duvidar da sua existência, citámos a p. 105 da Bi- 
bliographia critica, o livro do dr. Gaspar Fructuoso, intitu- 
lado Saudades da Terra; não se passaram muitas semanas, 
recebíamos da Ilha da Madeira uma* c^rta do dislincto pro* 
fessor Álvaro Rodrigues de Azevedo, em que nos dizia: 
. cNo ultimo numero da Bibliographia, falia o meu amigo nas 
Saudades da Terra. Ai tem impressa a parte delias que 
respeitam a estas ilbas, com notas minhas . . . Desculpe-me 
o remetter lhe o livro incompleto. Estou a publicar o rçsto, 
etc.» * A reproducção d'esse precioso raanuscripto do século 
XVI, o único subsidio para a historia das colónias portugue- 
zas dos Açores e Madeira, e a grande riqueza de notas com 
que o seu editor o elucidou, sao o mais solemne protesto 
da iniciativa individual contra a somnolencia da nossa Aca- 
demia das Sciencias e contra os subsídios immoraes com 
que o governo costuma açaimar algum bandido politico. 
Longe de um centro litterario, sem os materiaes precisos 
para a investigação histórica, tirando aos ócios da sua pro- 
fissão os momentos fervorosos do estudo, e ao pão quoti- 
diano de si e da sua família os meios pecuniários para res- 
tituir a Portugal um livro importante esquecido nas biblio^ 
thecaS; conseguindo quasi sempre attingir a verdade á custa 
de um raro senso critico, e não esperando recompensa of- 



^ Saudadet da Terra, pelo dr. oaspar fructuoso. Hi^loria das Ilhas do Porto 
Santo, Madeira, Desertas e Selvagem. Matiascripto do secalo xyi. Faochal, 
Typ. Funchalense, 1870-73; 1 toI. de 310 p. (texto) e de 311 a 900 (notas.) 



QUESTÕES DE LITTERATURA E ARTE PORTUGUEZA 283 

ficial nem favor da parte do publico, o sr. Álvaro Rodri- 
guês de Azevedo, mostrou assim, que o seu nobre amor 
pela sciencia vale lufloitameute mais do que uma corpora- 
ção de cabelleiras auctoritarias, ou as veniagas obscuras de 
um ministro. Esse livro, do qual dizia D. António Caetano de 
Sousa, em 1716: ta escondida e sempre desejada Historia 
das Ilhas, que conipoz o dr. Gaspar Fr uctuoso,^ só conseguiu 
a luz da publicidade á custa dos esforços de um mal remu- 
nerado professor, em 1873. Bem haja a iniciativa indivi- 
dual, que ainda tem em si recursos para protestar de um 
modo tão serio e eloquente contra esse systema governa- 
tivo de atrophiamento, chamado centralisação, cuja activi- 
dade se consomme toda em corromper maiorias, nomear 
commissões, fazer relalorios e reprimir preventivamente. 

O livro do dr. Gaspar Fructuoso, foi escripto até ao anno 
de 1590, como se deprehende do próprio texto; faltando 
de Tristão Vaz da Veiga : ^Lserá n'esta era de 1590 de edade 
de cincoenta e trez annos...j» (p. 1^9.) Esta data serve 
para mostrar a importância dos subsidies de que se serviu 
para a historia das Ilhas, e para a historia externa do sei> 
manuscripto. Na biographia que o padre António Cordeiro 
escreveu, (Hist. Ins., 1. ii, c. a) diz que o dr. Gaspar Fru- 
ctuoso morreu de quasi setenta annos «dia de S. Bartholo- 
meu do anno de 1591,» e que «não de todo se ausentou 
dos seus tam amados Padres da Companhia, porque além 
de lhes deixar a livraria que tinha, de mais de quatro cen- 
tos volumes impressos, e dezeseis manuscriptos de sua Tkeo- 
hgia de sua própria letra; d'esta também lhe deixou um 
grande tomo; chamado commumente Descobrimento das Ilhas, 
e a que elle intitula Saudades da Terra, e lhe hia ajuntando 
outro, a que chamavam Saudades do Céo : e se os livros que 
um auctor compõe são os filhos da sua alma, . . . bem po- 
demos dizer que nem de todo se ausentou dos seus Padres 
da Companhia . . . pois lhe deixou sua alma e muyto espe* 
cialmente em um tal seu livro, que a Companhia teme guarda 
como reliquia sua e de singular estima.it (Op. cit., p. 46.) 
Quando os Jesuitas foram expulsos de Portugal, ao chegar 
a fragata Graça á Ilha de S. Miguel com a ordem do Mar- 
quez de Pombal, o reitor do Collegio de Ponta Delgada, 
em presença da corporação entregou o manuscripto de Gas- 
par Fructuoso a António Borges de Bettencourt, então go- 



384 QOBSTOES de LITTBRATU!IA 

verDador da Ilha de S. Miguel para que o conservasse. Her- 
dou o livro das Saudades da Terra o Ouvidor Luiz Bernar- 
do, Vigário da Alagoa; d'este o herdou também José Velbo 
Quíntanilba, d*onde passou por compra pa^a a m3o do in- 
clyto açoriano o faliecido visconde da Praia. Do manuscri- 
pto original existem duas copias conhecidas, uma tirada peio 
Corregedor Veiga, que se guarda na Bibliolheca publica de 
Lisboa, e, outra que extraiu o erudito morgado João da Ar- 
ruda, authenticada por dois tabeliiães, e que actualmente 
possue o sr. José do Canto. Quando aos setenta e seis annos 
de edade o padre António Cordeiro recebeu ordem de Roma 
do Geral dos Jesuitas Miguel Angelo Tamburiní para dar á 
estampa todos os seus manuscriptos, é que imprimiu um 
extracto do livro manuscripto de Fructuoso, dando-lbe uma 
disposição mais metbodica nas matérias; por vezes já no 
nosso tempo se procurou imprimir, mas sempre debalde, 
as Saudades da Terra; ignoramos o motivo porque o illus- 
tre açoriano José de Torres, possuidor de uma vasta biblio- 
theca de monumentos insulanos, retardou até fallecer a 
publicação dos seus trabalhos; é certo porém que hade ca- 
ber sempre ao sr. Álvaro Rodrigues de Azevedo a gloria 
de haver quebrado os sellos d'essa €e$condida e sempre de- 
síjada Historia dàs Ilhas. 9 Qus^ndo Gaspar Fructuoso escre- 
veu, os subsídios que tinha ao seu alcance, e que por ven- 
tura formavam a sua livraria, eram: João de Barros^ a quem 
chama mui docto e curioso, (p. i4) Damião de Góes, a quem 
chama grave e docto, (p. 11, 14 e 16) Garcia de Resende, 
simplesmente curioso, (p. 12) António Galvão (p. 18 e 43,) 
e Jorge de Lemos, thum livro, que se imprimiu em Lis- 
boa no anno de 85, o qual me remctteu.^ (pag. 135.) A Chro- 
nica da Conquista de Guiné, de Azurara, ainda estava ine* 
dita; mas cita-a pelaimctoridade de João de Barros, (p. 18.) 
Os subsídios manuscriptos de que Fructuoso se serviu 
quasi que nos recompõem a hístoriographia insulana no sé- 
culo XVI. Primeiramente cita uma Historia da Ilha da Ma- 
deira; (p. 18) que livro será este? Não pôde ser senão uma 
relação attribuida a Gonçalo Ayres Ferreira, companheiro 
de João Gonçalves Zarco, ampliada pelo cónego madeirense 
Hieronyfaio Dias Leite, como vamos vêr. Em 1566 a Ilha 
da Madeira foi atrozmente saqueada por três corsários fran- 
cezes; o dr. Gaspar Fructuoso ao saber do estado desgra- 



E ARTE P0RTU6UBZA 285 



çado em que ficara essa população, tratou logo de promo- 
Ter soccorros na Ilha de S. Miguel: «sabendo que alguns 
Piratas francezes tinham entra()o e roubado a Ilha da Ma- 
deira, persuadiu á Mrserícordia de S. Miguel, que pelas ca- 
sas dos ricos tirassem esmola de dinheiro, e o mandassem 
á Misericórdia da I^adeira, para acudir aos roubados mais 
pobres; e acompanhando o mesmo doutor os què tiravam 
a esmola, tirou maior somma de dinheiro, com que fez logo. 
acudir á roubada Ilha...» (Cordeiro, op. d/., p. 44.) É 
d'aqui que datamos as suas relações com o antiquário da 
Ilha da Madeira Jeronymo Dias Leite, a quem mandou pe- 
dir o manuscripto de Gonçalo Ayres Ferreira, por interven- 
ção de Belchior Fernandes de Castro, da cidade de Ponta 
Delgada, e do negociante de atacado Marcos Lopes: «era 
grave, prudente, docto e curioso (o conde capitão João Gon- 
çalves da Camará) em tal forma que, por esta rasão . . . tra- 
zia no seu escriptorio o Descobrimento da Ilha da Madeira, 
o mais verdadeiro que até agora se achou; o qual dizem 
que foi feito por Gonçalo Ayres Ferreira, que foi a desco- 
brir a mesma Ilha com o primeiro Capitão João Gonçalves 
Zargo; e como este Descobrimento competia aos Capitães da 
mesma Ilha, elles o traziam nos seus e^criptorios. como 
cousa hereditária, de descendentes em descendentes. E sendo 
pedida informação d'esta Ilha da Madeira da minha parte 
ao Reverendo Conigo da See do Funchal, Hyeronimo Dias 
Leite, tendo elle visto em poder do dito Capitão João Gon- 
çalves da Camará, lh*o mandou pedir a Lisboa, onde então 
estava, e elle o mandou trasladar pelo seu camareiro Lu- 
cas de Saa, e lh'o mandou escripto emnrez folhas de pa- 
pel, da letra do dito camareiro; e por sua carta (porque o 
Descobrimento não faz menção disso) lhe mandou dizer, que 
Gonçallo Ayres Ferreira, o qual fora um dos criados que o 
Zargo, primeiro Capitão,, lá levara, escrevera tudo aquillo 
que viu com os seus olhos, e, como não era cijrioso nem 
homem docto, o notara com ruda minerva, sem ai compos- 
to; pelo que, ajudando-me o Conigo dos Tombos das Ca- 
marás de toda a Ilha (que todos lhe foram entregues) con- 
certasse e recopilasse tudo o melhor que pudesse, como 
com eflfeito, docta e curiosamente recopilou e coippoz. — E, 
porque Gonçallo Ayres Ferreira, que a este Descobrimento 
deu principio, fqi hum dos principaes homens que houve 



S86 qcestCbs de littbratdiu 



na dita Ilha, donde procede a mais nobre, grande e antiga 
geraçSo que ha n^ella, os parentes, havendo noticia d este 
papel e da carta que de Lisboa viera ao dito Conigo. na 
qual se diz que Gonçallo Ayres era criado do dito Zargo, 
levaram-lbe um Alvará feito na éra de 1430, do Infante D. 
Henrique, que o mandou a este descobrimento, e diceram- 
Ihe qne Gonçallo Ayres n3o era criado do Capitlo, senão 
companheiro, como constava do filhamento do dito Alvará, 
que* lhe chama companheiro do dito Zargo. E soo isto vae 
mudado do primeiro papel e original, que começa pela pri- 
meira pessoa do plural, dizendo: € Chegamos a esta Ilha a 
quepuzemos o nome de Madeira, etc.» ... E de Gonçallo Ay- 
res, tronco d'esles, todos elles dizem que fez o Descobri- 
mento da Ilha da Madeira^ na verdade escripto, como dice, 
em três folhas de papel: e o Reverendo Conigo, não menos 
docto que curioso Hyeronimo Dias Leite, Capei Ião de Soa 
Magestade, depois o recopilou e acrecentou, e lustrou com 
seu grave e polido estylo, escripto em onze folhas de pa- 
pel, e m'o enviou, sendolhe pedido por rainha parte, por 
intercessão do nobre Belchior Fernandes de Castro, mora- 
dor na Cidade de Ponta Delgada, d'esta Ilha em qne esta- 
mos, e por lhe mandar pedir a meu rogp o mui magnifico 
Marcos Lopes, mercador de grosso e honroso tracto que 
foi n'esta Ilha de S. Miguel, mui estimado e amado n*ella 
por suas boas partes, e magnifica condição, e agora resi- 
dente em Lisboa, com grande casa e mayor^ome: de cuja 
escriplura, e de outras muitas informações, que procurei 
haver de diversas pessoas da Ilha da Madeira e de outras 
partes, todas dignas de fee, e de outras cousas que vi e 
li, collegi eu e compuz todo este processo do descobrimento 
da dita Ilha, ordenando, arrumando, diminuindo, acrecen- 
tando, e pondo tudo em capítulos, da maneira que estou 
contando.» (Historia das Ilhas, cap. l. p. 303.) Em 1572, foi 
promovido%á dignidade de meio cónego, Hieronyrao Dias 
Leite, como descobriu no Archivo da Sé do Funchal o sr. 
Álvaro Rodrigues de Azevedo (op. ciL, p. 780); portanto 
Gaspar Fructuoso chamando-lhe Conigo escrfeve muito de- 
pois d'esta data, que pôde determinar-se por 1579, tempo 
em que João Gonçalves da Camará eslava em Lisboa. (Op. 
cit., p. 302.) No principio do seu trabalho, allude Fructuoso 
á ^Historia e informação dos tllustres Capitães da Ilha da 



B ARTB P0RTU6UBZA ^87 



Madeira, que de peuna anda escrípta, e ea alcancei ver por 
meyo do muylo curioso e Reverendo Hyeronimo Dias Leite, 
Conigo na See do Funchal, que a coliigio e compoz.» (p. 
20.) Gaspar Fructuoso cita este manuscripto de modo que 
faz suppõr ter lido presente a copia da primeira relação de 
Gonçalo Ayres Ferreira : «A alta progénie e successão d'el- 
les (filhos de Zargo) hirei contando . . . conforme ao que 
d'elles li em sua Historia, primeiro composta brevemente 
por Gonçalo Ayres Ferreira, e depois recopilada ou colle- 
gida com mais curiosidade pelo Reverendo Conigo Hyero- 
DÍmo Dias Leite, Capellão de Sua Magestade, e como tam- 
bém ouvi de outras pessoas dignas de fee . . . » (p. 265.) 
Além das tradições oraes, estas pessoas de fé, aqui alludi- 
das são: um frade fidalgo, natural da Ilha da Madeira, cu- 
rioso e lido, mQStrou ha poucos annos a ascendência does- 
tes Veigas. . . » (p. 124.); o tdoctissimo Doctor Daniel da 
Costa, Medico de sua magestade, pessoa nobre, de grandes 
letras e virtudes, residente na cidade do Funchal ...» (p. 
242,) que escreveu da ascendência do Bispo D. Luiz de Fi- 
gueiredo de Lemos; e uma devassa, escripta pelo escrivão 
de Machico Henrique Coelho; e a Relação do saco que os 
francezes fizeram na Ilha da Madeira, escriptas em 1566, 
por Simão Nunes Cardoso, a qual se conhece ter sido apro- 
veitada por Fructuoso pelo espirito de rivalidade entre as 
capitanias do Machico e Funchal, que transpira mesmo atra- 
vés do transumpto de Fructuoso, como judiciosamente nota 
o sr. Alyaro Rodrigues de AzevjBdo. (op. cit., p. 781.) Um 
dos argumentos por onde se prova a não existência da pre- 
tendida Relação do descobrimento da Ilha da Madeira, pelo 
Inglez Roberto Machim, attribuida a Francisco Alcoforado, 
companheiro de Zargo, é o silencio absoluto que a'respeito 
d'ella se acha em Gaspar Fructuoso. É verdade que Fru- 
ctuoso attende por vezes á tradição poética de Machim e 
Anna d'Arfet, (p. 19 e 25), mas tendo elle citado como 
subsidio das Saudades da Terra o Capitão António Qalvão, 
fica conhecida a origem das lendas, que veiu pela primeira 
vez á luz no Tractado de todos os Descobrimentos ^ de Antó- 
nio Galvão, em 1555. O sr. Álvaro Rodrigues de Azevedo, 
que por vezes confessa:- «Infelizmente não temos á vista a 
Bibliotheca de Machado, nem o Diccionario da Academia,» 
(p. 373) suppre estas faltas com um extraordinário tino cri- 



28ft qubstObs de littbbâtorâ 



tico; faz lembrar o preso a quem o amor pela liberdade 
lhe ensina os meios para furar com um prego uma mara- 
lha. N'esta questão da lenda de Machim, que se ^iga á au- 
thenticidade das primeiras chronicas insulanas, o distíncto 
professor do Lyceu do Funchal corrige sempre com vanta- 
gem o inglez Major; para elle, depois de um palpável pa- 
radigma entre a Relação de Alcoforado e a Epanaphora, de 
D. Francisco M. de Mello, toma-se esse primitivo monumen- 
to: cuma mera fraude, e t3o boçal, que figurando se ai ser 
Alcoforado da expedição de Zargo, noanno de 1 420, nao ob- 
stante, ahi apparece Alcoforado a referir-se á cidade do 
Funchal a qual só em 1508, por carta de D. Manoel cidade 
foi, como adiante se verá ; a alludir á Ásia de João de Bar- 
ros, cuja primeira Década só foi dada ao prelo em 1552, 
etc.» (p. 353.) Para annotar o livro de Gaspar Fructuoso, o 
sr. Álvaro Rodrigues de Azevedo procurou todos os monu- 
mentos históricos de que ha noticia: to Tratado das Novas 
Ilhas, inédito hoje perdido, e obra de Francisco de Sousa, 
natural do Funchal. . . > (p 777) * a Insulae MateriaSy do 
Padre Manoel Constantino, natural do Funchal, historia do 
archipelago, impressa em Roma em 1599, onde o auctor 
era lenle de Philosophia, (p. 780) e bem assim as Antigui- 
dades da Ilha da Madeira, manuscripto inédito de António 
Velloso de Lyra, cónego e governador do bispado do Fun- 
chal, fallecido em 1691 (p. 780); as Memorias sobre o au- 
gmento e creação do Estado ecçlesiastico na Ilha da Madá- 
ra, anonymas (p. 788); o Nobiliário de Henrique Henriques 
de Noronha, intitulado FamUias da Ilha da Madeira, (p. 78C) 
escripto sobre materiaes antigos, (p. 777) e bem assim o 
Nobiliário Madeirense de João Agostinho Pereira de Agrella 
e Camera. (p. 799.) O sr. Álvaro R, de Azevedo logrou vêr 
muitos doestes monumentos, completando assim a historia 
da Ilha da Madeira desde 1591 até nossos dias ; põdese di- 
zer que a reproducção d'qssa parte das Saudades da Terra 
relativa á Madeira, que occupa trezentas e dez paginas, è 
um pretexto para a grande continuação histórica, que a 



1 Foi eDcontrado entre os lis. da BiblioUieca da llDÍve-^idade de Coimbra 
DOS Papeis politicos e históricos n.® 620 e na Miscellanea n.** i35. O sr. I)r> 
Erneslo do Canto publicoa o Tratado das Mas Novas em Ponta Delgada, em 
1877, com notas criticas. 



B AUTE portuguezà 289 



acompanha, illustrada com um grande numero de documen- 
tos ignorados, dos archívos do Funchal. Que vergonha para 
a Academia, para as Commissôes históricas, para os sub- 
sidiados do governo; e islo feito por um homem a quem 
se procurou fechar o accesso ao magistério I 

O livro do dr. Gaspar Fructuoso, escripto em 1590, terh 
todos os defeitos da sua época, e nenhuma das bellezas 
d'ella; tendo o seu auctor consultado os historiadores Bar- 
ros e Damião de Góes, os que tiveram o maior senso cri- 
tico, não chegou a ser mais do que um diffuso chronista, 
sem plano, sem alcance philosophico, sem o critério para 
distinguir d'entre as pequenas anedoctas quaes são aquei- 
las que revelam a vida, moral do passado. O seu estylo é 
affectado e falso . • . ; uma pequena amostra basta para o 
caracterisar; eis os meios que emprega para narrar a de* 
cadencia da Capitania de Machico: «Quem vir no arripiado 
frio de inverno as arvores seccas sem fermosura alguma, 
os campos sem verdura, os tempos chuvosos, as agoas tur- 
vas, os ares obscuros, as nuvens negras e carrancudas; o 
espantoso ronco dos horrendos trovões; os rayos de foga 
dos terrivilissimos coriscos, matando a alguns humanos e 
brutos, consumindo licores, derretendo metaes, e assolando 
soberbos edifícios, e fendendo as inexpugnáveis e altas tor- 
res, dirá que toda a machina do mundo se arruina e que 
tudo se acaba, e cuidará que tudo é uma sombra (íé raorte,^ 
sem esperança de tornar a viver o que assi vê amortecido. 
Mas tornando a voltar o Sol no Zodiaco sobre a mesma zona 
ou cinta da terra, começando-lhe a communioar seu calor 
em seus dourados rayos, logo se verá tudo se vir douran- 
do, abrolhando e revivendo com novas plantas e cores, e 
o que d'antes parecia triste e feyo, tornandose alegre, for- 
moso e deleytoso. Assi, ainda que acabei agora de contar 
como se extinguiu a Capitania do Machico no quarto Capi- 
tão d^ella sem lhe ficar herdeiro, e dos mais capitães quinto, 
sexto e septimo, que fora de sua geração foram, sem hir 
a ella até outra vez ficar á Coroa, dizendo que estas voltas 
dá o mundo, querendo entender de bem para mal; agora 
tornando a dizer á volta que deu de mal para bem, vos 
contarei huma cousa estranha de quanto maior bem tem 
presente em o illustre Capitão Tristão Vaz da Veiga ...» 
(p. 122.) Esta falsa ideia do estylo prevaleceu depois na 

* 19 



290 . QUESTÕES DE LITTBRATDRA 

historia portagaeza, levada ao seo maior exagero por Frei 
Luiz de Sousa e Jacintho Freire de Andrade. Mesmo na 
forma imperfeita de cbronica as Saudades da Terra tem a 
importância do que è ingénuo; fundadas em grande parte 
sobre tradições oraes, ha aii factos ethnologicos que piotaoi 
a vida nos séculos xv e xyi. A persistência dos costumes, 
que explica tantos phenomenos e problemas históricos, ali 
se vè claramente; ainda hoje a Ilha da Madeira se faz re- 
presentar na industria pelos seus excellentes lavrados de 
agulha e pelos brinquedos de vime. Fructuoso descreve es- 
tes velhos hábitos locaes: cTambem ha páos de louro, e 
nas faldras da serra, da banda do sul, muita giesta . . . e 
d'ella se colhe a verga, que esbrugam como vimes, de que 
se fazem cestos brancos mui galantes e frescos para serviço 
da meza, e ofifertas de baptismos, e outras cousas, por se- 
rem muito alvos e limpos;, e se vendem para muitas partes 
fora da Ilha e do Reyno de Portugal, porque se fazem mui- 
tas invenções de cestos mui polidos e custosos, armandose 
ás vezes sobre um, dez e doze diversos, ficando todos jun- 
tos em uma peça só; e para se fazerem mais alvos do que 
a verga he de sua natureza, ainda que muito branca, os de- 
fumam com enxofre.» (p. 105.) E quanto á industria dos 
bordados, diz: «as delicadas mulheres da Ilha da Madeira, 
que, além de serem mui bem assombradas, mui formosas 
e discretas e virtuosas, são extremadas ... em todas as in- 
venções de ricas cousas que fazem, não tão somente em 
pano com poíidos lavores, mas também em assucar com 
delicadas fructas.» (p. 200.) Povo de organisação artística, 
em quanto teve um forte elemento genovez na sua popu- 
lação, foi industrial; a cultura do assucar, hoje renovada, de- 
veu o seu desenvolvimento a esses colonos, dos quaes diz 
Fructuoso, referindo-se a Raphael Catanho: «genoez, como 
grande sprito que tem, como quase todos os estrangeiros e 
principalmente os doesta nação ...» (p. 78.) Á medida que 
a raça se foi apurando, voltou á sua passividade; foi ali que 
as tradições poéticas da Tavola Redonda se conservaram 
mais tempo, como vemos pela crença na Illja encoberta, re- 
miniscência de Avalon, no nome de Hiseua, (Iseult) de Tris- 
tam, (p. H3) de Lançarote, (p. 115) e até de Grímaneza 
(p. 117) da novella do Amadis, da qual por ventura saiu o 
nome de Gaula, para uma pequena localidade da Ilha da 



B ARTE P0RTD6UBZA 291 



Madeira. Da tradição popular colheu o sr. Akaro Rodrigues 
de Azevedo um romance popular, intitulado D. Euríves (p. 
768), que é a tradição da rainha Genebra, como se vê não 
sõ pela acção épica, se não pela identidade entre Geuniwar 
e Eurives *. Sobretudo o genjo musical, tão manifestamente 
representado no theorico Francisco de Valhadoiid, (Vid. Vas- 
concellos. Mus. port., t. ii, p. 229) começou muito cedo a 
revelar-se na Ilha da Madeira. Os dois celebres músicos 
Gaspar Coelho e Francisco Coelho pertencem ao século xvi ; 
d'elles escreve Fructuoso: «N'este logar (da Ribeira Brava) 
nasceram os Coelhos, Conigos da See do Funchal, estrema- 
dos homens de ricas vozes. Hum d'elles, chamado Gaspar 
Coelho, foi mestre da Capella da See muitos annos; e Fran- 
cisco Coelho, seu irmão mais moço, sendo conigo, foi tam- 
bém mestre da capella d'el-rei na côrle.» Cp. 94.) Estes 
dois artistas faltam na já opulenta lista do nosso musico- 
grapho J. de Vasconcellos. O madeirense D. Manoel de No- 
ronha, que foi bispo de Lamego também se distinguiu pelo 
seu gosto musical: «mandou fazer os Órgãos, que são muito 
para vêr, porque era muito inclinado á musica, e por isso 
tinha grande capella em sua casa antes de ser Bispo, e de- 
pois de o ser, de muitos cantores porluguezes e castelha- 
nos, a quem dava bons prémios e partidos; etc.» (p. 180.) 
O pae d'este prelado, o opulento Simão Gonçalves da Ca- 
mará, tinha: «huma Capella de muitos cantores e capellães, 
que competia com a de El-Rei : e era Mestre d'esta Capella 
hum Diogo de Cabreira, castelhano mui destro na arte de 
canto e de órgão, e tal que o próprio Rey lhe pediu para 
cantar na sua capella.» (p. 189.) Fruòtuoso cita também 
como protegido d'este fidalgo: «hum Conigo da Sé do Fun- 
chal, chamado Vicente Martins, natural do Algarve . . . Era 
este Conigo a melhor voz de contrabasso que até ao seu 
tempo houve em Portugal e mui destro no canto, além de 
ser bom latino : e diante do Papa (Leão x) mostrou sua ha- 
bilidade na Capella, com que foi mui louvado e estimado 
de todos, e lhe faziam em Roma bom partido pela sua fal- 
ia.» (p. 190.) Este fidalgo Simão Gonçalves da Camará «foi 
musico dé vontade, pelo que teve grande capella de extre- 



Gp. irmão do lat. germanus e Elvira do lat. Geloira. 



292 qubstObs db litteratura 

mados cantores e tangedores a. quem fazia grandes parti- 
dos» (p. 195); era assim que elle imitava a aristocracia coq* 
liDehtal, toda apaixonada pela musica. Os Bispos também 
contribuiam para o desenvolvimento da musica; de D. Jorge 
de Lemos, nomeado bispo para o Funchal em 1558, diz 
Fructuoso: te houve elle de Sua Alteza renda para o Mes- 
tre da Capella que trouxe comsigo, e em seu tempo lus- 
trou muito a musica, n'aquella terra, porque o Bispo favo- 
recia os cantores e musicas, por o elle o ser muito de sen- 
tido ; pelo que, fez para Regimento da Sé uns capítulos dos 
officios ...» (p. 223.) Por ultimo, Fructuoso, cita' o mes- 
tre da Capella do Funchal em 1566, •Sebastião Mendes, tan- 
gedor da See, coxo e tolheilo de ambas as pernas, que não 
andava senão em duas muletas ...» (p. 262.) 

Além doestes curiosos dados musicaes, traz Fructuoso, a 
interessante historia do serralheiro Gaspar Borges, o qual 
cEnsinou a todos os serralheiros da cidade de Ponta Del- 
gada o concerto e feitio da arcabuzaria e armas, tanto que 
o que d*elle não aprendeu não as sabe bem fa;^er, como he 
notório. Fez as balanças da Alfandega doesta ilha e da Ter- 
ceira, que são peças reaes e de grande desengano ... Fez 
o relógio da cidade e de Villa Franca e renovou o da Ri- 
beira Grande, tudo em preços baixos a respeito da delicada 
obra que fez. Fez alguns ferros de oslias para as egrejas 
doesta Ilha e de todo este bispado ; o que cumpre de armas, 
espingardas novas, assi de pederneira, como de fogo; gra- 
des para a Alfandega e para a Capella do Sancto Sacra- 
mento, da villa da Ribeira Grande, que não acabou; e ou- 
tras obras, em nobrecimenlo e honra da terra e serviço de 
el-rey : e comludo vive pobre, tendo tão rico engenho.» (p. 
29 1 .) A scena mais curiosa e dramática dos costumes da 
aristocracia insulana, é a narração dos violentos amores de 
António Gonçalves da Gamara por D. Isabel de Abreu, em 
1531. (p. 197.) O assassinato de D. Aldonça Delgada por 
seu marido Bertholomeu Palestrello, para tornar a casar 
com D. Solanda faz lembrar talvez a origem histórica da' 
tradição da Silvana, que exige a morte da esposa do Conde 
Alarcos para casar com elle. (p. 52.) O nome de Delgadina 
de um romance asturiano fortifica algum tanto esta hypo- 
these. Felizmente as tradições populares da Ilha da Madeira 
comeQ^am a ser hoje coligidas e estudadas pelo dr. Álvaro 



I 

y 



B ARTE P0RTU6UBZA 293 



Rodrigues de Azevedo, que n'esta importantissima publi- 
cação dá conta dos primeiros resultados da sua explora- 
ção^, (p. 766.) Âs DOtas que acompanham as Saudades da' 
Terra s3o completas moDOgraphias, que se agrupam em 
Yolta das asserções de Fructuoso. Apontaremos algumas, 
de grandíssimo trabalho, interesse e novidade, como sobre 
a Ordem de Christo, a discussão dos descobridores da Ilha 
da Madeira, lendas primitivas, como a de Machim, a histo- 
ria administrativa, jurídica e económica, genealogias, or- 
dens religiosas, milicia, e sobretudo o que diz respeito a 
iQStrucçlo publica e Litteratura. N'esta parte traz o sr. AI- 
yaro, Rodrigues de Azevedo algumas correcções ao nosso 
livro Poetas ^Palacianos do século xv, quando tratámos do 
cyclo poético da Ilha da Madeira; as suas observações sâo 
sempre justas. O poeta Tristão Teixeira, Capitão do Machí- 
CO, que figura no Cancioneiro de Resende, e julgávamos ser 
o primeiro donatário, prova elie ser o seu, filho chamado 
Tristão Teixeira das Damas, do qual escreve Fructuoso: 
«Tristão Teixeira das Damas, primeiro do nome, e segundo 
capitam de Machico. Chamou-se das Damas, porque foi 
muito cortezão, grande dizedor, e fazia muitos motes ás da- 
mas, e era muito eloquente no fallar. Foi muito valido, pre- 
zado, ufano da sua pessoa, e de bons ditos, e sobretudo 
bom cavalleiro. Foi casado com Guiomar de Lordello, dama 
da Excellente Senhora ...» (p. 116.) Do celebre João Go- 
mes da Ilha, que .tanto figura no Cancioneiro de Resende, 
dá-nos a noticia, que fora «um dos primeiros povoadores 
da Ilha da Madeira, o qual morou juncto da ribeira, ainda 
boje conhecida pelo nome de João Gomes. Teve o cognome 
' de Trovador, e também o da Ilha; foi pagem do Infante D. 
Henrique, e falleceu em 1495.» (p. 523.) O poeta Manoel 
de Noronha, que julgámos terceiro capitão da Ilha da Ma- 
deira, era o iquarto filho de João Gonçalves da Gamara e 
de D. Maria Ae Noronha, companheiro de armas dos outros 
poetas do Cancioneiro, Nunes Fernandes de Athayde, Hen- 
rique Henriques, e Lopo Barriga, (p. 171.) O critério lit- 
terario do sr. Álvaro Rodrigues de Azevedo, já estava pro- 



^ Qoje tem impresso o Romanceiro do Archipelago da Madeira^ de orna ri- 
queza extraordinária de tradições populares. 



294 QDESTÕBS DB LITTBRATURA B ARTB P0RTU6UBZA 



vado anteriormente do seu Esboço critico, em qae pulve- 
risou um deplorável livro que está arreigado no ensino of- 
ficíal, intitulado Bosquejo histórico de. Litteratura clássica, ^ 
que tem corrompido o desenvolvimento d estas disciplinas. 
A sua excellente edição das Saudades da Terra vem pro- 
var que a esterilidade do professorado em Portugal, e a 
aridez da vida forense, nao annullaram D*elle a dedicação 
pela sciencia. Se entre nós existissem medalhas para boQ- 
rarem os trabalhos mais prestantes da historia, com cer- 
teza caberia a este uma digna homenagem ; mas a verda- 
deira recompensa começará quando a sciencia europêa re- 
correr ao seu livro, como ao único subsidio para a historia 
das Ilhas desde 1591 até nossos dias. O celebre geogra- 
pho Avezac pediu-nos o livro com empenho, e acbou-lhe 
extrema importância. O desinteresse d*este trabalho, torna* 
se reparado finalmente, como occuliou o seu nome, esqui- 
vando-se assim á gloria que lhe compete. . 



o ABBADE ANTÓNIO M GOSTA 



Nos seus interessantissimos trabalhos sobre a historia da 
musica portugueza, o sr. Joaquim de Vasconcellos descobriu 
nos escriptos do celebre musicographo inglez Buruay, so- 
bre o estado da musica na Allemanha, a noticia de um por- 
tuguez totalmente desconhecido entre nós, que era extraor- 
dinariamente admirado na alta sociedade de Yienna em 
177á pêlo seu caracter tão independente como o de Rous- 
seau, e pela originalidade do seu genío artístico. O retrato 
que d'elle faz o erudito Burnay revela um typo notável, que 
honrou bastante o nome portuguez, e provoca um vivo de- 
sejo de conhecel-o de mais perto; apenas se sabia que se 
chamava António da Costa, mas em Portugal nem o seu 
nome se conservava na tradição da arte nacional. Na Biblio- 
theca de Lisboa encontrou o dr. Ribeiro Guimarães um ma- 
nuscripto doado pelo antigo bibliothecario António Ribeiro 
dos Santos com o titulo : Cartas curiosas que escreveu An- 
tónio da Costa de varias terras por onde andou a varias pes- 
soas da cidade do Porto, (iv p. inn. 110 p. in-4.®) O dr. 
Guimarães era bastante curioso de documentos históricos 
para deixar de explorar o conteúdo d'e$tas Cartas, e len- 
do-as não^ poderia resistir á seducção crescente que ellas 
inspiram pela franca linguagem em que se revela um ca- 
racter verdadeiramente extraordinário. As cartas haviam 
sido transcriptas pelo sábio Ribeiro dos Santos, umas de co- 
pias secundarias e outras de autographos, d'onde se vê que 
ainda no fim do século xviir se conservava entre alguns in- 
divíduos do Porto memoria de António da Costa, e se sa- 
bia apreciar a sublime originalidade d'aquelle caracter. Da 
communicação do achado de Ribeiro Guimarães ao sr. J. 



296 QUESTÕES DB LITTBRATURA 

de Vasconcellos, veia para este ultimo o ensejo de verifi- 
car se o auctor das Cartas era ou d3o o typo descripto por 
Burnay, e do resultado aflSrmativo seguiu-se o dever de pa- 
blicar essas Cartas, não só como um monumento autobio- 
graphico do grande a;*tísta sobre quem pesava um injusto 
esquecimento, como de dotar a litteratura nacional com as 
paginas mais vivas que possue a língua nacional do século 
xvin ^ Foi um duplo serviço; podem exaltar as Cartas de 
Beckford, mas as de António da Costa são ainda mais bel- 
las, mais cheias de traços de uma individualidade exclu- 
siva. 

Na época em que o Abbade Costa viveu achamos apenas 
um caracter bistorico capaz de nos fazer comprehender pela 
comparação o seu superior desinteresse; é o auctor áo Pro- 
jecto da Paz universal, o predecessor dos Economistas, o 
Abbade de S. Pedro ; em quanto á franqueza das ideias e 
do seu criticismo é elle um digno contemporâneo de lord 
Bolingbrocke, o que inspirou a Voltaire a liberdade de pen- 
samento, e a Pope a Oração universal. O Abbade Costa me- 
rece ser conhecido como artista e como escriptor, m^s o 
homem que sobresáe das suas Cartas é ainda mais sympa- 
thíco. Tiraremos das treze Cartas que chegaram até nós os 
elementos bíographicos que se entremeiam por ellas. 

O Abbade Costa nasceu na cidade do Porto no anno de 
4714; esta data, importante para determinar o meio social 
em que se desenvolveu, acha-se determinada por quatro 
passagens das suas Cartas; em 20 de maio de 4754 escre- 
via: fCveu como já passo dos quarentas (p. 35); repetindo 
outra vez: ^vi-me com quarenta annos, e com uma inclina- 
ção natural desde criança á vida descahçada e retirada de 
todas as arengas do mundo ...» (p. 40.) Em outra Carta 
ao seu amigo, o dr. Luiz Gomes da Costa Pacheco, datada 
de 30 de agosto do mesmo anno, allude mais uma vezá 
sua edade: «Saiba Y. M. que cheguei. ao banco auctorisado 
dos quarenta; jouvado seja Deus t que já somos homens, e 
largámos os cueiros para sempre.» (p. 48.) Por ultimo, em 
outra Carta ao citado Doutor, de 24 de dezembro de 1774, 



1 Cartat curiosas do Abhade António da Cosia. Annotadas e precedidas de 
um ensaio biographico por Joaquim de Vasconcellos. Porto, Impreosa LiUera- 
ria Commercíal, 1879. 1 vol. io-8.<* xxti — 80 p. e 2% de notas. 



E ARTE P0RTU6DEZA 297 



«Dviando-lhe o seu retrato, accrescenta: «na edade de vita 
hominis sexaginta annis;^ e termina com um certo bom hu- 
mor: «peçoíhe que se fartem de rir, como eu faria, se 
visse os seus retratos com o accrescentosinho de vinte e 
cinco aonos.» (p. 68.) Se a data da saida de Portugal não 
estivesse bem authenticada em uma outra das suas Cartas, 
por esta se^delerminaria com certeza o anno de 1749. 

António da Costa era Blho de um negociante do Porto, 
de pequeno tracto, e cuja fortuna se achou arruinada ; ti- 
nha uai outro irmão, bastante dissipado de costumes, e elle 
próprio tentou primeiramente dedicar se ao commercio an- 
tes de começar a condescender com os amigos de sua fa- 
milia que o persuadiam com instancias que seguisse a vida 
ecciesiastica. Na Carta ix diz, alludindo aos bens que dei- 
xara o irmão: «Sei que d'essas poucas terras, se aioda 
eram suas, se assenhoreariam os credores antigos da ca- 
m.. .1^ (p. 59.) Na Carta x referese á mediocridade de 
meios de fortuna com que nasceu: «mas vae grande diflfe- 
rença de viver n'um estado pobre em que se pôde dizer se 
nasceu, e tornar para elle de outro menos pobre.» (p. QO.) 

Costa detestava a vida do commercio, como quem se vira 
condemnado pela familia a sacrificar-lhe â sua vocação ar- 
tística: «mas que geilo tinha eu para mercador? Pouco de- 
sejo ou nenhum de riqueza; pouca habilidade para com- 
prar ; para vender não fallemos ; pouca agilidade para acu- 
dir ás fazendas, a vêr umas, a acondicionar outras, a sur- 
tir outras, e enfeitai as; pouco animo para pedir dinheiro, 
para o arriscar em grande quantidade, e para o metter em 
negócios incertos, deixando me ficar sem elle, em perigo 
de não ter com que pagasse as leltras que viessem sobre 
mim.» (p. 40.) 

Costa descreve todas as operações commef ciaes que co- 
nhecia por ter vivido entre ellas ; e póde-se mferir que os 
seus primeiros annós foram passados na pratica do com- 
mercio, porque só* isto é que explica o facto da sua viagem 
a França, alguns annos antes da saida definitiva de Portu- 
pal em 1749. D'esta primeira viagem, de que regressou ao 
fim de pouco tempo, sem que ella influenciasse no seu ca- 
racter exageradamente franco, escreve : «yá quando da ou- 
tra tez. vim a França me deram pelo caminho mil arrepen- 
climentos da seccura com que muitas vezes tinha tratado 



298 QUESTÕES DE LITTBRATDRA 



ao sr. Pedro Pereira, e fiz mil propósitos de me emendar 
quando lá chegasse ; contive-me com trabalho os primeiros 
tempos, depois logo tornei ao meu natural.» (p. 39.) Esta 
circum.stancia fundamenta o facto, de que foi depois do re- 
gresso de França que António da Costa viveu dois annos 
no Marco de Canavezes, por ventura occupado no commer- 
cio: «Eu pasmo ás vezes quando considero na moderação 
com que me havia nas conversações aquelles dois annos e 
meio que estive em Canavezes, e na imprudência com que 
vim a .fallar diante de toda a casta de gente pelos annos 
adiante.» (p. 39.) Estes dois annos e meio devem Qxar-se 
antes da saida definitiva de Costa em 4749, e a começarem 
depois da primeira viagem de França; portanto esta não 
deveria ter sido anterior a 1745, e póde-se mesmo inferir 
que foi esta primeira viagem que lhe despertou o desejo 
de subtrair-se um dia ao meio asphyxiante da sociedade 
portugueza catholico-cesarista. Os amigos de Costa, conhe- 
cendo o seu natural sincero, desinteressado e com profun- 
das faculdades artisticas, empenhavam com elle todos os 
esforços para que se fizesse padre; era o caminho mais se- 
guro para se precaver contra as ciladas do Santo Officio, 
e para se elevar pelo talento musica^ porque então D. João 
V dispendia rios de dinheiro com as pompas exteriores ào 
culto. António da Costa chegou a receber as primeiras or- 
dens; na Carta vi o declara: cNunca fallo n'este. ponto de 
demissorias que me não lembrem os argumentos ôu as per- 
seguições com^ue me apertava o sr. Fernandes, com tanta 
zelo, para que me acabasse de ordenar, pondo-me o caso em 
escrupulo de consciência; o magano parece que adivinhava 
a minha transplantação para Roma, onde não é máo ser 
clérigo para um caso. de necessidade, e é certo que, se ea 
o fosse, escusava de andar até agora a buscar modos de 
viver por rebecas, francez (que até me&tre de francez fui 
aqui de dois portuguezes !) e outras jangadilhas bem contra 
o meu génio; conheço que n*este sentido tinha mil razões; 
mas que lhe hei de fazer, se me não vinha a cubica dos 
tostões das missas, nem adivinhava o que me havia de suc- 
ceder?» (p. 37.) O que succedeu foi o ter de sair repenti- 
namente de Portugal, a pé, pelo caminho de Galliza, por 
ventura para escapar a alguma perseguição. É este o prin- 
cipal problema da sua vida. 



£ ARTE PORTUGUEZA 299 



Porque motivo saiu ÂntODio da Costa do sçu paiz, sem 
recursos, entregue a todas as inclemências da sorte? Aqui 
divídem-se as opiniões; seria António da Costa christão 
novo, e como tal suspeito de mancha de judaismo? O nome 
de Costa é peculiar de famiiias de origem judaica; o ab- 
bade ridiculisa por vezes o preconceito dos portuguezes por 
trucidarem estupidamente esses pobres christãos que em 
Roma eram tão bem conceituados; mas nada justifica que 
fosse este o motivo da sua fuga, porque seu irmão morreu 
por causa de uma vida dissoluta sem que nunca fosse in- 
commodado pelo Santo OíScio. 

O caracter de António da Costa, franco na lingoagem, um 
pouco raciocinador em uma época de intolerância religiosa 
e de obscurantismo systematico, qualidades de que adverte 
os amigos para se absterem com reserva, postoque contri- 
buísse para lhe diíQcullar a vida em um meio tão depri- 
mente, não basta para explicar a sua fuga do Porto. Se lhe 
houvessem tentado qualquer começo de perseguição como 
livre pensador, ter-lhe-ía sido impossível obter as cartas de- 
missorias do bispado do Porto para poder receber em Roma 
as ordens sacras e fazer-se clérigo de missa. Isto é obvio. 

Para nós o motivo é outro; basta descrever o seu cara- 
cter impressionista, o meio artístico em que vivia^ emfim 
as condições da sua mocidade, para procurar o motivo da 
saída repentina de Portugal como produzido por intriga 
de amores. Na mesma Carta vi, em que Costa descreve a 
reluctancia em que estava, resistindo ás mais apertadas in- 
stancias dos amigos para completar as ordens, allude tam- 
bém á influencia de certa pessoa, que assim como por causa 
d'ella se não ordenava, também se com ella houvesse fal- 
tado, não se homisiaria no estrangeiro. Nem de um nem de 
outro facto sq arrepende; se tivesse fallado com essa pes- 
soa não teria deixado a pátria, mas não se ordenava; é as- 
sim que entendemos a collisão dos dois motivos que se de- 
bateram na determinação da sua vontade. Eis o texto, que 
melhor se comprehende recordando que António da Costa 
tinha trinta e cinco annos de edade, quando tomou a reso- 
lução inconsiderada de sair do Porto: cO mais è que nem 
agora, depois que conheço quam prejudicial ao meu des- 
canço € modo de vicer foi o não me te^' ordenado, me arre- 
pendo nem pouco nem muito de o não ter feito, assim como 



300 QUESTÕES DE LITTERATiniAi 



também me não arrependo de não ter foliado com uma pes- 
soa, por cuja porta passei quando sai d*abi, ou ao menos 
lhe vi a casa; que era a mesma pessoa que me fez sair; 
desejava fallar-lhe ; podia-lhe fallar n^aquella occasião ; ji 
então esperava que me serviria de muito o fallar com ella; 
e boje, pelo que soube aqui, entendo que o mais certo era 
dSo sair de Portugal se lhe fallava.» (p. 38.) Havia já cídco 
annos, que António da Gosta estava ausente de Portugal; 
isto que relata, escrevia-o ao seu intimo amigo o dr. Luiz 
Gomes da Costa Pacheco, grande amador de operas e co- 
medias, satyrico de costumes, bailador de minuetes, em 
cuja casa se davam excellentes concertos. 

O Doutor conhecia o caracter amoroso e apaixonado de 
Gosta, como este se retrata : t Quando eu era mpaz, o amor 
e outras algumas paixões que me moviam, me faziam mui- 
tas vezes arrepender de algumas cousas; etc.» (p. 38) A 
edade dos quarenta annos, como Gosta a define, era aquella 
em que se deixava os cueiros de vez ; por isso não errare- 
mos em considerar como cau^a de se n3o ter ordenado e 
de baver deixado o Porto uma questão^ de amores. Sabeo- 
do-se como Costa era inconciliável com a necessidade da 
bajulação, resistindo até ao heroismo, como nos primeiros 
annos da sua vida em Roma, bastava uma simples recusa 
da parte da familia da mulher que elle amava para quebrar 
para sempre qualquer ideia de dependência, ainda mesmo 
que lhe custasse a vida. Isto provou-o na sua vida desin- 
teressada e isenta nas grandes capitães da Europa, onde 
os príncipes o cortejavam para obter, tantas vezes debalde, 
a attençâo do pobre artista. 

Precisamos accentuar o caracter de António da Gosta, 
como o orientador da sua vida, e recompor a melhor parte 
da sua mocidade no Porto, para conhecermos o meio ar- 
tistico d'onde saiu. Gosta retrata-se com traços espontâ- 
neos : CO meu natural, que certo em muitas cousas é bem 
esquipatico, e contra o commum do que se vê nos homens; 
d3o por estudo ou affectaçâo, senão porque já nasci com 
estas incUnações, ou ao menos as tenho desde que me en- 
tendo, e sempre senti que se me foram cada vez arreigando 
mais no coração com os annos.» (p. 38.) Condemna em si 
próprio a sua «demasiada seccura e aspereza, ou outros 
erros semelhantes que em si mesmo são cousa má, como 



. ^ 



B ARTE P0RTU6UBZA 301 



abrir a todos o meu peito com demasiada sinceridade, di- 
zer aos outros os seus defeitos na cara, sem mais rodeios 
nem voltinbas, etc. Ora supponbamos que me nascia esta 
grande liberdade no faiiar por eu sentir que me não mo- 
viam a isso paixões, sen3o o amor da virtude e o aborre- 
cimento do vicio; poderei deixar de conbecer (e sempre o 
conheci mais ou menos, que é o peior) que era uma im- 
prudência despropositada? — Uns bomens tém uns defeitos, 
e outros, outros; eu tenho os meus. Se não faço mal aos 
homens por andar atraz das honras e do interesse, faço- 
Ibe peia minha imprudência e demasiada austeridade, e ou- 
tros desfaropatorios semelhantes. Não é pouco que eu ao 
menos me conheça, ainda que bom seria que também me 
emendasse como devia ; mas, como já disse, não está na 
minha mão.» (p. 39.) Costa attribuia este seu caracter ao 
cpouco caso que eu fazia de quanto linha aprendido, e de 
quanto aprendem os homens, e do grande desejo que sem- 
pre tive de ver bomens que dissessem e fizessem o que 
entendiam, e que não fatiassem, nem se mettessem a fazer 
nada, quando não entendiam nada.» (p. 39.) Era uma na- 
tureza espontânea, assim um pouco á Neveu de Rameau, 
um caracter um tanto parecido com o musico BerlLoz; este 
caracter devia determinar-Ihe os principaes actos da sua 
vida, taes como a saida brusca de Portugal, e o abandono 
do projecto de fixar-se definitivamente em Inglaterra e n3o 
em Roma. (p. 40.) 

Pelas Cartas de Costa se pôde recompor o meio artístico 
em que vivera no Porto até 1749, e até certo ponto a vida 
da mocidade a cuja geração pertencia. Explicando o gosto 
musical dos portuguezes, diz: «naturalmente são inclinadis- 
simos a ouvir tocar cousas bonitas, suaves e delicadas, mas 
de ordinário não sabem quasi nada da Arte, porque não se 
applicam a conhecel-a. Y. M. bem sabe que a espada e os 
amores levam quasi todo o tempo aos portuguezes em 
quanto são moços.» (p. 16.) Vivia-so ainda em Portugal com 
o platonismo do século xv, de um petrarchismo extemporâ- 
neo, e com a valentia do século xvi imitada dos temerones 
de Hespanha. O exemplo partia de cima; D. João v era um 
Lovelace ideal, e o príncipe D. António um tui^nte de mar- 
ca. Os bailes francezes e as modinhas brazileiras facilitavam 
uma sociabilidade que o génio sorumbático portuguez cha- 



302 QUESTÕES DE LITTBRATURA 



mava com desdém estrangeirismo. Em um paiz em que do- 
minava o fanatismo, o cailo tornou-se também sensual ; nas 
egrejas representavam-se Oratórias lio boas como as ope- 
ras italianas. Um dos companheiros de Costa n^esta sua vida 
de amores, de theatro, de saráos e festas de egrejas, era 
o Dr. Luiz Gomes da Costa Pacheco, a quem elle ainda de 
Roma pergunta: <as funcções de Martinho. Velho bem sei 
eu que estão acabadas; diga-me em que alturas está em 
matéria de vita et moribus, e se lhe vem ainda alguns Ioq- 
ges de desejo de sermão, ou de poesia, ou de bailar o ama- 
ble, gue se o faz ainda é signal que ainda tem alguma sub- 
stancia, e que ainda se não pôde dizer que já está acaba- 
do.» (p. 36.) 

Podemos saber quem era este letrado, o Dr. Luiz Gomes, 
que atè á morte foi sempre o amigo predilecto de Costa. 
Na Carta v, retrata-o: cV. M. foi sempre desde pequeno 
tão tentado com estas cousas (Operas e Comedias) . . . » (p. 
24 ) A mulher do Doutor, D. Quitéria, também era apai- 
xonada por musica, e de Roma lhe enviara Costa algumas 
composições, (p. 47.) Queixando-se da impossibilidade de 
humor para bajular poderosos, elle escreve ao velho ami- 
go, aliudindo talvez a um dos seus antigos amores : «e sabe 
muito bem que vae grande differença de eu poder viver 
muitos annos em boa harmonia com uma rapariga porta- 
gueza, que não pretenda nada de mim, e me deixa de co- 
ração em toda a minha liberdade, a saber tratar um amo...» 
(p. 63.) A paixão que Costa conservou sempre pelas por- 
tuguezas em geral, dando-lhes vantagem sobre as italianas, 
allemãs e francezas, ajuda a dar corpo a esta allusão amo- 
rosa; parece pelas suas palavras que conservou uma cor- 
respondência directa com essa a que elle chama — Ager 
haceldama — talvez pelo motivo dos desgostos da soa vida: 
fSempre me tem esquecido dizer-lhe uma cousa: aquelle 
Doutor, em que já lhe fallei que foi um dos namorados de 
M. M. M. hoc est — Ager haceldama — » . . . (p. 5.) Na época 
dos seus amores Costa foi perturbado por outros rivaes, e 
foi talvez pelo despeito de algum pretendido casamento da 
que namorava, que desertou do Porto. A sua reluctancia 
em tomar .ordens maiores proviria d'esses amores. Costa 
cultivava já a musica com o aíQnco excUtsivo do amador; 
frequentava a convivência de alguns amigos, também dis- 



B ARTB PORTUGUEZA 303 



tinctos ; a musica ei^a uma necessidade do culto e da dis- 
tincção profana; os padres da Companhia davam Jargas 
á sua liturgia espectaculosa com Oratórias cantadas na ca- 
Donisação dbs seus sanctos. Paliando da Opera ,em Roma, 
diz elle : «Ás vezes tenho comparada uma opera d'estas com 
a tragedia que flzeram os Padres da Companhia na canoni- 
sação dos seus santos, e nao sei se lhe diga que antes a 
veria hoje do que uma opera.» (p. 27.) 

Um dos amigos íntimos de Costa. era Jo3o Peixoto, a 
quem elle em uma carta de Roma chama «capador insigne» 
(p. 6), isto é, seductor uzeiro e vezeiro; João Peixoto to- 
cava trios com um excellente solista de rebeca, António Nu- 
nes, (p. 9) e o Costa, e em sua casa se reunia também o 
Dr. Luiz Gomes, que eram os da palestra, (p. 9.) João Pei- 
xoto apresentara em casa de Henrique Verne, já notável 
pelo seu talento o joven Costa (p. 8) e ali se encontrou xora 
uai capitão inglez, que tocava admiravelmente viola* Parece 
que os dois artistas se comprehenderam, porque passados 
annos, quando Costa se achava em Roma, vivendo em uma 
extrema indigência, teve ideia de ir viver para Inglaterra, 
e procurou saber o nome do capitão inglez, com quem tra- 
tara no Porto. A musica era cultivada com esmero no Porto, 
e pela Carta v se sabe que alli se chegou a representar uma 
Opera, composta por um frade de S. Domingos: aOs ves- 
tidos dos homens são pelo estilo dos que V. M. ahi viu em 
S. Domingos, na Opera portugueza que fez Frei Anlonio...» 
(p. 25.) Às pessoas da palestra musical eram, além dos que 
já citámos, José Lopes, João Alves Nogueira, e Santos; en- 
tre elles o grande mestre de rebeca, era António Vieira: 
«Ah I Vieira, onde estás! . . . Vieira com os olhos fechados 
pode ensinar musica e bom gosto a Erba.» (p. U.) «Cha- 
mam cá a estes dous tocadores (Ghilarducci e Erba) de que 
Ibe tenho fallado, os dois violinos primos de Roma, nem 
mais nem menos, como Vieira e José Caetano.» (p. 11.) 
Outros artistas figuravam n'este tempo no Porto, como D. 
Pedro (p. 14), e estes que cita na sua Carta: «Antes o que 
creio quasi coma certo é que nenhum italiano depois de ta- 
ludo poderia aprender a tocar um minuete, ou outra cousa 
como lá toca (não digo V. M.) Vicente^ Thomaz Rocha, Tho- 
maz Cypriano, como tocava António Aniceto, Simão e o ce- 
lebrado Cranner, etc. Certo que me parece impossível que 



304 QOESTOBS DB LITTKIlATUflA 



ncDbum tinha gosto para conhecer aquelle geito com que 
lá concertam as mãos, e y3o pulsando as cordas com aquella 
certa graça ; ora se o n3o conhecerem, como o hão de imi- 
tar, e por fim aprendelo? V. M. reparará em eu metter 
no rol Thomaz Cypriano? tem razão; mas foi porque cá 
tocam o cravo pelo mesmo modo que a rebeca...» (p. i5.) 
Preoccupado com amores e musica, António da Costa 
mal teve tempo de completar os estudos para clérigo; foi 
com esses parcos conhecimentos humanistas que se encon- 
trou nos transes diíQceis de sua vida, e a sua animadver- 
s3o contra o saber especulativo e exagerado fanatismo pe- 
los livros, que sempre conservou, leva^nos a inferir, que 
elle não era um livre pensador, e que a sua saida de Por- 
tugal não deve attribuir-se a uma perseguição religiosa. Os 
seus amores é que lhe fizeram addiar indefinidamente a or- 
denação; o seu caracter isempto e inconciliável é que fez 
com que por qualquer insignificante despeito amoroso aban- 
donasse para sempre a sua pátria. Contava então trinta e 
cinco annos : tinha mãe viva ainda, e seu irmão adminis- 
trava a pequena casa que veiu a arruinar por causa dos 
seus excessos com mulheres, morrendo também prematu- 
ramente. Foi nos fins de março de 1749 que elle abando* 
nou o Porto, seguindo a pé para a Galliza, e d'ali para Cas- 
tella, caminho de França até chegar a Roma. Em uma das 
suas cartas allude aos cantares do Minho, que ca cada fló- 
reo que fazem parece que querem quebrar as cordas ou ar- 
rancar o cavallete.» (?. 14) Emquanto se demorou naGal- 
lisa, Costa serviu-se do seu talento da rebeca para resistir 
ás asperesas da situação desprovida em que se achava; em 
Santiago tomou amisade com o sobrinho de um cónego, 
que era tenladissimo com a rebeca (pag. 10), e talvez lhe 
devesse por isso pousada e cartas de recommendação para 
Castella ; mais tarde foi encontral-o em Roma tomando li- 
ções do violinista Erba. Em uma carta a João Peixoto, de 
quem se não despediUy conta algumas peripécias de sua jor- 
nada aventurosa, que em uma carta ao dr. Luiz Gomes (de 
julho de 1749, perdida) descrevia mais miudamente. Eis 
alguns traços bastante piltorescos d'essa viagem estouva- 
da: «Até Gallisa vim a tremer com medo de que me se- 
guiriam. Em Gallisa passei tristemente, sempre na duvida 
se estaria ali seguro ou não; até que me desenganei de 



E ARTE PORTUGCEZA 305 



que me era forçoso sair de Hespanha. Pedi um passaporte 
em SantiagO; e nâo m'o deram por nao mostrar outro. Não 
live remédio senão melter-me a camiúho sem elle. Em Cási- 
tella, ao pé de uma cidade que chamam Santo Domingo de 
Ia Calçada, quiz-mè prender um' oíQcial, e d'ali por diante 
vira sempre esperando todos os instantes o metterem-me 
D'um castello; assim vim atravessando a França quasi até 
ao fim, quando me começaram a perseguir por passaporte, 
e duas vezes estive preso, se não foram as minhas menti- 
ras, que me fazia dizer a necessidade, Tornei para traz 
trinta léguas onde havia uma grande feira, que me tinham 
dito que estavam lá inglezes que haviam de vir á Itália; 
mas não achei nenhum que quizesse fazer tai jornada. Em 
fim, senhor, eu não posso dizer n'uma carta o que passei 
em quatro mezes e tanto de vida de novellas; por isso só lhe 
vou dizer duas palavras de substancia. Alcancei um passa- 
porte com muitos trabalhos, vim andando com calmas, fo- 
mes, sedes, suores, cançassos e outras misérias, até que 
cheguei a Roma a vinte e três de agosto pela manhãsinha.)> 
(P. 1 e 2). Por este trecho se vé que partira do Porto por 
fins de março, e que a vida aventurosa de novellas foi du- 
rante abril, maio, junho e julho. Costa, lembrando-se da 
Índole do sen amigo Jpão Peixoto, «capador insigne», dá- 
Ihe logo a seguinte noticia: «As mulheres são da côr das 
portuguezas, formosas, alegres, e póde-se-lhe cá chegar 
muito melhor do que lá.» (P. 2). 

Porém logo na primeira carta ao amigo lembra-lhe que 
é preciso ser muito reservado na linguagem: «Aqui entra 
toda a substancia^ da minha carta: Sr. João, um conselho, 
que lhe quer dar um homem que naturalmente sempre 
foge de dar conselhos inda quando lh'os pedem. Vem a ser 
que trabalhe comsigo quanto poder para moderar a sua 
lingua. Veja as tolices e as velliacadas dos homens; mas 
não dé a entender que as conhece por modo nenhum; tape 
a bocca e fuja d'elles; senão mais boje, mais amanhã lhe 
succederá o que me succedeu a mim. Perder a sua terra, 
os seus conhecidos, as suas... e dar em uma cadeia de mi- 
sérias continuadas, que V. M. nunca passou na sua vida.» 
(p. 4) Em uma carta ao dr. Luiz Gomes, diz: «Quando lhe 
escrevo a V. M. esta carta e outras semelhantes, é com a 
esperança de que V. M. as não mostre a outrem, para não 

20 



306 QUB8T6B8 DB LITTBRATURA 



me fazer mais fidio do que já lá me fazia... j^ (p. 28). D'es- 
tas passa^^ens d3o se pôde inferir uma perseguição religio- 
sa, mas sim uma certa indisposição com pessoas poderosas. 
Por novembro de 1749 encontrou Costa em Roma o 
sobrinho do cónego gallego, que era ' discipulo do rabe- 
quista Erba: cVeiu aqui dar comsigo poucos mezes atraz 
de mim, e me agarrou de repente um dia na rua com um 
tal grito que me metteu forte medo, porque enteudi que 
era outra cousa bemdifferente.» (p. 11) Gosta refugiara-se 
no Hospicio de Santo António dos Portuguezes, onde ape* 
nas achou abrigo e a conversação de alguns patricios ; a sua 
vida era então de uma quasi extrema miséria. Na Carta a 
João Peixoto descreve-a: cDe mim não tenho que contar- 
Ihe depois que estou em Roma; porque não faço mais que 
passear por essas ruas, e á noute vir*me deitar no Hospi- 
cio e conversar com cousa de uma dúzia de portuguezes.... 
Tenho feito diligencia para vér se podia aGhar em. que ga- 
nhar um par de vinténs a copiar, mas não é possivel. Âtè 
hoje tenho passado com sete tostões, porque vendi as fivel- 
las, e com- seis tostões que dão de esmola a todos os por- 
tuguezes, e d'aqui paguei lavagem de roupa e comprei cor- 
das para a rebeca, mas sabe V. M. como passo ? dez réis 
de pão ao jantar e dez réis á noite e se alguma vez com- 
prei cinco réis de fructa era um banquete. Conto*lbe isto 
para que V. M. se console das suas misérias pondo os olhos 
na minha ; todavia eu ine dera por contente se sempre pas- 
sasse como até aqui, mas o peior é que hoje se acaba o di- 
nheiro e flco á providencia. 1 (p. 4) Os trabalhos de copista 
em Roma eram encommendados por D. João v, para a Sy- 
micta luzitana; mas essa exploração estava acabada; a data 
doesta carta é de 6 de outubro de 1750, e portanto este as- 
sedio da indigência durava desde 23 de agosto de 1749, 
em que chegara a Roma. Â sua situação porém não melho- 
rava ; debalde projectou ir estabelecer-se em Inglaterra, mas 
repugnava-lhe o commercio, até que por fim resolveu-se a 
tomar ordens para se fazer padre de missa. (p. 40 e 41). 
O Dr. Luiz Gomes soccorreu-o emprestando-lbe algum di- 
nheiro, (p. 46) e procurou obter-lbe cartas demissorias do 
bispado do Porto (p. 29, 30, 32 e 37). Costa fez-se conhe- 
cer e estimar pelo seu grande talento musical em casa do 
Cardeal Spinelli ; acompanhou Nardini em quatra sonatas, 



/A 



E'ARTB PORTUGUEZA 307 



{p. 12). frequentando os theatros, ouvindo Gizziello e Cara-^ 
reli], e condemnando a insipidez da comedia dei arte, do 
génio italiano. • * 

. Pelo seu génio severo e franco Costa n2o podia abrir ca- 
minho em Roma; ali recebeu ordens, achando-se já em 
1 754 capelfôo do bospicio de Santo António dos Portugue- 
zes : «já estou capelião de Santo António, de certos que 
chamam supranumerários, que nao tem mais paga do que 
a casa, cama, quem lhe cosinbe e dez paulos cada mez com 
a obrigação de dizer cinco missas se é clérigo; esta foi a 
minha, renda este mez, mas para o de junho me disse o 
governador que serei capellSo numerário, que é o mesmo 
que ter a commodidade da casa e três escudos cada mez 
do coro, e três da missa. ..i» (P. 42). Parece que a este 
tempo ainda não havia recebido as demisorias, talvez por 
diSiculdade das communicações. As cartas eram em geral 
levadas por Dispensantes, isto é, por procuradores que iam 
a Roma com o encargo de negociarem dispensas canónicas 
absolvições de peccados reservados; escreviam-n'as em ci- 
fra (p. 46) ou com nomes suppostos, porque em Portugal 
tudo servia para produzir uma desgraça de lesa magestade 
divina ou humana: <se quízerque lhe escreva com mais 
liberdade me mande dizer um nome de mulher fingido, para 
lhe fazer assim o sobrescripto e lhe escrever dentro coma 
a tal, para que, dado caso que a venham a ler, não saibam 
para quem ella ia. V. M. me avise quando tiver occasiâo; 
e se quizer, para maior segurança, escreva o tal nome na 
cifra com que escrevia algum dia, que assim, ainda que a 
sua carta tenha descaminho, não entenderão.» (Ibid.) 

A vida de António da Costa em Roma comprehende-se 
entre 23 de agosto de 1749 até pouco mais de 30 de agosto 
de 1754. As impressões novas em uma natureza tão im- 
pressionavel como a sua, são relatadas aõs amigos com uma 
espontaneidade que torna o seu estylo um primoroso do- 
cumento litterario. Transcreveremos esses traços descrip- 
tivos em que desenha Roma e a sua vida moral: «É muito 
grande, mas não enfada andar por ella, porque é quasi 
toda plana. As ruas são formosíssimas, compridas, largas, 
direitas, limpas, cheias de palácios, de fontes pelo meio e 
pelas portas. A gente não é muita, pouca, assim como no 
Porto. As carroças também não são muitas; anda uma pes- 



308 QUBSTÕBS DE LTTTBBATURA 

soa a seu gosto ; atravessam-se os palácios e egrejas para 
sair de umas ruas ás outras; serve-se cada rim pelas suas 
mãos; vai-se buscar pao, carne, fruta, peixe, tudo quanto 
é necessário. Os homens são paciGcos e muito para a vida. 
Âs mulheres são de cõr das portuguezas, formosas, alegres, 
6 pode-se-lhe cá chegar muito melhor que lá. Emfim, cá 
para mim, Roma é uma terra excellentissima, e o Porlo 
não vale em sua comparação. Basta aqui uma casa de café 
ou uma loja de barbeiro para ver a differeoça nas casas 
de cá ás de lá, no aceio e no adereço. Quem gosta d'isso 
6 de pinturas e de estatuas, e de pedras preciosas, e de 
grandes edifícios não se pode sair de Roma. Que por mim 
também nunca d'aqui sahiria se tivera com que comera um 
bocado de pão, não por gostar de ver grandezas, mas pe- 
las commodidades que vejo aqui para levar vida regalada 
ede^ansada.» (p. 2.) As dif&culdades que António da Costa 
encontrou em Roma, vivendo primeiramente com o capital 
de sete tostões e entregando-se á providencia, accolheodo- 
se ao Hospício de Santo António dos Portuguezes, resis- 
tindo á mais desprovida miséria, esperando conseguir as 
cartas demissorias do Porto para se poder ordenar de mis- 
sa, as suas lições de francez, e o fazér-se conhecido peb 
talento na rebeca, resumem o seu esforço para assegurar 
a permanência em Roma até ao ultimo quartel de 1754. 
Ainda n'este anno escrevia Costa sobre a resolução de se 
fixar de vez em Roma: «Resolvi-me a flcar aqui em quanta 
não ha cousa que me obrigue a sahir, como houve lá. Já 
me importa pouco que seja assim a companhia d'estes clé- 
rigos de Santo António; já me acho com valor para este ou 
aquelle despropofsito ; porque em rezando ou cantando com 
elles no coro, não estou, obrigado a mais ; melto-me na mi- 
nha casinha, e ponho-nie a brincar n'uma viola, ou a olhar 
para os verdes, que lenho excellente vista da janella....» 
(p. 41). Por este trecho se vê que António da Costa não 
era indifferente aos despropósitos dos clérigos do Hospício, 
e ao despeito que lhe causava a decadência do gosto mu- 
sical em Roma, de tal modo que, quando era convidado 
para tocar em alguma academia ^ivinha para casa como a 
noite e com a paz do coração derramada ás tezes para «m 
par de dias^; (ibid.) são estes por ventura os motivos di- 
rectos que lhe fizeram tomar a resolu ção inesperada de sair 



B ARTE PORTUOUSZA 309. 



de Boma. Esta resolução repeolína é que dá á sua saída 
um caracter apparentemente mysterioso, mas que a rude 
inteireza do seu caracter, e a aspiração a um elevado. meio 
artístico justificam; esse meio artistico faltava-lhe em Ro- 
ma, como elle o declara tão frequentemente nas suas car- 
tas, criticando com mordacidade o systema ou estylo do 
canto italiano, as operas, os libretos, a miséria do scenario» 
a irreverência das plateias, e ainda por ultimo o estylo dos 
violinistas, taes como Erba e Ghilarducci, que dominavam 
o entbusiasmo do publico. N'um momento de bumor Costa 
decidiu-se a sair de Roma, apesar das instancias ou pro- 
mettimentos do embaixador portuguez, o visconde de Villa* 
Nova da Cerveira; os patrícios ficaram cuidando que o ar- 
tista viria a arrepender-se da sua isempção, mas em uma 
carta ao dr. Luiz Gomes declara-lhe : «V. M. terá gosto de 
vèr que eu atè agora sou o mesmo. António da Costa duro 
que fui lá, e quanto se enganam os que cuidaram, talvez lá 
como em Roma, que eu torcia as orelbas, e não me deita- 
vam sangue, por não ter querido servir o sr, visconde de ViUa- 
Nova;jf (p. 56). E' quando mais tarde, em Paris, nãoacceitou 
a protecção do embaixador D. Vicente de Sousa, também 
escreve : «Aqui pertence o eu ter recusado servir os dous 
senhores, que V. M. sabe» (p. 61); «mas não foram estas 
considerações as que me arredaram de servir aquellas duaã 
pessoas, em quem não via certamente senão muitos signaes 
de o serem muito de bem; foi o considerar eu seriamente 
no meu préstimo e no meu natural, e o parecer-me ver- 
dade claríssima o que sempre atè áli tinha entendido de 
não ter nenhuma capacidade para formar respostas, dar 
parecer quando m'o pedissem, etc, sobre negócios do mun- 
do, nem a minima sombra ainda da boa politica* que é ne- 
cessária para saber conservar-se no agrado do amo, e das 
pessoas a quem elle desejaria que o criado agradasse», 
(p. 6á). O homem que tinha resistido a todos os desalen- 
tos da miséria, achava nas considerações dos fidalgos seus 
patrícios mais um pretexto para o seu isolamento; depois 
que o artista portuguez começou a ter em Roma a repu- 
tação bastante para ser convidado para as academias ou 
saráos musicaes do cardeal Spinelli, (p. 12) e mereceu a 
honra de acompanhar quatro sonatas ao eminepte Nardini, 
então a maior gloria musical de Roma,, veiu tardiamente o 



310 QDE8T0B8 DE LITTBRATURA 



Tisconde de Villa Nova offerecer-lbe a saa protecção. Os fi- 
dalgos illustravam-se entSo pondo á sua mesa os poetas; 
os masicos começavam a sair de uma situação despresivel; 
os avanços do Visconde de Villa Nova motivaram talvez a 
saída repentina de António da Costa. Eis o enigma expli- 
cado pelo talento e caracter do próprio artista; mas se a 
partida é um enigma, o logar do seu destino é também in* 
certo. O génio leva-o para o foco da maior actividade mu- 
sical do secalo, para Vienna de Áustria; tendo-se fixado 
Doesta capital em ni*i, depois de haver feito uma viagem 
a Paris, ao fallar d'esta viagem duas vezes allude á sua ida 
e regresso para Vienna antes de 1774, o que é uma refe- 
rencia directa a 1754; diz elle, acerca de D. Vicente de 
Sousa : «intentou primeiro mandar-me para Lisboa; e de- 
pois, ao mesmo tempo que eu lhe ia dando negativas, para 
o Porto, para Inglaterra (para onde eu queria ir quando 
parti para Vienna)» (p. 55). E ainda este outro fado: ce 
por saber que eu nao tinha aceitado aqui uma carta de re- 
commendaç3o que me quiz fazer para elle o sr. D. João 
de Bragança, é que se esquentaria mais a sua generosi- 
dade»; (ibíd.) Por estas passagens se conclue que António 
da Costa partiu de Vienna, não tendo querido acceitar do 
duque de Lafões uma carta de recommendação para o 
embaixador portuguez em Paris; è que ao sair de Ro- 
ma em 1754 o seu intento era ir para Inglaterra, como 
em tempo revelara ao seu amigo do Porto. (p. 40) A at- 
tracção para a Inglaterra póde-se explicar pela influen- 
cia extraordinária que ent^o exercia em Londres o gé- 
nio protentoso de Haendel com os seus Oratórios; estas 
composições, executadas no Convent-Garden, sob a direc- 
ção, depois de 1751, de Smith; discípulo de Haendel, fa- 
riam conceber a esperança de ser admitlido e distinguir- 
se como violinista em Inglaterra, onde os grandes concer- 
tos musicaes estavam em moda na aristocracia. A prefe- 
rencia por Vienna pôde explicar-se cabalmente pelo encon- 
tro com Gluck, o grande reformador da musica dramáti- 
ca, que em 1754 fora a Roma, onde escreveu a Clemenza 
di Tito e Antigono. A amisade de Gluck e o duque de La- 
fões, a cuja vontade Gosta não sabia resistir, o antagonis- 
mo que Costa professava pelas doutrinas musicaes de Ra- 
méau, como notoii Bamey (ap Vasc, em Bum. i, "£81) e a 



B ARTE PORTUGUEZÀ 3 i 1 



convivência com o próprio Glack em casa do embaixador 
inglez lord ^tormont» são factos bem positivos para se in- 
ferir qual foi o impulso que levou por fins de 1754 o po- 
bre clérigo portuguez para Vienna, que Burney chama tão 
pittorescamente the imperial seat ofmusic. Quando Gosta se 
achou em Paris antes de se fixar definitivamente em Vien- 
na, diz de D. Vicente de Sousa : ce por fim quando conhe- 
ceu que eu queria deveras voltar para Vienna^ quiz em to- 
dos os modos dar-me dinheiro para a jornada...» (p. 56). 
D'aqui se conclue que a viagem para Vienna em 1774 foi 
simplesmente um regresso. 

O período obscuro da sua vida é o que decorre entre 
1754, em que parte sem recursos nem recommendações 
para Vienna, e 1761, de que existe uma carta datada de 
Venesa. O silencio d'este período da sua vida, profunda- 
mente desolada, pôde explicar-se pela/ falta de cdtnmuni- 
cações postaes, como elle mais tarde o declara, desculpan- 
do^se para com o dr. Luiz Gomes: cfacilmente lhe podia 
fazer o gosto de lhe escrever dilatadamente, porque o fu- 
ror de fallar, quando não olho para as pessoas a que fallo, 
nem ellas para mim, ainda é como de antes; mas aqui não 
ha dispensantes que levem os maços ou livros, que eu lhe 
mandava por elles de Roma,.,!^ (p, 52). N'esle período viveu 
António da Costa ignorado, assistindo ao movimento de 
transformação artística, conhecendo mas não querendo apro- 
veitar-se do alto valimento do duque de Lafões, que era 
immensamente considerado em Vienna como um príncipe. 
Em casa do duque de Lafões reuniam-se as maiores sum- 
mídades artísticas; Gluck dedicava-lhe as suas mais revo- 
lucionarias composições, e é por isso que António da Costa 
consentiu em aproximar-se, sem quebra de independência; 
do seu illustre conterrâneo. Em Vienna accolheu o artista o 
ecco das gigantescas reformas do marquez de Pombal» taes 
como a queda dos Jesuítas pela lei de 3 de setembro de 1759 : 
cQuem, (se. diria algum dia) que os Padres da Companhia 
haviam de perder em pouquíssimo tempo o credito e auc- 
torídade que tinham adquirido injustissímamente no mun- 
doi principiando dos príncipes a acabar no povo ; e serem 
desfeitos inteiramente para sempre?» (p. 54.) E referindo- 
se á extincção das ominosas e fanáticas distinções de chris- 
tãos fwvos e <hristãos velhos, accrescenta : <E não obstante 



312 QUBSTOBS DS fJTTKlIATURA 

tudo isto e outras cousas iocriveis, vemos hoje e veremos 
ainda mais, graças ao sr. Marquez de Pombal ; pois assim, 
nem mais nem menos, o meu negocio, que algum dia era 
impossível de ajustar, agora se pode dizer fácil, ou ao me- 
nos tal o pareceu ao sr. Visconde de Villa Nova, quando 
se me offereceu em Roma com a sua costumada generosi- 
dade para o fazer....» (p. 55.) Qual seria este negocio nao 
o podemos suspeitar, porque ao tempo que se achava em 
Roma ainda sua mie não tinha morrido, e por tanio não 
consistiria em liquidação de herança ; levantamento de se- 
questro também não era^ porque não estava processado 
pelo Santo Ofliciq; suppõmos que ainda seria o negocio 
das demissorias, que nunca chegavam, e a que allude con- 
stantemente nas suas cartas. Ainda em 1754 escrevia de 
Roma: «Não tenho logar para lhe dizer senão que espero 
pdas demissorias sem nunca chegarem; se V. M. puder con- 
correr para que ellas venham depressa, fazia-me grande 
serviço para me armar capellão.» (p. 29.) E no mesmo 
anno: cTornando á demissoria, monsenhor de Almada me 
prometteu ha quasi um anno de escrever ao bispo gover- 
nador d'abi a pedir-lh'a^ mas até aqui não veiu resposta...» 
(p. 32.) E outra vez ainda, referindo se a outra carta «N'ella 
lhe repetia a V. M. o impertinente ponto das demissorias,., i^ 
(p. 37.) É possível que a didiculdade de obter do bispo do 
Porto as demissorias fossem provenientes dos escrúpulos 
da sentença de genere, em que apparecessem parentescos 
de christão-novo ; isto se justiflca com a allusão ás refor- 
mas do Marquez de Pombal, e ao (acto de se ter por isso 
tornado fácil o ajustar esse negocio, annos antes impossível. 
No período de 1754 a 1761, em que pela primeira vez 
reside em Vienna, António da Costa pouco se correspon- 
deu com os seus bons amigos do Porto por falta de cor- 
reios, e a sua vida não foi menos dura do que no período 
subsequente, em que era procurado pelos príncipes e em- 
baixadores, não deixando por isso de ser o clérigo mais 
pobre de Vienna, tendo por único rendimento dois tostões 
por dia. Ante^ de entrarmos n'este segundo período, im- 
porta accentuar o facto da sua viagem a Venesa por 1761; 
sabemol-o por uma carta sua de 22 de julho doesse anno, 
ao seu bom amigo Pedro Pereira de Sampaio, postoque se 
houvesse perdido uma outra de data anterior, (pag. 49) A 



B ÂRTB PORTUGUEZA 313 



descripçlo que faz de Venesa, a sua topographia, o viver, 
os typos dos homens, actividade mercantil, a ilhiminação 
publica, tem um vivo relevo, forma uma pagina que bem 
merecia ser transcripta; mas as noticias musicaes interes* 
sam-no muito mais, e pelas suas palavras inferimos que 
elle viera frequentar um dos celebres conservatórios de Ve- 
nosa: <rA musica da cidade, ou de Sam Marcos, é uma 
peste, mas ha quatro conservatórios, ou seminários, em 
que aprendem esta arte Puellae Puellarum, que tocam co- 
mo homens e cantam bellamente, especialmente no dos 
Incuráveis (todos estamos annexos a hospitaes) onde ha 
uma tal greghetay que me tem feito chorar algumas vezes 
com a graça e suavidade da sua voz; se eu fora a Y. M., 
sabendo que havia algum navio em Lisboa para estas par- 
tes, embarcava-me e vinha ouvil-a.» (P. 51.) A actividade 
musical de Vienna, onde então vivia Porpora, onde Gluck 
começava a revolução da musica, e despontava o génio de 
Haydn, estimularia porventura o enthusiastico António da 
Costa a vir aperfeiçoar-se a Venesa; o seu modo de fallar, 
referindo-se ao Conservatório dos Incuráveis o^todos esta- 
mos annexos a hospitaes» só tem um sentido, e é que elle 
também o frequentava; a gregheta a que se refere é uma 
d'essas ciganas, ou grega, como ainda então se lhes cha- 
mava, que saiam das escholas de Venesa para deslumbra- 
rem o mundo pelo canto e.pela desenvoltura, como em 
1 770 a Zamparini em Lisboa. É possível mesmo que esta 
cantora venesiana acceitasse o vir para Portugal por sug- 
gestão do abbade Costa. É entre a saida de Venesa e a fi- 
xação deQnitiva de residência em Vienna, antes de 1772, 
que collocamos a viagem de António da Costa a Paris. O 
duque, de Lafões offerece-lhe em Vienna («aqui» d'onde 
escreve) uma carta de recommendação para D. Vicente de 
Sousa, embaixador em Paris, para onde Costa partira com 
intuito de ir para Inglaterra em seguida; (P; 5S) parece 
que o clérigo artista viera por Strasbourgo. É difflcil dis- 
tinguir se Costa desejava ir para Inglaterra, quando saiu 
de Roma, ^e quando foi de Vienna a Paris; propendemos 
mais para a primeira hypóthese. Em 26 de junho de 17t51 
-morreu o irmão primogénito de D. João de Bragança, 
D. Pedro, succedendo-lhe na casa e titulo de Lafões; de- 
pois d'esta data é que foram mais intimas as relações do 



3 1 4 QUE9T0S8 DB UTTBRATimA 

Dovo Duque com Glock, que Ibe dedicou a sua opera Pa- 
ride ed Helena. 

O duque de Lafões, D. Jo3o Carlos de Bragança era uma 
das grandes figuras da sociedade de Vienna, e desde 4767 
a 1777 o seu palácio era o centro onde se encontravam os 
primeiros artistas do século, como Gluck, Metastasio, Has* 
se, Faustino Bordoni, Burney o celebre critico inglez, Costa 
e o próprio Mozart, recebido nos seus salões aos doze an- 
nos de edade. O duque de Lafões, que fundou em Portu- 
gal a Academia das Sciencias, nascera a 6 de maio de 4719, 
sendo seu pae o infante D. Miguel, filho natural legitimado 
de Pedro n e de D. Luiza Casimira de Sousa, primeira du- 
queza de Lafões e segunda marquesa de Arronches; D. João 
de Bragança frequentou a Universidade de Coimbra como 
porcionista do collegio de S. Pedro, e depois da morte de 
D. João V, teve de sair de Portugal por ordem de elrei 
D. José, a titulo de fazer acabar uma paixão amorosa que 
elle desapprovava. Viajou D. Joio de Bragança por quasi 
toda a Europa, França, Inglaterra e Itália antes de se fi- 
xar na Allemanha, sendo voluntário austríaco durante a 
guerra dos sete annos, e distinguindo-se na batalha de.Ma- 
xen. Era amigo intimo do rei-philosopho Joseph ii, com 
quem mais tarde veiu a relacionar-se o príncipe D. José, 
prímogenito de D. Maria i, fallecido prematuramente. O 
duque de Lafões fixou a sua residência em Vienna, em 1767, 
e pela queda do marquez de Pombal (fallecimento de D. José 
em 24 de fevereiro de 1777) regressou de Vez a Portugal. 
Ê presumivel, que na sua viagem por Itália encontrasse em 
Venesa António da Costa, convidando-o a que o acompa- 
nhasse para Vienna em 1767. O duque era um eminente 
amador de musica; o erudito Burney chamava-lhe aan ex- 
cellent juge of jnusic.» (i, pag. 255; ap. Vasc.) Gluck na 
sua dedicatória de Paride et Elena, em outubro de 1770, 
acha n'elle, «meno d'un Protetlore, che un Giudice. Un ani- 
ma sicura contro i pregiudizi delia consuetudine, sufiQciente 
cognizíone de gran príncipi deirarte, un gusto non tanto 
su^grand modelli, quanto sugli invariabili fondamentí dei 
Bello e dei Vero, ecco le qualitá chio ricerco nel mio Me- 
cenate, e che ritrovo riuniti in V. A.» Este retrato do du- 
que como artista, feito por dois homens eminentes como 
Burney e Gluk, explíea-nos o apreço em que elle tinha o 



/ 

B ARTE F0RTU6UEZA 315 



pobre clérigo António da Costa. Seria fácil attrabir desde 
4767 a António da Costa para Vienna, como o primeiro 
foco de elaboração musical;^ mas o que lhe foi sempre im- 
possível foi submetter esse caracter infiexivel e melindroso 
a acceitar o seu dinheiro ou mesmo ainda o miuimo favor. 
O duque de Lafões é que se julgava favorecido em poder 
apresentar no seu salão o conterrâneo Costa, que nem uma 
siniples catla de recommendação acceitava. 

A permanência de Glu£k em Vienna attrairia ali Antó- 
nio da Costa, e o faria entrar na convivência do Duque de 
Lafões. Ignoramos a circumstancia que o levou a empre- 
hender a viagem a Paris. O embaixador portuguez em Pa- 
ris D. Vicente de Sousa, poeta da Arcádia Ulyssiponense, • 
onde tinha o nome bucólico de Mirtilo, accolheu o pobre clé- 
rigo artista, que não quiz acceitar favor algum do minis- 
tro. Nas suas cartas Costa falia de D. Vicente, como «um 
fidalgo da casa de Redondo e* presente embaixador de Por- 
tugal em França, que quando eu estive em Paris procurou 
de me tomar á sua conta e fazer bem com tal fogo e effi- 
cacia, que não lenho palavras com que lh'o explique; isto 
sem eu pretender nada d'elle, nem ninguém lhe pedir por 
mim ...» (p. 55.) D. Vicente de Sousa também se oflfere- 
ceu para tratar do seu negocio, pedindo-lhe que se deixasse 
estar em Paris até chegar a resposta ; não se trata n'esta 
vida de um artista verdadeiramente heróico de nenhum ho- 
m^isio por crime, nem de pretenção ambiciosa, como se vê 
pela sublime rudeza do seu caracter, e por isso insistimos 
outra vez nas demissorias. Sem ellas o simples clérigo de 
missa não podia ter cargo de capellão ou qualquer logar 
na hierarcbia ecclesiastica. A offerta de D. Vicente de Sousa 
cque me deixasse estar em Paris, senão em sua casa, em ' 
uma que me pagaria; e o comer, se eu não quizesse ser- 
vír-me da sua mesa» bastou com certeza para elle não que- 
rer ficar em Paris o tempo sequer de uma ida e vplta do 
correio a Portugal. Costa não queria contrair* dependência 
moral de ordem alguma; D. Vicente offereceu-lhe recursos 
para o mandar para Lisboa, depois para o Porto, para In- 
glaterra, para Madrid; mas o pobre clérigo tinha já a nos- 
talgia da arte, e não querendo esperar pela resolução do 
seu negocio, regressou antes de 1772 para Vienna. Então 
D. Vicente, quando conheceu que elle só queria tornar para 



316 QDBSTÕBS DB I,ITTERATURA 



Víenna, empregou todos os meios para lhe dar dinheiro, 
pedindo-lbe por ultimo que levasse uúaa letra a cobrar em 
Strasburgo; (p. 56) c todos os verdadeiros intentos do sr. 
D. Vicente eram que eu estivesse em sua casa, e par^ que? 
Deus pergunte pelas suas causas. £ é certo que elle é muito 
bem visto do sr. Marquez de Pombal, cqjo segundo Qlho 
foi casado alguns annos com uma filha do sr. D. Vicente. • 
A impressão que Paris produziu n'aquelle espirito agitado 
pelo génio, foi muito má; a descripção da cidade plana, dos 
palácios escondidos para dentro de muros lisos, as egrejas 
pobres, as cadeirinhas de rodas puxadas por homens es- 
farrapados c fazem fugir a gente cqm os olhos pela sua por- 
caria.» (p. 57.) cOs seus casquilhos tão louvados não ap- 
parecem^ mas não andarão a pè como muitos de Lisboa an- 
dam; as mulheres fazem nojo; parece que todas trazem o 
peito emprastado, porque não somente não usam de espar- 
tilho, mas de vestidos tão largos, que poderiam metter uma 
criança entre elles e a carne; coifas, camisas, vestidos, máos 
e tudo porco; pouco elevadas de juizo e menos ainda de 
coração; serias, tristes, etc. ; o mesmo digo dos homens 
com toda a sua leveza de juizo.» (p. 58.) Mais tarde^Mo- 
zart também veiu a ser duro na expcessão dos seus desa- 
lentos em Paris. António da Costa resignou-se á miserável 
posição de clérigo pobre e voltou para Vienna. 

A primeira carta datada de Vienna d' Áustria para o seu 
amigo Dr. Luiz Gomes é de 23 de julho de 1774, mas a 
sua residência é muito anterior; no livro do musícographo 
Burney, The present state of Music in Germany, Netherland, 
and the United Provinces, é que se acham as mais precio- 
sas noticias sobre este extraordinário artista portuguez, 
qi^e o erudito considerava tão original como Rousseau, mas 
com melhor caracter. No estudo do sr. J. de Vasconcellos, 
que acompanha a edição das Cartas Curiosas, a parte ba- 
seada sobre o livro de Burney è a mais interessante, e apro- 
veitamol-a na impossibilidade de alcançar o livro. Burney 
chegou em setembro de 1772 a Vienna; o Duque de La- 
fões, tendo o encontrado em casa do embaixador inglez lord 
Stormont, falloulhe no celebre artista portuguez, caracter 
indomável, que vivia na convivência dos grandes génios mu- 
sicaes da corte, sem acceitar favores dos príncipes, sim- 
plesmente com os dois tostões da sua missa, não pagando 



S ARTE PWITUGUEZA 317 



Yísilas a ninguém, embirrando que o louvassem, e detestan- 
do a musica daescbola de Rameau. M. d'Angier, que conhe- 
cera em Portugal Scarlatti, também fallara com entbusiasmo 
no exquisito Abbade, de modo que o illustre musicographo 
inglez anciava conhecel-o. O Duque de Lafões prometteu 
satisfazer esse empenho difficil, e trouxe o abbade Costa a 
um saráo musical em casa do lord Stormont; o facto de 
apparecer ali Gluck ao lado de Costa revela-nos o meio em- 
pregado pelo Duque de Lafões para o pôr em contacto com 
Burney. Costa entrou na sala, onde já estava a melhor aris- 
tocracia de Vienna, os Condes de Thun, de Bruhl, o prin- 
cipe de Poniatowsky, e ^ primeiro convite pegou na gui- 
tarra e tocou um andante e um presto, cuja originalidade 
pela ondulação e pelo rythmo impressionaram Burney, que 
transcreveu os themas dòs dois tempos. Á mesa Burney 
achou-se intencionalmente collocado entre Gluck e António 
da Costa ; imagine-se o erudito entre aquelles dois vultos, 
o fundador da musica moderna no drama, e o caracter ori- 
ginal do artista portuguez. Burney escreve: «todos três fal- 
íamos mais do que comemos.» Depois de jantar recomeçou 
o concerto, tocando Costa outra vez então na rebeca um 
duo, composição sua, com o violinista Stantzel, que este 
não pôde desempenhar. Passados dias. Costa procurou Bur- 
ney, para lhe dizer que detestava os concertos com mais 
de dois ou ires ouvintes, e convidava- o para ir á sua tra- 
peira ouvir algumas peças de guitarra. Burney captou as- 
sim o génio indomável de Costa, que lhe serviu para rela- 
cional-o com outros artistas, taescomoWagensell,Gassman, 
e outros; e emquanlo se demorou em Vienna conviveu com 
elle, encontrando-se duas vezes em casa de Wagensell, e 
na despedida prometteram-se mutuamente para alimentar 
a amizade uma correspondência litleraria. Se não fossem 
as palavras que Burney, consagra a este ignorado artista 
portuguez, palavras motivadas pela impressão que lhe pro- 
duziu aquelle extraordinário caracter, o seu nome perder- 
se-hia na historia, e faltaria o motivo para o fazer reviver 
pelas suas cartas. A situação de Costa depois de 1772 até 
1780, anno em que terminam as suas cartas, e em que se 
suppõe com razão ter fallecido, é profundamente desolada. 
A miséria trazia comsigo a doença e o desalento; em uma 
carta de Vienna, de 23 de julho de 1774, escreve para o 



318 QUB8T0B8 DB LfTTBRATORA 

^ ^^ • ■ - I I ■!! I 1 

Porto ao seu amigo Doutor: cacabou-se/a minha saúde de 
vento em popa.» (p. 52) O pobre clérigo soffria de uaia in- 
ílammaçSo chronica da bexiga. Por outro lado o seu aaiígo 
o Dr. Luiz Gomes nio eslava ^m melhor situação, achava- 
se para ly tico. As noticias que o artista' recebia do Porto eram 
também lamentáveis, morte de sua mãe e irmão, e dos prin- 
cipaes amigos : c As mortes de casa n3o me fizeram a grande 
impressão que V. M. temia ; minha mãe já ha muito que 
èu fazia de conta que ella não vivia, visto a sua edade e 
pouca saúde; quanto a meu irmão, também quasi que es- 
perava que tivesse saido do mundo, porque ainda que pa- 
recia robusto, e se achava em anqps de poder viver algum 
tempo, o seu grande desgoverno com mulheres promeltia 
o não chegar elle a grande velhice;» (p. 53). Pela morte 
do irmão, António da Costa pede ao Dr. Luiz Gomes que 
lhe receba o seu património, a que o irmão sempre poz em- 
baraços, para assim lhe poder pagar o quanto lhe deve. O 
seu desprendimento por tudo, como mostrou em Roma com 
o Visconde de Villa Nova, em Yienna com o Duque de La- 
fões e em Paris com D. Vicente de Sousa, continuou sem- 
pre, apezar de se achar na extrema penúria. O filho do Dr. 
Luiz Gomes, Manuel Gomes da Costa Pacheco, continuou a 
interessar-se pelo velho amigo de seu pae, cultivando a 
mlBsma affectuosa correspondência ; em carta de 4 de de- 
zembro de 1779, Costa responde-lhe a certas perguntas: 
«vamos ao que V. M. quer saber dos meus teres e have- 
res, que se reduzem todos a meio florim^ (dois tostões) da 
missa, que me bastam, porque na nossa mão está o ser-nos 
necessário pouco; quanto a essas casas e campos, ainda 
que eu soubesse que tinha grande justiça para pretender 
d'isso alguma cousa, não queria por nenhum modo deman- 
das.», (p. 71.) Já quando o seu velho amigo Doutor o con* 
vidava para regressar a Portugal, escrevia elle em 34 de 
dezembro de 1774: «com eu ser um dos clérigos mais po- 
bres de Vienna, por não ter mais que a missa, posso pas- 
sar aqui muito melhor que no Porto, pela conveniência e 
pela quietação : se eu quizer posso comer todos os dias em 
mais de uma casa, de modo que me ficam os dois tostões 
da missa para pagar a casa, que também podia ter sem di- 
nheiro se quizesse, e para me vestir ; e este ganho, sem 
mais trabalho que o de dez minutos de uma missa, e sem 



E ARTB PORTDGUBZA 



319 



politicas nem rapa-pés, que antes na egreja me Rcam obri- 
gados ; de modo que me fica todo o outro tempo livre para 
as minhas escrevinbaduras de musica e para beliscar com 
grande gosto na viola.» (p. 60.) Costa referia-se sem du- 
vida ás relações com o opulento Duque de Lafões, que 
tanto desejava auxilial-o. O retrato que o artista fez do seu 
próprio caracter é de uma encantadora espontaneidade: «é 
natural ter-lhe chegado lá a V. M. aos ouvidos, como è de 
crer^elo que me sôa até ás vezes pelos meus, convém a 
saber : que sou pobre, porque sou philosopho ; que podia 
andar em carruagem; que podia ter tbesouros, e outras 
cousas assim; o que a V. M., com tudo que me conheça, 
não lhe parecerá talvez destituído totalmente de fundamento; 
e por isso lhe direi duas palavras na matéria.... Certo que 
tenho estudado em musica mais do que ninguém poderá 
crer ; bem ; e então que se tira d'ahi ? Que conheço mais 
de rebeca para tocar com companhia de modo que se de- 
leite mais o ouvido que se faz ordinariamente, ainda pelos 
que tocam melhor este instrumento ; que toco viola, dizem 
alguns que bem, por esses ares : e que componho para re- 
becas, viola, cantar, etc, dizem alguns também que com 
grande mestria, profundidade e até gosto; ora supponho 
que digam verdade, parece-Ihe a V. M. justo, como parece 
a tantos, que eu, que nunca suspirei por alcançar dinheiro 
e nome no mundo, me metta agora a isso, e á .custa de fa- 
zer-me homem muito menos de bem do que sou, que por 
taes tenho eu todos os que andam mostrajado as suas ha- 
bilidades em publico ou em particular, quasi sempre a quem 
Dâo entende nada das suas sciencias, arrastados vergonho- 
samente do interesse e vaidade que lhe roem o coração?» 
(p. 61). N'este estado moral António da Costa, apezar do 
seu génio, havia de cair na obscuridade; quem vé adiante 
tem de se impor ao seu tempo, e essa lucta é o maior es- 
timulo para as creações da arte. Costa submettia-se ao juízo 
dos outros e não reagia, porque, «na rebeca ninguém quer 
ouvir senão moscas por cordas ; quanto á viola os mesmos 
que gostam muito d'ella, confessam que a toco de modo 
que a pouquíssimos pôde agradar pela demasiada suavidade 
da voz que eu lhe tiro e das peças em si mesmas ; das com- 
posições dirljiehei somente ^ue ninguém as sabe cantar, 
nem tocar, i» (ib.) Em uma sociedade, em que surgia Gluck 



320 QUESTÕES DE LITTBRATORA 

e após elle Haydn, e despontava o génio pasmoso de Mo- 
zart, que vasto campo para o conflicto da concepção artís- 
tica? Costa an)esguinbou-se na sua lucta obscura com a mi- 
séria. Costa julgava a rivalidade como inveja, alludindo a 
um caso que lhe contara o mestre da Capella da Impera- 
triz; (p. 66) e por isso reduziu a arte a servir-lhe de con- 
solação intima : repugnava-Ibe o tocar diante de mais de 
tresouvintes, como confessou a Burney. Em 1777 o Duque 
de Lafões deixara a sociedade de Víenna, regressande de 
vez a Portugal; em 1778 o seu amigo Dr. Luiz Gomes, já 
paralylico desde 1774, morreu; (p. 69) a saúde de Costa 
declinava a olhos vistos, sendo-lhe difficil escrever, (p. 70) 
chegando a noticiar ao fllbo do seu velho amigo : <Eq ce- 
guei do olho esquerdo com uma cataracta, e, conforme o pa- 
recer do nosso lente oculista, cegarei cedo do outro, de 
gotta serena.» (p. 72.) A sua ultima carta, de 7 de outu- 
bro de 1780, diante doesta declinação progressiva, seria tal- 
vez a derradeira que escreveu para Portugal, expirando ao 
abandono na sua agua furtada em Yienna. O filho do seu 
velho amigo ofifereceu-lbe casa no Porto, (p. 69) mas o ve- 
lho artista levava a isempção até ao heroismo. 

A situação de Portugal sob o intolerantismo ou rigoris- 
mo de D. Maria i não lhe era désconbiscida : tV. M. saiba 
que quanto mais me aíTasto de Portugal, em mais horreudo 
conceito acho estarem os portuguezes em matéria de|C03- 
tumes. Chamam-nos aqui os homens mais bárbaros de todo 
o mundo, os mais odientos, mais vingativos, mais descoa- 
fiados, mais cruéis, e emfim de que se deve fugir como de 
uma nação de diabos, se a houvesse no mundo.» (p. 70.) 
No Discurso de inauguração da Academia das Sciencias o 
Duque de Lafões repete por outras palavras esta mesma 
accusação. Por ultimo Costa sabe que as cartas são abertas 
era Lisboa, na mesa da InconGdencia, (p. 77.) e diz com 
uma certa ironia ao filho do seu defunto amigo : «V. M. se 
vá regalando com essas beatíces, que, quando parece que 
vão a exiinguir-se em Portugal, revivera com mais força e 
maior descaramento;» (p. 79.) a esta recrudescência do fa- 
natismo sob o governo dó Arcebispo Confessor, que imbe- 
cilisara D. Maria i, corresponde a fuga de Portugal dos maio- 
res espíritos, como José Corrêa da Serra, Félix de Avelar 
Brotero, Filinto Elysio, a perseguição de José Anastácio da 



B ARTE PORTUGUBZA 



321 



Cunha, de Bocage e de tantos outros. O nome ^ de António 
da Costa, illustrando tanto a arte portugueza, como um dos 
grandes n'este coro das victimas do obscurantismo, resurge 
hoje como um protesto na nossa historia. É por isso que 
em qualquer dos sentidos proclamaremos sempre a*publi- 
cação das suas Cartas como um serviço nacional. 



21 



o HiRQDEZ DE POMBAL 



A historia è como esse tribunal do Amenti da religião 
egypcia, onde s3o julgados os mortos. O nome de Marquez 
de Pombal figura entre os grandes typos da historia por- 
tugueza, e entre os primeiros estadiistas da Europa do 
século xYiu; a sua acção foi atacada e exaltada pelas diver- 
sas opiniões do seu tempo» e è preciso que ao cabo de um 
século, em que as paixões se extinguiram e em que o que 
ha de definitivo nas reformas pôde ser apreciado, a historia 
pronuncie a sua sentença sobre o logâr que compete a este 
homem no pantbeon humano. Antes de entrar nas particu- 
laridades da sua biographia, que s3o outros tantos factores 
d*esta eminente individualidade, importa conhecer a missão 
histórica que o Marquez de Pombal cumpriu com a fatali- 
dade de um destino. Ê essa a primeira condição para jul- 
gal-o com segurança ; na vasta synthese sociológica de Comte 
encontramos o ponto de vista que nos servirá de guia. Co- 
mo os grandes ministros do século xvni, elle representa 
uma forma da ultima transformação do poder real: <0s 
reis, anteriormente simples chefes de guerra na Edade me- 
dia, deveriam sem duvida ser cada vez mais iocompeteutes 
para exercerem de um modo eCTectivo as immensas attri- 
buições que tinham gradualmente conquistado «obre todos 
os outros poderes sociaes. Ê em resultado d'isto que, quasi 
desde a origem d'esla concentração revolucionaria, se vè 
por toda a parte surgir espontaneamente, pouco a pouco, 
uma nova força politica, o poder úiinisíerial extraoho ao 
verdadeiro regimen da Edade media, e que, postoque de- 
rivado e secundário, se toma de mais em mais indispensável 



Q17E8TÕES DB LITTERATUBA E ARTE PORTUGUEZÂ 323 

á DOYa situação da realeza, e posteriormente vem a adquirir 
uma importância de mais em mais distincta e mesmo inde- 
pendente.» (Cours de Phtlosoph. positive, t. v, p. 43i.) O 
Marquez de Pombal, exercendo toda a sua actividade para 
engrandecer o poder monarcbico absoluto, tornou subalter- 
na a pessoa de D. José i, revestiu o de uma soberania tbea- 
trai á altura da sua mediocridade, exercendo em nome do 
rei uma soberania effectiva. Augusto Comte tira todas as 
consequências contidas n'este pbenomeno gerai da marcha 
politica da Europa, em que o poder ministerial se toma 
preponderante: «Ora uma tal instituição constituo necessa- 
riamente a confissão involuntária de uma especie.de impo- 
tência radical da parte de um^ poder, que, depois de ter 
absorvido todas as attribuiçôes politicas, è assim levado a 
abdicar espontaneamente a direcção effectiva, de maneira 
a alterar gravemente e conjunctamente a sua dignidade so- 
cial e a sua independência.» (Ib., p. 435.) O Marquez de 
Pombal conheceu o movimento phílosophico dos Encyclope* 
distas, e a sua residência em Inglaterra e na Áustria orien- 
tou-o nas tbeorias administrativas da Economia politica^ e, 
na poIiMca do absolutismo cesarista; mas as fortes contradic- 
ções que existem nos seus actos só podem ser explicadas 
pelos modos de ser de uma forte personalidade, e é por isso 
que conhecido o caracter de uma tão poderosa missão his- 
tórica, só podemos bem julgal-o acompanhando-o nos seus 
dados biographicos. 

Sebastião José de Carvalho e Mello nasceu em Lisboa, a 
13 de maio de 1699; era neto de um magistrado, e filho 
de um capitão de cavalleria Manoel de Carvalho, conservan- 
do em toda a sua vida a severidade do homem de justiça 
e a impetuosidade do militar, coadjuvado por um vigoroso 
temperamento que precisava exercer-se na lucta. A sua edu- 
cação foi inteiramente domestica, o que lhe conservou a ori- 
ginalidade de caracter, libertando-se doesse regimen sub- 
serviente do ensino jesuítico contra o qual reagiu com plena 
emancipação intellectual. As obras contemporâneas que se 
referem* a este homem extraordinário alludem à mediocri- 
dade da sua estirpe; esta circumstancia não deve passar-se 
•cm claro, por que derivam d'ella os primeiros conflictos da 
sua vida e os profundíssimos despeitos que o incitaram na 
sua lucta sangrenta contra as principaes famílias da ar isto- 



3?4 QUESTÕES DB UTTERATURA 



cracía portugueza. Os seus primeiros amores com D. Tbe- 
reza de Noronha, i^iuva de António de Mendonça e sobri- 
nha do Conde de Arcos, provocaram uma forte resistência 
no orgulho heráldico doesta familia, resistência que soube 
vencer, levando por diante o casamento. Tinha então trinta 
e qUatro annos, e fazia-se valer pela cultura litteraria da 
época como membro ds^ Academia de Historia portugueza; 
pertencia-lhe n'essa corporação erudita o estudo histórico 
do rei D. Pedro i o cru ou justiceiro, e é crivei que d essa 
personiflcação da prepotência re^i se lhe originasse no es- 
pirito a ideia do restabelecimento da monarchia indepen- 
dente sobre a submissão da aristocracia e do clericalismo. 
O seu primeiro casamento durou apenas cinco annos, viu- 
vando em 1739, sem ilhos; o facto da alliança com a 
aristocracia não deixou de o coadjuvar no avançamento das 
honras e cargos sociaes, por isso que foi este o plano do 
seu segundo casamento em 1749, por meio do. qual obteve 
o favoritismo da rainha, mulher de D. João v, com que con- 
seguiu entrar como ministro na governação do estado. 

A corte de D. João v era sensual e beata; o rei entendia 
que governar consistia em mandar dizer missas por alma 
dos seus súbditos, levantar mosteiros, e dar uma pompa 
pharaonica ás exterioridades do culto, gastando sommas in- 
calculáveis na canonisação dos jesuitas Estanisláo Kostka, 
Luiz do Gonzaga, João Francisco Regis, Toribio Merovejo, 
Peregrino, Vicente de Paula, e Camillo de Lellis. Por este 
facto se vé que os jesuitas se apoderaram do animo do mo- 
narcba, sendo o padre João Baptista Carbono o mentor po- 
litico de D. João v. A sensualidade do rei precipitou-o em 
uma paralysia de que foi atacado em 10 de maio de 1741, 
morrendo exhausto apesar.de constantes preces publicas 
em 31 de julho de 1760; n'este período a nação foi gover- 
nada estupidamente por frades boçaes, sendo substituídos 
os pedagogos jesuitas pela omnipotência do cónego augus-^ 
Uniano D. Tbomaz da Encarnação. Deu-se o conflicto entre 
estas duas potencias, conflicto que esperava a sua resolução 
no momento em que D. João v expirasse, e em que D. José 
escolhesse um novo mioisterioT 

Foi no meio d'estas intrigas de sacristia que Sebastião 
José de Carvalho conheceu os caminhos do engrandecimento 
pessoal; pela influencia de um tio cónego junto de Frei Gas- 



B ARTB PORTUGCEZÂ 325 



par da EDcarnaç3o obteve o entrar na carreira diplomática, 
^endo em 4738 enviado a Londres em substituição do mn 
nistro Marcos António de Azevedo, por ventura com uma 
missão restrícta. Eiie conhecia todos os vicios da admini^ 
tração portugueza, que ignorava os meios de fomentar a 
riquQza publica dispendendo em desvarios os capitães qoe 
rendiam as minas de diamantes do Brazil; conhecia que o 
commercio do Brazil era exclusivamente feito por negocian- 
tes inglezes, conhecia a perfídia ingleza pelos effeitos im- 
mediatos do tratado de Methwen, e confio Portugal fora 
abandonado pela Inglaterra na Paz de Utrech. Isto explica- 
nos como na sua primeira missão diplomática se occupoa 
na reclamação sobre as franquias que pelos tratados com- 
petiam aos negociantes portuguezes em Inglaterra. Duroo 
sete annos esta missão, e, cousa notável, entre os seus 
escriptos e preâmbulos rhetoricos das suas leis, não appa* 
recém os minimos vestígios de conhecimento das institui- 
ções politicas da Inglaterra! N'um século em que Montes- 
qiiieu chamara a attenção sobre essas notáveis instituições 
politicas, em que Voltaire secundara esse interesse critico, só 
o entranhado ódio de Carvalho contra o governo expoliador 
da nação portugueza è que o faria desviar a attenção das 
formas politicas, que um século mais tarde serviram de 
forma transitória do despotismo absoluto para a liberdade 
moderna. Perdeu com esta negligencia, por que quando 
Carvalho empregou a violência bruta para dar á realeza to- 
das as parcellas do poder absoluto usadas pela aristocracia 
e pelo clericalismo, fez uma obra de reacção social, que só 
indirectamente e por uma via não prevista contribuiu para 
a expansão da futura liberdade constitucional. 

A saida de Portugal no emtanlo abriu-lhe novos liorison- 
tes; incapaz de julgar as instituições politicas, lançou-se no 
estudo das questões económicas, e tratou de conhecer pela 
historia e pela critica ^ acção de Sully, a quem se compa- 
rou na sua ruina, de Richelieu, cnjo systema de governo 
pelo terror chegou a exceder, de Colbert, cuja doutrina 
proteccionista dos monopólios poz em pratica quando ella 
estava já desacreditada na Europa, e de Louvois, regulari- 
sando a grande receita dos impostos pela sua exacta arre-- 
cadação. Aprendeu muito, mas sem elevação; quando um 
dia as. circumstancias o investiram do governo incondicio- 



326 QUBSTÕBS DB LITTBRATURA 



nal d'este paiz, separou completamente as ideias politicas, 
como inúteis, porque para elle todas as liberdades deriva- 
ram da pessoa do rei, e toda a reclamação de independên- 
cia collectiva ou individual era um crime de lesa-magesta^ 
de, um attcntado de alta traição; a sua acção exerceu-se 
exclusivamente n*uma regulamentação administrativa, ba- 
seada sobre princípios irracionaes e atrasados, para implan- 
tar os quaes teve de pôr em pratica as oppressões mais 
atrozes, que rebaixaram Portugal aos olbos da Europa, sem 
que por esse meio vingassem ou prosperassem as suas 
fundações. Toda a vida publica d'este homem se move n'es- 
tés dois pólos; na parte politica, o engrandecimento do po- 
der real cohi que assegurava o seu próprio valimento pelo 
favoritismo do monarcba, e que ao mesmo tempo lhe ser- 
^a para descarregar os seus ódios sobre a aristocracia que 
o considerava como burguez; na parte administrativa, creava 
partido pela concessão dos monopólios aos ricos capitalis- 
tas, e atacava os jesuitas, cujo poder se apoiava nas gran- 
des feitorias commerciaes que possuíam na America. Pode- 
mos pois attribuir á sua permanência em Inglaterra os pri- 
meiros conhecimentos da nova sciencia da Economia poli- 
tica que então se estava difficilmente deduzindo de um tra- 
dicional empirismo administrativo.- De repente, talvez em 
virtude da sua energia de caracter, foi mandado em mis- 
são especial em 4745 a Vienna para intervir em nome do 
rei de Portugal e estabelecer um accordo eiHre a rainha de 
Hungria e o papa. É certo que desde 1738 estava vaga a 
embaixada de Vienna pelo faíleciroento do conde de Tarou- 
ca ; Carvalho tratou de cumprir a sua missão de modo que 
lhe entregassem este posto importante da diplomacia do 
do século xviii; encarregado de estabelecer um accordo 
entre o papa Bento xiv e.o Eleito de Mayence em r747, 
pode assim demorar-se n'essa capital do absolutismo, 
onde aprendeu a conhecer a sumptuosidade e o insolente 
orgulho da realesa na forma deslumbrante do cesaris- 
mo. Era n'este sentido que tencionava reformar em Por- 
tugal a monarchia; eram estas todas as suas ideias po- 
liticas. Lembrado da influencia do primeiro casamento so- 
bre o seu engrandecimento pessoal, e viuvo desde 4739, 
tentou alliar-se por um novo matrimonio na acistocracia 
austríaca ; fixou as suas vistas em D. Leonor Ernestina 



B ARTB PORTUQUEZA. 327 



D'ÂuD, joven coDdessa filha do marechal d'Aun. Natural- 
mente a familía d'AuQ tratou de informar-se em Portugal 
sobre a gerarchia Dobíliarchica de Sebastião José de Car- 
valho; a Dobresa é implacável no seu orgulho, e foi inso- 
lentíssima nas informações sobre a prosápia burgueza do 
ambicioso diplomata. Sentiu-se profundamente ferido na sua 
dignidade, e como hábil soube introduzir na cooperação do 
seu interesse a rainha D. Maria Ânna, austríaca, casada com 
D. João v; a familia D'Aun cedeu immediatamente diante 
da intervenção da rainha, e pelo seu casamento fixou Car- 
valho uma extraordinária protecção, que aproveitou intro- 
duzindo-se assim no mais alto cargo do estado. Esta situa- 
ção não deixou de cimentar um rancoroso despeito contra 
a aristocracia portugueza, sobre a qual oito annos depois 
estendia o cutello do carrasco e lhe rasgava os pergami- 
nhos com o labéo de traição. O homem é em grande parte 
o que fazem d'elle os acontecimentos. Casado, regressou 
immediatamente de Vienna para a corte de Lisboa, onde 
chega emi 1 de dez^bro de 1750; D. João v estava para- 
lylico, em uma deplorável imbecilidade, e em volta d'elle 
debatiam-se com a ambição do poder os partidários de frei 
Gaspar e os partidários dos Jesuítas. A rainha austríaca 
observava estas vilesas, e deu logo intimidade a Leonor 
Ernestina, que attraiu para seu marido o favoritismo da 
rainha: foi por isso que Sebastião José de Carvalho tratou 
de conservar uma cautelosa neutralidade entre os dois ban- 
dos monacaes como meio de entrar mais facilmente no go- 
verno do reinado de D. José. A conQança da rainha, con- 
servada e augmentada por sua mulher, era a mola secreta 
do seu adiantamento, porque nenhuma qualidade moral ou 
intellectpal valia cousa alguma diante do favoritismo da 
realesa. No seu advento ao throno, Dom José hesitou algum 
tempo na escolha do mimsterio, até que attendeu aos con- 
selhos da rainha mãe, nomeando Diogo de Mendonça mi- 
nistro da marinha, Pedro da Motta ministro do reino, e Se- 
bastião José de Carvalho ministro da guerra e dos negócios 
estrangeiros. Mendonça e Motta limitavam-se a governarem 
por expedientes de occasião; Carvalho trazia planos, para 
a realisação dos quaes ambicionava a annullação dos colle- 
gas e a confiança incondicional de Dom José. Os seus pri- 
meiros actos dístinguem-se pela antiga animadversão con* 



S2& QUESTÕES DE LlTTERiMTJRA 

tra a Inglaterra, levado pelo errado preconceito económico 
de que a riquesa publica consiste no numerário e no abso- 
luto despreso pelas mercadorias estrangeiras. Em i75i 
promulga uma lei prohibindo em absoluto a exportação do 
numerário para Inglaterra, a qual teve de modiQcar pela 
força das circumstancias, permittindo a exportação mediante 
um imposto de dous por cento. Vagas ideias económicas 
fluctuavam-lhe com incoberencia na cabeça, querendo fazer 
o commercio de Portugal pela troca exclusiva dos géneros 
coloriiaes, mantendo a tbeoria já então absurda da balança 
de commercio, e decretando a intervenção do estado sobre 
os gastos individuaes com o titulo de leis sumptuárias. Uma 
crise alimentícia fez com que as suas ideias contra a ex- 
portação do numerário caducassem, tendo de comprar os 
cereaes inglezes. O caracter absoluto das suas doutrinas 
económicas revela ausência de critério scientifico em admi- 
nistração, o que o fazia dar pancada de cego na gerência 
dos negócios públicos; Carvalho imitava a pratica governa- 
tiva de Colbert, e revocando a monarchia de Dom José ao 
tempo da monarchia de Carlos v e de Philippe ii, acbou-se 
insensivelmente do mais exagerado proteccionismo, que, na 
sua phase a mais irracional attinge a forma abusiva, de- 
gradante e monstruosa dos monopólios. Assim em 1752, o 
commercio da índia e da China foi tirado ã livre concor- 
rência dos portuguezes e dado como monopólio exclusivo 
a um tal Feliciano Velho Oldemborg, que explorou o prlvi- . 
legio emquanto lhe fez conta, e acabando por definhar se- 
lhe completamente nas mãos. Ao passo que monopoli- 
sava este importante ramo da actividade mercantil porta- 
gueza conlradictava toda a sua doutrina, tomando livre o 
commercio entre Gôa e Moçambique. Vê-se portanto que 
as concessões de monopólios eram um meio de crear par- 
tido entre certos grupos de capitalistas, e de auferir ren- 
das transitórias para o erário; o commercio portuguez rsr 
sentia-se, e quando tratava de apresentar as suas reclama- 
ções baseadas em rasões jurídicas, o prepotente ministro 
considerava esse acto natural como um críme de lesama- 
gestade e precipitava nas enxovias os homens de negocio 
que apresentavani respeítosaríiente as suas reclamações. 
Foi assim que em 1753 acabou com o livrejcomnaercio do 
Gram-Pará e Maranhão, entregando o privilegio exclusivo a 



B AHTE PORTUOUBZA 329 



lima companhia, fundada em 1 1 de agosto d'esse anno; feria 
mortalmente uma classe inteira para beneficiar alguns in« 
dividuos, A Mesa do Bem Commum tratou de representar 
cordatamente contra esse extraordinário privilegio, apre- 
sentando nm memorial redigido por um advogado, o infe- 
liz João Thomaz de Negreiro, que cona todos os legítimos 
peticionários foi mettido no cárcere do Limoeiro. O minis- 
tro extinguiu a Mesa do Bem Commum, substituindo-a por 
um tribunal consultivo a Junta de Commercio. Ainda no sé- 
culo XIX em Portugal um ministro comprehendeu por esta 
mesma forma o direito de petição. A creação da Companhia 
do Commercio do Gram-Pará poderá porventura explicaF- 
se como um meio de atacar o commercio abusivo dos Je.- 
suitas no Brasil; foi esse o primeiro golpe, nomeando seu 
irmão Francisco Xavier de Mendonça para governador do 
Maranhão, íiado na duresa do caracter d'elle, para abafar 
com audácia todas as resistências. A troca com o governo 
liespanhol entre as colónias do Sacramento pelas do Para- 
guay, onde os jesuitas haviam formado um quasí estado 
clerical, levaram Carvalho a echpregar o seu meio governa- 
tivo, a violência bruta, apoderando-se da colónia pela força 
das armas, e collocando os Jesuitas na posição degradante 
de negarem a sua aliciação secreta. 
, Um accidente casual veiu dar todo o relevo á audácia e 
iniciativa de Sebastião José de Carvalho, e ligal-o para sem- 
pre á confiança do monarcha. Pode contar-se d'aqui em 
diante uma segunda phase da sua acção ministerial. No 1.® 
de novembro de 175S, ás nove horas da manhã, rebentou 
em Lisboa um violentíssimo treraíor de terra, que durou 
cerca de sete minutos; a* cidade ficou quasi completa- 
menle subvertida, morrendo não só pelo desmoronamento, 
como por uma deslocação das aguas do Tejo que chegou 
quasi ao valle de Pereiro, e por incêndios parciaes, aproxi- 
madamente doze mil pessoas. Era- á hora em que as egre- 
jas estavam repletas de crentes, que ficaram sepultados sob 
as abobadas derrocadas; o espirito publico foi assim lan- 
çado sob um s^ceptico desalento, e se vemos por effeito 
d'esse assombroso phenomeno um Kant construir o syste- 
ma do universo sem Deus, e Goethe destruir o seu aliar 
paniheista, também podemos concluir, que o activo minis- 
tro de D. José pôde vibrar um d^uro golpe no clericalismo. 



330 QUBSTÕBS DE UTTBRATUaA 

~ — ■ 

porque a credulidade publica ficara desnorteada com a tre- 
menda catastropbe. N'este extranho cataclysmo ficou com> 
pictamente arrasado o sumptuosíssimo Tbeatro da Ribeira, 
onde Servaodoni gastara rios de dinbeiro para distrair D. 
João y e a corte portugueza; perdeu-se o riquissimo Ar- 
chivo da Casa de Bragança, a Bibliotbeca do Duque de La- 
fões, e o inapreciável Ârcbivo da Casa da índia 1 No meio 
de tanta ruina, Garvalbo soube apoiar a sua dictadura mi- 
nisterial; organisou um conselbo de magistrados, regula- 
mentou o serviço das tropas para accudir aos que ainda es- 
tavam vivos, ordenou severos castigos contra os padres fa- 
náticos que se lançaram a pregar ballucinando o povo com 
os terrores da cólera de Deus, e tratou de reprimir a la- 
droagem com execuções summarias. A situação ajudava-o; 
a capacidade politica, se a tivesse, não Ibe era precisa n'este 
ensejo, bastava-lbe tino administrativo; rejeita inconsidera- 
damente os soccorros offerecidos pela Indaterra, Hespanha 
e França, recebendo em seguida cem mil libras votadas una- 
nimemente pelo parlamento inglez para accudir ao inaudito 
desastre. Para accudir á fome geral, suspendeu os direitos 
da importação dos cereaes, vindo logo no anuo de 1756 a 
lançar um imposto de quatro por cento sobre todas as mer- 
cadorias para proceder ás obras da reediGcação da cidade, 
a qual o embaixador francez considerava como irremedia- 
velmente perdida. Para a acquisição de capitães recorreu 
também a um imposto sobre o consummo, por onde veiu a 
reconhecer praticamente qcTe a riqueza publica depende de 
um bom systema dq impostos e de uma regular cobrança. 
Em 1755 succedeu Carvalho a Pedro da Motta no ministé- 
rio do reino, cedendo a pasta dos estrangeiros a D. Luiz 
da Cunha, que ficou seu instrumento passivo; aproveitando 
a casualidade de um banquete dado por Diogo de Menãouça 
em 3 de agosto de 1756 ao corpo diplorçatico, quiz imitar 
a peripécia do Intendente Fouqué, e desterrou o collega 
para quarenta legoas longe de Lisboa, indo mais tarde mor- 
rer em Africa. N'este mesmo anno a sua dictadora minis- 
terial consolidava-se, publicando um decreto em que offe- 
recia quatrocentos mil cruzados ás pessoas que relatassem 
quem eram os que diziam mal do seu governo. O succes- 
sor de Mendonça, o ministro Thomé Joaquim Corte Real ao 
fim de quatro annos cae também em desgraça, notando-se 



E ARTE P0RTU6UEZA' 331 



a conGrmação do seu pleno favoritismo pela eoncessão do 
titulo de Coode de Oeyras em 4759. 

Antes porém*' de chegarmos a esta data importante, a 
actividade de Carvalho reduplica em audácia, e impôe-se 
pelo terror. O commercio livre dos vinhos do norte de Por- 
tugal è prohibido em absoluto e entregue como monopólio 
a uma Companhia dos Vinhos do Alto Douro fundada em 
to de setembro de 1756; os preços são tarifados, e as qua- 
lidades dos vinhos são impostas sob três typos, vinhos de 
feitoria, subsidiários e de ramo. Era um ataque contra a 
actividade industrial portugueza para ir indirectamente fe- 
rir os commerciantes inglezes; o monopólio feroz produziu 
muitos descontentes, e fácil foi aos exportadores inglezes 
e também aos jesuitas provocarem no Porto uma pequena 
arruaça, que se manifestou por um ajuntamento de mulhe- 
res e crianças em 23 de fevereiro de 1757. O ministro re- 
dobrou de cólera e mandou ao Porto uma Alçada discricio- 
nária, fazendo prisões sem conta, applicando suplícios á tõa 
para intimidar o povo, e deixando na impunidade os Jesuí- 
tas e os negociantes inglezes. Á medida que o seu poder 
governativo se accentuava pela força bruta, era-lhe preciso 
firmar-se no favor cego do rei; o attenlado de 3 de setem- 
bro de 1758 contra a pessoa do rei D. José, foi conside- 
rado por muita gente como uma farça sangrenta com que 
o audacioso ministro quiz captar a confiança do pusillanime 
monarcha, que se envolvera em uma intriga amorosa com 
a mulher do Marquez de Távora Luiz Bernardo. É crivei 
que houvesse qualquer manifestação hostil da parte da fa- 
milia Távora, mas no século xvni a aristocracia portugueza 
enobrecia-se com a. prostituição real, e todos eram unani- 
mes na adoração do fetiche monarchico; O terrível minis- 
tro aproveitou com uma hábil crueldade a noticia de terem 
sido disparados dois tiros contra a carruagem em que D. 
José voltava da referida intriga amorosa; fechou o rei por 
algumas semanas, e só a 15 de dezembro é que o minis- 
tro D. Luiz da Cunha, manequim de Carvalho, deu parte 
do acontecido ao corpo diplomático, tendo três dias antes 
sido preso na torre de Belém o Duque de Aveiro, e o Mar- 
quez de Távora com seus flihos ; os conventos dos Jesuitas 
foram cercados com tropas, e ordens secretas de prisões fo- 
ram dadas contra os Marquezes de Gouvêa e de Alorna, 



332 qubstGbs de mtteratdra 

procedendo-se depois á prisão do Conde de Óbidos, Coode 
da Ribeira, Conde de S. Lourenço e outros. Sebastião José 
de Carvalho, tinha debaixo do cutello do algoz a aristocra- 
cia portu^ueza, e os seus velhos ódios haviam de cevar-se. 
A ii de janeiro de 1759 os três ministros assígnam o pro- 
cesso que durou apenas um mez, e a i3 de fevereiro es- 
tava levantado em Belém um cadafalso com dezoito pès de 
altura, onde em nome da lei se commetteram -em desag- 
gravo da realeza as atrocidades mais monstruosas que nunca 
os cannibaes mais degradados praticaram, deshonrando-se 
assim a justiça de um povo que aos olhos da Europa caie 
na posição de povo selvagem. Foi d*este golpe cruento que 
o ministro Conde de Oeyras derivou esse poder discricio- 
nário, que usou até 14 de março de 1777, durante todo o 
reinado cesarista de D. José, que acabou esgotado pelas de- 
vassidões como D. Jo3o v. Ferindo a nobreza o ministro 
achou caminho para atacar os Jesuítas, que eram os seus 
directores espirituaes e intrigantes alliados; viu claro o pro- 
blema, e atacou«o com resolução inaudita. Os Jesuitas fo- 
ram postos fora do paçx); pelo embaixador em Roma, o seco 
e insolente Francisco de Almada, reclamou de Bento xiv 
uma bulia de expulsão da Companhia como cúmplice no 
crime de alta traição. Como experimentado diplomata co- 
nhecia os hábitos da corrupção e simonia cardinalícia, e por 
meio de jóias e pedrarias tratou de obter dos membros do 
Sacro Collegio a adhesão aos seus planos. O papa não se 
atrevia a dar o golpe na poderosa Companhia, e expoz essa 
disciplinada milicia da theocracia ás mais amargas humilha- 
ções, ordenando que o Cardeal Saldanha procedesse á re- 
forma dos Jesuitas. O patriarcha de Lisboa prohibe-lhes o 
confessarem, e o papa expia a sua pusilanimidade morrendo 
quando mais conveiu aos interesses da roupeta. Depois de 
ura tempestuoso conclave é eleito Rezonnico com o nome 
de Clemente xin, que conserva a questão em suspensão 
conteraporisadora, obedecendo ás sugestões da Companhia, 
que pela voz do seu geral Ricci proclamava a celebre di- 
visa da sua intransigência Sint ut sunt, aut non sint. No 
emlanto o ministro cortava a direito, garantido junto de to- 
dos os governos catholicos pela necessidade de aEBrmar a 
independência do poder' monarchico. Se os processos em- 
pregados pelo Conde de Oeyras não fossem tão violentos, 



E ARTE P0RTU6UEZA 333 



OS outros ministros do absolutismo tel-o-iam desde logo 
acompanhado nos esforços para a extincção da Companhia ; 
mas Cboiseul não conflava no bom senso de Sebastião José 
de Carvalho, e a expulsão dos Jesuitas de França em 1764 
e da Hespanha em 1767 fez-se por um accordo doestas duis 
potencias e em que Portugal não foi ouvido. A indole do- 
minativa do ministro portuguez complicava todas as combi- 
nações. Em 28 de junho de 1759 decreta a expulsão dos 
Jesuitas de Portugal, e seiscentos roupetas foram manda- 
dos transportar para Civita-Vecchia; tendo posteriormente 
decretado o sequestro de todos os seus bens, depois de te- 
rem sido privados em absoluto do ensino publico. O con- 
físco era um meio administrativo da monarchia absoluta, e 
D. José apropriando-se dos extraordinários bens da Com- 
panhia ampliou o seu poder porque tinha o recurso das 
grandes doações regias. Â prohibição do ensino aos Jesui- 
tas levou o ministro a pensar n'uma organisação civil da 
instrucção publica; de facto dois ánnos depois fundava o 
Coll.egio dos Nobres, e mais tarde a reorganisação da Uni- 
versidade de Coimbra. Vibrando estes terríveis golpes con- 
tra a associação ainda hoje a mais poderosa entre os povos 
da Europa, o Conde de Oeyras precisava de garantirse com 
um systema completo de resistência; de facto em 1760 co- 
meça um novo periodo de perseguições, mandando pren- 
der o Conde de S. Lourenço, o amigo de Garção e mais 
tarde de Bocage, e o Marquez de Ponte de Lima. Uma sim- 
ples allusão aos seus actos, uns quaesquer versos bastavam 
para fazer a desgraça de um homem, morrendo sem ár 
nem luz nos cárceres da Junqueira; fundou a terrível insti- 
tuição da Intendência geral da Policia, em que copiava o 
systema inquisitorial levado até ao desvario pelo Diogo Igna* 
cio de Pina Manique, que continuou o espirito despótico do 
ministro atè 180S! O tribunal da Inconfidência servia-lhe 
para conhecer tudo quanto os embaixadores noticiavam para 
os seus governos, e para descobrir as referencias pessoaes, 
que lhe serviam de base para repressões implacáveis e in- 
stantâneas. Ninguém linha a cabeça segura sobre os hom- 
bros. Querendo fortalecer-se no paço contra qualquer in- 
triga da nobreza promove o casamento da princeza D. Ma-* 
ria com seu tio o infante D. Pedro; pondo do seu lado este 
irmão do rei» fixou assim a confiança cega e illimitada dQ 



334 QUB8T0B8 DB LITTBRATimA 

mooarcha. N^esle mesmo aDDO coDcede novos privilégios á 
Companhia dos Vinhos do Alto Douro, impondo três typos 
de aguardente para serem tarifados por ella, a aguardente 
de escada^ a de prova redonda e a de fyrovia baixa. O Conde 
de Oeyras levava as suas ideias, ainda a? menos racionacs 
até ás suas ultimas consequências ; no fervor de monopoli- 
sar o commercio dos vinhos na Companhia do Alto Douro, 
chegou em 1773 a mandar destruir os vinhedos que exce- 
dessem uma certa área, e em 1776 prohibíu a exportação 
dos vinhos a não ser pela barra do Porto. O monopólio le- 
vado até ao contrasenso provou á evidencia a sua ineffica- 
cia; de facto durante vinte annos de um proteccionismo 
atroz em beneficio da Companhia do Alto Douro, a expor- 
tação augmentou apenas em um decimo, como se pôde vér 
n'esta cifra de 380:325 pipas nos vinte annos antes do mo- 
nopólio, e 414:143 pipas em vinte annos de privilegio ex- 
clusivo da Companhia. A preoccupaçSo do ministro era a 
balança do commercio, pensando que por estas medidas fe- 
ria os commerciantes inglezes*; era ó que se chama perder 
um olho por uma pestana. Deve-se-lbe porém a esta hos- 
tilidade a entrada em Portugal de familias de iudustriaes 
francezes que no paiz fundaram as primeiras, fabricas, e que 
pelo trabalho honrado aqui ee nobilitaram. O livro de Ja- 
come Ratton, Recordações, é inapreciável para a historia in- 
dustrial d'esta época. Ê de 1760 essa reclamação enérgica 
contra o governo inglez, que anda em nome do Conde de 
Oeyras, mas que o bom senso obriga a regeitar ou como 
aprocrypha ou como prova de inépcia, mesmo porque em 
1761 o ministro achava-se envolvido em uma alliança com a 
Inglaterra por causa do Pacto de Família, e em 176á ac- 
.ceita a cooperação ingleza contra o exercito hespanholque 
em 30 de abril doesse anno entrava em Portugal. Seguro 
com a confiança illimitada de D. José, e para estimularas 
tergiversões de Roma, elle decreta em 17 de fevereiro de 
1761 o confisco de todos os bens da Companhia de Jesus 
para a coroa, e para acabar de impôr-se pelo terror, manda 
fazer um pomposo auto de fé com cincoenla e três con- 
demnados entre os quaes figura com a roupeta um hallu- 
cinado de setenta e Ires annos de edade, o imbecilisado pa- 
dre Malagridâ, italiano visionário e poeta, que as beatas fi- 
dalgas veneravam por santo. A execução do desgraçado 



B ARTE PORTUGUBZA 335 



Idiota fez-se com todos os requisitos da brutalidade em 21 
de setembro de 1761. A acção contradicloria e discricioná- 
ria do ministro portuguez espantava^ Choiseul ; e não era 
para menos, porque decretando n'este anno a abolição da 
escravatura em Portugal, cancro moral communicado pelas 
colónias da Africa e do Brazil, o mesmo homem que inicia 
este grande passo para a liberdade civil, allia-se com o 
Santo OfiScio concedendo-lhe o titulo honorifico de real, e 
mandando que se lhe requeira com o tratamento de Mages- 
tade ! O ministro cobria toda a sua prepotência com a dou- 
trina regalista do poder monarchico absoluto; contra as sub- 
tilezas canónicas tinha á sua ordem a erudição Térrea do 
padre António Pereira de Figueiredo que fazia dos cânones 
o que elle queria; contra o foro civil tinha a argumentação 
pesada dos lentes da Universidade, e de José de Seabra da 
Silva, de quem pretendia fazer o seu braço direito. A dy- 
nastia dos Braganças ao ser investida da soberania extin- 
guiu a liberdade politica das cortes da nação;, até 18iá 
nunca mais se exerceu a soberania nacional, que fora mi- 
seravelmente assassinada por um despotismo corrupto; o 
ministro' de D. José mandou annullar como aprocrypho o li- 
vro de Valasco de Gouvèa, a Justa acclamação, em qne^se 
proclamava o principio da soberania nacional, e mandou 
exautorar o Presidente do Desembargo do Paço Dr. Igna- 
cio Alvares (Ja Silva, porque seguia a doutrina de que a lei 
civil em matérias de casamento só podia ser alterada pelas 
cortes da nação. Era o déspota na cegueira desenfreada, 
em parte movida pela ambição pessoal, como se nota no 
esforço para ligar seus filhos por casamentos nas princi- 
paes famílias da aristocracia portugueza, chegando até a 
apropriar-se de uma sobrinha dos Tavoras para um seu fi- 
lho. Em 1769 succede no pontificado o Cardeal philosopho 
Ganganelli, conhecido pelo nome de Clemente xiv; o minis- 
tro portuguez insta por uma bulia para a abolição da Cora- . 
panhia de Jesus, e o papa para abrandal-o offerece o bar- 
rete cardinalicio para seu irmão Paulo de Carvalho. As in- 
stancias redobram em 1770 e 1771; mas se a Companhia 
de JesujS foi abolida pela Bulia Redemptor Jesus, deve se^ 
esse grande passo á liga do gabinete francez e hespanhol. 
A bulia é datada de 23 de julho de 1773, e Clemente xiv 
morreu immedialamente com a mesma morte mysteriosa 



336 



QUESTÕES DE LITTERATURA 



de BeDto xiv. O ministro portuguez do meio dos seas odlos 
d3o se esquecia do engrandecimento pessoal, ficando a usar 
desde 13 de setembro de 1770 o titulo com que é conhe- 
cido na historia, de Marquez de Pombal. Tendo pelo seu sys- 
lema monopolista centralisado os impostos, achou-se com 
uma riqueza extraordinária que lhe proporcionou ensejo da 
dar subsidios ás industrias, algumas verdadeiramente spo- 
radicas, e das quaes fez a primeira exposição para distrair 
o rei na sua propriedade de Oeyras. Era preciso reformar 
o ensino; conhecia todos os vicios da pedagogia jesuítica, 
já cabalmente processados desde 1745 pelo Verdadeiro Me- 
thodo de Estudar do audacioso Barbadinbo Luiz António Ver- 
ney; tinha de mais a mais a cooperação dos Padres do Ora- 
tório, rivaes dos Jesuítas em questões de ensino. Pombal 
conhecia a importância dos relatórios, mais tarde explora- 
dos pelo constitucionalismo, e mandou redigir esses livros 
de erudição opaca e indigesta da Deducçãochronologica,eáo 
Compendio histórico, sobre os quaes havia de fundar a nova 
organisação pedagógica. Em 177^ existiam em Portugal oi- 
tocentas e trinta e sete escholas; em 28 de agosto d'es(e 
mesmo anno é o Marquez de Pombal nomeado vishador e 
reformador da Universidade de Coimbra, para onde partiu, 
sendo recebido com honras extraordinárias jqne elle orde- 
nou como logar-tenente do rei. A reforma da Universidade 
consistiu em lima minuciosa regulamentação, que foi publi- 
cada em 29 de setembro com o titulo de Estatutos, que os 
cathedcalicos ainda hoje consideram como uma maravilha 
do saber humano, e que cumprem em todas as suas minú- 
cias com o mais boçal fetichísmo. A reforma da Universi- 
dade de Coimbra foi meramente regulamentar, e é essa a 
única obra de Pombal que subsiste ainda boje, por onde 
pôde ser julgado o seu espirito reformador. As sciencias 
moraes e económicas não estavam organisadas; não existia 
ainda a chimica, nem a physiologia, nem liberdade mental, 
que estava substituída pela auctoridade tradicional, por 
tanto a refoTma pelo que ainda hoje se vê pelas faculdades 
humanistas (direito e theologia) foi de exclusiva regulamen- 
tação. Para as despezas da instrúcção foi creado em 177!^ 
um imposto de consummo conhecido na historia pelo nome 
de Subsidio litterario, derivado do seu destino, como ainda 
hoje vemos com a designação irrisória do real de agua. No 



E ARTk PORTUGUEZA 337 



seu instincto e fervor centralista, Pombal abole eip 1774 a 
Relação de Gõa, e faz a desgraça de José de Seabra da 
Silva, por suspeita de inconfidência, ou talvez por ter re- 
ceio do seu vigoroso talento. Màs n'ésse anno de 1774 teve 
Pombal o primeiro aviso da próxima qpeda da sua dicta- 
dura: o rei soífreu o primeiro ataque apopletico. O mi- 
nistro, como quem pretendia empalhar o rei para conser- 
val-o, manda erigir-lhe em 1775 essa colossal estatua de 
bronze que está no Terreiro do Paço, cuja celebração se fez 
com milhões de odes arcadicas que abarrotam centenares de 
volumes. O ministro sente que lhe minam o poder, e para 
vibrar um golpe de terror manda fazer a sangrentíssima 
execução de um desgraçado obscuro João Baptista Pele por 
suspeitas de tentar contra a sua vida. A hora da queda * 
aprôximava-se; em junho de 1776 el-rei D. José soffre um 
segundo ataque apopletico. O ministro pensa em salvaguar- 
dar o futuro; trata de obter a assignatura do rei para de- 
fender-se com ella de todos os actos que praticou; a 10 de 
novembro repele-se um terceiro ataque, e o governo passa 
para a regência de D. Marianna, mulher de D. José. Pom- 
bal ainda se lembra de fazer o casamento do príncipe D. 
José com sua tia D. Maria Benedicta, fiado na sympathia e 
confiança que inspirara ao príncipe. A 4 de fevereiro de 
1777 D". José é atacado por um novo insulto apopletico, a 
passado o prímeíro perigo pede que se faça o casamento 
do joven príncipe com a tia. Ao fim de dezeseis dias, isto 
é, em 20 de janeiro, morre o monarcha e com elle o favo- 
ritismo que sustentava a dictadura de Pombal. A 14 de 
março recebia o Marquez uma brusca demissão, sendo sub- 
stituído no governo pelo Conde de Vifla Nova. Começou o 
governo da insensata D. Maria i, victíma do mais insolente 
beaterio; desencadeou-se a reacção da parte da nobreza; os 
jesuítas tentaram novamente introduzir-se, o que nãoconse*- 
guiram por causa da opposição do governo hespanhol; to- 
das as reformas de Pombal foram desfeitas disparatada- 
mente por um espirito mesquinho de reacção. E até o prín- 
cipe D. José, que seguia abertamente as ideias administra^ 
tivas do Marquez de Pombal» morreu repentinamente, como 
conta Beckford, succedendo-lhe o imbecil que se assígna- 
lou na historia com o nome de D. João vi. O Marquez de 
Pombal é accusado de expoliaçôes, e considerado criminoso 

22 • 



338 QUESTÕES DB LITTERATimA S ARTE PORTUGUEZA 



pelo acto da sua defeza; instaura-se-lhe um ruidoso proces- 
so, submettendo-o a um prolongado interrogatório, come- 
çado em 9 de outubro de 1779 pelo juiz José Luiz de França 
e adjunto Bruno Manoel Monteiro; o velho estadista defeo- 
de-se com o cumprimento das ordens de el-rei seu amo. 
Procede-se a um segundo interrogatório confidencial ; o pri- 
meiro durara até 9 de janeiro; este ultimo começa em março 
e dura poucos dias, sendo por vezes interrompidos pelos 
delíquios em que o velho ministro caía. Depois de termi- 
nados os interrogatórios, o velho Marquez sente-se sem 
energia moral, receia ^e descarreguem sobre elle golpes 
análogos aos que arremessara contra os seus inimigos, e 
deixa-se cair pedindo perdão á magnanimidade de D. Ma- 
ria I. Deplorável ; é o suícidio de um beroe. O decreto de 
16 de agosto de 1781 acabou de manchar aquella existên- 
cia audaciosa e soberana perdoando-lhe as penas infaman- 
tes em que o achavam incurso. Foi um golpe mais fundo do 
que o cutello que decepou as cabeças dos Tavoras; o de- 
caído ministro soffreu dez mezes de supplicio moral, ven- 
do-se abandonado por todos aquelles que engrandecera. A 
sua queda era designada na linguagem vulgar, como es- 
creve Nicoláo Tolentino, a viradeira, e tudo quanto sabia 
fazer versos metrificou satyras violentas contra o Marquez 
de Pombal, que enchem volumes manuscriptos nas biblío- 
thecas. O Marquez de Pombal morreu a 8 de maio de 1782. 
A moral da sua acção politica e administrativa resume-se 
em poucas palavras: favoreceu indirectamente o advento 
das instituições liberaes, porque impondo o poder real ab- 
soluto, soube enfraquecer os dois poderes da aristocracia 
e do clericalismo> que mantinham n'uma invencível ímmo- 
bilidade o regimen catholico-feudal. Uma grande chêa rompe 
um cabedello que obstruo uma barra; è uma força bruta 
da natureza de que a actividade humana tira partido. Foi 
assim o Marquez de Pombal, desobstruiu o caminho para 
uma mais fácil eliminação da realeza, embora essa obra 
saísse contraria ao seu intuito; a sua acção, a sua própria 
individualidade, annullando o poder monarcbico hereditário 
pela superioridade do poder ministerial, denunciam a época 
em que a soberania, derivada da nação, será delegada ao 
mais competente. 



o BYSSOPE DE ANTÓNIO DINIZ DA CRUZ E SILVA 



Em Portugal nao exlslem livreiros que comprehendam 
a necessidade de uma vasta collecçao dos escriptores na- 
cionaes vulgarisados em edições económicas, e accèssiveis 
aos que estudam, que perdem a maior parte do tempo ex- 
cavando pelas bibliothecas ou seduzindo os ciasos pos- 
suidores das raridades bibliographicas para que lhes per- 
mittam uma rápida inspecção do thesouro de que iião sa- 
bem tirar partido. As bibliothecas sao sitios adaptados para 
estudo na mesma condição em que está uma hospedaria 
para as commodidades domesticas; vae-se ali accidental- 
mente e de fugida examinar um problema, como se re- 
corre á hospedaria quando os negócios nos afastam tempo- 
rariamente de casa. Para conhecermos os nossos principaes 
monumentos litterarios é preciso ficarmos devendo innume* 
ros favores pessoaes, como no tempo em que se viajava 
pedindo pousada do ár da noite. Infelizmente a Academia 
das Sciencias consomme a dotação nacional em uma vergo- 
nhosa esterilidade, e sem acompanhar ô movimento scien- 
tifico moderno, nem sequer se aproveita da sua imprensa, 
e dos seus correspondentes na livraria para dotar os que 
estudam com um corpo de clássicos portuguezes, não di- 
remos já como a Bibliolheca de Rybadaneira ou de Ochôa, 
mas como as bibliothecas italianas económicas ou como as 
edições de Hachette. Deixemos portanto a Academia rumi- 
nando os seus qualorze contos annuaes, e fecTiando a porta 
aos que trabalham só porque têm a franqueza d'esta jusla 
increpação. Onde a vida offlcial cáe no marasmo, deve a 
iniciativa particular ir modificando, lentamente pela estrei- 
teza dos seus recursos, a apathia da época. A publicação 



340 QUB8TÕBS DE LITTBRATORA 

ÉIB I I III —1 ■ I II ■■"■^-■l I 

w 

do poema heroi-comico o Hyssope é um facto eloquente de 
iniciativa individual, que deve ser accolhido para contrastar 
com a inércia das corporações litterarias * . No momento actual 
da sociedade portugueza, n3o é um poema beroi-comico escrí- 
pto sobre uma anedocta privada de 1770» o que interessa ás 
necessidades moraes e intellectuaes de um povo que reco- 
nhece o seu atraso ; mas esse poema estudado com os pro- 
cessos de uma erudição segura, sendo como é um magni- 
fico capitulo para a historia litteraria de Portugal, dispen- 
sava bem o apparato de uma edição luxuosa, que representa 
um risco certo de mais de dois contos e quinhentos mil réis 
para o sen corajoso editor. Quando é precisa a pólvora para 
o combate, para que dispendel-a em salvas? 

Mas coliocando-nos no ponto de vista dos emprezarios da 
edição-prínceps do Hyssope, a justiça impôe-nos a lingua- 
gem do louvor; os srs. Castros tém um profundo amor pela 
arte typographica, e nos concursos europeus das exposições 
internacionaes os seus trabalhos typographicos figuram com 
egualdade ao lado dos mais bellos productos da. imprensa 
austríaca. A edição do poema hefoi-comico o Hyssope seniii 
de pretexto para uma manifestação esplendida da typogra- 
pbia portugueza á altura a que os srs. Castros a tém sabido 
elevar; o seu sacrificio não é uma phantastica especulação 
mercantil, significa um culto peta profissão e uma prova 
eximia que authentica um estado da arte portugueza. Cabe 
aqui tratar dos desenhos que illustram o poema ; n'esta parte 
não foram os meritissímos editores mais felizes do que na 
sua edição-princeps de Tolentino. Os desenhos não sahi- 
ram de uma clara comprehensão do poema, nem do conhe- 
cimento da sumptuária da época, nem dos typos que se es- 
tudam Ião bem nas gravuras do século xvm; falta-lhes es- 
tylo e graça, sobretudo na parte allegorica. Se o artista 
houvesse conversado sobre o seu assumpto, com certeza 
acharia a vis cómica que fez do poema de Diniz uma obra 
de arte ainda com actualidade. A separação entre o artista 



1 o Byssope, Edição critica, disposta e annotada por José Ramos CoelhOi- 
com um prologo acerca do auctor e neus escriptos — acompanhada de variao- 
tea e illostrada com desenhos de Maaoel de Macedo e gravuras de Alberto, Hil- 
debraod, Pedroso e ScTerini. — Typ. de Castro irnâo. Lisboa. 1879. 1 toI. io- 
^.« máximo, 464 pag. Preço 4^500 réis. 



E ARTE PORTUGUBZA 34 1 



6 O bomem de letras e o phílosopho produz a atonia da 
ioiagÍDação. 

Agora sobre a parte lilteraria. O pensamento de realisar 
uma ediçao-princeps do poe\na de Diniz è muito antigo nos 
srs. Castros; primeiramente foi o trabalbo critico da edição 
offerecido ao bibliograpbo Innocencio Francisco da Silva. 
Era acertada a escolha; Innocencio Francisco da Silva co- 
nhecia toda a actividade litteraria de Portugal no século xviii, 
6 por tradições recebidas de alguns neo-arcades também co- 
nhecia a vida moral d'esse século de dissolução esponta^ 
nea. A sua edição do Hyssope deveria ser importante na 
parte da recensão do texto e na explicação anedoctica das 
particularidades do poema. 

Em uma collecção de cartas, que guardamos, do biblio*» 
grapho Innocencio, achamos com data de 18 de fevereiro 
de 1861: «Saberá que o srs. Castros, editores Ao Archivo 
pittoresco (para o qual dei ha po^ico uma noticia biographica 
do nosso quasi esquecido poeta Santos e Silva), tratam 
agora de realisar uma nova edição critica, commentada e 
iliustrada com gravuras, dô Hyssope. Propuzeram-me a ta- 
refa de díspol-a e annotal-a, o que acceitei, em vista dos 
subsidies que tenho para esse fim reunidos; e a obra vae 
começar em março, completa que seja a das poesias de 
Tolentino, que bastante se ha demorado pela inevitável falta 
de gravuras.» Em outra carta, de 8 de setembro de 1861, 
€Screvia-nos ainda Innocencio : «Vindo agora ao nosso /íy^ío- 
pe, saberá o meu amigo que effectivamente se vae entrar na- 
reimpressão d*este poema, illustrado com muitas gravuras, 
ao gosto do tempo, e acompanhado de um extensissimp com- 
mentario, ou de notas históricas, criticas, philologicas, etc, 
etc, as quaes já tenho traçadas (e algumas escriptas) em 
numero de duzentas e- tantas; aproveitando e corrigindo 
outro sim todas as que Verdier ajuntara ás suas edições 
de Paris, 1817 e 18il. Já vê que é obra talhada em ponto 
grande: algumas das notas equivalem a pequenas disserta- 
ções, e não fica, por assim dizer, palavra ou phrase sem 
a competente explicação. Emfim, cousa de género novo en- 
tre nós. Hão de ir transcriptos os legares parallelos de vá- 
rios poemas que o Diniz imitou, e os de outros em que 
elle ha sido imitado: d*estes uils são já impressos, outros 
ainda inéditos.» Em outra carta de 22 de setembro de 1861, 



342 QUESTÕES DB LITTBRATUBA 

escreve: cE a propósito, se estiver com o nosso bom 
conego-thesoureiro-mõr, queira dizer-lbe que por falta de 
tempo lhe d3o escrevi já, para agradecer-Ibe a remessa das 
DOtas.que me enviou relativas ao Hyssope. Infelizmente nada 
adiantaram ás que eu já tinha, porque possuía outro ma- 
Duscripto, conforme em tudo, e que indica serem ambos 
copia de um mesmo original; senão que o meu tem de 
mais um capítulo prévio que é a Historia da composição da 
Hyssopaida, faltando este no do sr. Fonseca. D'essa Histo- 
ria já eu colhera o que mais resumidamente publiquei no 
estudo biographico acerca de Diniz, que saiu no tomo i do 
Archivo pittoresco, e que o meu amigo já viu, segundo creio, t 

Por ultimo, em uma carta de 15 de novembro de 1863^ 
escrevia-nos Innocencio estas palavras desoladas: a A pro- 
jectada reimpressão do Hyssope tem estado e continua a 
estar em actos nullos, porque o editor, talvez melhor acon- 
selhado, receia empatar dinheiro na publicação de um li- 
vro dispendioso, e que provavelmente terá poucos compra- 
dores.» Por estes excerptos curiosos se verá qual era o 
plano de Innocencio, na reproducção critica do Hyssope, 
cujos meleriaes ficaram sepultados entre os seus aponta- 
meotos guardados talvez pelo seu testamenteiro. 

O pensamento da edição reappereceu mais tarde, offere- 
cendo os srs. Castros a direcção litteraria da empreza a 
um esiylista sentimental, que prologa livros, fabrica histo- 
ria, arma dramas e romances, engenha diccionarios a con- 
tento da burguezia que detesta a erudição, a phílosopbia e 
sobretudo as ideias modernas no que ellas têm de revolu- 
cionário. Era um desastre para o poema de Diniz; feliz- 
mente não aconteceu essa fatalidade, porque além dos tra- 
balhos allegados, a politica militante dos partidos médios 
pouco tempo deixa para expremer phrases. Por esta cir- 
cumstancia foi o trabalho critico do Hyssope entregue ao 
sr. Ramos Coelho, cremos que por mera casualidade. Como 
se saiu o crítico da sua (ii£Qcil empreza? É o que vamos 
ver. 

O sr. Ramos Coelho ignorava em geral a litteratura do 
século xvni, as questões da Arcádia, a formação e circam- 
siancias que provocaram o poema de Diniz, mas leve o raro 
bom senso de estudar o assumpto. Bastava -lhe a posição 
especia) como empregado da Bibliotheca nacional, e as suas 



E ARTE PORTUGUEZA 343 



commissões de paleographia na Torre do Tombo, para co- 
nhecer que se não faz historia sem documentos; tratou pois 
de procurar documentos e achou particularidades impor- 
tantes. O que elle não pôde adquirir foi o conhecimento 
geral do século em que Diniz tanto figura, elemento essen- 
cial para reconstruir a sociedade e o meio moral de que 
Diniz foi um producto. Ramos Coelho apenas conheceu de 
tradição os trabalhos de Innocencio e por isso teve de ex- 
plorar tudo novamente. O seu trabalho deve ser julgado 
por partes ; primeiramente, qual o valor do texto do Hys- 
sopé conforme a recensão definitiva que escolheu; depois, 
quaes os novos documentos com que contribuo para a His- 
toria litteraria de Diniz e em geral da Arcádia; por ultimo, 
qual a sua comprehensão da época para explicar o homem. 
Seguindo estas indicações, nem um instante deixamos de 
admirar o trabalho do sr. Ramos Coelho, embora contra- 
dictemos nas nossas observações alguns dos seus pontos de 
vista. 

O poema do Hyssope, como uma satyra vehemente do 
clericalismo, correu inédito desde 1774 até 1802, em que 
foi dado á estampa em Paris ; andou por tanto de mão em 
mãQ, secretamente, em copias subrepticias, jà por causa 
da reacção anti-pombalina, já por causa do intolerantismo 
do reinado de D. Maria i sob o governo do Arcebispo Con- 
fessor; n*estas condições o poema era apetecido, e todos 
os que o copiavam appensavam-lhe mais ou menos as no- 
tas elucidativas sobre as allusões pessoaes, e as ampliações 
que os mais Íntimos recebiam da própria mão do poeta. 
Assim se vulgarisaram numerosas copias, diversas entre si, 
já de sele cantos, jà de oito, já com variantes fundamen- 
taes. A primeira edição de Paris, de 1802, fez-se sobre o 
primeiro manuscripto que se alcançou; sobre esta edição 
fez em 1817 Thimotheu Lecussan Verdier as mòdiõcações' 
escolhidas nas variantes de outros manuscriptos, melhoran- 
do ainda por novos achados a edição de 1821, também de 
Paris, fundada sobre a precedente. Pelo exame compara- 
tivo das edições do Hyssope, o sr. Ramos Coelho chega á 
conclusão, que todas se reduzem ao typo d'essas três cita- 
das, aíBrmando com toda a verdade, que nenhum texto do 
poema, tanto impresso como manuscripto saiu directamente 
das mãos do poeta, e que em rigor, são recensões arbi- 



344 questObs db. littbratura 



trarias. Temos um facto análogo nas poesias de Camões; 
o crítico Manuel de Faria e Sousa, compilando as obras de 
CaKqões modificou o texto impresso das Lyricas conforme 
os manuscriptos que ia encontrando, e isto segundo o seu 
gosto pessoal, tirando assim a feição autbentica ao docu- 
mento. Hoje lemos as lyricas de Camões, segundo o texto 
que ao massador Faria e Sousa lhe aprouve impõr-nos no 
século XVII. Hoje também lemos do Hyssope o texto elabo- 
rado por Verdier; reprovamos este processo. Em rigor, 
deve-se imprimir o manuscrípto que se encontrar mais com- 
pleto, puro ou com mais condições de proximidade do auc- 
tor; em volta doeste texto, a que se dá um nome para o 
distinguir, accumulam-se todas as variantes em nota, como 
. apparalo para a historia da sua composição e intelligencia. 
Seguiu o sr. Ramos Coelho este processo critico? Não, co- 
nio elle próprio o confessa ; collocou-se na situação mental 
em que se veria Diniz se lhe apresentassem as diversas co- 
pias do seu poema, escolhendo os versos mais bem medi- 
dos, os mais intelligiveís, e os que desenvolviam mais as 
situações, e assim fabricou um texto sob sua exclusiva res- 
ponsabilidade : «vendo-nos limitados a meras copias e más, 
tivemos de substituir o poeta, collocando-nos na posição em 
que este ficaria, se, voltando ao mundo, tivesse elle mesmo 
de dirigir a edição do seu poema, sem a faculdade de in- 
ventar cousa alguma, e somente guiado pela luz da rasão 
no meio da perplexidade resultante de tão numerosos e in- 
correctos traslados. — Este processo, diflScil e pouco ou nada 
seguido entre nós, é demorado e fadigoso, mas o único 
mais segura» O que dizemos contra Faria e Sousa, e con- 
tra Yerdier, cabe também ao sr. Ramos Coelho, que em 
vez de adoptar um texto, de uma proveniência rasoavel, e 
de enriqueceUo com elementos para a critica, fabricou um 
texto centonico por modificações colligidas nos dez manu- 
scriptos que conseguiu examinar conscienciosamente. O sr. 
Ramos Coelho, no íim da sua edição, em um Ádditamento, 
dá a noticia de um manuscripto do Hyssope pertencente á 
bibliotheca da Ajuda, que tem todas as condições para ser 
tomado como base para uma edição definitiva do poema: 
c Consta ao principio de sete cantos escriptos pela mesma 
mão; posteriormente intercalou-se-lhe por letra diversa o 
que o poeta compoz, quando dividiu a sua obra em outo 



B ARTE PORTUOUEZA 345 



cantos, isto é, parte do canto quarto e quasi todo o quinto.» 
E um pouco adiante: c ideia que primeiramente occorre, 
vendo só a parte mais antiga do traslado em questão emen- 
dado por Diniz, é que essas emendas foram feitas quando 
o Hyssope constava apenas de sete cantos; que depois al- 
guém lhe ajuntou a parte augmentada pelo poeta ; e que 
as emendas d'este foram escriptas entre 1780 1790, pois 
a sua letra tremula e incerta denuncia similhante época.» 
Aqui está um texto que pôde tomar-se como lição definiti- 
va, com a declaração iessencial— co»/brrwe o mantiscripto da 
Ajuda;— em notas de^pagina devem-se indicar todas as mo- 
diflcações do manuscriplo que revelam a elaboração do poe- 
ma, e no fím do volume seguir-se-hiam as variantes dos 
manuscriptos e edições conhecidas, bem como o apparato 
histórico sobre a época, personagens e tradições do poema. 
É urgente que esta edição definitiva se faça, e em condi- 
ções accessiveis aos que estudam, em oitavo pequeQO e não 
excedendo o preço de seiscentps réis. 

O trabalho do sr. Ramos Coelho ha de ser sempre bem 
considerado pela critica, pelos documentos novos que apre- 
sentou na introducção do poema com o titulo António Di- 
niz da Cruz e Silva, sua vida e escriptos; aparte algumas 
tiradas rhetoricas que a seriedade do trabalho bem dispen- 
saria, o sr. Ramos CoeHio procedeu a investigações cuida- 
dosas no opulento archivo da Torre do Tombo, e logrou 
descobrir interessantes dados sobre a personalidade de Di- 
niz; as novas fontes históricas, nunca consultadas nem por 
€osta e Silva, nem por Innocencio, são as Habilitações da 
Ordem de Aviz, onde se acha o que importa saber sobre o 
nascimento de Diniz, familia, formatura jurídica atè á sua 
entrada na magistratura. O sr. Ramos Coelho cita muitas 
outras fontes de consulta por onde determina datas impor- 
tantes da vida do poeta, nos vários despachos e promoções 
que teve; taes são os livros da Chancellaria de D. José. 
das Mercês de D. Maria i, residências, e do Desembargo 
do paço, e fora da Torre do Tombo, o livro de Profissões 
do convento de Jesus e o Archivo do conselho ultramarino, 
e por ultimo o livro das Mercês do príncipe regente. Di- 
niz tivera uma longa carreira oflficial, e por isso era de pre- 
sumir que as principaes datas da sua vida estivessem con- 
s ignddas em documentos ainda existentes; cabe ao sr. Ra- 



346 qubstOes de littbratura 



mos Coelho um franco louvor por ter collocado a biogra- 
phia do po^ta em bases positivas. Mas tiraria o editor crí- 
tico toda a luz dos documentos que consultou? Não temos 
a certesa d^isso, porque o critico em vez de extractar os 
documentos ou reproduzil-os na sua authentica integridade, 
contentou*se em summariar a substancia d'elies no que in- 
teressava somente á sua prova histórica. Quando os docu- 
mentos estão publicados e conhecidos é que se allude a al- 
ies; porém quando se entra em um campo totalmente des- 
conhecido, como era a biographia de Diniz antes do estudo 
do sr. Ramos Coelho, importa reunir tudo quanto interessa 
á elucidação histórica. Este reparo não é somente com re- 
lação aos documentos para a biographia de Diniz, estende- 
se também a ontros documentos relativos ao poema e á 
Arcádia, que convém que se publiquem; Innocencio dá no- 
ticia de uma introducção manuscripta que anda junta a al- 
gumas copias do Hyssope com o titulo Historia da composi- 
ção da Hyssopaida, da qual summariou algumas noticias 
para o Archivo Pittoresco; o sr. Ramos Coelho também lo- 
grou vêr uma doestas relações, em tudo análoga a essa en- 
tra relação que anda junta á parodia do primeiro canto dos 
Lusiadas, relação que explica as circumstancias particula- 
res em que o poema foi composto, mas em vez de dal-a á 
publicidade, limitou-se a extrair um rápido summario. Uma 
tal relação é parte integrante do poema, e deve ser publi- 
cada com todo o ri^or. Egual observação fazemos acerca 
dos estatutos da Arcádia, já publicados no Jornal de Coim- 
bra, porém summariados por Trigoso, e ainda ultimamente 
pelo sr. Ramos Coelho; só pela leitura d'esses estatutos, 
onde se acha o mais implacável rigor disciplinar, è que se 
pôde comprebender porque è que a Arcádia organisada 
com tantos^talentos caiu na esterilidade e na dissolução 
espontânea :*^faltára-lhe a liberdade na associação, aspbi- 
xiouse á nascença. 

Sobre o assumpto do Hyssope traz o sr. Ramos Coelho 
alguns documentos curiosíssimos conservados entre os ma- 
nuscriptos da Bibliotheca de Évora, e são nada menos do 
que duas cartas do deão da sé de Elvas ao provincial, o 
illustre Cenáculo, contando-lhe as peripécias do conílicto 
com o bispo ácêrca da entrega do Hyssope; um requeri- 
mento do referido deão, para que se reforme, o accordam 



I 

B ARTE PORTOGUEZA 347 



do cabido, e um memorial em que se discute a questão 
canónica, e por ultimo a provisão do bispo de ElVas no- 
meando o sobrinho do deão no logar que este resignara. 
Estas documentos, em outras quaesquer circumstancias, de 
uma leitura indigesta, aqui lançam uma luz immensa n'esse 
mundo de intrigas de sacristia, de que Diniz soube pôr em 
relevo todos os ridículos. N'estes documentos publicados 
integralmente^ desejáramos a sua indicação bibliothecono- 
mica, como recurso de verificação. As notas sobre os per- 
sonagens do poema são frequentes em muitos manuscrip- 
tos, variando entre si em traços piltorescos com que foram 
esboçados pelos curiosos contemporâneos: acháramos mais 
seientifico reproduzir textualmente essas notas contemporâ- 
neas, accumulando esses traços espontâneos dos manuscrip- 
tos dos drs. Filippe Simões e Paiva Pitta, da Bibliotheca 
da Universidade e do sr. Barbosa; o sr. Ramos Coelho deu 
ás notas a forma de uma compilação ou redacção sua, o 
que dimínue o traço pittoresco d'essa galeria de retratos. 
Sobre a Arcádia de Lisboa não foi o sr. Ramos Coelho 
tão completo como o assumpto o exige; fixando os primei^ 
ros passos para a sua fundação em 15 de agosto de 1756, 
acbamol-o contradictado pela oração de Ismeno Cisalpino 
em 11 de março de 1758, por occasião de contar a dita Ar- 
cãdia doi$ annos depois do seu estabelecimento. (Ms. da Bibl. 
de Évora, Cat. l. n, pag. 30) Parece-nos que Ismeno Ci- 
salpino não kia memorar em sessão de 11 de março o an- 
niversario que se realisava em 15 de agosto. No esboço da 
historia da Arcádia lusitana, apresentado pelo sr. Ramos 
Coelho, faltam particularidades essenciaes para conhecer a 
vida intellectual d*essa corporação que se votarei a uma di- 
gna empresa, mas que sucçumbiu diante da força depri- 
mente do meio social; a Arcádia lusitana organisou-se so- 
bre o núcleo de uma outra academia conhecida pelo titulo 
dos Occultos, á qual primeiramente haviam pertencido Gar- 
ção, Amaral França, Alexandre António de Lima, Alexan- 
dre de Gusmão e D. Joaquim Bernardes; esta academia dos 
Occidtos, fundada pelo segundo marquêz de Alegrete, teve 
algumas sessões que andam publicadas, mas o que a faz 
credora das investigações históricas é o ter sido a base pri- 
mitiva da Arcádia. Em uma oração académica de Garção è 
que se acha bem estabelecida esta continuidade histórica. 



348 QUESTÕES DE UrTERATURA 



O segando problema n3o estadado pelo sr. Ramos Coelho 
é as dífiiculdades da orgaoisaçio da Arcádia pela lacU do 
elemento seiscentista^ que se queria apoderar da nova aca- 
demia ; esta lucta acha -se nos versos da Arcádia dos pri* 
meíros dois annos da academia, e era promovida pelos poe- 
tas que a Arcádia n2o convidon para o seu seio, como o 
celebre Francisco de Pina e Mello, conhecido nas satyras 
contemporâneas pelo nome de Corvo do Mondego, e inter- 
namente pelo próprio árcade Dom Joaquim de Santa Anoa 
Bernardes, partidário acérrimo do gosto seiscentista; os que 
ficaram de fora, diziam cque a Arcádia duraria quatro dias 
quando muito»; (Obras posthumas de Figueiredo, i, 86), os 
que estavam de dentro desgostavam-se «por nao lhes da- 
rem toda a attençao quando liam seus papeis» (Ibid., pag. 
83). A lucta mais terrível que a Arcádia lusitana soffreu, e 
que coincide com a época do sua extincção espontânea em 
1774, é a que se conhece na historía litteraria do seca- 
lo xvni era Portugal pelo nome de Guerra dos Poetas; con- 
tra a Arcádia formára-se o chamado «grupo da Ribeira das 
Náos» capitaneado por Filinto Elysio. Ferviam as satyras 
de parte a parte, e da parte da Arcádia ainda encontramos 
o padre Manuel de Macedo (Lemano) que se exprimia em 
versos laudatarios á cantora Zamperini. A lucta durara pelo 
menos desde 1772, como se conhece pelo soneto de' Gar- 
ção com que ^zurziu varias heroes que o abocarnSvam na 
Assembléa do Doutor Estoquete^. Filinto era enlío cmiliecido 
pelo nome pastoril de Niceno. Já que falíamos de^^Garção, 
o sr. Ramos restitue ao seu verdadeiro auctor o. soneto 
a Quinze vezes a aurora tem rompido» de José António de 
Brito e Magalhães, mas considerava-o na affirmatíva de In- 
Docencio, como inédito, quando elie estava ha muitos an- 
nos publicado no Jardim poético, a pag. 116. A guerra dos 
poetas acabou em 1774, quando a Zamperini foi posta fora 
de Lisboa pelo marquez de Pombal. Diniz viera de Elvas a 
Lisboa em (774, figurando em uma sessão litteraria em 20 
dejaneiro d'esse annoj foi por isso que elle no seu poema 
deixou uma allusão^asoal ^á grande cantora nos versos: 

• Sota, ó extremada Zamperini 

«rQae em Lisboa oe casquilhos embasbacas... 

Depois da nota de Yerdier sobre esta anecdota do tempo 



B ARTE P0RTU6UBZA 349 



seria conveniente historiar a Guerra dos Poetas, em que 
figuraip Domingos Monteiro de Albuquerque e Amaral,^ 
que Bocage considerou como seu rival» Nicoláo Tolen*- 
tino e Filinto, que formaram a phalange dos dissidentes da 
Arcádia. Na iista dos sócios da Arcádia traz o sr. Ramos 
Coelho pouquissimos nomes desconhecidos» e a sua lista é 
das mais incompletas ; como nâo existe uma lista authentíca 
de Árcades como a lista da Academia dos Escolhidos, só 
pode ser formada vagarosamente aproveitando todas as re- 
ferencias espalhadas pelos versos impressos e manuscriptos 
da segunda metade do século ^vni. Por este processo cbe-' 
gam-se a apurar perto de cincoenla árcades. 

A comprebensao da Arcádia, da sua actividade litteraria, 
do caracter de Diniz, ultimamente atachdo por alguns es- 
criplores brasileiros, dependem da Comprebensao d'esse sé- 
culo em que o cesarismo se manifesta no seu esplendor 
abusivo e torpe; o sr. Ramos Coelho nao tinha uma ideia 
geral do século xvni, e por isso, apesar dos seus prestan- 
tissimos estudos biographicos sobre Diniz, não conseguia 
restituir ao poeta a sua vida moral, relacional-o com o seu 
meio social, explicar o condicionalismo que o determina em 
uma certa actividade especial. Diniz, como um alto func- 
cionario da magistratura envergonhava-se dos seus versos; 
Costa e Silva recebeu esta tradição dos amigos do poeta, 
e por ella se explica por que é que as suas obras ficaram 
inéditas; no seí^lo xvui em Portugal o fazer versos, em 
rigor, era uma degradação, porque pelos versos é que 
se louvavam os prepotentes e se pedia esmola. Nicoláo To- 
lentino symbolisa perfeitamente esta comprebensao dos des- 
tinos da arte ; para julgar Diniz, pela sua acção na funda- 
ção da Arcádia, pelas relações pessoaes com as principaes 
capacidades do seu tempo, pela influencia directa como 
una alto magistrado, é preciso recompor histórica e philo- 
sophicamente o seu meio; as duas datas de 47.31 e 1800 
abrangem a parte mais característica do século xvni, e den- 
tro d'esses dois limites é que noS apparece Diniz. A desor- 
ganisação dos estados clássicos pela acção dissolvente e ab- 
soluta dos jesuítas sobre D. João v, o processo critico in- 
staurado aos methodos de ensino da Companhia pelo cora- 
joso Verney, e as medidas postas em pratica pela audácia 
reformadora do.marquez de Pombal, explicam-nos esse hu- 



350 QCBSTOBS de LlTTSIUTUnA 



maDismo extemporâneo do século xvm, que rompendo com 
o arístotelísmo dos jesuítas tinha medo também de adoptar 
o encyclopedismo scientifico e crítico da França. A preoc- 
cupa^o príocipal era manter-se n'esse meio termo, para 
d3o incorrer na suspeição de jesuitismo nem tampouco de 
phíbsophisfno; os espiritos educados sob este regimen fica- 
ram atropbiados, e o seu humanismo foi estéril. N^esta si- 
tuação deplorável para a intelligencia portugueza, a arte 
foi uma convenção banal, como se pôde fazer ideia pelas 
odes píndaricas de Diniz, e se alguma cousa existiu de na- 
tural, foram os versos picarescos e obscenos em que a lit- 
teratura então abundava, porque esse era o legitimo pro- 
ducto de uma sociedade sem direitos, sem liberdade, se- 
questrada ao movimento europeu e entregue ao arbitrío e 
caprichos da aucloridade que se impunha como oriunda de 
Deus; nos productos mórbidos ha também manifestações 
mais ou menos perfeitas como completas; as mesmas con- 
dições sociaes que produziram o Lutrin de Boileau, provo- 
caram em Portugal o Hyssope de Diniz, porque o despotis- 
mo de Luiz XIV era um ideal para D. José, realisado á risca 
pelo seu omnipotente ministro. O largo reinado da demente 
rainha D. Maria i, as imbecilidades ordenadas pelo seu pri- 
meiro ministro o boçal Arcebispo-confessor, caracterisam- 
se por uma palavra do tempo, que serviu para designar a 
situação moral dos espirites: o Molèrantismo. Era um novo 
abysmo que se abria á intelligencia, e os espiritos mais distic- 
ctos tinham inevitavelmente de buscar asylo nos paizes es- 
trangeiros. Depois doesta violência, seguin-se a inaugura- 
ção do regimen. policial garantido pelo terrível Pina Mani- 
que, cuja Intendência era mantida acima da intervenção dos 
próprios ministros; a este mal, que estabelecia na socie- 
dade portugueza o systema da espionagem e da^delaçãq, 
vieram ajuntar-se os esforços para conservar Portugal iso- 
lado da corrente das ideias francezas, ou do jacobinismo. 
Como explicar a acção de Diniz no julgamento dos factos 
da conspiração de Minas, e da Acadernía do Rio de Janei- 
ro, sem recompor esse esforço da policia e do cesarismo 
para que as ideias da soberania nacional não penetrassern 
na consciência portugueza ? Viu o sr. Ramos Coelho estes' 
factos no seu conjuncto^ não, e é este o lado fraco do sea 
trabalho e o que tira o relevo á biograpbia de Diniz. 



BOCAGE 



I 



O nome de Bocage é conhecido do povo porluguez, que 
com uma certa intuição do génio o associa ao de CamOes; 
na nossa pequena litteratura, que imitou as correntes eu- 
ropêas na época provençal, no período da renascença, em 
todas as variações do gosto, e em que o escriptor mais preo- 
cupado com a erudição quebrou todas as relações com o 
povo, o facto da glorificação geral do nome de Bocage obriga 
a critica a ratificar esse juízo espontâneo procurando qual 
a relação moral que existe entre a individualidade e a conec- 
tividade anonyma. O povo tem os profundos presenlimen- 
tos ; nunca leu as obras de Camões, mas sabe que esse no- 
me está ligado ás grandes glorias e aos protestos da nacio- 
nalidade portugueza; também não conhece de Bocage mais 
do que uma ou outra anedocta de um espirito em revelia, 
liias pela sua sympathia adivinha que era um génio atro- 
phiado pelo meio deprimente de uma sociedade levada ao 
extremo da decadência. É este o ponto de vista por onde 
o aferimos para lhe darmos ingresso na phalange dos gran- 
des homens da civilisação portugueza. Bocage não foi um 
iniciador, um inventor ou um instituidor, mas subordinou 
a sua vida ao motivo ideal, que determina a actividade dos 
grandes homens; esse motivo, em uma época fecunda teria 
sido a iniciação ou o exemplo como heroe ou como martyr, 
♦mas em uma sociedadeimbecilisada pelo obscurantismo re- 
ligioso e pelo terror do cesarismo, a sua vida consummiu-se 
na revolta contra o erro constituído, no protesto irrepres- 
sivel, que o precipitava na desgraça. Os amigos que o co- 



332 QCBSTOBS DB rJTTEIUTCRA 



Dbeceram de perto, como Bíngre, deixaram os traços mo- 
raesque o definem: cFoí honrado, verdadeiro, liberal, nipUo 
amante da sua liberdade e figadal inimigo da escravidão.» 
Não era preciso tanto para ser esmagado sob uma avalan- 
che de iniquidades em uma sociedade em qae a espionagem 
policial e inquisitorial eram os sustentáculos da ordem pa- 
blica ; em que a bajulação tomava a mentira um systema 
de segurança e de bem estar pessoal, em que a liberdade 
em todas as suas manifestações era abafada como um pe- 
rigo para a irresponsabilidade das instituições anacbronicas. 

As qualidades moraes de Bocage descriptas por Bingre* 
puzeram a sua existência em confiicto com esse meio socíai 
degradado ; sem o apoio de uma noção da dignidade huma- 
na, bajulou também como os outros poetas cesáreos, mas os 
ímpetos da indignação irrompiam-lhe da alma, protestava e 
a sua grande inspiração achava o verdadeiro caminho nos 
admiráveis repentes que assombraram Lord Beckford, e 
n'essas Satyras racionalistas que lhe abriram os cárceres da 
policia preventiva e do Santo Oflicio. A vida de Bocage re- 
sume-se n'estas palavras com que Byron se relrata na Epis- 
tola a Augusta cA minha vida inteira não foi senão uma 
lucta, desde que recebi o sér e com elle alguma cousa qoe 
devia destruir-lhe o beneficio — um destino e uma vontade 
caminhando fora estrada l)atida.» 

N'esta lucta Byron tinha os estimules de um poderoso 
meio social; o contraste da noção ideal que o dirigia dava- 
se diante da actividade egoísta do industrialismo moderno, 
e para conservar-se livre, fora da estrada batida, para não 
succumbír com o desalento de um pessimismo doentio, tinha 
uns milhares de libras de rendimento que davam á sua iro- 
nia o tom de um desdém soberano. 

Bocage era pobre; filho de um honrado advogado de Se- 
lubaj, creado prematuramente sob a disciplina militar, cor- 
tejado proteccionalmente por dignatarios ofiiciaes e por eru- 
ditos ecclesiasticos, elle bem conhece que os seus versos 
eram «escriptos pela mão do fingimento, cantados pela voz 
da dependência.! Para romper contra a chateza geral era 
preciso que aquella natureza fosse pura: chonrado, verda- . 
deiro, liberal,» como o caracterisa uma testemunha contem- 
porânea. E por isso que Bocage não pode ser julgado sim- 
plesmente pelo que escreveu, mas pelo que era capaz de 



E ARTE P0RTU6UEZA 353 



fazer se tivesse nascido em uma outra época, em outro meio 
social, em que a sua existência não ficasse sem destino. 



II 

Manoel Maria Barbosa du Bocage, nasceu em Setúbal em 
15 de setembro de 1765, quando seu pae, obacharelJosé 
Luiz Soares de Barbosa, antigo juiz de fora da Castanheira 
de Povos e Ouvidor em Beja, se retirara á vida privada 
pondo banca de advogado em Setúbal. O nome de Du Bo- 
cage veiu-Ihe por parte de sqa mãe D. Marianna Joaquina 
Xavier Lestof du Bocage, filha do francez ,Gil Le Doux (ou 
LHedois) du Bocage, que chegou a vice-almirante na ar- 
hada de Portugal. Manoel Maria era o quarto filho, tendo ' 
d'este casamento nascido mais duas meninas, a ultima, D. 
Maria Frandsca, que foi a companheira inseparável do poe- 
ta, e a que lhe recebeu o ultimo alento. O talento poético 
de Bocage revelou-se com uma extraordinária precocidade: 
tDas faixas infantis despido apenas,» como elle o declara 
com um certo desvanecimento, repetindo: «Versos balbu- 
ciei com a voz da infância.» Recebeu a educação domesti- 
ca, de que lhe ficou sempre essa pureza de emoções, que 
o elevam como homem e como artista; a fatalidade fez-lhe 
perder sua mãe aos dez annos, sendo por isso obrigado a 
continuar os estudos fora de casa, frequentando a aula de 
latim do padre hespanhol D. Juan Medina, e de um outro 
mestre, do qual dizia, alludindo ao systema pedagógico da 
pancadaria, introduzido do tempo dos jesuítas: «Se continuo 
mais tempo aleija-me.» Aos quatorze annos sentou praça 
de cadete no regimento de infanteria 7 de Setúbal, vindo 
n'esse mesmo anno de 1779 para Lisboa para seguir os es- 
tados superiores, onde, julgamos, ter frequentado a Acade- 
mia real de Marinha. A sua nomeação de guarda marinha 
por decreto de 31 de janeiro de 1786, leva a inferir, que 
sendo o curso de três annos, passou uma vida dissipada na 
capital, sendo o despacho para a Armada do Estado da ín- 
dia um meio de t) arrancar da dissolução em que andava 
envolvido. Preponderava então o intolerantismo do reinado 
de D. Maria i, de quem o Arcebispo-Confessor era o mi- 
nistro omnipotente; a rainha vagava pelos paços de Que- ' 

' 23 



354 QUESTÕES DE LITTEBATCRA 



laz, berrando de dia e de noite victima da ballupinação fa- 
nática a que a levaram^ dizendo que via no inferno a esta- 
tua equestre de seu pae em ferro em braza ; os bomens de 
sciencia eram perseguidos, como foi José Anastácio da Cu- 
nha, ou fugiam de Portugal como o illustre naturalista Cor- 
rêa da Serra, Félix de Avellar Brotero e Francisco Manoel 
do Nascimento. O príncipe D. José, que se revelara parti- 
dário das ideias administrativas de Pombal, cujas reformas 
eram calculadamente destruídas, também morreu repenti- 
namente para que, como herdeiro do throno, não vingas- 
sem essas ideias do philosophismo, como então lhes chama- 
vam. 

Em um meio tão extraordinariamente obcecado, era uma 
desgraça ter talento. Bocage foi arrastado n'essa corrente 
da inconsciência publica, frequentou as partidas agora em 
moda entre a burguezia, alliou-se com os filhos vadios das 
casas fidalgas, fez versos ás Marílias, ás Filis, ás Tersalias, 
e escreveu a letra de Modinhas sentimentalistas e allegorí- 
cas, cantadas ao gosto brazileiro em uma sociedade dor- 
mente, que só manifestava signaes de vida nas festas reli- 
giosas, nos equivocos fradescos, na sensualidade furtiva e 
na pieguice. N*este tempo vivia Bocage entre a mocidade 
dissoluta da fidalguia, e foi junto de D. Francisco da Cunha 
e Menezes, e Verdeil, que lord Beckford o encontrou por 
meado de 1786. É pasmoso o retrato que o illustre aucior 
do Vathek traçou de Bocage em uma das suas inimitáveis 
Cartas escriptas de Portugal: iVerdeil trazia comsigo o go- 
vernador de Goa, D. Francisco Calhariz, e um pallido, es- 
quisito mancebo, o sr. Manoel Maria, a creatura mais ex- 
travagante, mas porventura a mais sui generis que Deus 
ainda formou.. Aconteceu eslar este mancebo em um dos 
seus dias de bom humor e de excentricidade, que, como o 
sol de inverno, vinham quando menos se esperava. Mil di- 
tos graciosos, mil cargas de delirante jovialidade, mil apo- 
dos satyricos por elle incessantemente vibrados, fizeram- 
nos finar de riso. Quando porém começou a recitar algu- 
mas das suas composições, nas quaes grande profundidade 
de sentimento se allia com os mais patheticos toques, sen- 
ti-me estremecido e arrebatado. Póde-se dizer com verda- 
de, que aquelle extranho e versátil caracter possue o se- 
gredo de encantar, segredo que, ao grado do seu possm- 



B ARTE PORTDGUEZÂ 335 



dor, anima oa petrifica um auditório inteiro. Reparando elle 
quanto me estava enleiando, disse-me: 

«—Não esperava que um inglez tivesse a condescendên- 
cia de prestar a um moço obscuro e novel versejador a mí- 
nima attenção. Vós pensaes que os portuguezes não têm 
oulro poeta senão Camões, e que Camões não escreveu mais 
nada capaz de lèr se senão os Lusíadas. Aqui tendes um 
Soneto^ que vale a metade dos Lusíadas: 

A formosora cTesta fresca sctra, 
E a sombra dos Terdes castanheiros, 
O manso caminhar d'estes ribeiros, 
D'onde toda a tristeza se desterra; 

O rouco som do mar, a extranha terra, 
O esconder do sol pelos outeiros, 
O recolher dos gados derradeiros, 
Das nuvens pelo ár a branda guerra; 

Emfim, tudo o que a rara natureza 
Com tantas variedades nos oíTerece, 
Me está, se nio te vejo, magoando; 

Sem ti tudo me enjôa e aborrece; 
Sem ti perpetuamente estou pensando, 
Mas mores alegrias mór tristeza. 

«Não escapou ao nosso divino poeta uma única imagem 
da belleza rural; e que pathetica não é a applicação da na- 
tureza ao sentimento! Que fascinadora languidez, como ar- 
rebóes do sol da tarde se não derrama por sobre esta com- 
posição t Se alguma cousa sou, fez-me este soneto o que 
sou; porém, que sou eu, comparado com Monteiro! Jul- 
gae. 

«Proseguiu, entregando-me alguns versos manuscriplos 
d'este auctor, que os portuguezes apreciam muito. Posto 
que esses versos eram melodiosos, devo confessar que o 
Soneto de Camões e muitos dos versos do sr. Manoel Ma- 
ria me agradaram infinitamente mais; mas a verdade é, que 
eu não estava suflQcientemente iniciado na força e nos re- 
cursos da língua portugueza para ser competente juiz, e 
este transcendente génio só revelou falta de penetração ima- 
ginando que eu fosse um d'esses juizes competentes.» 

Na realidade Beckford era um extraordinário juiz, como 
observador e como artista; o assombro que lhe produzia 
Bocage é um documento .positivo da superioridade d' esse 
génio repentista, estimulado sem destino, e reagindo con- 



356 QUESTÕES DB LITTBRATURA 



tra a insensatez geral pela jovialidade delirante, pela excen- 
tricidade irrepressível, e pelos apodos satyrícos qae irrom- 
piam no meio de uma tristeza apatbica e desalentada. Essa 
rápida conversa com Beckford, revela-nos que Bocage era 
já conhecido como homem que dominava o seu meio, pelo 
poder inexplicável de arrebatar ou petrificar quem o ouvia; 
era o esplendor do génio. Os versos de Camões eram para 
Bocage a sua Bíblia; estuda-os, analysa-os, recita-os com 
enthusiasmo, dá-lbes relevo, impõe-os á admiração, e, um 
século antes da Allemanha philosophica reconhecer a subli- 
midade incomparável do lyrismo de Camões, Bpcage pela 
intuição do génio chega á mesma alta afSrmação esthelica : 
cAqui tendes um Soneto que vale a metade dos Lusíadas,^ 
A partida de Bocage para a índia, os seus desalentos em 
Gõa, a vida errante no CantãOi e miséria na feitoria de Ma- 
cáo, tudo o leva por instincto a comparar a sua vida com 
a de Gamões, no celebre soneto: 

CamOet! grande CamOesl quam similhaDle 
Acbo tea fado ao meu, quando os colejo! 
Egual causa nos fez, perdendo o Tejo, 
Arrostar co* sacrílego Gigante. 

Como tu, junto ao Ganges sussurrante, 
Da penúria cruel no horror me ?ejo, 
Como tjD, gostos vSos, que em ?ão desejo, 
Também carpindo estou, saudoso amante. 

Ludibrio como tu da sorte dura, 
. Meu fim demando ao céo, pela certeza 
De que só terei paz na sepultura; 

Modelo meu tu és... Mas, oh tristeza! 
Se te imito nos transes da ventura, 
NSo te imito nos dons da natureza. ' 

Em outras situações da sua vida, quando Bocage dava 
conselhos a jovens litteratosy como a um Bersane Leite, in- 
dicava-lhes sempre o estudo dos versos de Camões. Na con- 
versa com lord Beckford, Bocage confessa o que deve ao 
influxo de Camões: «Se alguma cousa sou, fez-me este So- 
neto o que sou; porém, que sou eu comparado com Mon- 
teiro?]» Sente-se aqui a primeira rivalidade de Bocage, sen- 
timento que encheu a sua vida litteraria de tempestades, 
como a lucfa com os Neo-Arcades, em 1793, e com José 
Agostinho de Macedo, em 1801, morrendo victíma da op- 
pressão moral com uma aneurisma. Em 1786 era também 



B ARTB PORTDGUEZA 357 



muito apreciado pelo publico este rival de Bocage» o poeta 
Domingos Monteiro de Albuquerque e Amaral, que vela a 
ser um dos grandes partidários das ideias liberae3, disiin- 
gaindo-se pelo género satyrico, sobretudo na celebre Guerra 
dos Poetas, episodio dos últimos tempos da Arcádia. Na 
narrativa da excursão de Beckford á Batalha e Alcobaça, o 
opulento viajante diz que levava na algibeira um volume 
de versos de Bocage, e um outro de Monteiro; parece que 
a emulação afastou para sempre os dois poetas, ficando Mon- 
teiro completamente esquecido. 



m 

o decreto de 31 de janeiro de 1786, que nomeia o poeta 
guarda marinha da Armada do Estado da índia, traz p nome 
de Manoel Maria Barbosa Hedois du Bocage; este nome de 
Hedois apparece em seu visavô materno António Hedois, e 
por.elje poderemos comprehender a referencia anagram- 
matica pela qual a poesia philosophica a Voz da Rasão devje 
ser restituída a Bocage; essa poesia que revolucionou a in- 
telligencia portugueza no fim do século xvm, termina com 
os versos: «E que Anelio não se esqueça — de um Lidio que 
vive ausente.» O nome de Lidio tem o valor de uma assi- 
gnatura, e é empregado pela analogia com rHedois, ficando 
um pseudonymo desde que deixara de usar este cognome. 
Adiante insistiremos sobre este ponto. Em 4 de fevereiro 
de 1786 o Conselho Ultramarino poz em execução o despa- 
cho, embarcando Bocage para a índia na náo de viagem 
Nossa Senhora da Vida, Santo António e Magdalena; em 
uma ode sentida despede-se Bocage dos seus amigos Vas- 
concellos (o morgado de Assentis), Couceiro, Liz e Andra- 
de. A viagem da índia acorda-lhe outra vez o ideal de Ca- 
mões : 

Os mares voa talhar, cujos furores 
BescreTe o gram Cantor, por quem d^amores 

Inda as masas saspiram; 
Aqoelles mares onde os Gamas viram 
Do rebelde, horrendíssimo Gigante 
Os negros lábios, o feroz semblante. 

A náo soffreu uma terrível tempestade, tendo de arribar 



I 

\ 



358 QUESTÕES DE LITTBRATURA 



ao porto do Bio de Janeiro ; Bocage celebrando o governa- 
dor geral do Brazil Luiz de Yasconcellos e Sousa, um dos 
primeiros promotores da civilisaçSo brazíieira, allude a este 
incidente : 

Eo, dof braçot paternos arrancado 
E pela foria dos soberbos mares 

Sacudido, arrojado 
A remotos, incógnitos togares, 
Onde talfet me apparelbe a sorte 
Depois de infausta vida, infaasta morte. 

A náo Senhora da Vida chegou a Gõa em 29 de outubro 
de 1786; o poeta entrava no theatro do nosso antigo po- 
der; tudo Ibe fallava de grandes recordações históricas. A 
realidade n3o correspondia aò seu ideal ; achou-se em uma 
colónia atrazada, boçal e dissoluta, cde todo o pobre hon- 
rado sepultura» como dois séculos antes o dissera Camões. 
No século XVI aí encontrara Camões uma saudável convivên- 
cia intellectual com o sábio Garcia d'Orta, com os poetas 
seus amigos João Lopes Leitão, Heitor da Silveira, Luiz 
Franco Corrêa, D. Antão de Noronha, Diogo do Couto; Bo- 
cage encontrou somente a vaidade nobilíarcbica dos homens 
da terra, a indifferença por tudo quanto era letras e a 
dissolução dos costumes. Durante dois annos que viveu em 
Gõa andou n'esse conflicto que lhe inspirou. os acerbos So- 
netos que lhe tornaram a existência impossivel cDo claro 
Mandovi sobre a ribeira,» e nos quaes celebra «A decadên- 
cia do império portuguez na Ásia.» Foi durante esta época 
desolada por decepções, intrigas e indifferença, pelo abor- 
recimento nostálgico da vida de guarnição, que o accom- 
metteu uma doença que o levou ao^ ponto de succumbir; 
foi isto por 1787, coincidindo com a descoberta da Conju- 
ração de Gôa, hoje completamente descripta em um livro 
por Joaquim Heliodoro da Cunha Rivara, que desconheceu 
a epistola de Bocage, em que relata esse successo desi- 
gnado pelos contemporâneos pelo nome de Sublevação dos 
Pintos: 

Uma alma infame, am bárbaro inimigo 
' Ba fé, das leis, do tbroDO, om dosbamano, 
Credor de eteroo, de ioforoal castigo; 
Tendo embebido sea furor iosano 



B ARTE P0RTU6UBZA 359 



Na falsa gente bráchmaoe injnsta, 
. Que amaldiçoa o jugo lasilano; 

Contra DÓS apontafà a mortal seta; 
Mas estorvou o ine?itaTel tiro 
A mão dÍTlna, poderosa e recta: 

DesenToUea-ee o crime, inda respiro; 
£ jòy destes, oh réos de atroz maldade, 
Em vis tbeatros o Goal suspiro. 

' Eis, amigo, a recente novidade, * 

Que da remota Góa ao Tejo envio, 
Nas murchas, débeis azas da saudade... 

V 

Esta conjuração é Cheia de, peripécias e de atrocidades 
da parte do governo. Em 25 de fevereiro de 1789 é des- 
pachado Bocage tenente da quinta companhia de infijnteria 
de gnarníção de Damão. Em Gõa tinha o poeta a convivên- 
cia do desembargador Sebastião José Ferreira Barroco, que 
o auxiliará na sua terrível doença; imhdi o& mil feitiços das 
fUhas. delicadas dos habitantes contra quem lançara Sonetos 
Ião acerbos como Camões na Satyra dos Disparates da In^ 
dia. Saiu Bocage de Gõa em 8 de março, na fragata Santa 
Anna, entrando no serviço do seu posto a 6 de abril d'esse 
anno. A insipidez da vida de guarnição poz-lhe o espirito 
em um estado de desespero tal, qíie ao fim de dois dias 
desertou da fortaleza peia porta do campo em companhia 
de um alferes cheio de dividas. Esta parle da vida de Bo- 
cage é completamente desconhecida ; suppõe-se que apro- 
veitara as monções partindo de Surra te ou Bombaim para 
a China ; nos seus versos allude a uma vida errante, cheia 
de miséria, e arrojado por tempestades para o mar da Chi- 
na; vindo do Cantão para Macáo, onde mendigou alguns 
soccorros. Referindo-se á morte do príncipe D. José, a que 
atraz alludimos, exclama: 

Triste povo! E mais mísero, eu que habitq 

No remoto Cantão 

Misérrimo de mim, que em terra alheia 
Cá ondo muge o mar da vasta CAtna, 
Vagabundo praguejo a mone feia! 

E comparando a sua vida errante com a malevolencia que 
encontrara em Gõa, exclama com traços que elucidam a sua 
vida : 



360 QUESTÕES DS LITTERATUIIA 



Mait doro fez ali mea doro fado, 
Da ?il calamoia a língua Yiperina, 
Até qoe aos mares da loogiqaa Cbioa 
Foi por bravos tafOes arremessado. 

Bocage chegou ao fim da sua prolongada miséria a Ma- 
cáo por fins de julho ou agosto de 1789, onde encontrou 
«outra Tez o seu amigo o desembargador Lazaro Ferreira da 
Silva, que o protegeu, sendo enl3o governador interino àe 
Macáo. Bocage ali pôde comprebender a tradição de Ca- 
mões, cotejar com a sorte de Gamões o seu destino, simi- 
Ihahte agora ao do Cantor dos Lmiadas, quando em Mo- 
çambique se achou em pura pobreza e tanto que comia de 
amigos. Foi por auxilio de alguns amigos, que Bocage pôde 
regressar a Lisboa, onde chegou por agosto de 1790, tra- 
zendo apenas como fructo das suas viagens mais originali- 
dade de caracter, emfim uma liberdade de critério que ti- 
nham de complçtar-lhe a desgraça. 



IV 

Durante a ausência de Bocage tínham-se passado extraor- 
dinários successos na Europa; o mundo moral assentara 
em novos eixos. Em 17 de junho de 1789 constituira-se 
a Assembléa nacional; em 14 de julho a tomada da Bas- 
tilha symbolisava a queda do despotismo ; em 4 de agosto 
decretpra-se a abolição dos privilégios, e iniciara-se pe- 
rante a lei a egualdade civil e politica. Essa aurora dos 
tempos modernos era a Revolução franceza. Em 1790 de- 
x^reta a Assembleia nacional em 21 de março a suppressão 
das gabelas; a 5 de abril institue o Jury ; e em 13 de maio 
decreta a allienação dos bens nacionaes, por onde a França 
inteira coopera na dissolução do regimen catholico-feudal. 
Mas a Revolução franceza repercutia em todos os paizes da 
Europa, assim como as ideias dos Encyclopedistas encon- 
traram sectários nos thronos dos déspotas como Catherina 
dá Rússia, Frederico o grande, ou José n. Contra esta cor- 
rente europêa o cesarismo bragantino mandou copiar o sys- 
tema da policia franceza, creando-se a Intendência gerd da 
Policia da corte e reino por alvará de 25 de junho de 1760. 
Como as ideias modernas entravam em Portugal por meio 



E ARTE PORTUGUBZA 361 



da aliciâção maçónica, a Intendência da policia exerceu a 
sua actividade perseguindo e expulsando do nosso territó- 
rio os Free-maçons; deste tenapo nos ficou esse habito de 
cbacaarmos aos liberaes da revolução de 1820 e de (831 
ipedre\ros4ivres , e era sob este titulo que os caceteiros de 
D. Miguel perseguiam os partidários de uma Constituição. 
Em 1764 foi nomeado para Intendente geral da policia o 
desembargador Diogo Ignacio de Pina Manique, que exer- 
ceu este cargo com a nàais terrível prepotência até ao anno 
de 1805. Manique era de uma actividade satânica; desem- 
bargador do paço, administrador da Casa do Infantado, das 
Alfandegas, das estradas, da censura, tinha um poder dis- 
cricionário, chegando ás vezes a invadir a jurisdicçao dos 
ministros como se estivesse em um paiz posto por elle em 
estado de sitio; quando queriam alludir ao facto de se ser- 
vir dos dinheiros públicos nos trabalhos de uma aperlada 
espionagem a que submetteu Portugal, Manique mostra- 
vase fortalecido com umas instrucçôes secretas dadas por 
Alvará de 15 de janeiro de 1780, pelas quaes estava isem- 
pto de toda a responsabilidade. Era a carta branca para toda 
a classe de tropelia ; Manique tirou todo o partido da sua 
situação excepcional, apertando os arbítrios preventivos de- 
pois que se deram os factos capitães da Revolução franco- 
za, e que alguns emigrados e a trípulação de navios fran- 
cezes cantavam pelas ruas de Lisboa o Çà ira. 

Foi n'este novo meio que Bocage se achou repentina- 
mente envolvido; os successos da Revolução impressiona- 
ram-no, e elle celebrou-a em alguns versos. Não era pre- 
ciso mais para o Intendente Manique se apoderar da sua 
pessoa, escondel-o em uma enxovia e eliminal-o; em bem 
pouco tempo sentiu Bocage a garra da policia, e corapre- 
hendendo a situação tentou sair de Portugal. Era-lhe já im- 
possível escapar á rede da espionagem do Manique. 

Cortada toda ^ communicação intellectual com a Europa, 
e sendo perigoso ter ideias, alguns versejadores trataram 
de reproduzir a antiga Arcádia de Lisboa n^ Academia de 
Bellas Lettras, fundada pelo mulato padre Caldas no palá- 
cio do Conde de Pombeiro. Bingre, escreve ém uma nata 
ao Ultimo canto do Cysne: «A Academia de Bellas-Lettras, 
erecta ao castello de S. Jorge, em Lisboa, por vários cu- 
riosos, debaixo dos auspícios de S. M. a Sr.* D. Maria i *e 



362 QUBSTÕBS DB MTTERATDRA 

dirigida pelo loteodente geral da Policia Diogo IgDacio de 
Pina Manique, ele.» Bocage perleoceu a este grupo littera* 
rio, que cooperou iorameiíieDie na sua desgraça. Depois da 
chegada de Bocage a Lisboa o poela vivia na intimidade de 
um frade devasso expulso da ordem augustiuiana e accu- 
sado de ter roubado a livraria do convento, o padre José 
Agostinho de Macedo; os dois entraram para a Academia 
de Bellas-Lettras, mais conhecida peio titulo de Nova Ar- 
cádia, onde era assumpto forçado uma poesia á Conceição 
de Maria. O Caldas presidia ás sessões lilterarias, e á ma- 
neira italiana brindava os árcades com chá e doces, espé- 
cie de beberete que se Geou chamando «as quartas feiras 
de Lereno.» Bocage não podia supportar tanta cbateza, e 
em alguns sonetos satyricos motejou das sessões da Nova- 
Arcadia, da figura do velho Amaral França, que pertencera 
á antiga Arcádia, dos versos chatos do Abbade de Almos- 
ter e dos dithyrambos de Curvo Semedo. As replicas fo- 
ram violentas, e depois de o terem ferido pelo lado fraco, 
o abuso das taulologias ou elmanismos, do nome arcadico 
que adoptara, Elmano Sadino, e a decadência da sua inspi- 
ração depois da volta do oriente, levaram ao Intendeote 
Manique os versos em que Bocage deixava transpirar as 
ideias francezas. Era um desacato á direcção litteraría im- 
posta pelo próprio Manique. 

Em 1793 rompera com os Neo-Arcades; as suas acade- 
mias eram os botequins de Lisboa, então o centro das con- 
versas politicas que o Manique espionava, e contra as qoaes 
propoz que se abrissem os theatros e se jogasse a tambola, 
para evitar que os cidadãos fallassem das cousas perigosas 
do governo. Era n'esses centros de convivência que Bocage 
lançava os seus improvisos arrebatados, segundo os Ímpe- 
tos da emancipação religiosa e politica ; estão n'este caso 
os Sonetos Contra o Despotismo, Aspirações do Liberalismo 
excitadas pela Revolução franceza e Republica de 1797, e a 
bella epistola das Verdades durasy que começa: «Pavorosa 
illusão da eternidade...» Manique andava acirrado pelas can- 
tigas francezas, pelo uso dos cocares, pela entrada dos cai- 
xões de hvros para a Academia das Sciencias; trazia de olho 
o Duque de Lafões, apesar do seu parentesco real, accu- 
sava de jacobino o Abbade Corrêa da Serra, desconfiava das 
relações pessoaes do padre Theodoro de Almeida, ejul- 



B ARTE PORTUGUEZA * 363 



gava evidente o liberalismo de Ferreira Gordo, e alé do re- 
visor da Gazeta de Lisboa, oade encontrava um certo relevo 
na descripção dos triumpbos do exercito da Republica. Os 
Keo-Arcades aproveilaram-se do braço de Manique, entre- 
gandolbe •papeis impios, sediciosos e criticos;^ quando o 
Intendente procurou Bocage para o prender; os seus es- 
pias descobriram-no a bordo da corveta Aviso, do comboio 
que partia para a Bahia. Por ventura o poela tentava refu- 
giar-se junto do intelligente governador geral Vasconcellos 
e Sousa. 

No Officio do Intendente ao Juiz do Crime do Bairro de 
Andaluz em 10 de agosto de 1797, no qual declara que 
Bocage já está preso, manda fazerlhe apprehensao «em to- 
dos os seus papeis^ assim manuscriptos como impressos, e 
ainda n^aquelles que estiverem em poder de terceiros seus 
sequazes, que devem ser egualmente presos, e averiguada 
a sua vida e costumes, para vêr se imitam, por elles o re- 
ferido Manoel Maria Barbosa du Bocage, etc.» O poeta mo- 
rava então com o cadete do primeiro regimento da armada 
André da Ponte do Quental e Camará, que foi também re- 
mettido para o Limoeiro e apprehendidos «livros ímpios e 
sediciosos,» que eram os de Rousseau, Helvetius, Diderot 
e mais alguns encyciopedistas. Entre os papeis de Bocage 
achou-se o que se intitulava Verdades duras, (a Pavorosa) 
e talvez as Verdades singelas (a Voz da Rasâo) que corriam 
anonymamente *. Os dois poetas foram mettidos no segre- 
do, e Bocage louva a coragem de André da Ponte por não 
ter renegado a sua amisade quando foi aò interrogatório 
do juiz, e exalta a dedicação de António José Alvar.es, que 
lhe accudiu com o preciso emquanlo esteve na masmorra. 
Bocage bem sabia de quanto era capaz o Manique, e o me- 
nos que o esperava era o degredo das Pedras Negras, en- 
tão reservado aos que seguiam as ideias francezas;^o des- 
alento assalla-o por um instante, mas emprega os seus ver- 
sos para pedir aos potentados que lhe accudam ; assim, es- 
creve as bellas quintilhas a D. Marianna Joaquina Pereira 
Cqptinho, mulher do ministro José de Seabra da Silva, ao 
Marquez de Ponte de Lima, ao filho do Marquez de Pom- 



1 Víd. nola actianle. 



364 QU£8T0B8 db littbratdra 

bal, ao Marquez de Abrantes, ao Conde de S. Lourenço. 
Era tudo baldado, o Intendente n3o largava a presa; foi 
precisa uma subtileza, fazendo consistir o crime dos versos 
políticos em peccado de philosophismo, sendo por isso en- 
tregue ao tribunal da Inquisição em 7 de novembro de 
1797. Tal era o estado de Portugal, a Inquisição estava 
mais benigna que o Cesarismo, e exerceu sobre Bocage uma 
acção protectora, mandando-o doutrinar no Mosteiro de S. 
Bento a 17 de fevereiro de 1798. O Intendente não quiz 
abandonar a preza, e a 22 de março mandou-o transferir 
para o Mosteiro das Necessidades, dando-Ihe uma esmola 
de roupa em nome do Príncipe Regente e recommendan- 
do-lbe que empregasse os seus talentos para lustre da pá- 
tria e dos amigos; Bocage, que até aos mais humildes 
dos seus amigos se mostrou sempre agradecido, nunca 
fallou n'essa esmola do Intendente, que lhe era defeso re- 
jeitar. Em 1801 voltou á sociedade civil, rompendo a cele- 
bre polemica com o padre José Agostinho de Macedo e da 
qual resta a eloquente satyra da Pena de Talião; durante 
este tempo viveu do trabalho de traduzir poemas didácti- 
cos francezes. Em 23 de novembro de 1804 é outra vez 
accusado ao Santo OflQcio por pedreiro livre, por uma mu- 
lher fanatisada Maria Theodora Severiana Lobo ; instaurou- 
se-lhe o processo secreto, que não proseguiu. No meio de 
tantas emoções, nos confliclos litterarios, entre privações 
do cárcere e na incerteza da sua vida, declarou-se-lhe uma 
aneurisma nas carótidas de que. succumbiu em 21 de de- 
zembro de 1805. N'este mesmo anno acabara também a 
actividade repressiva do Intendente Manique, como se ti- 
vesse cumprido o* detestável destino de atrophíar aquella 
alta expressão do génio porluguez. Durante a fcua doença 
Bocage era visitado por todos os poetas seus contemporâ- 
neos, è á falta de recursos o antigo dono do Botequim das 
Parras imprimira os Improvisos na stia mui perigosa doença, 
vendia-os pelos conhecidos e trazia-lhe o dinheiro; Bocage 
pagou a essa sympathica natureza, em um soneto onde se 
diz «que paga em verso o que devia em ouro.» • 

Em volta de Bocage se agruparam os íiovos espíritos, 
Nuno Alvares Pereira Pato Moniz, João Vicente Pimentel 
Maldonado, e outros muitos que seguiram a corrente con- 
stitucional, uns assassinados pela traição do absolutismo de 



B ARTE P0RTD6UKZA 365 



1833» outros fechados nas masmorras até á implantação da 
liberdade. O juizo sobre Bocage resume-se em poucas pa- 
lavras ; conhecidas as coincidências pasmosas entre varias 
çircumstancias materiaes da sua vida e da de Gamões, po- 
demos concluir, que em um século de decadência como o 
XYiu, Camões não teria sido mais do que Bocage; é por isso 
que na historia da civilísação portugueza o seu nome res- 
soa como um protesto. 



Sobre o auctor da Voz da Rasão 

No estudo sobre Bocage^ sita vida e epocha titteraria, 
(pag. 285-304) apparece agora publicada a celebre epistola 
intitulada Voz da Rasão, ,que desde os princípios d' este sé- 
culo se attribuia a José Anastácio da Cunha, e se conside- 
rava o facto que motivou a perseguição d'este sábio pelo 
Santo Officio; a rubrica com que se acha no manuscriptò 
de Ponte de Lima, De Bocage ao seu amigo Anelio, pôde 
causar alguma extranhesa por ir de encontro a uma tradi- 
ção corrente, mas a questão de hoje em diante entra om 
um novo aspecto, que nos parece decisivo. 

Seguimos a ideia dos que negam a paternidade da Voz 
da Rasão a José Anastácio da Cunha : 

1.** Porque no seu processo na Inquisição de Coimbra 
em 1778, onde lhe fizeram carga com quanto poderam ac^ 
cumular para condemnarem-no com livre pensador, uão se 
allude nem ainda de longe a essas ligeiras quadras, que a 
existirem n'esse tempo, facilmente se leriam vulgarisado 
pela sua forma popular. Este argumento é de tal impor- 
tância, que Innocenpio Franqisco da Silva, tendo feito uma 
edição das poesias de José Anastácio da Cunha em 1839, 
na qual incluiu a Voz da Rasão, retracta-se depois no to- 
mo IV do Diccionario Bibliographico, com estas palavras 
terminantes : «Não se descobre em parte alguma do refe- 
rido processo atlusão ou referencia, por mais remota que 
seja á intitulada Voz- da Rasão, ao passo que^n'elle se en- 



366 qubstObs ob litteratcra 



contram até alguns escassos fragroeolos que Ibe foram 
aprehendídos da versão que fizera da tragedia Makomet de 
Voltaire, impressa annos depois em Lisboa. Esta notabilis- 
sima omissão é para mim, e tenho que será para lodos, 
argumento inconcusso, que destruindo pela raiz a opinião 
vulgarmente propalada desde muitos annos, que jalgoa 
achar n'aquelle escripto a causal da perseguição movida a 
seu pertenso auctor, corrobora e fortifica ao contrario a 
dos que duvidam ou negam, que tal composição seja d'eile. 
Levado do impulso da torrente eu segui n'outro tempo a 
primeira opinião; tive porém de render-me á evidencia dos 
factos quando se me deparou a possibilidade de averi- 
gual-QS, e não receio por isso que alguém pretenda taxar, 
me de contradictorio.t (Op. cit., p. 225) 

2.° A permanência de José Anastácio da Cunha no mos- 
teiro das Necessidades e depois a sua occupação na Casa 
Pia, mostram-nos que nenhum ensejo teria para compor a 
Voz da Rasão, até ao anno de 1787, em que falleceu. 

3.** A tradição conservada, de ter sido elle o auctor do 
poemeto que tantou agitou a consciência portugueza, ex- 
plica-se pela necessidade que o verdadeiro auctor sentiu de 
se salvaguardar das garras policiaes e inquisitoriaes com 
o nome de um homem publicamente reconhecido como li- 
vre pensador, já condemnàdo como tal pelo santo officio, e 
melhor ainda fallecido, e portanto sem perigo de vir recla- 
mar contra uma attribuiçSo gratuita. A constante intolerân- 
cia catholica e cesarista que atrophiou a vida intéllectual 
doeste paiz motivava todos estes subterfúgios; ainda em 
1822, Almeida Garrett era processado por abuso de liber- 
dade de imprensa por ter escripto o innocente poemeto 
Retrato de Vénus, e em 1839 o bibliophilo Innocencio Fran- 
cisco da Silva era querellado pelo ministério publico por 
abuso de liberdade de imprensa em matérias religiosas 
por ter incluído a Voz da Rasão na edição das poesias de 
José Anastácio da Cunha. Note-se que estes factos definem 
qual o progresso moral quj se fez depois da revolução de 
1820, e depois do triumpho da causa constitucional em 
1833. Tudo isto nos explica o motivo por que, sendo sem- 
pre lida a fuilo a Voz da Rasão, nunca a tradição do seu 
verdadeiro auctor pôde ser discutida com desassombro, e 
continuou a propagar-se tal como a fizeram correr. 



^E ARTB P0RTU6UEZA 367 



4.^ Todas as edições da Voz da Rasão datam de 1822» 
1826, 4834 e i839, isto é, começam a correr impressas 
sobre manuscriptus de curiosos, com lições divergentes, 
com diversos titiilos, sem proveniência authentica; a attri- 
buição a José Anastácio da Cunha tem sido sempre propa- 
lada irresponsavelmente por editores anonymos, apesar de 
existirem manuscriptos em que a epistola apparece assig- 
nada por outros poetas dos flns do século xviii. 

No manuscripto que recebemos de Ponte de Lima, no 
qual se acha também a epístola Pavorosa illusào da éter- 
nidade, a Voz da Rasão vem em nomo de Bocage. Eis os 
fundamentos sobre que nos apoiamos, além da discussão an- 
tecedente, para aceitarmos como decisiva essaattribuiçâo: 

4.° O nome poético com que o atctor da Voz da Rasão 
se dirige ao seu amigo Ânelio ê Lidío: 

Ofl céos queiram mil praseres 
Goze a tua alma iauocente, 
E que Aoelio não se esqueça 
De um Lidio que vive ausente. 

(St. 66.) 

Em vários documentos ofliciaes, relativos a Bocage.e an- 
teriores a 1790, se vê que o poeta usara, pelo menos até 
esta época, o nome de LHedois, tomado de seu bisavô 
António LHedois, e de seu avô Gil Le Dotix. 

No decreto de 3i de janeiro de 1786, que o despacha 
guardamarinha, o seu nome é Manoel Maria Barbosa He- 
dois du Bocage ; no livro das Mercês de Ultramar, e no Li- 
vro das Monções, e ainda em 1789 no Registo dos Deere- 
tos da Chancellaria do governo da índia, è sempre conhe- 
cido pelo nome de Hedois, que só deixou de usar em Lis- 
boa a contar de 1790, em que assigna com as quatro ini- 
ciaes M. M. B. B, Portanto o nome poético de Lidio é um 
meio sçguro para achar o verdadeiro auctor do poemeto; 
ninguém .conhecia em Lisboa no tempo de Bocage a rela- 
ção do nome de Vffedois com a personificação arcádica de 
LidiOy e por isso elíe estava salvaguardado. 

2.^ A Voz da Rasão apparece em muitos manuscriptos 
coevos junto com a Pavorosa illusão, como vemos pelo ma- 
nuscripto de Ponte de Lima, e pelo que serviu para a edi- 
ção de Paris de 1834, na qual também se encontram as 



j_ 



368 QUB8TÕB8 DB LITTEBATUBA 



Cartas de Heloísa, que Innocencio reconhece como cboca- 
gianas em demasia.» 

Este argumento tirado da historia e&tema dos mana- 
scriptos de Bocage confirma-se por um caderno de versos 
Inéditos doeste poeta, que possue o sr. Abilio de Abreu Ma- 
lheiro, de Ponte de Lima. O manuscripto consta de 64 pa- 
ginas, e começa com as celebres Cartas de Anelio, com o 
titulo geral A Voz ou O Evangelho da Rasão, que compre- 
hende sob o mesmo titulo que rubrica cada pagina taoibem 
a Epistola a Marília ou a Pavorosa. É uma comprovação de- 
finitiva que restitue ao mesmo auctor a composição duvi- 
dosa pela dependência da composição authentica. No refe- 
rido manuscripto, a Epistola a Marília tem a rubrica: cCar- 
tas a D. Maria Margarida.^ Oanagramma áeAnelio jalga- 
mol-o composto com syllabas do nome do seu amigo An- 
tónio Bersane Leite, intimo de Bocage, que amava sua filha 
D. Maria Yicencia. 

A relação entre as duas epistolas não é casual ; nos 
seus titulos litterarios se vè um mesmo pensamento, que 
revela um único auctor; nos manuscríptos e na primeira 
edição de 1822, a Voz da Rasão é designada Verdades sin- 
gelas, e no ofHcio de 7 de novembro de 1797, com que o 
intendente Manique entrega Bocage á Inquisição, cita o fun- 
damento, do críme por que é submettido áquelle tribunal, 
cum infame e sedicioso papel que se intitular Verdades du- 
ras, e principia : Pavorosa impressão da eternidade, etc» 
Entre os papeis aprehendidos a Bocage, pôde ser que as 
Verdades singelas não estivessem encorporadas com as Ver- 
dades duras, e é natural que apparecendo as primeiras mais 
tarde, depois de Bocage ter sido posto em liberdade, os 
amigos o defendessem attríbuindo-as a José Anastácio da 
Cunha, para assim o salvarem das garras implacáveis do 
Manique. 

3.]* Desde que a crítica bibliographica reconheceu a im- 
possibilidade de se attribuir o poemeto a José Anastácio da 
Cunha, a ninguém compete melhor esse desabafo da con- 
sciência senão a Bocage ; só elle tinha o segredo de uma 
versificação fácil, e ao mesmo tempo a indisciplina mental 
que o levava a accumular objecções desconnexas de um 
bom senso sem direcção scientifica. José Anastácio da Cunha 
era um eminente mathematico, e bastava-lhe a mechanica 



B ARTE P0RTU6UBZA 369 



celeste do seu tempo, a physica, a chimica e a anatomia 
comparada, que se desenvolviam esplendidamente, para elle 
estar acima d'essa forma de uma incredulidade dissolvente; 
a sua ode Oração universal inspira-se do pantbeismo scien- 
tiGco que caracterisa o génio de Goethe. 

Retratam a pujança d*este martyr portuguez da liberdade 
de consciência, esses versos: 

^ ^ Pae de todo, adorado em toda a edâde, 

Dos poios ao equador, 
Por bárbaros, por santos e por sábios, 
Jove, Jehofab, Seobor!... 

Quem tem esta serenidade moral, já não se perturba com 
as incongruências tradicionaes da Voz da Rasão; a popula- 
ridade d'este poemeto é uma prova de ter sido improvisado 
por um génio também popular. 

Só Bocage é que reuniu estas duas condições, o criti- 
cismo á maneira do Bom senso do cura MesUer, e a espon- 
taneidade que o tornou arbitro da attenção publica. 

No meio da nossa profunda apathia mental, tudo quanto 
germinou em cada espirito tendendo a emancipado da tra- 
dição morta, veiu-lhe pelas sugestões recebidas na leitura 
sempre furtiva da Voz da Rasão. Restituamos a Bocage este 
seu grande titulo de gloria, movei por onde ainda se dirige 
uma parte da nossa geração atrazada. 



24 



JOAQUIM SILVESTRE SERRÍO, E A MUSICA SACRA P0RTU6UEZA 



Coube ao sr. Joaquim de Yasconcellos nos seus liyros, tão 
apreciados no estrangeiro, — os Músicos portuguezes, bio- 
grapbia de D. Luiza Todi, e agora a restituirão maraYilhosa 
do Catalogo da Bibliotheca musical de D. João /F, — desco- 
brir a nossa tradição da arte portúgueza, investigar as suas 
origefis, determínar-lbe as correntes, accentuar as indivi- 
dualidades que a sustentaram, e, por este processo histó- 
rico tão consciencioso, lançar as verdadeiras bases para que 
a escbola musical portugueza tenha raízes orgânicas no nos- 
so passado, e se desenvolva com um vivo caracter de na- 
cionalidade. Se o sr. Yasconcellos deu tantas novidades ao 
eminente musicographo Fétis, cuja morte obstou a que elle 
podésse introduzir no seu Diccignario importantes modifi- 
cações, pelo seu lado os críticos estrangeiros vèm-nos re- 
velar o mérito de artistas portuguezes, que Portugal des- 
conhece, e elles consideram como glorias verdadeiras da 
nossa Arte desprotegida. Está n'este caso o eminente com- 
positor português Joaquim Silvestre Serrão, fallecido em 1877 
na Ilha de S. Miguel; o seu nome, embora venerado nos 
Açores, onde o gosto artístico é uma distincção entre as 
famílias mais elevadas, é quasi totalmehte ignorado pelos 
eruditos e musicographos portuguezes, e debalde se pro- 
cura este nome no Diccionario dos Músicos portuguezes, do 
sr. Yasconcellos. Por uma circumstancia casual esteve na 
Ilha de S. Miguel, no ultimo trimestre de 1875 e primeiro 
de 1876, o maestro italiano Martino Roeder; ali ouviu fallar 
com assombro do compositor Joaquim Silvestre Serrão, qae 
havia já sete annos estava paralylico; o interesse artístico 



QUESTÕES DE LUTERATURA E ARTE PORTUGUBZA 371 



levou-o a procurar aquelle solitário cultor do bello, a apre- 
ciar-lhe o caracter superior e desinteressado^ a colKgir apon- 
tamentos da sua vida, e a estudar as suas numerosas com- 
posições manuscriptas de género sacro, que se cantam nas 
egrejas da Ilha de S. Miguel. A impressão que Martino Boe- 
der recebeu d'aquella individualidade, da belleza excepcio- 
nal das suas composições, da solidão artística d'aquella alma, 
levaram-no a publicar um esboço biographico do padre Ser- 
rão, na Gazzetta MuziccUe, de Milão, nos números de 4 e i8 
de março de 1877, acompanhado de um retrato. As pala- 
vras com que o auctorisado biograpbo começa, pintam per- 
feitamente o motivo por que um tão grande artista passou 
desconhecido da nação para quem é uma das maiores glo- 
rias, e ao mesmo tempo por que não achou na Europa os 
estímulos que o tornariam grande: «Se observarmos atteu- 
tamente a historia das artes e das sciencias, notaremos quô 
em quasi todas as épocas de decadência nas artes ou nas 
lettras apparecem talentos de mérito não vulgar, os qaaes, 
provavelmente pela contrariedade dos tempos, de certo mo- 
do se retiraram do mundo, vivendo quasi que eremitica- 
mente, e tauto que os seus contemporâneos como que lhe 
ignoraram a existência. Depois apparecem os historiadores, 
que, investigando os traços d'aquelles homens, lhes paten- 
teiam os grandes méritos. Não poucas vezes succedem es- 
tas decepções, vivendo grandes homens ignorados dos seus 
contemporâneos.» Em seguida a estas palavras, que são a 
synthese da vida artística do padre Serrão, o solicito bio- 
grapbo italiano, pensando que elle ainda estava vivo, accen- 
túa esta accusação: «Portugal, e os seus mesmos historia- 
dores modernos musicaes, ignoram que vive ainda entre 
elles um compatriota de que deviam ter orgulho. — Mas o 
que succede? No importante livro de Vasconsellos, Os Mu- 
sicos portuguezes, mencionam-se tantos bomens insignifican- 
tes, e falta o mais' celebre, o padre Serrãol» 

De fado, no livro de Vasconcellos falta essa grande glo- 
ria portugueza; mas a culpa d'essa omissão cabe mais a nós 
do que a elle, porque, tendo Vasconcellos acceitado apon- 
tamentos nossos sobre alguns artistas portuguezes, como 
natural da Ilha de S. Miguel, e tendo ouvido repetidas ve- 
zes na nossa mocidade todas as composições do padre Ser- 
rão, a nós cumpria entregar-lhe todos os materiaes para a 



372 QDB8TÕB8 DE UTTBBATDIU 



bio^rapbía d'e8te sublime artista. Ao tempo que Vasconcel- 
los imprimia a lettra S do seu livro, estávamos fora do Porto, 
e, por um descuido indesculpável, deixámos de chamara 
sua attenção para este artista, que desde a mais teuraedade 
vimos sempre venerado, e cujas composições sacras Dão só 
haviam creado uma eschola de canto na cidade de Ponta 
Delgada, mas eram ouvidas com admiração geral. Conhecía- 
mos perfeitamente a sua personalidade, e escutámos sem- 
pre com interesse as pequenas anedoctas que se contavam 
d'elle. Em todo o caso, as palavras do biograpbo estran- 
geiro são de um valor indiscutível, nlo só por estarem fora 
da imputação de vaidade patriótica, mas pela competência 
tecbnica e estudo directo das composições de Serrão; a bio- 
grapbía foi traduzida do italiano por Francisco Mana Supíco, 
o homem que mais tem influído na cultura intellectual das 
ilhas dos Açores, e publicada com um retrato lythographico 
no jornal Gabinete de Estudos, (l.** anno, maio, de 1877) de 
Angra do Heroísmo. 

Joaquim Silvestre Serrão era um homem dè «ma sensi- 
bilidade extrema, e a sua pbysionomia expressiva inostra- 
va-se mais contrahida pelos rumores que o peitorbavam, 
do que pelos sulcos da edade; era de um trato affavel em 
tudo, menos no que dizia respeito às apreciações favoráveis 
das suas obras, de que não podia ouvir fallár; a sua mo- 
déstia e desprendimento da gloria do mundo casavam-se 
com o eslylo das suas concepções musicaes, cujas formas 
eram para elle não uma reconstrucção erudita, mas um es- 
tado de espirito. Por este motivo as suas Matinas nunca se 
imprimiram, e nem sequer as possuía; pertenciam á corpo- 
ração ou egreja que as encommendava, pela quantia de tre- 
zentos mil réis fracos. Quando Martino Roeder esteve na 
Ilha de S. Miguel, já o padre Serrão não tocava no órgão 
da egreja matriz as suas composições, estava paralytico. Mas 
ainda assim soube avaliar a Inspiração mystica d'aqnelle 
génio ignorado. Que faria se o visse arrebafar-se no órgão, 
esquecer-se doeste mundo, tornar fatiados e descriptivos os 
sons com que traduzia as scenas trágicas da Semana Santa? 
Na ingenuidade da sentimento. Serrão vivia no século de 
Palestrina; no saber lechnico conservava as grandes tra- 
dições de Sebastião Bach, de Jomelli e Pergolese. la-se ou- 
vir com fé o padre Serrão, quando dominava o órgão, e a 



B ARTE PORTUOUEZA 373 



mocidade escbolar da cidade de Ponta Delgada cantáya com 
recolhimento as suas grandes composições sacras. 

Não admira que Martino Roeder sentisse vontade de col- 
ligir apontamentos bíographicos de um tão extraordinário 
artista; diz elle: «Eu recorri ao mestre da Capella Cabral, 
(Jacintho Ignacio) da egreja matriz de Ponta Delgada (capi- 
tal da liba de S. Miguel), para saber algumas noticias bio- 
grapbicas do seu intimo amigo o padre Serrão, visto que 
lodos os meus esforços, para as saber d*elle mesmo, foram 
infructiferos. As perguntas, que n*este sentido lhe fiz varias 
vezes, respondia-me sempre: 

c — Não precisai O senhor não precisa das noticias da 
minha vida. Para que as quer?» 

Os traços biographtcos, que Martino Roeder pôde coiligir 
de amigos, resumem-se em algumas datas; mas o que nos 
revela a vida moral do artista è bastante para se penetrar no 
fundo da sua consciência, e exclamar com o seu biographo: 
«Pobre Serrão I o que tu não farias se não gastasses a exis- 
tência Doestes logares, onde não entra um raio de luz da arte 
e da scíencial» Resumiremos as datas da vida de Serrão, 
por isso que alguns factos se acham restabelecidos pelas 
notas de Supico; mas não supprimiremos uma única pala- 
vra da physionomia morai, esboçada pelo critico italiano, 
bem como da analyse das composições de Serrão. 

Era natural de Setúbal, já celebre por tersido pátria de 
Bocage, ó grande compositor portuguez Joa<|uim Silvestre 
Serrão; ali nasceu a 16 de agosto 1801, sendo seus pães 
António Leocadio Serrão e D. Anna Luiza da Conceição, e 
ali cursou os primeiros estudos preoccupando-se, des- 
de muito criança, com a ideia da restauração da musica sa- 
cra em Portugal. Mais uma vez se patenteia, aquella verda- 
dade, formulada em um verso de Aifred de Vigny: «O que 
é uma grande vida? Um pensamento da mocidade, realisado 
pela edade madura.» Diz o biographo de Serrão: «Especial- 
mente com o fim de levantar do abatimento em que se achava 
a musica de egreja, ideia que teve desde a infância, eotren 
Bo convento da Ordem de S. Thiago da Espada.» A musica 
sacra estava, na realidade, em uma profunda decadência» 
apesar dos esforços de Marcos Portugal para restituir á ca- 
pella real as suas antigas tradições; o beaterio fanático de 
D. Maria i, e a paixão boçal de D. João vi pelo canto-chão, 



y 



374 QUESTÕES DE LITTERATCRA 

fizeram abandonar as obras primas de Pales trina, de Haen- 
dei, Jomelli e David Perez * ; o quadro de decadência tão 
pronunci^a, que Vasconcellos descreve ao tratar do compo- 
sitor Joséidauricio, só pôde ser bem comprebendido saben- 
do-se que entre os artistas portuguezes alguém tentou re- 
novar uma tradíç3o que se perdia. É esse o logar que com- 
pete a Joaquim Silvestre Serrão na historia da Arte portu- 
gueza. Que importa que a sua obra ficasse ignorada, por 
causa do seu isolamento e abnegação? basta elle ter con- 
servado puras as formas da musica sacra, para se lhe re- 
stituir o seu logar, único na historia da musica moderna por- 
lugueza. Sobre este caracter do artista diz o crítico italiano: 
cMaravilhou-me encontrar n'elle um compositor que, n'esle 
tempo, soube conservar aquella pureza infantil que tiveram 
os nossos antepassados, com a qual Pergolese e Astorga po- 
deram escrever o seu Stabat mater, Jomelli e Durante o seu 
Requiem, e Bach, principalmente, as suas Paixões de S. João 
é S. Matheus, e a sua Missa em si. 

cSe um compositor moderno nos quizesse narrar e des- 
crever a historia da paixão de Jesus com a mais bella mu- 
sica, julgal-o-heis talvez cheio da fé ingénua, que desejasse 
inspirar com a sua peça. Não penseis n'isso. Poucos hoje 
em dia, pouquíssimos mesmo, são os que sabem seguir o 
estylo sacro como elle deve ser: pureza de conducta musi- 
cal, pureza de fé religiosa e pureza de coração! O rara avis! 

cSerrão, por exemplo, não tem o talento extraordinário 
de Palestrina ou de Bach, e mesmo de alguns outros entre 
os mais distinctos das escholas recentes; mas a sua maneira 
de sentir ede exprimir aproxima-se muito d'aquelles mo- 
delos. Como a musica ecciesiastica tem as suas formas sa- 
crosantas, que se não devem corromper impunemente, e 
como no fim de tudo as inspirações das musicas modernas 
não podem produzir grandes novidades melódicas e har- 
mónicas conservando o estylo sacro, por isso não encontra.- 
remos em escriptor moderno d*este género grande desa- 
fogo de melodias, nem arrebatamentos de harmonia.» 

Por este seguro juizo se vê que Serrão possuia lodos os 
dotes para a restauração da eschola' portugueza de musica 



Joaquim de Vascoosellos, Os Músicos portuguezes, tomo i, pag. 16S. 



S ARTE P0RTU6UEZA 375 



sacra. Porque não realisou totalmente o seu pensamento? 
A isto responde o seu biographo, depois de lamentar o iso- 
lamento em uma ilha: <E com ras3o pensava assim; porque 
tinha pouco antes ouvido uma sua composição sacra, que se 
contava entre as nlais bellas» cousas que a época moderna 
produziu n'este género. Uma só cousa faltou a Serrão para 
ser um compositor celebre: inculcar-se mais; mas, em vez 
d'isto, zangava-se quando alguém fallava no seu mérito.» 

Pelas conversas com antigos discrpulos de Serrão, veiu o 
biograpbo Roeder a saber que os seus primeiros estudos 
dos elementos de musica foram feitos sob a direcção do pa* 
dre José Júlio de Almeida ; a harmonia e contra-ponto es- 
tudou-os até aos dezoito annos de edade com o «notável 
theorico» Àthanasío José da Fonseca, que lhe ensinou tam- 
bém a tocar«instrumentos de arco. O nome d'este ultimo ar- 
tista é actualmente desconhecido; importa que o nosso in- 
signe musicographo Yasconcellps dirija n*èste sentido as suas 
inyestigações, para que assim se reate a nossa fragmenta- 
da tradição artistica. 

Em 1819 entrou Joaquim Silvestre Serrão para o con- 
vento de Palmella, onde se ordenou de presbylero; ali foi 
organista e mestre da capella até ao anno de 1834, em que 
se extinguiram as ordens monásticas em Portugal. Presby- 
tero secular, e vivendo em Lisboa, tornou-se conhecido pelo 
sen talento musical e por algumas composições sacras; mas 
o bulicio do século incommodava-o, e queria recolher-se a 
um remanso de vida que simulasse o seu isolamento mo- 
nástico. Foi n'este estado de espirito, que truncou a sua 
carreira artistica; padecendo do estômago, e tendo relações 
de amisade na ilha de S. Miguel, decidiu-se a visitar aquella 
ilha já conhecida pela riqueza das suas aguas ferruginosas. 
Em 1841 é que aportou à ilha de S. Miguel, onde melho- 
ras seguras e uma estima geral o ligaram para sempre 
. àquelle território. Os seus recursos na ilha de S. Miguel de- 
finiram-se, sendo n'esse anno do 1841 nomeado organista 
e mestre da capella da matriz de Ponta Delgada. Achou-se 
outra vez o grande artista no seu meio ; os rendimentos da 
capellania do recolhimento de Santa Barbora, embora dimi- 
nutos, facilitaram-lhe uma segura mediocridade. 

O Medicis açoriano Duarte Borges da Gamara Medeiros, 
agraciado com o título de visconde da Praia pelos seus ser- 



376 QUESTÕES DE LITTBRATURA 



viços á caasa da liberdade constitucional, cercou o padre 
Serrão com toda a opulência com que coadjuvou sempre o 
desenvolvimento moral e material das ilhas dos Açores; po- 
de-se dizer que a sua amisade o vinculou mais á ilha de 
S. Miguel. O padre Serrão era o mestre das filhas do vis- 
conde da Praia, que nas suas frequentes viagens ao estran- 
geira não se esquecia do. compositor; offereceu-lbe o pri- 
meiro harmonium, que acabava de ser inventado por Ale- 
xandre, e para elle comprava todas as partituras antigas e 
modernas. Pode-se dizer que o visconde da Praia é que o 
levou outra vez a entregar-se á composição musical; em 
1854 escreveu Serrão um grande concerto para dous pia- 
nos, intitulado Os Alliados na Crimêa, para ser tocado pe 
las duas filhas do visconde da Praia. Diz o critico italiano: 
«parece escripta n'um impeto de entbusiasmo jpela guerra 
memorável da Criméa. È uma composição para dous pia- 
nos fortes— um problema contrapontico ! São duas peças 
inteiramente differaotes, differentes melodias, diversas pas- 
sagens, fazendo efíeito magnifico tocadas juntas, e tendo 
cada uma singular belleza tocadas separadamente. O vis- 
conde da Prsva, amigo e protector de Serrão, mandou im- 
primir esta composição em Paris. São as únicas obras pu- 
blicadas dé Serrão; na advertência preliminar *resame o 
compositor o seu pensamento: 

« — Desejava apresentar uma peça para dous pianos fortes, 
a qual ainda que feita á moderna conservasse também as 
formas symphonicas antigas. Tendo estas peças effeitos di- 
versos, por isso que uma desfaz o que outra faz copa mo- 
vimentos contrários, conservam comtudo um egual senti- 
mento por circumstancias; destruindo-se na melodia, mas 
conservando egnal a harmonia; e assim lhe pôde caber o 
titulo de simultânea e divergente.» 

A actividade artística do padre Serrão foi estimulada tam- 
bém pelo bispo de Angra D. Frei Eslevam de Jesus Maria, . 
confessor de D. Maria i, que havia^ fixado a sua residência 
na ilha de S. Miguel. Este preladoVôra cantor no seu mos- 
teiro, e tinha uma grande paixão pela musica; a mocidade 
que se dedicava á vida ecclesiastica para o lisongear estu- 
dava musica, e cantava nas grandes festas religiosas da 
ilha; assim appareceram as excelientes vozes de António 
Miranda^ Francisco Horta, Cabraes, Pachecos de Amaral, 



E ARTE P0RTU6UBZA 377 



Bastos, e outros jovens para quem o padre Serrão escre- 
veu as suas sublimes obras. As festas pela occasíSo do dog- 
ma da Conceição em !838, motivaram as suas vintq e qua- 
tro composições, intituladas Responsorios de Nossa Senhora 
da Conceição, que ouvimos; e as festas a Santa Cecília, fei- 
tas pela aristocracia insulana, onde é ingenito o gosto da 
musica, levaram-no a escrever o seu Moieto a Santa Ce- 
cilta, ' com acompanhamento de dois coros e de orches- 
tra. 

A. riqueza da confi'aria do Sacramento, da Matriz, e as 
opulentas festas ao padroeiro da freguezia, sob a direcção 
dos mezarios Machados, fizeram com que Serrão compu- 
zesse para aquelle templo as suas celebres Matinas da Se- 
mana santa, e Responsorios de S. Sebastião. Depois de IStiO 
não const» que escrevesse nenhum outro trabalho, a não 
Ser simplesmente para órgão, que tocou até 1869 em que 
foi atacado de uma apoplexia, ficando paralyticQ. 

Quando em 1875 a i876 o maestro Martino Roeder es- 
teve na ilha de S. Miguel, procurou conhecer o eminente 
artista, de quem ouvia fallar com veneração; Serrão já não 
sabia de casa, mas gostava de conversar sobre assumptos 
da sua velha paixão. Diz Roeder: «Quando estive em Ponta 
Delgada ia muitas vezes vizital-o. Pedia-me frequentemente 
para lhe fallar dos maestros modernos francezes, italianos 
e allemães. Desejava saber tudo, e para salisfazel-o tive de 
fazer a analyse das operas modernas. Gostava muito de me 
ouvir fallar de João Sebastião Bach. 

tN^uma pequena sala estava uma espécie de harmonium, 
um dos primeiros, feitos pelo celebre Alexandre, que o il- 
lustre visconde da Praia, seu protector, mandara vir de Pa- 
ris 8 lhe offerecera. Como elle o não podia tocar e na ilha 
poucas pessoas ha que o saibam fazer bem, para que lh'o 
não deteriorassem tinha-o fechado ha bastante tempo. Abríu- 
se quando eu o vi, e ainda que a ferrugem o tivesse ar- 
ruinado bastante, experimentei tocar n'elle uma fuga pouco 
conhecida, uma das mais bellas, do immortal João Sebas- 
tião Bach. Por felicidade consegui manejar bem o mecha- 
nismo d'aquelle raro instrumento, não me sendo difflcil to- 
car como desejava Apenas acabei, veiu Serrão, levantan- 
do-se com impeto juvenil da poltrona e ajudado pelas mu- 
letas, abraçou-me, e disse : — Essa é boa musica; só a po- 



378 QUESTÕES DE LITTBRATCRA 



dia escrever o immoríeU engenho João Sebastião. — E nos 
seus olhos brilhavam duas grossas lagrimas. 

^ Pobre Serrão I disse commigo; o que ta não farias se 
não gastasses a existeocia Doestes legares, onde não entra 
um raio de luz da arte e da sciencia I » 

Quem falia assim tem direito de formular um juízo so- 
bre as obras do insigne compositor portuguez; ainda que 
tivéssemos competência para tanto, e .embora tenhamos 
presentes todas as nossas emoções de quando ouviamos as 
bellas Matinas do padre Serrão, é nosso dever tornar bem 
publicas as palavras de Martino Roeder, sobre esta gloria 
portugueza : 

cÂs principaes obras de Serrão são as suas Matinas para 
os Ofíicios religiosos da Semana Santa. Os Responsorios mais 
sublimes e ideaes doestas Matinas são os de Sabbado santo. 
Faremos aqui uma breve analyse dos trechos niais notá- 
veis : 

a) Allegreto — Ut vivificarei populum suum, é de uma 
frescura admirável. Semelha uma esplendida manhã de pri- 
mavera, tornando-se muito característica a terna mudança 
de tom entre a dominante e a tónica com a sua respectiva 
maneira. 

b) Verso a solo — Tradidit in morteni animam suam, 
surprehende por um amalgama bastante curioso. Ao prin- 
cipio escutamos . o género de Bach na Paixão de S. João, 
depois um passo á Rossini, (Stabat mater) concluindo pre- 
cisamente a maneira dos velhos napolitanos Jomelli, Per- 
golese e Durante. 

c) Fugato — Quia in te occisus est, deixa francamente 
perceber que Serrão é um cofftrapontista de primeira for- 
ça, e um dos poucos que sabem commover com os artifi- 
cies contrapontistas. Esta fuga é escripta n'aquelia maneira 
grandiosa, que geralmente se chama lapidar. 

d) Solo para tenor —P/a^g^o quasi virgo, é um quadro 
intimo de rara magnificência. Na palavra tdulate, a musica 
torna-se descriptiva, sem destruir a impressão geral, sem 
se afastar do quadro. 

e) Fugato a duas vozes— A^mw et ille capttis,^ é de gran- 
diosa força e extraordinário effeito. 

f) Sepulto domino, é obra prima. É uma marcha fúne- 
bre executada por toda a orchestra, pianíssimo, tendo a 



E ARTB PORTDGUEZA 379 



trompa as soas notas melancbolicas, e entre esta e o acom- 
panhamento canta o coro a historia triste da morte de Je- 
sus^ em recitativo. 

<Ê óptimo o effeito do entrecbo natural da parte que tem 
esta phrase — Volvente lapide. O robusto mas simples de- 
senho, recorda os. sublimes quadros, em semelhante géne- 
ro, de Buonaroti ou Ticianó. 

«Segue-se uma outra phrase, mais característica, tam- 
bem executada pelas trompas, uma espécie de marcha, 
cuja letra é : Ponentes milites, peça que descreve magnifi- 
camente a situação. Persuado-me de que estes Responsorios 
de Sabbado santo sao uma das mais bellas cousas artísti- 
cas da arte moderna. 

«A parte mais notável das Matinas para os outros dias 
é o segundo Responsorio das de Quinta Feira. A introduc- 
ção (coro a quatro vozes) tristis est anima mea, é una tre- 
cho maravilhoso de verdadeira musica ecclesiastica, muito 
simples, mas de um sentimento puro e ideal. 

èO mesmo se deve dizer do seguinte: Unus ex discipu- 
lis méis, traduzindo a divina placidez com que o Salvador, 
sabendo que ia morrer, falia da traição, que reprebende 
com a máxima bondade, a seus discípulos. A sitáação è 
traduzida aqui com tal colorido, que parece estar-se vendo 
a auréola celestial sobre a fronte de Jesus. 

cO coro : Venite, mittamus, é de magnifico êxito. Sem 
jamais se afastar da suprema ideia de castidade na expres- 
são musical, constituo um quadro vivo, fallante, que nos 
recorda ainda as obras primas da pintura (sobre o mesmo 
assumpto) das mais celebres escbolas italianas. Trata-se 
aqui da resolução de um problema bastante diOicil, tanto 
na parte technica como estbetica. Tendo de descrever uma 
scena tirada da Escriptura, a que meio devia recorrer o 
compositor? Serrão, com rápidos e formosos traços, soube 
fazer um complexo magnifico, que, attendendo a quanto eu 
disse que pertencia ás puras regras do estylo ecciesiastico, 
nos descreve com vivacidade a situação, e tudo isto devido 
á soa mestria na distribuição das partes. 

cNo duetto (soprano e basso) Omnes inimici mei, mos; 
trou o auctor o seu talento para a declamação musical. £ 
quasi declamado este trecho, que também inspira um sen- 
timento profundamente mystico. Considero, finalmente, en- 



380 QDBSTÕES DE LITTERATUHA 

tre as cousas mais imponentes, o coro Ut Jcsu dolo tem- 
rent, É escripto no estylo (um tanto moderno, é verdade) 
dos antigos flamengos Josqàin de Prés e Ylllaert, admiran- 
do-se aqui o fino sentimento de Serrão, realísando tão bella 
fusão, com excellente êxito, de dous estylos essecíalmente 
diversos.» 

Martino Roeder nao analysa as outras Matinas de Ser- 
rão, porque não as chegou a ouvir; mas lembramo-nos 
ainda com assombro dos bellos trechos Descendit in foveatn 
(basso) das Matinas de S. Sebastião; Qucb est ista, quos as- 
cendit sicut lunam (soprano) das Matinas da Conceição; Quia 
venit, e O vos ómnes qui transits, das Matinas da Paixão; o 
SiA tuum presiduum, e outras composições em nada ÍDfe- 
riores ás acima descriptas. Roeder justifica-se com estarem 
todas as composições de Serrão inéditas e não dar elie co- 
pias a ninguém, e por isso «será difiicil poder calcularse 
no estrangeiro alguma cousa doeste insigne maestro por- 
tuguez. Espero, porém, que chegarei a possuir alguns do$ 
mais bellos trechos das suas Matinas para fazel-os conhe- 
cidos do mundo musical.» 

As composições de Serrão pertencem na maior parte ao 
archivo da egreja matriz de Ponta Delgada; seria um grande 
serviço á arte nacional se alguém empregasse os meios 
para que fossem publicadas. Depois dos seus juizos tão de- 
cisivos, Roeder apresenta a lista das composições de Ser* 
rão : 

cAs obras principaes d'este bello engenho portuguez são: 

I. Officios completos de Quarta, Quinta e Sexta Feira da 
Semana santa; 81 peças de musica, sendo coros, solos, 
duettos, entre os quaes se comprehendem os números an- 
teriormente indicados. 

II. Responsorios de S. Sebastião, padroeiro da cidade de 
Ponta Delgada; 24 peças. 

in. Responsorios de Nossa Senhora da Conceição, 24 peças. 

IV. Responsorios do Espirito Santo, 6 peças. 

«Atém d'estas composições principaes, Serrão escreveu 
também : 

Moteto a Santa Cecilia, com acompanhamento de doas 
coros e orchestra; contando-se entre as cousas menores um 
grande numero de peças para órgão. 

Ha também de Serrão uma peça característica e bastante 



E ARTE P0RTU6UEZA 381 



curiosa, intitulada Os AUiados da Criméa...^ (É a única im- 
pressa.) 

Logo que Roeder regressou á Itália, tratou de tornaj 
conhecido este grande artista, publicando a biograpbia de 
que havemos extrabido os traços fundamentaes; bem haja 
o sentimento que se dirige pela justiça. Na biograpbia se 
lê: «Vive ainda em S. Miguel...» porém desgraçadamente 
não chegou a saber da consagração artística do seu génio; 
o padre Serrão expirou a 20 de fevereiro de 1877. 

A vida d'este homem faz lembrar a abnegação d^esses 
pintores extáticos da edade media; sem este sentimento 
como attingiria elle a expressão pura da musica sacra ? 



os INICIAlWRES DO ROMANUSHO EH PORTUfiAL 



I 



ALMEIDA GARRETT 



À todas as transformações sociaes correspondem novas 
manifestações na arte e na litleratura; esta relação intima 
explica-se pelas noções que se substituem no espírito, no- 
ções que se desenvolvem com a intelligencia e determinam 
outros sentimentos e uma outra forma de actividade. Ás 
épocas do passado absolutismo monarcbico competia uma 
arte especlaculosa encobrindo com a riquesa a falta de in- 
spiração, e uma litleratura tão adstricta ás regras acadé- 
micas como a vontade individual estava supplantada pelo 
arbítrio real. Quando as nações modernas da Europa fize- 
ram o processo do cesarlsmo, e basearam o regimen civil 
sobre o accordo das cartas constitucionaes, existiu uma ele- 
vação da consciência, e uma maior consciência da dignidade 
humana; as lítteraturas modernas exprimiram esse estado 
dos espíritos, e separadas nas suas formas das lítteraturas 
clássicas, receberam um nome significativo que as distin- 
gue— o Romantismo. Almeida Garrett foi o iniciador do 
Romantismo em Portugal; mas essa transformação exer- 
cida pelo impulso das suas obras tem uma base natural, 
sem a qual a acção do seu génio teria sido nulla: a trans- 
formação do absolutismo do século xvni no regimen mo- 
narchico-representativo estatuído pelas Constituições de 
1822 e de 1826. Às datas da vida de Garrett pxplicam esta 
rasão immanenté dos factos; nascido no Porto a 4 de fe- 
vereiro de 1799, elle obedeceu a essa tendência pseudo- 
clássica do período revolucionário francez e do tempo do 



E ARTE PORTDGUEZA 383 



primeiro império; coadjuvara-o n'esta orientação a persi- 
stência do costume das Arcádias em Portugal. 

A educação junto de seu lio D. Frei Alexandre, bispo de 
Aogra, do pedagogo bellenista Alves, e mais tarde, da in- 
fluencia erudita de Frei Franciisco de S. Luiz, conservarara- 
Ibe por muito tempo o pedantismo clássico que o esterili- 
sava; Garrett fez então odes, sonetos, tragedias e todas as 
formas esgotadas pelas arcádias. Como bom burgtíez fre- 
quentou a Universidade de Coimbra, na época em que pre^ 
ponderava a monomania dos iheatros particulares, e a as- 
piração pela liberdade se ttianifestava em tragedias philoso- 
phicas, principalmente traduzidas do Voltaire. Foi na Uni- 
versidade de Coimbra que Almeida Garrett sç revelou como 
poeta, levando o o seu génio humanista dos cursos mathe- 
fflaticos para a faculdade de direito; no meio académico duas 
circums.tancias actuaram sobre as tendências do seu espi- 
rito. Primeiramente apoderou-se da preoccupação dramá- 
tica, e em segundo logar pol-a ao serviço da sua paixão 
pela liberdade. A revolução nacional de 18á0 exalta-o, e 
reclama para os estudantes da Universidade o direito de 
suífragio; esse bello facto da nossa historia suscita-lhe o 
pensamento da tragedia Catão, que se representou com en- 
Ihusiásmo em Lisboa, logo depois que acabara i sua for- 
matura. Natural do Porto, era ingenito n'elle o sentimento 
da liberdade; admirou as sublimes cortes constilHinies de 
1822, e escreveu o Elogio histórico de Fernandes Thomaz. 

D. João VI regressou do Brazil para não perder o throno 
bragantino,^ e logo depois de ter jurado manter a Carta 
constitucional de 1822, em que era proclamada a sobera- 
nia da nação, rasgou-a declarando-se rei absoluto, e man- 
dando perseguir todos os liberaes. Garrett era bem joven, 
mas a policia da intendência julgou-o nm democrata peri- 
goso, e por isso o poeta teve de refugiar-se no estrangeiro. 

Em 1824 encontrou-se em Paris com outros porluguezes 
foragidos, taes como o grande pintor Domingos António Se- 
queira, e o compositor Domingos Bom tempo; ferido pela 
traição á pátria, sentiu-se inspirado pala tradição nacional 
e concebeu o bello e elegíaco poema Camões. Regressando 
a Portugal em 1826, e exercendo o seu espirito critico so- 
bre as instituições na redacção do jornal O Portugnez, me- 
receu ao poder absoluto alguns mezes de cadeia, que a bis- 



384 QUESTÕES DB LITTBRATDRA 



torja julgará como um titulo de benra para o poeta. As 
Tíagens no exílio fizeram-DO assistir ao movimeato intelie- 
ctual e artístico do Romantismo, que se estava dando na 
Âlíemanha, Inglaterra, França e Itália. 

O Romantismo era uma doutrina litteraria de princípios 
se não de regras; procurava para a fundação das novas lit- 
teraturas a base tradicional de cada nacionalidaçle. Garrett 
orientado por este movimento europeu, ao cbegar a Porta- 
gal depois de 1826, investigou as tradições portuguezas e 
começou a colligir o Romanceiro. No meio d'este trabalho 
de regeneração litteraria veiu a reacção absolutista de D. 
Miguel, que como seu pae, perjurou a Carta constitucional 
de 18:í6. Começaram as perseguições politicas; os assassi- 
natos pelos bandos de caceteiros; atulbaram-se as* prisões, 
alçaram-se forcas, alargou-se a espionagem, e governou-se 
pelo terror e pelo confisco. Oeu-se a emigração de 18i9, 
depois da execranda traição dos Marechaes, que abandona- 
ram o Porto ás forcas miguelinas. Garrett seguiu outra vez 
para o desterro, e em Inglaterra procurou alento moral na 
trabalho litterario. O grande artista seguiu todos os acciden- 
tes da campanha da liberdade portugueza, desde o cerco da 
ilha Terceira até ao cerco do Porto. Nos seus versos e no 
Arco de SanCAnna, acham-se as vivas e pittorescas remi- 
niscências d'esta tremenda época. Depois do triumpho do 
regimen liberal em 1834, Garrett seguiu a par da politica 
uma fecunda actividade litteraria. Partidário da Revolaçãa 
de Setembro de 1836^ que restabelecia o principio da so- 
berania nacional, Garrett aproveitou a sua iniportancia po- 
litica para a fundação de um Conservatório de Musica e Arte 
dramática, para a erecção de um edificio para Theatro na- 
eionaU e no meio d'estas mil diíQculdades a vencer em um 
regimen de expedientes, escreveu os dramas, que foram 
a alma do theatro moderno, o Auto de Gil Vicente, o AU 
fagemey a Filippa de Vilhena, e essa tragedia única, e sem 
rival nas Jitteraturas modernas, o Frei Luiz de Sousa. Ahn- 
çando o movimento da Regeneração em 1851 , em que se rea- 
gia contra a teimosa tendência absolutista de D. Maria ii, 
Garrett depois de udia longa carreira parlamentar foi alguns 
mezes ministro, succumbindo exhauslo a 9 de dezembro de 
1854. A tranformação do Romantismo na litteratura portu- 
gueza ficou assim incompleta, e ao desastre da sua morte 



B ARTB PORTUGUESA 385 



deTe attribuir^se esse deplorável período da indisciplina, 
ou do elogio mutuo, sustentado por Castilho. 

Estes traços bastam para revelar o interesse histórico 
de uma tal individualidade artística; s& o estudo da sua obra 
) educa o sentimento e o gosto, o conhecimento da sua vida 
completa esse estudo pela sympatbia que infunde, ao \êr 
como n'uma época de transição social, cheia de desastres, 
de desalentos, de vilezas, de ambições ineptas, elle é o 
único que tem fé nas ideias, que defende a liberdade com 
o perstigio das tradições nacionaes, que faz do bello o meio 
de propaganda para a verdade. À vida de Garrett, além de 
ser o commentario perpetuo da sua obra, era uma pagina 
que faltava á historia da reorganisaçâo da sociedade portu- 
gueza no século xix, de que elle foi um dos mais intelligen- 
tes factores; essa divida commum foi paga pelo sr. Fran- 
cisco Gomes de Amorim, no seu importante hvro Garrett, 
Memorias biographicas, em curso dé publicação. * Ê um tra- 
balho que se lê com avidez, máo grado os defeitos de pla- 
no, que em parte se justificam pelo titulo de memorias. 
Gomes de Amorim teve relações intimas com o poeta desde 
1848, e acompanhou-o com um culto de santa amisade ate 
ao ultimo instante da sua morte ; colligiu tudo quanto lhe 
foi possível ajuntar para dar o relevo a essa individualida- 
de, e o seu livro é o fructo de pesquisas .accumuladas desde 
1852 até ao presente. Por isto se pôde avaliar a importân- 
cia das investigações, e o valor de uma tal contribuição para 
a historia da Litteratura moderna portugueza. Esta época 
da vida de Garrett, fecundíssima de acontecimentos, e de 
calamidades em que também* se viu envolvido e que o fi- 
zeram homem, acha-se tratada com a franqueza austera do 
historiador critico; a revolução de 1820, a reacção absolu- 
tista de 1823 e de 1828, as duas emigrações, os combates 
e cercos da Ilha Terceira e da cidade do Porto, são descri- 
ptos pelo sr. Gomes de Amorim com a consciência das cau- 
sas sempre comprovadas com dados positivos. É um ho- 
mem moderno que falia com uma nobre emancipação dos 



1 o primeiro Tolame (Testa obra de 598 pag. íd-8.^ grande, comprehende 
a Tida de Garrett até ao fim do cerco do Porto, em 1834; os restaates viot» 
aonos sSo tratados em mais dois volumes, aiada inéditos. 

25 ^ 



386 QuesTOBs db littbbatuba 



preconceitos conservadores ; era isso uma condição essen- 
cial para comprehender o espirito attico de Garrett, e para 
esboçar o fundo do quadro em que eile se destaca. A época 
e o meio estão completos na parte social e politica; o qua- 
dro geral da transformação litteraria do Romantismo oa 
Europa é que falta, mas cremos que hade ser traçado nas 
subsequentes paginas em que se tratar da genealogia ia- 
tellectual das obras primas de Garrett. 

Depois do meio, o bomem ; o sr. Gomes de Amorim, no 
seu culto sincero e legitimo ,por Garrett, receiase do fer- 
'Yor da admiração, põe-se em desconfiança contra a anil- 
sade, e procura, abafando sentimentos que teme prejudi- 
quem o seu juizo, uma imparcialidade, ás vezes crua, e (fue 
nem por isso nos dá por mais verdadeiro o typo do escri- 
ptor. A investigação insistente sobre a edade do poeta, que 
elle occultava por capricho pessoal, a reveriQcação da chro- 
nologia das suas obras, bem como dos titulos genealógicos 
da sua nobreza, são factos insignificantes, em que se dis- 
pendem numerosas paginas sem interesse histórico, e que 
tiram á narrativa aquellas justas proporções a que os gre- 
gos chamavam euryihmia, e que para o commum dos lei- 
tores o afastam de tomar conhecimento de um livro tão 
cheio de lição. As Memorias biographicas resentem-se do 
esforço de uma compilação de perto de trinta annos; ha 
abundância de minúcias, Garrett é surprebendido, tomado 
de assalto em todos os actos da sua vida; e á medida que 
nos vamos relacionando com essa alta individualidade esta- 
mos sempre com receio que surja algum documento, algum 
facto desconhecido em que*o homem appareça menos di- 
gno, e o artista menos elevado. Mas não; Garrett passa in- 
cólume por esta terrível prova, é sempre e em tudo uma 
individualidade sympathica. O mesmo acontece com Sá de 
Miranda e com Camões; a critica, a erudição esforçam-se 
para descobrirem a personalidade doestes grandes vultos do 
século XVI, mas ao passo que os documentos e as relações 
dos coevos os revelam no intimo do seu caracter, o génio 
adquire um realce novo, porque estes dois factores da sua 
individualidade o génio e o caracter não se contradíctam, 
completam-se n'essa justa harmonia, que determina entre 
os maiores a sua admirável superioridade. É quando se es- 
tabelecem na nossa consciência as consagrações definitivas» 



B ARTB P0RTU6UBZA 367 



Garrett soffrea também este processo, de que poucos se 
salvam; foi o seu maior amigo que o submelteu á prova 
lerrivel de que saiu triumphante; é este O mérito superior 
do livro, completa a admiração de Garrett pela sympatbia 
inextinguivel que cbama sobre elle. Gomes de Amorim oao 
teve isto em vista ; não fabricou com esforço a lenda do ca- 
tonismo de Garrett, não Ibe attenuou as incorrecções da 
personalidade, mas o homem eleva-se como uma natureza 
equilibrada pelas noções do bello e da verdade, achando-se 
em todas as situações sempre coherente e digno. Hade por- 
tanto a sua acção ser constante, da mesma forma que al- 
gumas das suas obras não envelhecem. Do estylo das Me- 
morias biographicas diremos pouco ; é claro, nitido e vibran- 
te, quando o sr. Gomes de Amorim se esquece d'elle, quando 
não visa a effeitos, quando não arredonda a phrase, quando 
não repinta nem arrebica as ideias, dizendo as cousas com a 
boa espontaneidade de quem relata. Mas não é sempre; 
vê-se que nâo fbi debalde que viveu no meiolitterario do- 
minado por Castilho, que manteve entre nós o império da 
rhetorica, e em que quem não fazia estylo não sabia escre- 
ver. Foi uma terrível preoccupação que custou a vencer, e 
á qual muitos talentos ainda se sacrificam, sobretudo aquel- 
les que não se libertaram da innanidade metaphysica, e qu^ 
acham no arranjo das pbrases o apoio para a sua incobe- 
rencia mental. Será impossiveLconhecer Garrett sem de 
hoje em diante consultar o consciencioso trabalho do sr. Go- 
mes de Amorim, que uma vez completo ficará uma funda- 
mental contribuição para a historia da civilisação portugueza 
contemporânea. É esse o valor da sua obra, e a que deve 
visar ao terminal-a. 



II 



ALEXANDRE HERCULANO 



Apesar da sua educação fradesca nas aulas dos Padres do 
Espirito Santo do Mosteiro das Necessidades, pelo accidente 
forçado da segunda emigração liberal Alexandre Herculano 
também assistiu ao moviuieuto litterario e scientifico do Ro- 
mantismo na Europa, e da emigração trouxe a comprebeD- 
são nova que o tornou um dos iniciadores da transformação 
romântica em Portugal. Herculano reconheceu a relação in- 
tima que existia entre as novas instituições politicas e as 
recentes manifestações liiterarias, e o que se observa entre 
todos os povos do occídente, em França, na Itália e na Hes- 
panha, em que os iniciadores do Romantismo são os pro- 
pugnadores do liberalismo, repete-se em Portugal com esse 
nexo profundo e lógico entre as opiniões e os sentimentos, 
por que foi a circumstancia da emigração pela liberdade 
constitucional, que fez de Garrett e de Herculano os trans- 
formadores da litteratnra portugueza no século xix. Na sua 
obra, Herculano soffreu sempre a primeira orientação cle- 
rical da sua intelligencia, e guando no lyrismo pendia para 
a eschola emanuelica da unctuosidade religiosa e do vago 
mysticismo cbristão, também na actividade critica da eru- 
dição histórica desvanecia-se em alardear o saber theolo- 
gíco e canónico, dispendendo as suas forças contra os moi- 
nhos de vento do infallibilismo, do marianismo e do syila- 
bismo. A manifestação principal do talento de Herculano foi 
a poesia, e nisto concordam todos os críticos; ôlle mesmo 
confessa que se sentiu poeta até aos vinte cinco annos. 
Mas n'essa phase poética, ha duas feições distinctas, uma 



quebtOes db littbratuba b arte fortugdeza 389 

verdadeira pela immediata relação com o meio social, com 
o estado dos espíritos de uma época perturbada por uma 
revolução que rompia com o absolutismo, e outra um tanto 
banal pelos sentimentos convencionaes, e até certo ponto 
em coDtradicção com as necessidades do espirito novo. Her- 
culano, como Beranger, ou como Delavigne, ou como Victor 
Hugo^ achou. a expressão eloquente do lyrismo moderno que 
servia para universalísar o sentimento da liberdade e alen- 
tar a lucta para a sua conquista; o soldado do cerco do Porto, 
o emigrado de Plymouth, de Belle-isle, e da Ilha Terceira, 
traduziu o grito da pátria escrava, embora não exercesse 
a influencia de Rhigas na Grécia moderna ou de Poettefi na 
revolução da Hungria, ou de Mickievich nas luctas da Po- 
lónia. Se o cerco do Porto foi uma epopêa, Herculano foi 
o seu eloquente poeta. Â segunda pbase do seu lyrismo, 
aquella em que persistiu sempre, até na prosa poética e nos 
romances históricos, deriva-se da idealisação do cbristia- 
nismo de Chateaubriand, e do mysticismo languido de La- 
martine nas Meditações e Harmonias, Esta tendência era fa- 
vorecida pelas primeiras impressões do seu espirito, que 
vieram a prevalecer em toda a sua acção, e que o tornaram 
um padre por dentro. 

Herculano conhecia a superioridade artística de Garrett 
na obra da transformação da litleratura portugueza, e por 
isso allodindo á acção critica Herder junto a Goethe, e de 
Thierry junto a Victor Hugo, reserva para si uma acção aná- 
loga junto do creador de Camões, de Frei Luiz de Sousa e 
das Folhas cahidas. A acção de Herculano era íntransmis- 
sivel; faltava-lhe esse poder de ler nas consciências, que 
Michelet exprime pela phrase Vart de mener les hommes, e 
apesar de um bom fundo natural achava-se em dissidências 
irreconciliáveis com os velhos amigos, rompendo com Gar- 
rett, com Castilho, com Rodrigo da Fonseca, com Marreca, 
até com o seu tempo, com as ideias modernas, até ao ponto 
de abdicar da sua própria intellectualidade e ir desconso- 
lado esperar a morte para o retiro de Vai de Lobos. A trans- 
ição da poesia para a critica, fez-se no espirito de flercu- 
lano pela participação directa com os factos da vida social 
depois de 1836. É certo que na transformação do Roínan- ' 
tismo na Europa existiam dois trabalhos análogos e solidá- 
rios, o da revivescência das tradições medievaes, sobre que 



390 QUESTÕES DB UTTBBATURA 



se elaboravam as lítteraturas novo-latinas, e o da critica 
scientifica sobre as origens das instituições modernas, de que 
resultou a renovação dos estudos históricos. Alexandre Her- 
culano, fazendo como Walter Scott, que deixou a B^ron a 
poesia para immortalisar-se no romadce histórico, abando- 
nou também a poesia a Garrett, e explorando as tradições 
portuguezas na prosa rbetorica do romance arcbeologico, 
achou o veio sympatbico por onde começou a adquirir um 
poder espiritual assombroso sobre a sociedade portugueza. 
O romance histórico tornou-se uma monomania geral, que 
ainda hoje persiste; Herculano imitou Walter Scott, calcou 
muitos dos seus quadros sobre typos e episódios da Notre 
Dame, e fez discípulos no genqro. Mas infelizmente esses 
romances, sympatbicos á sociedade portugueza porque lhe 
faltavam do passado, n.^o tinham luz psydtiologica, nem in- 
tuição do drama da vida, que se exprime pela situação e 
pelo dialogo, nem a realidade dos caracteres que se com- 
pletam além da lógica da acção pelos traços pittorescos do 
typo. Nos romances históricos Herculano obedeceu a essa 
deplorável tendência do Ultra-romantismo, que elle soube 
tão bem condemnar na decadência do theatro. Do romance 
histórico era fácil a transição para os trabalhos rigorosa- 
mente históricos; a situação de bibliotbecario para que foi 
nomeado, e as primeiras decepções politicas que solTreu, 
levaram-no a embrenbar-se no estudo e a tentar o exame das 
origens históricas da monarchia portugueza, aproveitando 
na parte propriamente erudita os inexcediveis trabalhos de 
Florez, de Masdeu, de João Pedro Ribeiro, de Munoz y Ro- 
mero, e na parte geral ç philosophica da comprehensão da 
edade media pelo novo critério iniciado por Savigny, e pro- 
seguido por Guizol, Agostinho Thierry, e com especialidade 
á península hispânica por Aschbach, Lembké, Dunham e o 
eminente Henry Schaeffer. Durante os trabalhos históricos 
de Herculano, a aggresão estólida do clericalismo contra o 
novo espirito critico manifestado na Historia de Portugal, 
augmentou a corrente sympathica em favor do escriplor, 
que se achou com um extraordinário poder moral sobre a 
nação e sobre a geração nova. Não soube usar esse poder; 
desalentado da 'politica, por não ter sido feito ministro pelo 
DQOvimento da Regeneração em que cooperara em 1851, Ima- 
ginando-se perseguido pelo clericalismo, calou-se, interrom- 



B ARTE P0RTU6UEZA 391 



peu a saa obra, e exerceu a inflaencia em desalentar os 
outros.' A sua importância provem-lbe de se ter posto ao 
serviço de todas as forças conservadoras da sociedade por- 
tugueza; emquanto o partido liberal secularisava a nação 
portagueza extinguindo as ordens monásticas, Herculano es- 
creveu sempre a favor dos frades, idealisou-os em roman- 
ces, reclamou mais religião para o estado e padres intelli- 
gentes para o ensino; emquanto a nação luctava pelas ga- 
rantias politicas que soube conquistar contra o absolutismo 
do paço, que no meio do tirocínio parlamentar fazia dicta- 
duras e golpes de estado, Herculano foi a favor do paço con- 
tra a nação, e feito deputado pelo governo votou uma sus- 
pensão de garantias; quando a mocidade precisava de di- 
recção, elle impoz-se como idolo, maldisse a philosophia, a 
democracia, e considerou as recentes manifestações scien- 
tiScas como productos gongoricos análogos á dissolução men- 
tal das litteraturas do século xvii., Morreu quando come- 
çava a exercer uma acção retrograda, e por isso a sua glo- 
rificação hade ainda por algum tempo ser um protesto para 
as classes e instituições conservadoras que nos esterilisam. 
O recente livro do sr. António de Serpa, Alexandre Hercu- 
lano e o seu tempo tem esta significação particular; antes 
porém de entrarmos no exame do livro, importa conbecèr 
o escríptor que volta casualmente aos arraiaes litterarios, 
fatigado talvez da actividade exclusivada politica dissolvente 
qup. tem afundado esta pobre nacionalidade. 

O sr. Antonip de Serpa é conhecido no meio politico 
como o financeiro do partido regenerador; os seus prece- 
dentes litterarios resumem-se n'esse prurido poético dos 
vinte annos, que n'outro paiz bastaria para inutilisal-o como 
uma nullidade manifesta, mas que em Portugal no periodo 
do pedantocracia foi o meio efiicaz para filial-o na co- 
faorte do Elogio mutuo, e para guindal-o a todos os altos 
cargos do estado. Esta contradicção entre as aptidões natu- 
raes e a elevação social confirma-nos o pensamento de 
Shakspeare — que nas cousas humanas ha uma corrente que 
conduz inevitavelmente á importância, á riquesa, ao poder, 
á gloria. O saber conhecer essa corrente e o ter audácia 
de exploral-a é por si já um talento. Esta contradic^JSo foi 
jà observada pelo biographo do sr. António de Serpa, que 
diz: «António de Serpa dedicou-se á vida militar por um 



392 qubstObs de rjTTZiíATimA 

d*esles insondaYeis caprichos da sorte» que fez de Lathero 
um padre catholíco aotes de ser o chefe de uma nova seita 
religiosa.»' Depois de ser capitão de infanteria, por outro 
capricho da sorte achoa-se do magistério despachado lente 
da Eschola poiytechnica, pouco depois de ter entrado em 
campanha contra a revolução nacional que reagia contra o 
absolutismo renitente de D. Maria n, que se impoz á oa- 
çio pela intervenção armada estrangeira de 1847. Diz o 
biographo, alludindo á sua vida militar: cÂs suas primei- 
ras provas foram, como s3o infelizmente as de todos em 
Portugal, n'uma guerra civil.—... dois dias de marcha fo- 
ram bastante para ser surprehendida e feita prisioneira a 
pequena columna a que António de Serpa pertencia. ]^eliz 
n'este contratempo, pôde esperar o desfecho da lucta sm 
ter de combater a revolução popular, a qne um protocolo 
poz termo, desde que a santa alliança mascara o despotis- 
mo com o nome pomposo de equilibrío europeu.» Por aqui 
se vê que António de Serpa se achou aa serviço dos arbi- 
trios do paço contra a independência da nação, e está ex^ 
plicado como, uma vez submettida pela violência de uma 
intervenção armada a nação portugueza ao statu quo, o 
favor do paço o distinguiu abrindo-Ibe as portas do mundo 
ofBcial, do professorado, da academia das sciencias, do tri- 
bunal de contas, dos dois parlamentos, do ministério, do 
conselho de estado. Com cerlesa Shakespeare via para den- 
tro das cousas; com um simples volumçsinho de versos 
banaes não se podia ir tão longe. Ás vezes a extrema im- 
portância chegava a enfadal-o, como vemos pela sua elei- 
ção de sócio da Academia; diz o biographo : «Eleito, ha- 
verá dois annos, sócio da Academia real das sciencias de 
Lisboa, honra a que em todos os paizes aspiram os que 
mais fingem despresal-a , — António de Serpa declinou de 
si voluntariamente o título de académico, para se não vèr 
na contingência de faltar ás sessões nocturnas a que os 
estatutos o obrigavam, preferindo-lhe, com rasão, as ma- 
gnificas roladas de madame Alboni, que entravam no seu 
anterior programma do fim do dia.» A sua reputação litte- 
raria gstava entregue á reciprocidade do elogio mutuo, e 



* Luii A. Pahneirim, Estudos critieos (do Patmama, i, xin, p. 36). 



\ 



B ARTE PORTDOUBZA 393 



duas comedias, mas que estavam •longe de serem mode- 
los no generoi^ representadas no theatro de D. Maria, tor- 
naram-no o grande homem, que iria em breve occupar os 
primeiros legares da politica; faltava-lhe accentuar o seu 
talento em uma magica, mas uma casualidade tirou-o de 
mais esse ridículo : .cUm só peccado commetteu António 
^e Serpa, e n'esse fomos nós seu cúmplice. Um melodra- 
ma bíblico foi escripto em segredo e em coUaboraçao com- 
mum, quando as plateias podiam ser deslumbradas com o 
ouropel das túnicas, as illusões da óptica e os logares 
communs de um sentimentalismo manco e dessorado.»^ 
Sem um pensamento definido, exerceu uma actividade ue- 
gativa «manejando com facilidade o epigramma» nos arti- 
gos dispersos do jornalinho o Pharol e da Semana. Foi tam- 
bém este o recurso por onde muitas nullidades abriram 
caminho na saturnal do constitucionalismo: os bons ditos 
supprírami o trabalho e mesmo as qualidades moraes. Quem 
mais poder possuísse de desalentar os outros, esse ia mais 
depressa para diante. António de Serpa, na inconsciência 
do prurido lítterario, insistia na monomania do theatro: <Á 
hora em que estes artigos escrevemos, continua Palmeirim, 
trabalha António de Serpa na contextura de uma comedia 
original em cinco actos, destinada ao theatro de D. Ma- 
ria II.» E antes da obra escrípta, conclue: «É já tempo de 
pôr mãos á obra e de acudir á decadência da scena portu- 
gueza...» Mas António de Serpa não realisou o vaticínio, 
largou as letras e veiu cooperar na decadência da naciona- 
lidade, entrando logo como ministro da chamada segunda 
Regeneração em 1859. A Revista Contemporânea pendu- 
rou-lhe o retrato na sua galeria, o paço confiou-lhe a pasta 
das obras publicas, depois a da fazenda, e a sua actividade 
exerceu; se em fazer empréstimos e votar impostos cora que 
se cavou a ruina insondável em que nos achamos. António 
de Serpa confessa que as suas poesias «foram escriptas sem^ 
pensamento fixo, nem moral, nem litlerario; foram escrip- 
taá, pela maior parte, sobre o joelho, para serem publica- 
das no dia seguinte nas folhas volantes do jornalismo htte- 
rario...» Felizes tempos em quB estes nadas levavam um 



I Ibid.y pag. 42. 



V 

I 



394 QUB8T0B8 DB LITTBIIATURA 

homem mais alto do que um papagaio de papel; o matbe- 
matico capitão de ínfaoteria deveu a esses oadas a consa- 
graçSo do elogio mutuo, que serviu para coadjuvar o favor 
do paço, distinguindo-o pela sua resistência contra o movi- 
mento nacional em 18i7. Desde I8S9 até ao presente tem- 
se occupado o sr. António de Serpa nas luctas partidá- 
rias, como a cabeça financeira do partido regenerador, e 
cuja acç3o está evidente nos factos; de repente apeteceu-lhe 
fazer uma incursão no campo da litteratura, e lembrao- 
do-se das suas passadas glorias do elogio mutuo, e talvez 
como symptoma de uma abdicação politica, escreveu o pe- 
queno volume intitulado Alexandre Herculano e^ seu tempo. 

O livro comprova bem claramente a mediania do auctor; 
nascido com o intuito de refutar o nosso trabalho sobre a 
Historia do Romantismo em Portugal, que acima resumi- 
mos, não apresenta factos novos, nem documentos como 
competia a um homem que tratou de perto com Alexandre 
Herculano, e que se desenvolveu no meio social que lhe 
deu a consagração. O sr. António de Serpa nem conhecia 
cabalmente a obra litteraria de Herculano, nem a corrente 
das ideias modernas de que eUe foi entre nós um iDÍcia- 
dor, e por isso o notório vulto do homem que na sociedade 
portugueza teve o maior poder espiritual, apparece ali com 
uma figura apagada, grotesca e em absoluto com uma ac- 
ção negativa. N'esta condição o livro está cheio de pbrases 
feitas, a que vulgarmente se chama narizes de cera, com 
desdéns ignaros pelas cousas que não comprehende, e com 
explicativas dos motivos moraes do critério dos outros que 
caem pela falta de seriedade. 

A inépcia da obra começa pelo titulo Alexandre Hercu- 
lano e o seu tempo; nada mais scientifico do que apresen- 
tar o quadro completo da época, e relacionar com elle a 
acção da individualidade preponderante, para assim demons- 
trar ou fazer sentir a sua superioridade. Porém o sr. An- 
tónio de Serpa retrata a grande época que vae desde 1820 
até á decepção politica de Herculano no movimento da Re- 
generação em 1851, com algumas linhas allusivas a factos 
cuja importância mostra que não comprehende. Eis como 
define a Revolução de 1820: «A revolução de 1820 foi feita 
por alguns homens honestos e de boa vontade (coitados!) 
e teve a grande vantagem de arrancar Portugal á dupla 



E ARTE FORTUGUEZA 395 



igDomÍDia de ser ao mesmo tempo uma colónia de Ingla- 
terra e uma colónia do Brasil. Porém, mais pródiga em 
declanaações e em theorias do que em factos e realidades, 
deixou de pé quasi todas as instituições do absolutismo, e 
por isso desappareceu como o fumo ao primeiro sopro da 
reacção.» E calando o grande attentado da dynastia dos 
Braganças, completa o retrato: «Os revolucionários de 
1820... fizeram a sua revolução de casaca preta e gravata 
branca, sem faltarem ás leis da etiqueta, e com a solem- 
nidade que convém aos que faliam em nome da nação e 
proclamam theoricamente a soberania do povo.» (p. 141) 
O critico applicou ao grande facto histórico, o seu antigo 
humorismo do Pharol. Ainda cora phrases mais vagas faz 
a largos traços a historia do movimento politico até 1834, 
(pag. 12 ji 74) atirando depois esta bisca á geração mo- 
derna, victima das inauditas infâmias do constitucionalismo 
e que agora começa a conhecer o modo como os partidos 
monarchicos ludibriaram a nação em prol do paço: «a ge- 
ração actual, que para gosar os beneficios da liberdade ape* 
nas teve o incommodo de vir ao mundoí» (p. 142). O sr. An- 
tónio de Serpa encosta-se á phalange d'esses heroes que 
fundaram para sua vantagem o regimen constitucional, di- 
zendo «que na tenra edade de oito annos ouvira repercu- 
tido pelo valle profundo do Zêzere o som do canhão do uU 
timo e decisivo combate de 1834, a batalha da Asseiceira» 
(ibid.) É tudo quanto nos diz da época em que viveu e tra- 
balhou Herculano; n'este ponto chegámos a nutrir a illusão 
de esperar do homem politico um quadro severo e com- 
pleto. Agora a influencia de Herculano ? 

É verdadeiramente deplorável o modo como accentúa essa 
influencia do grande homem theatral, e a conclusão nega- 
tiva a que chega; emquanto a cousa vae com phrases, des- 
encadeia-se em exaltar a prosa esculpturalf o estylo vasado 
em bronze^ os periodos amplos e magestosos, o travado har- 
monioso da phrase, o esfylo musculoso, e tudo quanto uma 
glorificação insciente pôde accumular de banalidades re- 
tumbantes. Mas tendo de entrar no exame dos factos, en- 
tão cae na puerilidade: attribue a Herculano o grande po- 
der da vulgarisação de archaismos como um meio com que 
robusteceu a Dfacionalidade, (p. 20) dando-lhe uma superio- 
ridade sobre Garrett e uma influencia mais directa e im- 



396 QUESTÕB8 DB LITTBRATURA 



mediata! Depois accresceota qae Hercalano operou ama 
transformação social pelos seus romances históricos, (p. 38 
a 40) esses biombos medievaes de cartSo collado, mal co- 
piados de Schiller, como a scena da recusa do Infante D. 
Diniz de beijar a m3o a D. Leonor Telles, que o infeliz cri- 
tico considera n3o inferior ao melhor que escreveu Walter 
Scott, (p. 38) e mal adaptados da Notre Dame de Victor 
Hugo. E por fim, apagando inconscientemente toda a influen- 
cia do grande homem no seu tempo, deixa estes traços ne- 
gativos tque tantas vezes no ardor das polemicas se mostra 
descrente dos homens e desanimado acerca do futuro do 
paiz • . . • (p. 82) E chega á lamentável conclusão, em qae 
se condensam os resultados do panegyrico : cSe alguma in- 
fluencia politica exerceu Alexandre Herculano n*aquelle paiz, 
depois d'aquella época, e essa influencia não se pôde cha- 
mar benéfica, força é confessal-o, foi a do desalento e ten- 
dências pessimistas que communicava á mocidade que lia 
os seus escriptos, pela sua descrença nos homens e pela 
desconfiança que lhe incutia de que o paiz pela falta de vir- 
tudes cívicas e pela corrupção dos costumes políticos cami- 
nhava para a decadência.» (p. 194) Custa a crer que um 
gloriScador de Herculano chegue a uma tal conclusão que 
borra a pintura do grande homem; mas diz Serpa «força 
è confessal-o.» E não bastando annullal-o como um espirito 
dissolvente, ainda lhe attribue esta reacção do espirito dos 
novos, que se libertaram da rhetorica na litteralura, da pie- 
gnisse na poesia, do pedantismo auctorítario pela pbiloso- 
phia positiva, e da cooperação criminosa com os partidos 
monarchicos pela doqtrina da democracia; diz António de 
Serpa : «Este espirito pessimista, de accordo com a indole 
nacional, que propende para esse estado psychologico, con- 
correu por ventura de alguma maneira para que uma parte, 
embora limitada da moderna geração abraçasse com um 
certo ardor as ihnovações mais exageradas em matéria po- 
litica e philosophica, innovações que Herculano era o pri- 
meiro a desadorar, e seria o primeiro a combater, se ti- 
vesse voltado de novo ás luctas da imprensa e á vida de 
escriptor.» (p. 194.) Isto é verdadeiramente irrisório; o 
conselheiro de estado, o ministro honorário desmascara aqui 
o instincto de um acanhado conservadorisme. ' 
Depois de mostrar menos que nulla a acção de Herculano 



B ARTE PORTUGUEZA 397 



sobre o seu tempo, rebaixa inconçcíentemente o bomem 
que quer impor á admiração, com uma siuceridade de que 
não duvidamos, mas que dos leva a pôr em dúvida a sua 
inteiligencia. Âlludiudo aos versos de Castilho contra D. Mi- 
guel : Voe monstro, e em que lhe chama coroado imberbe 
algoz, escreve: «Esta vingança, postoque inofiensiva, re- 
pugnava ao austero e generoso espirito do aucior da Harpa 
do crente. O soldado da liberdade não sabia insultar o ad- 
versário vencido.» (p. 31) Mas ddas paginas adiante copia 
os seguintes versos de Herculano contra D. Miguel: (p. 33) 

Nas orgias de Boma a prostituta 

Folga, Til oppressorl 
Folga com os hypocrítas do Tibre, 

Morrea tea voneedor! 

E commenta: «D. Miguel estava com effeito em Roma por 
occasião da morte de D. Pedro.» 

AflBrmando que Herculano foi em toda a sua vida um con- 
servador, (p. 141) não tira a consequência dos factos: mos- 
tra que Herculano se demittiu de Bibliothecario do Porto 
para não reconhecer a Revolução de Setembro, que procla- 
mava a soberania nacional contra a dictadura do paço, (p. 
168) mas não explica como em 1839 Herculano recebeu em 
paga a nomeação de Bibliothecario do paço da Ajuda; (p. 
173) como foi eleito deputado por candidatura official im- 
posta pelo governo, (p. 177) e como em 1840 votou no par- 
lamento a suspensão de garantias! (p. 174) Chama, por 
exeaiplo, a Herculano defensor do casamento civil, (p. 6) sem 
se lembrar que Herculano considerava o casamento civil a 
antiga mancebia que elle pertendia expurgar pelo Código; 
apresenta-nol-o como «tibiamente inclinado á extincção dos 
vincules» (p. 189) sem aproximar esta ideia da sua conse- 
quência natural, a necessidade da emigração, que Herculano 
defendeu por sugestão do imperador do Brazil. Incapaz de 
julgar o homem que pretende glorificar, traça este deplo- 
rável retrato moral d'essa gloria oflQcial portugueza: «Por 
um lado a sua indole affectuosa e uma espécie de ingenui- 
dade rude fazia-o ter demasiada confiança na sinceridade 
de todos os que o tratavam, quando não tinha contra elles' 
motivo de suspeita. Por outro lado, quando suppunha ter 
esse motivo, ás vezes infundado, attribuia reservadas inten- 



398 QUB8T0E8 DB LITTSRATURA 



ções aos actos mais iodifferentes. — Na vida pratica, a ex- 
trema confiança ou a paixão e a írascibilidade perturbavam- 
Ibe muitas vezes a natural perspicácia do seu entendimento 
e a imparcialidade dos seus juízos. D'aqui resultou enga- 
nar-se muitas vezes, e as desillusões trouxeram-lhe o des- 
animo, e a final o completo afastamento e até a aversão da 
yida politica, desanimo e aversão tantas vezes patenteado 
nos seus escriptos.» (p. 161) O sr. António de Serpa che- 
gou a estas conclusões porque viveu na demasiada confiança 
pessoal de Herculano; nós nunca Ibe falíamos mas chegá- 
mos ao mesmo resultado pelo estudo da sua obra. Com que 
direito vem o critico estadista dizer que na nossa Historia 
do Romantismo em Portugal nos destinamos 9 a demolir a 
reputação da maior gloria doeste século?» Esse trabalho 
não nasceu sporadico ; è filho de um plano complexo — a 
historia da Litteratura portugueza, e realisado sob priací- 
píos de critica applicados no decurso de toda essa empreza 
em via de publicação desde 1869. O si*. António de Serpa 
serviu-se do vulto de Herculano, como sincero conservador, 
para atacar as ideias modernas que vão separando a con- 
sciência publica da torpeza dos partidos monarcbioos; e é 
por isso que pinta de vez em quando o seu personagem 
com cores irrisórias. Preconisando-nos a modéstia catoniana 
de Herculano,, confirma por uma anedocta particular a con- 
clusão a que chegáramos, que essa modéstia era theatral, 
que se sabemos que eile regeitou o pariato, a grã-cruz de 
S. Thiago, o niandato por Cintra, e outras cousas mais, foi 
porque eile o veiu alardear na imprensa; a anedocta é im- 
portante, é o cotip de grace no seu heroe: «Terminaremos 
com a narrativa de um facto que ao aucior do presente es- 
tudo foi contado ingenuamente pelo próprio Alexandre Her- 
culano, que constitue um traço notável do seu caracter...» 
(p. 214.) O facto resume-se em que andando Herculano na 
província da Beira em 1857, em uma localidade o adminis- 
trador do concelho chamou todos os moradores para abri- 
rem uma estrada para passar Herculano «prolongando-se o 
caminho assim concertado por mais de uma légua;» contou 
o facto não para glorificar-se, mas para maldizer o capitao- 
mór extemporâneo e para declarar que se achou tão revol- 
tado que não agradeceu a hospedagem: «Alexandre Hercu- 
lano suffocado de cólera, deu de esporas ao cavallo, e nem 



B ARTE P0RTU6UEZA 399 



sequer levou a mão ao chapéo para fazer ao seu hospedeiro 
o cumprimento banal qué na provinda se não nega nem ás 
pessoas desconhecidas.» (p. 218.) Depois d'isto pomos em 
duvida o bom senso do sr. António de Serpa, e completa- 
mente destituído de auctoridade para caracterisar a parte 
da Historia do Romantismo çw Portugal, em que tratamos 
de Herculano, como longa e fastidiosa diatribe, (p. 224) 
com mal disfarçada maiicia, (p. 239) com malícia perada, 
(p. 244) com desnorteamento, (p. '233) acobertando-se de- 
pois d'estas aíBrmações sem prova com a resalva cautellosa 
—ás vezes com critica judiciosa, (p. 234) O livro do sr. 
Serpa Alexandre Herculano e o seu tempo, lembra-nos a lenda 
do falso propheta Balaam, que ia' na sua jumenta para amal- 
diçoar e achou-se abençoando; esse livro não faz mais do que 
confirmar o que com mais franqueza e imparcialidade scien- 
tiflca e ponto de vista philojophico dissemos de Herculano. 
Porque nasceu pois o livro? Diz-nos que da vontade de fa- 
zer justiça, a quem morreu enojado da admiração absoluta 
com que o cercaram. Nós temos motivos sérios para duvi- 
dar d'esse sentimento de justiça, quando a nossa imparcia- 
lidade scientiGca é altribuida pelo sr. António de Serpa a 
resentimentos pessoaes que nunca- tivemos, e que sua ex- 
cellencia improvisa. Se foi o sentimento de justiça que o 
fez aventurar-se a deixar de si esse documento de medio- 
cridade, então já deveria ter começado as suas reparações. 
Referimo-nos á extranha impressão que sempre nos causa- 
ram estas palavras do Conde de Rackzynski: «La personne à 
laquelle était confiée en 1835 la surintendance de cette bi- 
bliothèque (refere-se á Bibliotheca da Universidade de Coim- 
bra) a fait, dit-on, le métier de revendeur de livres. Un 
loup dans une bergerie ne se serait pas trouvé plus à Tai- 
se. Au temps des priviléges, cet emploi que Ton regardait 
comme élevé, ne pouvait êlre rempli que par. un docteur.» 
{Les Arts en Portugal, p. 471.) Estas palavras esperam desde 
1845, em que foram escriptas, uma refutação cabal. Pela 
nossa parle não fomos tão cathegoricos alludindo a essa 
venda dos apontamentos do Diccionario de Ramalho á Aca- 
mia das Sciencias, que deslustra o nome de Herculano, máo 
grado os protestos a favor da sua vida immaculada, (p. 221) 
e da sua disciplina moral, (p. 227) Evidentemente, o sr. 
António de Serpa serviu- se do nome de Herculano, para ter 



400 qubstObs db littbratura 

pretexto de atacar a mocidade exagerada e presunçosa (p. 
Ò) que nSo admira as nullidades corruptas da segunda re- 
generação, para condemnar os princípios d» pbilosopbia po- 
sitiva que nâo entende, e a que allude com soberano des- 
dém, e para apodar as manifestações do realismo na arte, 
verdadeiramente incommodas para o piegas romântico das 
magicas e das redondilhas. Contava ainda com a ignoran- 
,cia publica, mas o seu livro caiu perante a indifferença, fi- 
cou abaixo do que era licito esperar; a sua obra não é uma 
longa e fastidiosa diatribe, emquanto á forma, mas è-o no 
espírito. Herculano è ali retratado com cores repugnantes, 
não porperfldía, mas por inconsciência. Pelo livro do sr. An- 
tónio de Serpa é que ficámos sabendo, que Herculaúo votou 
no parlamento uma smpensão de garantias quando o paço 
atropellava a liberdade da nação. Que strenuo patriota I Por 
esse livro sabemos os motivos mesquinhos porque rejeitou 
o diploma de deputado por Cintra. Que isempção catoníana! 
Por esse mesmo livro sabemos a parte que teve Herculano 
no movimento da Regeneração em 1851, em que a nação 
foi mais uma vez ludibriada nas suas reclamações, e a ori- 
gem do seu despeito politico por não ter entrado em um 
ministério I Por esse livro sabemos que Herculano não apoiava 
a extincção do odioso privilegio dos vínculos; que o grande 
cidadão, infundiu em volta de si o desalento, que não sa- 
bia conhecer os indivíduos, e que a sua modéstia era uma 
simulação artificiosa, como o demonstra o sr. Serpa con- 
tando a.anedocta d^f abertura de uma légua de estrada 
para Herculano passar, anedocta que collígiu da bocca do 
extraordinário grande homem! Serão estes contornos esbo- 
çados adrede para demolir a maior gloria portugueza d'esle 
século? Não; attribuimol-os apenas à imperícia do sr. Serpa 
para o desenho; na biographia doeste escríptor, por Palmei- 
rim, sabemos que não passara em desenho, circumstan- 
cia q^e o desviou da engenharia para a arma de infante- 
ria. E por isso que o retrato da maior gloria portugueza 
ficou um aleijão. E insistimos sobre esta causa para dar- 
Ihe o gosto de o justificar da accusação que nos faz do 
abuso da synthese, (p. 230) e do furor synlhetico. (p. 231) 
Isto não obsta a que o sr. António de Serpa diga muito dis- 
late ao fallar em Philosophia positiva, mettendo-se tacita- 
mente na conta dos «pedanles de uma nova escholastica, 



E ARTE PORTUGUEZA 401 



porque da escbola aprenderam apenas a phraseologia» (p. 
9); é no emprego d'essa phraseologia que se revela a igno- 
rância completa* da philosophia de que ouviu fallar e que 
julga com entono pasmoso..Diz-nos, por exemplo: «A phi- 
losophia positiva inventou o methodo experimental, que já 
tinha sido inventado por Bacon havia mais de dois séculos. » 
p. 8.) O methodo experimenfal é exclusivamente scientifico, 
e nada tem com a actividade abstracta e deductiva da phi- . 
losophia; a mathematica, a astronomia, apbysica, a chimi- 
ca, a biologia inventaram os seus methodos de observação, 
de experimentação, de comparação, independentemente de 
lo(las as especulações philosophicas. Pelo seu lado, a phi- 
losophia era aprioristica, construía systemas pela deducção 
de princípios subjectivos, sem necessidade de introduzir na 
sua especulação os factos ou verdades experimentaes das . 
scienciaes ; o trabalho de Comle consistiu em ligar o processo 
deductivo ao inductivo, em fazer com que as conclusões 
philosophicas se derivassem das veriflcações scientificas, e 
foi esta a origem e o destino da Philosophia positiva. 

Depois do primeiro absurdo, vem o sr. Serpa dizer, que 
a Philosophia positiva: «Fixando á sciencia humana limites 
definidos e inultrapassáveis, concorreu para o desenvolvi- 
mento scientifico dentro da área que delimitara.» Outro ab- 
surdo; a philosophia positiva, subordinando-se aos resulta- 
dos experimentaes e verificáveis das sciencias, não fixou li- 
mites á sciencia humana, eliminou as noções absolutas ou 
metaphysicas por incognisciveis, por inverificaveís. Vê-se 
que o sr. Serpa não faz a minima ideia da grande construc- 
ção philosophica de Comle, porque continua nos desconcertou: 
cFez uma excellenté classificação das sciencias, o que não 
impede que no futuro, e no decorrer do progresso huma- 
no, que é indefinido e perpetuo, venha a fazer-se outra clas- 
sificação mais perfeita.» Só pôde escrever isto quem desco- 
nhece a base racional da classificação, historico-dogmatica, 
ou mais precisamente da generalidade decrescente e da 
complicação crescente das relações dos phenomenos do uni- 
verso; este principio já não pôde ser contradictado, e só 
quem faz da classificação das sciencias a ideia de uma cu- 
riosidade como as tentativas de Bacon, ou de S. Boaven- 
tura, ou ainda de Ampere, é que se pôde acobertar com as 
phrases vagas que citámos. O velho anexim: cantar mal e por- 

26 



403 QUESTÕES DE LITTERATCRA 



íiar, é posto em pratica pelo sr. Serpa ao fallar da Sociolo- 
gia, de que Dão percebe o alcance: «Creou a Sociologia, 
que é a applicação do metbodo experimental ás sciencias 
sociaes que já existiam, e a algumas das quaes jà, consciente 
ou inconscientemente, aquelle metbodo se applícava.» A So- 
ciologia não é isto, porque se se limitasse a uma applica- 
ção do metbodo experimental, não bavia possibilidade de 
existir a pbilosopbia positiva, que é uma disciplina de udí- 
íicaçâo entre os phenomenos cosmologicos e os biológicos, 
syntbese que nenbuma outra pbilosopbia bavia ainda reali- 
sado. Assim como a Classificação dos Conhecimentos huma- 
nos é um meio racional de estabelecer coberencia mental 
na especiaiisação crescente das sciencias, a organisação da 
Sociologia, a partir da lei dos três estados, é o campo em 
que se exerce a disciplina complementar da uniBcação ou 
do critério deduclivo. Mas o sr. Serpa nem sabe o que é a 
lei dos três estados, a que cbama as três épocas da humani- 
dade, (p. G5) provavelmente preferindo o absurdo para não 
cair na pbraseologia da eschola; e é por isso que querendo 
autbenticar claramente que desconbece a Pbilosopbia posi- 
tiva também no seu conjuncto, accentúa com o desplante 
do sábio encartado : que o ^positivismo secou as fontes da 
imaginação e das aspirações para o ideal, j^ (p. 50) A noção 
moral do altruísmo, a noção histórica da solidariedade hu- 
mana, a humanidade tomada como tbema das creaçôes da 
arte, a relatividade era politica restabelecendo a noção con- 
creta de justiça, tudo isto seca as fontes da imaginação e 
da aspiração para o ideal? Obrigado. E depois de ^fBrmar 
(Jutro absurdo, que nos prólogos de Herculano está implí- 
cita uma Sociologia, (p. Í53) que os modernos sectários da 
pbilosophia positiva não poderam formular, sobre esta queda 
• insiste sobre a superioridade do génio de Herculano por isso 
que as suas tendências mysticas o livraram de comprehen- 
der a pbilosopbia positiva: «Espirito ardente, religioso, 
cheio de curiosidades e de anhelos para o infinito, não com- 
prehenderia jamais a moderna pbilosopbia positiva, excel- 
lente como metbodo, fecunda na parte material e pratica, 
mas que mutila a alma, cortando-lhe as aspirações que são 
inherentes, e congénitas á natureza humana.» (p. 220) Não 
se pôde accumular mais desconcertos; evidentemente o sr. 
Serpa acostumado á iudifferença publica pelo nosso destino 



E AHTB PORTUGUEZA 403 



politico, contava também com a apathia mental para a sua 
prosa académica. Felizmente, que estão creadas as dissi- 
dências que nos vão emancipando da pedantocracia que man- 
teve este paiz na mais vergonhosa decadência. O sr. Serpa 
conhecendo que o seu livro estava falho de doutrina, pre- 
tendeu mostrar os seus conhecimentos históricos em umas 
notas em que cuida refutar-fios com os primeiros fados co- 
lhidos de occasião. É o primeiro problema o das classes ser- 
vas na península «o principal monumento da sciencia his- 
tórica de Herculano.» (p. 75.) Mostrámos que Herculano 
desconheceu o phenomeno fundamental da decadência dos 
homens-livres, d'onde resultou o desenvolvimento do feu- 
dalismo simultâneo com a servidão pessoal ; vem o sr. Serpa 
e diz-nos que colhemos este tópico em Thierry, e tira imme- 
diatamente duas conclusões da sua cabeça, que as classes 
servas, segundo Thierry, eram compostas também de es- 
cravos, e que «as cousas não se passaram na peninsula do 
mesmo modo que em França.» (p. 248.) Isto não faz mais 
do que justificar a nossa impugnação ao opúsculo de Her- 
culano, e confirmar-nos o pedantismo do seu defensor: foi 
Savigny, que estudando simultânea e comparativamente a 
unidade das primitivas instituições germânicas, pôde pelo 
exame das instituições na Itália, na França, em Inglaterra 
e Hespanha, deduzir esse luminoso facto capital da deca- 
dência dos homens-livres (isto é da banda agrícola e pas- 
toral); a escravidão antiga era também, como o prova Sa- 
vigny, a decadência de homens-livres, mas por effeito da 
guerra e de conquista, e não essas raças inferiores que vie- 
ram com as descobertas coloniaes, como o sr. Serpa ima- 
gina, pela ideia que liga ao nome de escravo. 

O outro facto com que o sr. Serpa nos ataca versa so- 
bre a fixação e limites da edade media : «Pois não se es- 
tende ella, segundo o consenso geral dos historiadores, até 
meados do século xv, aos tempos de Luiz xi em França, 
de Affonso de Aragão e de João ii em Portugal, ou á to- 
mada de Constantinopla em 1453?» (pag. 251) Isto vem 
para mostrar que a Historia de Portugal de Herculano não 
se limitava á edade media, como o provamos justificando 
a sua interrupção no tempo de D. Aflfonso in. O argu- 
mento é de rapaz de eschola e que estuda pelo compendio 
de Dória. A edade media é um phenomeno complexo que 



404 QUBSTObAb LITTBRATUnA 

Dão começa nem acaba D'um dado anno oa século ; è uma 
transição do mundo greco-romano para o das nacionalida- 
des modernas, feila pelo desenvolvimento de novas cren- 
ças, novos dialectos, novas formas de arte e de poesia, 
nova organisaçSo de classes e novos productos da indus- 
tria. Todos estes factores, que determinaram a expansão das 
actuaes nacionalidades, estavam creados muito antes do sé- 
culo xni, e os tempos modernos não são senão as conse- 
quências deflnitivas d'esses elemento; de transição; o qua- 
dro histórico da primeira Renascença é que nos abre o 
a perspectiva da historia moderna, e por isso a Historia de 
Portugal durante a edade media, como a projectava Hercu- 
lano, iímitava-se á discussão das formas sociaes, começando 
pela historia da formação da monarchia, como o próprio 
panegyrista reconhece, (pag. 65) Por fim o sr. Serpa não 
pôde eximir-se ao prurido do seu antigo humorismo do 
Pharol, impugnando-nos a importância que ligamos ás in- 
dustrias locaes e tradicionaes, com estas phrases pittoros- 
cas : «Não nos parece que dos palitos de Lorvão e das pu- 
carinhas de barro de Extremoz haja de porvir a nossa 
grande prosperidade económica.» (p. 256) Sõ temos em 
resposta o confessar que isto está na lógica do partido po- 
litico de que o sr. Serpa e um dos chefes; pelos tratados 
de navegação e commercio que tem celebrado sem conhe- 
cimento estatístico com as grandes potencias industrlaes, 
assassinaram a industria portugueza e esgotaram as fontes 
de riquesa da nação, collocando-nos na miserável depen- 
dência de vivermos economicamente de empréstimos perió- 
dicos, que hoje iibsorvem duas terças parles do rendimento 
do estado. Como pôde pois o sr. Serpa vêr as industrias 
locaes senão com o seu humorismo? 

Terminando esta analyse do livro Herculano eoseu tempo, 
não podemos eximir-nos a exarar aqui a ideia que Hercu- 
lano, o grande patriota, formou do seu tempo e da missão 
providencial do partido regenerador; para elle Portugal es- 
tava condemnado por falta de moral, de religião, com avi- 
dez desenfreada do interesse, com a preoccupação exclu- 
siva dos melhoramentos materiaes, com a febre da agiota- 
gem bancaria; todo o governo que estimulasse n'este corpo 
cadavérico estes movimentos, embora activasse a sua ruí- 
na, fazialhe um bem relativo, libertava-o momentânea- 



E ARTE PORTUfíUEZA 405 



mente do marasmo. Compelia, segundo o grande patriota, 
esta missão ao partido regenerador qne em 1851 atraiçoou 
a nação, porque elle fazia circular o capital dos emprésti- 
mos ruinosos, abria estradas para dar que fazer ao povo, 
fazia acampamentos, decretava a lei das sociedades anony- 
mas, corrompia por systema, mas todos lucravam. É ver- 
dade que para estas apreciações Herculano collocava-se no 
seu ponto de vista de productor de azeite. É portanto de 
legitimo reconhecimento esta conclusão do livro do sr. An- 
tónio de Serpa : «Três séculos depois da morte de Camões 
morre Alexandre Herculano. N*este longo intervallo não ha 
um só nome em Portugal que aos dois possa egualar. Es- 
tes dois nomes sós são uma litteratura e uma nacionalida- 
de.» (p. 220). Custou, mas saiu. 



FIM 



408 índice 



O Cancioneiro de Évora 238 

Reivindicação do Palmeirim de Inglaterra 248 

As traducçbes inglezas dos Lusiadas 259 

A Satyra da Perda da Nacionalidade portugueza . . . 266 

O portugaez Sanches, precursor do Positivismo 274 

Historiograpbia insulana 282 

O Abbade António da Costa . / 294 

O Marquez de Pombal 322 

O Hyssopei de António Diniz da Cruz e Silva 339 

Bocage 351 

Joaquim Silvestre Serrão e a Musica sacra portugueza 370 

Os iniciadores do Romantismo em Portugal 382 

I. Almeida Garrett 382 

II. Alexandre Herculano 388 












¥l^SÍ^!^ 







■o v.n 



f,/. A^' 2. 1 Vab 



.^-:ífli0 2 



;fj> ai-100m-7.'B2(Aí6í8.ie)*T« 



OtC 4 1969 ã ^ 
IR STA< 



KS 



NOV oO'^^ 




U. C. BERKELEY LIBRARIES 




C0MS43].m3 



' I 

i 



4 
I 




^.•, '. 






.' \' 






ff 






4i^ <